Reportagens

2025: Ano de Resistência

Por Filipe Vilicic

Como foi o ano pra você, breezer? Aqui foi de resiliência e resistência. 

Se 2024 foi marcado por progressos e muito ânimo, principalmente com a descriminalização pelo STF, cada mês deste 2025 parece ter trazido alguma surpresa desagradável, agressões, violências, ataques não só à cultura canábica e a quem usa a erva, mas também às pautas progressistas que rodeiam nosso cerne. A ousadia da Breeza vai além de derrubar barreiras da hipocrisia e dos antiproibicionistas, usadas como desculpas para perseguir e prender os mais vulneráveis. Vamos contra absurdos como racismo e aporofobia, protegidos pela lei, deturpada para ser igualmente racista e aporofóbica.

Nossa entrevista com o deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), realizada ao vivo na ExpoCannabis, serve de exemplo do cenário de repressão, mas também de como devemos encarar e resistir. “Não sou canabizeiro, sou maconheiro”, nos disse ele, e bastou um político preto, periférico e progressista se manifestar para virem os ataques de reacionários. Uma pergunta que deixamos para reflexão: Por que o mesmo não ocorreu com outros políticos que falaram sobre o tema, inclusive com a Breeza? Freitas foi perseguido na Assembleia de seu estado, abriram processo de cassação contra o deputado tão-somente por ele se manifestar a favor dos seus, de quem representa. Claro que tudo isso tem a ver com a origem e a pela negra do deputado.

No Rio de Janeiro, o governo Claudio Castro ordenou que policiais invadissem o Complexo do Alemão e da Penha, em uma manobra eleitoreira a um ano do pleito de 2026, pro qual quer se candidatar como senador. O resultado foi mais de uma centena de mortos, nenhum deles com denúncias no Ministério Público ou ordem de prisão expedida, na operação policial mais sangrenta da história de nosso país; e os chefes do crime organizado continuam soltos, sem qualquer melhora na sensação de segurança pela população do Rio.

A líder comunitária Rafaela França, que atende mais de 400 crianças de 170 favelas pelo NEEM (Núcleo de Estimulação Estrela de Maria), inclusive buscando acesso ao tratamento com cannabis medicinal, contou à nossa editora Anita Krepp como, no dia seguinte à incursão desastrosa no Alemão, se juntou aos outros moradores que subiam até a mata para buscar e remover os corpos para a Praça São Lucas, onde foram enfileirados à espera do IML. Em entrevista na mesma semana, o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) fez coro para a denúncia: “Essa operação foi planejada exatamente para isso: ser uma matança“.

Braga, assim como sua esposa, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), são defensores de bandeiras progressistas, do direto ao aborto à liberdade da população mais vulnerável de expressar seus hábitos e sua cultura. Por isso, assim como fizeram com Freitas, os extremistas da direita adoram arranjar desculpas para cercear suas ações.

Foi o que fez o presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos, ao recolocar a cassação de Braga em pauta no dia em que escrevo este texto – e por motivo ridículo, de uma briga em que se envolveu ao defender inclusive a sua mãe de ofensas. Isso na mesma noite em que os deputados votaram para diminuir as penas dos condenados pela tentativa de golpe de estado de Jair Bolsonaro e os seus, e enquanto empurram com a barriga a perda de mandato de figuras como Eduardo Bolsonaro, Zambelli e Ramagem, condenados por crimes contra o Estado e/ou foragidos da Justiça brasileira.

Para a extrema direita que em tese defende a premissa de que todo cidadão pode se proteger e andar armado, parece que  a legítima defesa só vale para os seus próprios. Se Braga reage a um ataque, tentam cassá-lo. Quando Renato Freitas reagiu a uma agressão de cunho racista no meio das ruas de Curitiba, ocorreu o mesmo. Defender-se e proteger seus amados é, neste Brasil, um direito que parece restrito aos mais privilegiados.

Assim como fumar maconha. Enquanto Freitas tem processo de cassação aberto por assumir dar uns tapas no fim do dia e, na raíz da repressão, por batalhar por pautas progressistas como a de fundar uma associação de cultiva com egressos do sistema carcerário, figuras como o deputado estadual Lucas Bove (PL-SP) saem sem punições de acusações como o hábito que parece que tinha de ficar chapadão e apontar a arma pra namorada.

Diálogo e esperança

Em entrevista que nos concedeu ao vivo na ExpoCannabis e que será publicada em breve em podcast e vídeo, Guto Volpi, do PL de Bolsonaro e prefeito de Ribeirão Pires, defendeu sua iniciativa de criar a primeira clínica pública de cannabis medicinal no Brasil. Também falamos neste ano com o deputado federal Alberto Fraga, outro do PL e, não só isso, líder da Bancada da Bala, e que nos disse, ecoando os movimentos de descriminalização de usuários: “Se eu fosse policial hoje, não levaria para a cadeia um cara fumando um baseado”.

Conversas assim nos dão esperança de diálogo. Afinal, se ficarmos só em nossa bolha, nada muda e prevalece para a população geral a visão do “ice do Fantástico”. É preciso furar a bolha e derrubar muros para transformar pensamentos e, assim, ganhar os votos necessários para mudar as leis lá em Brasília. 

Porém, parece que o bom-senso está longe de ser comum no mesmo PL ao qual Fraga e Volpi pertencem. À Breeza, Volpi disse, por exemplo, de como achou desastrosa a operação policial contra a associação Santa Gaia. Em outubro, a instituição foi invadida pela polícia, funcionários foram humilhados, e Guilherme Viel, presidente da Santa, continua preso.

