Reportagens

Bateu ruim?

Procuramos diversos especialistas para entender por que o efeito da maconha não é bom para alguns, mesmo que seja uma minoria
09|05|24

Quem é das ou entra nas rodas canábicas para uma conversa já deve ter ouvido umas histórias de quando bate a bad. De um amigo que passou mal depois de fumar, enjoo e vomitou. De outro que surtou com as pessoas ao redor, achou que estava sendo perseguido, culpou-se pelo uso da maconha por questões religiosas ou morais, ou até mesmo saiu andando de um Uber em movimento. Por que bate ruim? O que fazer quando dá uma bad?

As experiências negativas, ou ao menos tão negativas com a erva são raras. A Breeza exalta os grandes benefícios dessa planta de poder. Para a maioria, bate bem. Ainda mais para aqueles que resolvem usar mais de uma vez. Por isso que no Brasil já é liberado o, digamos assim, medicinal, e em países mais evoluídos nas leis, já se descriminalizou ou se legalizou. Recentemente, o governo dos Estados Unidos sinalizou que irá reclassificar a maconha, em gesto simbólico que impacta a sociedade, assumindo que se trata de uma droga de menor risco, numa categoria que inclui medicamentos como Tylenol.

Só que ainda fica a questão: “Por que vem a bad trip pra algumas pessoas?”. Fomos atrás de responder.

NO DNA

Para o psiquiatra Wilson Lessa Júnior, especialista nos efeitos e no uso médico da maconha, a bad costuma ter a ver com um ou mais de um de três fatores: “O DNA. A substância, em si, incluindo questões de dosagem. E o setting, o contexto”.

Quando questionado sobre o assunto, o neurocientista Alysson Muotri, diretor do Programa de Células-Tronco da Universidade da Califórnia em San Diego, sócio de empresas ligadas ao ramo e cuja história foi contada recentemente pela Breeza, assim explica um tanto da parte que cabe aos genes: “O CBD interage com a célula, chega na molécula e interage com os receptores. Uma vez dentro, organelas processam a substância e fazem com que tenham reações. Devido a variações genéticas, para alguns esse processo ocorre devagar, para outros de forma rápida. Essa explicação não é novidade pros geneticistas. São variações, assim como alguns sentem mais dores, outros não; uns gostam de coentro, outros não.”

Em um uso terapêutico ou para diversão, como em uma festa, o que isso quer dizer? Para quem absorve mais devagar, o efeito demora mais, a pessoa pode acabar acumulando ainda mais o barato se usar continuamente, e as consequências negativas tendem a ser maiores. Para os que absorvem rápido, é o contrário e os efeitos adversos são bem menores, quando não praticamente imperceptíveis diante dos benefícios.

Pelo ponto de vista médico, também é importante considerar esse aspecto. Há exames genéticos que apontam qual é a tendência do DNA de uma pessoa. “Ainda não são 100% confiáveis, mas servem bem para questões medicinais, como para ajustar doses de pacientes”, afirma o psiquiatra Lessa Júnior.

Os benefícios da planta não funcionam pra todo mundo. Por exemplo, Alysson Muotri estuda como usar a cannabis no tratamento de autismo e achou benefícios. Todavia, o tratamento não foi eficiente no caso de seu próprio filho, autista. “Testamos o CBD, mas ele desenvolveu resistência [à substância]”.

Se tiver qualquer sensação ruim, consulte seu médico, evidentemente. Se já usa e começou a bater ruim do nada, também é preciso atenção. “Mudou seu fornecedor, o tipo, a dosagem? Converse com seu médico e veja como é possível ajustar”, opina a farmacêutica Karoline Dias.

COMO TÁ O SETTING?

O cenário no qual a pessoa se encontra, se rodeada por amigos ou sozinha, se em um país legalizado ou não, tem impacto nos efeitos, principalmente nos psicológicos. Opina o psicólogo Anderson Matos: “O proibicionismo é um dos principais fatores pra bater ruim. Sente-se que se está fumando escondido, que é preciso tomar cuidado com odores, com quem passa por perto, com a polícia. A maconha potencializa sensações, sentimentos, e isso ocorre nesse clima desfavorável de perseguição”. Em depoimento na edição desta semana de Breeza, a influencer Maíra Medeiros conta como, para ela, foi preciso vencer diversos preconceitos internos para não ficar com o sentimento persecutório enquanto fumava um.

Por outro lado, um setting favorável também ajuda numa boa brisa. “Um ambiente amistoso, acolhedor, de alegria, confraternização, de festa… ajuda, né? A incentivar uma viagem mais interessante”, indica Matos.

