
Quando Patrícia Bighetti fez o curso superior, na Faculdade de Medicina de Jundiaí, nada se falava de cannabis nas aulas. “Era tema proscrito, ninguém podia estudar sobre e quando comentavam algo de maconha, era para dizer que fazia mal e era ilícita”, recorda ela em entrevista para a Breeza. Desde que se formou, em 1986, muito mudou no cenário e, como sabemos, a medicinal é legalizada no Brasil, o uso da erva foi descriminalizado pelo STF e se multiplicaram as pesquisas que mostram os resultados positivos de receitar para pacientes que enfrentam questões seríssimas, como epilepsia, assim como para aqueles que buscam para lidar com problemas mais comezinhos da vida, como insônia e ansiedade.
Hoje uma experiente profissional de 63 anos, a médica cardiologista, porém, manteve a resistência. Isso até cerca de cinco anos atrás, quando seus colegas do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto receitaram óleo de cannabis para suas duas filhas. Uma com 35 anos, a outra com 30, ambas nasceram com autismo e microcefalia. “Elas tomavam tudo que se pode pensar de medicações de farmácia, mas sempre havia efeitos colaterais, como irritabilidade, ganho de peso, apatia. Nunca tinha algo que ajudasse como um todo”.
Quando os médicos das filhas receitaram cannabis, primeiramente não aprovou a sugestão. “Já imaginei que iria sair no jornal ‘médica dá maconha pra filha retardada'”, diz, deixando claro de como isso se devia à visão preconceituosa sobre o tema e que ela tinha receio de ser olhada por essa ótica.
O filho do meio, Felipe Bighetti, de 32 anos, que como a mãe diz “nasceu dito normal”, influenciou sua opinião. “Para botar para dentro de casa foi muita conversa, mas minha mãe sempre foi acolhedora”, comenta ele, que também é médico, prescritor e usuário de cannabis. “Sugeri a cannabis para ajudar no manejo complicado da evolução neurodegenerativa de minhas irmãs, pois principalmente a mais velha estava inclusive apresentando ataques de agressividade e colocando minha mãe em risco”.
Isso não quer dizer que a escolha foi aceita por toda a família. Os três irmãos da médica, e também todos médicos, não são a favor até hoje, apesar de não tentarem interferir nas decisões dela. “E também confirmarem as evoluções e melhoras que vemos em minhas filhas”, acrescenta Patrícia Bighetti.
A.C. e D.C.
(antes e depois da cannabis)
A médica comenta que sua família diz que a vida é separada em a.C. e d.C. Mas não por antes e depois de Cristo, mas por ser antes e depois da cannabis. “Elas [as filhas] tiveram uma melhora muito grande em todos os aspectos, desmamaram de todas aquelas medicações e hoje estão só com a cannabis, uma com broad spectrum e outra com full spectrum”.
Por estarem com menos irritabilidade, por ter melhorado o sono, diminudído as crises, Patrícia afirma que “a filha mais velha, que é de autismo nível 3 [o mais severo], agora se comporta como nível 2, e a mais nova, que era 2 e não-verbal, age como 1 [o mais leve] e chega a falar duas ou três palavras em sequência”.
A médica também adotou o óleo de cannabis pro próprio corpo. “A carga [do cuidado] com as meninas é bem pesada, consume muito de energias, e isso me ajuda bastante na paciência, na concentração, em focar nas coisas. Além do óleo [full spectrum] aliviar as dores crônicas que tenho por conta de tumor que tive no fêmur”.
A paixão pela cannabis só aumentou com o passar do tempo. Patrícia Bighetti mergulhou nos estudos sobre o tema, empolgou-se e resolveu adotar também em sua profissão, além da família. Hoje, dedica-se 100% a pacientes que trata com cannabis, que vão dos casos mais graves aos mais leves. Ela diz ao todo somar mais de 300 pacientes de todo o Brasil (é adepta da telemedicina), incluindo aí os pais de Marcelo Tas, apresentador de TV e que, pela total transparência com o leitor, abrimos aqui que foi quem indicou esta história para a Breeza, após uma divertida e elucidativa entrevista que publicamos com ele.
A visão da médica Patrícia Bighetti mudou radicalmente quando ela resolveu abrir a mente e ter contato com a cannabis. Não só na questão medicinal, mas em tudo relacionado à nossa amada planta, como no uso estritamente por prazer. “O que é feito com responsabilidade, não vejo problema”, resume.
Filipe Vilicic