
Quem nunca ouviu aquele boato de que maconha queima neurônios? Tá aí um dos argumentos mais manjados daqueles que são ignorantes e preconceituosos frente ao assunto. Comecemos a conversa já esclarecendo: não há qualquer prova de que nossa erva favorita frita células cerebrais, assim como há muita divergência de como teria começado esse mito fajuto. Porém, o que se tem descoberto é justamente o contrário. A cannabis parece é fazer bem ao cérebro de adultos (ressalta-se: adultos!).
Um novo estudo de pesquisadores da Unicamp avançou mais nesse entendimento. De forma pioneira, a pesquisa aponta indícios de que o CBD, especificamente, ajuda a desacelerar algumas funções cerebrais, conservar energia e, assim, pode preservar nossos neurônios. Ou seja, meio que o contrário do que o senso comum pregava.
Publicada na Acta Neuropsychiatrica, um renomado periódico científico da Universidade de Cambridge (Inglaterra), a pesquisa tem um título (em inglês) tão complicado quando seu conteúdo, nada fácil para a leitura de leigos: “Cannabidiol modulates hippocampal genes involved in mitochondrial function, ribosome biogenesis, synapse organization, and chromatin modifications”. No artigo, os cientistas escrevem: “Descobrimos que a administração diária de CBD durante sete dias resultou na regulação negativa de genes relacionados ao metabolismo energético e à síntese/degradação de proteínas”.
Vale começar a explicação por como os cientistas fizeram o experimento com CBD e camundongos. Num resumo, eles administraram doses de canabidiol concentrado para os roedores, sendo que um grupo recebeu por sete dias consecutivos, em quantidades proporcionais a quanto seria para controlar convulsões em um paciente. “Observamos uma diminuição da expressão de genes responsáveis pela produção de energia na célula, mas não encontramos qualquer gene que sugerisse algum stress celular, dano ou morte sendo causado por falta de energia, devida a uma diminuição da produção”, conta o biólogo João Paulo Machado, do Laboratório de Eletrofisiologia, Neurobiologia e Comportamento (Lenc), da Unicamp, e principal autor da pesquisa.
Em termos mais práticos, descobriu-se que o CBD altera o funcionamento de cerca de 3 mil genes, em especial aqueles ligados a funções como produção, formação de conexões e economia de energia dos neurônios. Ao incentivar a economia de energia, a substância pode, por exemplo, auxiliar na conservação de células cerebrais. O achado mostra caminhos para explicar porque medicamentos à base de cannabis são tão positivos para pessoas que sofrem de diversas síndromes. “Em um possível contexto de epilepsia, por exemplo, onde a demanda energética é alta devido à intensa atividade dos neurônios, o CBD pode gerar uma redução na demanda de energia, impedindo a ativação dos neurônios e gerando um possível efeito protetor nesses mesmos neurônios”, explica Machado.
Já em pessoas saudáveis, ressalta-se o potencial de o CBD conservar neurônios, retardando o envelhecimento. Não é a primeira vez que um estudo sugere algo do gênero. Em 2022, pesquisadores do Instituto Salk, dos EUA, chegaram a conclusão similar em um experimento clínico com células nervosas no qual descobriram que outra substância da maconha, o CBN (canabinol), tem potencial para tratar doenças neurodegenerativas relacionadas à idade, como o mal de Alzheimer. Isso porque, segundo a autora desse outro estudo, a neurocientista Pamela Maher, o “cannabidiol protege os neurônios do estresse oxidativo e da morte celular, dois dos principais contribuintes para a doença de Alzheimer”. Sendo assim, ela acredita que “essa descoberta pode um dia levar ao desenvolvimento de novas terapias para tratar essa doença e outras doenças neurodegenerativas”. Assim como já há estudos de aplicações para tratamento de síndromes como o autismo.
O biólogo André Vieira, professor da Unicamp que orientou Machado na nova pesquisa com camundongos, ressalta ainda que a cannabis apresenta outras propriedades positivas: “Alguns estudos apontam para a possibilidade do CBD, em pessoas saudáveis, ter efeito neuroprotetor, ansiolítico e de apetite”‘.
A pesquisa da Unicamp é pioneira e merece atenção da comunidade brisada por várias razões. Vieira ressalta algumas: “Um diferencial foi a aplicação da transcriptômica, que é o estudo do perfil global de expressão gênica, no estudo dos efeitos do CBD no cérebro. Com essa estratégia foi possível medir a expressão gênica de milhares de genes ao mesmo tempo, permitindo observar padrões. Outro ponto é que esse foi o primeiro estudo a utilizar essa estratégia em animais tratados com CBD”‘.
A pesquisa sofreu muitas limitações por ter sido feita no Brasil, como por ter de usar CBD isolado e, assim, não considerar os efeitos do THC. Segundo Machado, isso ocorre devido a “políticas muito restritas para a utilização de canabinóides na ciência”. Completa o biólogo: “O THC é muito controlado. O que gera um atraso gigantesco na produção acadêmica, justamente por existir esse proibicionismo, que além de prender e matar inocentes, impede o acesso da molécula para a pesquisa”.
Apesar de o experimento ser com camundongos, os resultados do estudo podem ser comparáveis aos efeitos que o CBD teria em humanos. “O sistema de receptores e neurotransmissores no sistema nervoso são bem semelhantes”, comenta André Vieira, professor da Unicamp. “Tanto em camundongos quanto em humanos, as dosagens altas de CBD têm efeito de redução de crises epilépticas, por exemplo”.
Só que ainda há muito chão científico, necessitando de mais pesquisas e experimentações, para levar a, por exemplo, criação de novas terapias para pacientes. “O estudo ainda é bem exploratório, acredito que maior aprofundamento vai ser necessário antes de resultar em aplicações práticas”‘, pondera Vieira. Sobre o caminho a ser trilhado, diz: “Vamos explorar o efeito de diferentes doses do CBD, não apenas doses altas como a usada nesse estudo. Além disso planejamos também explorar os efeitos do CBD em áreas do cérebro além do hipocampo. Uma possibilidade pode ser indicar um potencial do CBD em doenças neurodegenerativas”.
AVISO IMPORTANTE
Existem ainda mais dúvidas do que conclusões sobre os efeitos da maconha no corpo e na mente. Claro que vemos muito mais benefícios na cannabis. Contudo, como já falamos aqui na Breeza, há também quem não se dá bem com a planta, aqueles para quem “bate ruim”.
Outro ponto crucial é que numa questão a grandíssima maioria das pesquisas parecem concordar: maconha não faz bem na juventude. Há estudos, como este de 2015, que indicam que o uso frequente na adolescência produz potenciais e permanentes déficits de memória, mudanças estruturais no cérebro e anomalias nas funções cerebrais. Já outro aponta riscos de desenvolver uma série de distúrbios mentais, como depressão, e um bom número de experimentos sugerem que o abuso quando jovem leva a problemas cognitivos, como redução de QI.
Com certeza tudo isso vale para menores de 16 anos de idade, sendo que a maioria das pesquisas sugerem faixas de limite que variam até os 25 anos. Numa simplificação, não é para crianças e adolescentes (tirando em casos clínicos, por indicação médica; e, claro, não somos também cegos para as experimentações que ocorrem na juventude… logo, melhor se sob cuidado, orientação e com consciência). Mas tem potencial de fazer um bem danado para uma grande parte de nós, adultos.
Filipe Vilicic