É preciso também levar em conta questões individuais que não são necessariamente genéticas. “Algumas pessoas acham os efeitos psicológicos, como de desorientação espaço-temporal, do pensamento solto, da fluidez, bem divertidos e, assim, curtem. Outras acham terrível. Normalmente, quem não gosta, não repete o uso”, acrescenta o psicólogo.

Os especialistas ouvidos para esta reportagem apontam que não existem provas de relação direta entre maconha e um distúrbio mais sério, o da esquizofrenia. Desde o início da Guerra às Drogas, uma das táticas para demonizar a cultura canábica é espalhar notícias falsas, as fake news, que antes eram instigadas pelo próprio governo dos EUA como forma de alimentar medidas persecutórias, e hoje se espalham pelos grupos de Whats dos reacionários e dos hipócritas.

Porém, também concordam que a diamba pode instigar um ataque psicótico em quem já apresenta tendências para tal comportamento. “‘Ficou no imaginário popular a ideia de que a maconha e a psicose andam próximas, com esquizofrenia nos quadros mais graves. O ponto é que não se sabe quem vai desenvolver [esquizofrenia e outras psicoses] até que ocorra o primeiro grande surto, a crise, o momento de desorganização”, avalia Matos. Logo, a maconha não causa, mas pode instigar em quem tem alguma tendência. Para o psicólogo, inspirado em ideias que diz ter ouvido de uma entrevista de Sidarta Ribeiro a um jornal, a erva poderia, inclusive, ajudar a descobrir casos graves de forma mais precoce, principalmente quando o paciente apresenta histórico familiar de psicoses.

CUIDADO COM O QUE USA

Outro ponto que é consenso: em países onde é ilegal, como no Brasil, raramente se saberá o que se está usando. Em nosso país, essa ciência só ocorre no caso dos medicinais, acessíveis a uma minoria da população. Como defendeu Eduardo Suplicy em entrevista à nossa Breeza, deveria é estar em todo o SUS e sendo plantada pelo MST.

A realidade é outra e a grande maioria só fuma prensado. Nenhum julgamento com o ato, mas se sabe que existe um risco maior aí do que se for uma flor, ainda mais se uma fiscalizada, legalizada. Isso também já nos disseram nomes como Nelson Motta, Sidarta Ribeiro e Marina Person.

Para Renan Martins, representante para o mercado brasileiro de uma renomada marca holandesa de sementes e nutrientes para cannabis, a ilegalidade faz com que “as pessoas acabem se sujeitando a consumir substâncias que não são benéficas para o corpo, muitas vezes pela planta ser cultivada com fertilizantes que podem fazer mal, ou ainda passar por um armazenamento incorreto que leva à degradação”. 

Na perspectiva de Martins, caso se sinta mal usando, principalmente um de origem desconhecida, procure um médico que possa auxiliá-lo. Outra opção seria conseguir um habeas corpus para plantar o próprio em casa.

Outra de suas dicas é que, com o passar dos anos, “a maconha passou por evoluções em suas propriedades, principalmente com o THC mais alto do que era antigamente”‘. Nesse ponto, ressalta que seria necessário cautela também em relação aos níveis de THC e CBD que se está ingerindo. Levando em conta que, hoje em dia, a flor tem vindo mais forte.

É PRA ADULTOS

Destaca-se como todos os entrevistados pontuaram, mesmo antes de serem perguntados sobre, como a maconha é danosa na juventude, certamente antes dos 24 anos, e ainda mais na adolescência. “Sem terrorismo ou proibicionismo, mas o fato é que não é adequado começar a fumar na adolescência, apesar de isso ser tão comum”, afirma o psicólogo Matos.

“Na adolescência tem a história da poda neural [pode afetar o desenvolvimento do cérebro, com sequelas na memória]. Por isso, melhor deixar para mais tarde”‘, acrescenta. 

A farmacêutica Karoline Dias concorda: “Utilizar cannabis muito jovem, quando o sistema nervoso central está em formação, principalmente se for uso excessivo ou crônico, pode levar a malformações”.

O cenário ideal é como já funciona em países nos quais a cannabis foi legalizada e regularizada, em todas as formas de uso. A escolha livre de usar deve ser de direito de adultos, como é o cenário para o álcool e para o cigarro (e sabendo que jovens por vezes têm acesso, mesmo assim; o que se pode mitigar com as corretas medidas sociais e educativas). Para menores de idade, a liberação só deve ocorrer com prescrição médica, em casos muito particulares, nos quais os benefícios – como ao parar convulsões em quem antes as tinha dezenas de vezes ao dia – são bem maiores que qualquer malefício que possa ocorrer.

Olha, e se bater ruim… 1. Pare de usar 2. Procure orientação médica. Mas se a brisa é boa… relaxa, curte e compartilha.

Anita Krepp e Filipe Vilicic