
A nossa Breeza surgiu, em 07 de março deste ano, com a missão de disseminar informação e conhecimento sobre a cultura canábica e psicodélica como caminho para demolir as barreiras da hipocrisia, batalhar pela legalização e promover o acesso democrático à ganja. “Assim como se bebe vinho, se fuma maconha”, nos resumiu Rogerio Schietti, ministro do STJ, na entrevista de nossa primeira edição e de nosso pioneiro Saindo da Estufa, o podcast mais breezado que há.
Na conversa lá em março, o ministro também nos cantou a bola: “O Supremo está caminhando. Acredito que seja uma tendência que não irá retroceder, a de considerar inconstitucional ter o uso para fins pessoais como um crime”. Naquela mesma semana, o STF estava decidindo se iria descriminalizar a maconha ou não.
Demorou um tanto, mas a previsão de Schietti se concretizou. Três meses depois (e sem contar os nove anos de idas e vindas do STF), publicamos uma reportagem que esperávamos desde nosso 1º dia: “Descriminalizou, e agora?“. Nos falou então Nathália Oliveira, gestora da Plataforma Brasileira de Política de Drogas: “O dia seguinte vem com muitas dúvidas, mas não tenho muitas expectativas de que o nosso Judiciário branco vai fazer de fato um enfrentamento estrutural ao racismo que também é alimentado por ele”.
Sim, a descriminalização, assim como a recente aprovação do plantio e importação de cânhamo, são progressos inegáveis. Só que falta muita estrada para chegarmos a um cenário no qual vire coisa do passado a desculpa da falida Guerra às Drogas como ferramenta de perseguição ao povo preto e à população mais pobre. O proibicionismo, como já comprovamos diversas vezes em nossas reportagens, é um mal recente, do século passado, e criado unicamente como forma de prender e punir quem a elite quer de fora dos espaços de poder.
O olhar racista da lei se evidenciou ainda mais (e não que faltassem trocentas provas) em uma pesquisa pioneira lançada em junho por pesquisadores ligados ao Núcleo de Estudos Raciais do Insper. O estudo, que ganhou o título provocador de “50 Shades of Guilt: Exploring the Role of Race in Drug Trafficking Indictment in Brazil” (50 Tons de Culpa: Explorando o Papel Racial na Incriminação por Tráfico de Drogas no Brasil), comprovou o que já sabíamos na prática: se uma pessoa preta for pega com drogas na mesmíssima situação que uma branca, a chance dela ser qualificada como traficante, e não como usuário, é consideravelmente maior.
Por isso mesmo, não podemos nos contentar com o estágio atual da cena. É preciso progredir. Para tanto, temos de nos unir e fortalecer nossos movimentos, das marchas que ocupam as ruas à ExpoCannabis, que neste ano levou 36 mil pessoas a SP para dias de celebração de nossa imparável onda breezada.
Precisamos de resiliência, como nos disse Renato Filev, que está na organização da Marcha em SP desde o começo: “Esperava que não precisássemos mais marchar, mas parece que é ilusão”. Até porque, é preciso reconhecer que as leis no Brasil parecem não funcionar da mesma forma para todos e todas. Como pontuou com propriedade a Diva Sativa, que marcha pela causa desde 2015 e entrou para a organização da ação em 2018: “Ficamos desesperados pela dor, pela tragédia de ser pobre em um país proibicionista. Percebemos a deslealdade dessa desproporção da Guerra às Drogas”.
A missão da Breeza vai muito além de nossa erva sagrada. A diamba nos serve de motivação e motor para uma luta antiproibicionista que visa tirar o nosso país de um atoleiro numa lama de atrasos. Concordamos com Rebeca Lerer, nome também da organização da Marcha: “Ligamos com outras pautas similares, como de direitos sexuais e reprodutivos, direitos civis em geral, direito à cidade, direito a fazer propostas”.
A Justiça tem puxado o bonde do progresso. Porém, é essencial ocuparmos os espaços do poder com a esperança de evoluirmos como sociedade. Um deles é o da mídia, o campo dos conflitos pelas narrativas. Só que também é preciso destravar as burocracias que no Brasil impedem a ciência de avançar no conhecimento que temos sobre aquilo que nos propomos a colocar para dentro de nossos corpos e mentes. “Por que está avançando para instituições privadas com finalidades lucrativas, mas para aquelas de pesquisa e sem fins lucrativos, não?”, questionou o neurocientista Eduardo Schenberg. E reforçamos o coro: Por quê?