Quem liderou esse desastre? Um delegado metido a showman que antes foi prefeito de Promissão, cidade próxima a Lins, onde está a sede da associação. Advinha à qual partido esse paspalhão pertence? O mesmo PL de Fraga e Volpi (que tem conversas promissoras com nomes como Eduardo Suplicy e Caio França).

O exemplo da Santa Gaia é um de vários de repressões e invasões a associações. Não só a elas. Parece que se tornaram corriqueiras também ações punitivistas contra qualquer um que fale sobre o tema, de políticos a influencers.

“Uma semana eu tava comemorando a minha participação num programa da Rede Globo e, na outra, recebendo aquele meme do ‘Toc toc, quem bate? É a polícia federal’. Nunca imaginava que isso ia acontecer na minha vida”, nos disse Rhaynara Didoff, uma das três influenciadoras acusadas na Operação Refil Verde, que investigava a venda e a divulgação de vapes de maconha, e que nos deu entrevista após ser solta.

O que querem ao prender uma influenciadora que tão-somente se expressa nas redes sociais? Nos calar. Com ela, surtiu efeito, pois Rhaynara nos contou que pretende desistir de atuar como comunicadora da cultura canábica. 

A repressão se estende para as redes, com o Instagram virando o mais belicoso terreno de conflito no ambiente online. O perfil da Breeza, por exemplo, foi suspenso por quase uma semana, sem qualquer explicação e, na real, não há motivo, tanto que voltamos ao ar também sem esclarecimentos. 

O mesmo ocorreu e ainda ocorre com tantos e tantos perfis derrubados de ativistas, advogados, associações… qualquer um que fale da diamba têm chance de ser calado. Logo após a invasão da Santa Gaia, o Instagram assim puniu cerca de 50 contas que mencionaram o caso

É preciso resistir, lutar e prosseguir para não nos calarem (e nem nos prenderem). A reação ao desastre da Santa Gaia e à posterior perseguição pelo Instagram foi exemplar.

A deputada federal Erika Hilton, articulada com políticos como o ministro Desenvolvimento Agrário e da Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, criou uma iniciativa de resistência. Em uma reunião simbólica com instituições, ativistas, políticos, advogados e outros aliados do bom-senso, como a própria Breeza, plantou-se a semente de um movimento combativo que deve perdurar em 2026. O efeito da pressão foi imediato, com a Meta, dona do Instagram, fazendo mea culpa pela derrubada dos perfis, que foram retomados, e a Santa Gaia sendo liberada para continuar fazendo seu trabalho de cultivar cannabis a pacientes que dela precisam – só que Guilherme Viel, presidente da associação, continua preso.

A repressão vem de múltiplos lados. Nos EUA, Donald Trump usa a desculpa da Guerra às Drogas para colocar tropas na Venezuela e na Colômbia – e, sim, há o risco de fazer o mesmo no Rio de Janeiro, a convite do governador Castro. Aqui, até associações de médicos procuram punir os profissionais que defendem a erva como medicina.

Mas não desista, breezer, pelo contrário, lute! Só há esses movimentos punitivistas pois as causas em torno da cultura canábica, que abrange para muito além da maconha, estão ganhando força. Para o ano que vem, por exemplo, está programada a regulamentação do cultivo no país, o que foi tantas vezes adiado. A descriminalização nos empoderou, o rumo para a legalização está difícil de ser contido, mesmo que ocorra a passos curtos, e em ano em que tentaram nos punir, nos levantamos juntos e mostramos nosso poder.

A força da Breeza

O mercado da cannabis medicinal já movimenta quase 1 bilhão de reais, como calculou a Kaya Mind em seu último Anuário. Na parte legalizada do uso adulto, com growshops, headshops e marcas de seda, semente, lifestyle, é outro bilhão. Quando se entra nos lucros, mesmo a extrema direita parece entender e ceder.

O sucesso contínuo da Breeza também é prova de força. Em um único mês, atraímos aqui no nosso site mais de 140 mil leitores, principalmente com nossa conversa que foi campeã de leitura do ano, com o ator Matheus Nachtergaele. As entrevistas da Breeza se espalham e furam a bolha, pautando jornais, sites de notícias, revistas, redes sociais, influencers. Trouxemos para nosso espaço ícones de nossa sociedade, da ministra Anielle Franco ao apresentador Pedro Bial, dispostos a sair da estufa e falar dos assuntos mais ousados sem hipocrisias.

Milhares de pessoas leram, ouviram e viram nossa primeira entrevista em vídeo, a com o deputado Renato Freitas, em uma conversa que realmente pautou o Brasil, seja a grande mídia ou as mesas de políticos do Paraná até Brasília. No ano que vem, a Breeza vai crescer cada vez mais, como com a estreia da primeira temporada de nosso videocast, que já incluirá deliciosos e importantes papos com nomes como a influencer Hana Khalil, o rapper Afro-X e o deputado Eduardo Suplicy.

A Breeza se expande, se espalha e fica cada vez mais gostosa. Em 2025, fizemos ao vivo com nossas entrevistas na ExpoCannabis, com ações na Head Grow que formaram as maiores filas da feira, com debates que promovemos durante a Parada LGBT+ de São Paulo. No Instagram, atraímos mais de 1 milhão de pessoas curiosas por nosso conteúdo ousado. Temos virado assunto incontornável não só de nossas rodas, mas da mídia, de opositores, pelos corredores de Brasília, por todos os cantos.

Prepare-se, breezer, pois 2026 promete ainda mais. Esperamos que não só para nós da Breeza, mas para vocês e para nosso Brasil, em um ano de eleições que podem ser decisivas para o progresso de pautas essenciais para nosso país evoluir.