Outro desafio crucial é não permitir que a onda de legalização deixe de fora justamente aqueles que sempre foram punidos por serem adeptos da cultura canábica. Na Breeza não concordamos com o processo de higienização que alguns querem impor na cena. E aqui estamos falando daqueles que fazem de tudo para restringir o controle do mercado a uns poucos e seletos privilegiados. Para isso não acontecer, um próximo passo essencial é aumentar a influência política de nosso movimento.
Nas eleições municipais deste ano, os defensores da ganja se uniram e se esforçaram para levar a bandeira para as Câmaras. Sim, o resultado podia ter sido bem melhor. Mas precisamos celebrar as conquistas, pois há muito trabalho a ser feito nesse campo, como nos destacou o recém-eleito vereador Leonel Camasão, de Florianópolis: “Demonstrar os benefícios do plantio de maneira geral, com trabalho na formação, em informar, na articulação política, o que vai ao longo do tempo diminuindo os preconceitos”.
SAINDO DA ESTUFA
O sucesso de nosso movimento envolve acabar com a hipocrisia e com os preconceitos enraizados na ainda muito retrógrada sociedade brasileiro. O uso da maconha, para qual fim for, foi por décadas um hábito envergonhado. Chega disso! Temos é de bater no peito e ter orgulho.
Por isso resolvemos ir atrás de ícones ilustríssimos da nossa sociedade que tiveram a coragem de sair da estufa em nossas entrevistas. A lista já é grande e muito célebre. Desde março, colocamos na roda da conversa 42 famosos e famosas do nosso país em entrevistas que saem em texto aqui em nosso site e, para quem prefere ouvir, em nosso podcast Saindo da Estufa.
Nossa seleção é bem representada pelas 10 entrevistas mais lidas e ouvidas da Breeza e do Saindo da Estufa. Na ordem: Ailton Krenak, Luana Piovani, Ney Matogrosso, Gregorio Duvivier, Christian Dunker, Gilberto Gil, Letrux, Rogerio Schietti, Marcelo Tas, Nelson Motta. São papos deliciosos e elucidativos, afinal, como nos disse o psicanalista Dunker: “A cannabis traz consigo uma cultura da conversa, da palavra, da não-violência”.
Mas claro que a força de nossa comunidade não é feita (apenas) pelos mais célebres. O uso se difunde entre mães que buscam medicamentos para seus filhos, esportistas que utilizam para performar melhor, pastores que pregam a palavra da planta, ginecologistas que recomenda a erva como alternativa a tratamentos invasivos, por quem procura alívio em situações extremas de dor. A cannabis é para todos e todas e, na nossa seção Na Breeza, contamos as boas experiências e os benefícios que a planta traz para quem escolhe adotá-la como hábito.
OBRIGADO A VOCÊ
Em nove meses de Breeza, alcançamos 2,4 milhões de pessoas em nosso Instagram, que interagiram mais de 100 mil vezes com a gente. E isso apesar da batalha diária de vencer os desafios que as redes sociais impõem a quem quer mandar um papo reto e sincero sobre a ganja.
Sim, já na nossa primeira semana sofremos o temido “shadow banning” do Insta, mesmo seguindo todas as regras, como de deixar nosso perfil restrito a adultos desde o primeiro dia. Portanto, se quer nos seguir e ver nosso conteúdo por lá, é preciso procurar direitinho, digitando cada letra, pelo nosso @. Anota aí: @breeza_revista.
No nosso site e no nosso podcast, quase 40 mil pessoas se tornaram nossos fiéis leitores e ouvintes. Com vocês, como profetizou o imortal Krenak, a gente pode ser “capaz de produzir outros mundos”.
Obrigado por tudo, comunidade breezada. Desejamos a vocês um 2025 cheio de boas brisas (aliás, para fugir da bad, confira o nosso Guia da Boa Breeza).
Nas próximas duas semanas, lembraremos em nosso Insta das conquistas de 2024 e dos desafios para 2025. Em 9 de janeiro voltaremos com uma edição verdinha para abrir o novo ano. Viva a nossa Breeza!
Filipe Vilicic