Na Breeza

Do preconceito à aceitação e cura pela erva

Antes avessa à ganja, influencer Maíra Medeiros convenceu até a mãe da potência da planta
09|05|24

Quando Maíra Medeiros chegou ao set de filmagem naquele dia, suas amigas a abordaram: “Tem algo diferente em você. Tá plena, como assim?”. Ela estava calma, leve, o oposto de como tinham sido nas últimas gravações dela pras suas redes, nas quais acumula centenas de milhares de seguidores. Milhões, para falar a verdade, se considerar que apenas no YouTube chega a quase 2 milhões de pessoas inscritas em seu canal, o Nunca Te Pedi Nada. O motivo: três dias antes havia iniciado um tratamento canábico, com gominhas três vezes ao dia.

Maíra apresenta muitos traços de personalidade que são associados aos influencers. Afinal, é representante desse novo estilo de viver e ganhar dinheiro. Logo no visual, com os cabelos coloridos. Na chamada de vídeo para a entrevista, para qual veio preparada para ser filmada, toda maquiada, com luz apropriada, o que foi quase único dentre as conversas já publicadas aqui na Breeza. Estava pronta para o vídeo, toda trabalhada no instagramável.

Encara também, todavia, males que têm sido comuns dentre os influencers, como os distúrbios psicológicos. Ao longo da apuração para o livro O Clube dos Youtubers, que publiquei em 2019, entrevistei algo na casa dos 150 influenciadores digitais, além de estudar o tema em pesquisas acadêmicas na USP. O estranhamento frente ao fenômeno me fez indagar sobre vários temas que circulam ao redor desse jogo de influência digital. Algo notável é como assuntos como depressão, ansiedade, pânico, TDAH e similares são comuns nessas rodas. Quase todos os influenciadores com os quais já tive contato pela profissão destacaram nas entrevistas ou em seus vídeos temas relacionados aos transtornos mentais. Como Felipe Neto, Whindersson Nunes, Mandy Candy (que recentemente viajou com Maíra pelo Japão).

A ansiedade sempre esteve presente na vida de Maíra, aparecendo em momentos de sobrecarga de trabalho, ou quando fez um intercâmbio na Califórnia e teve de lidar com a distância do país,  ou em desilusões. O período da pandemia, contudo, exacerbou o problema. Em 2021, ela foi diagnosticada com ansiedade generalizada. Além dos remédios usuais, passou a utilizar maconha, de uma flor orgânica que conseguia com um contato, para acalmar. Isso somado a outros remédios.

Considera que o pico de ansiedade ocorreu em 2022, após uma série de ataques de haters que sofreu no ano anterior. Durante o período, afastou-se de atividades como da produção do canal no YouTube. Ela não mais se reconhecia, perdia o apetite, enjoava fácil, num cenário que se somou ao da diabetes crônica.

A flor da maconha veio nessa época não só como uma forma de acalmar, como também de ter vontade para comer. E comer é, afinal, viver. “Ainda tinha isso: a única forma de eu comer bem era fumando maconha antes”.

O impacto terapêutico positivo que a ganja estava ganhando em sua vida a fez consultar seu médico sobre a possibilidade de fazer um uso regrado. Ela experimentou vários formatos, sendo que mais se adaptou às gominhas e ao baseado. “Pra enjoo, preciso de uma ação mais rápida e por isso é melhor o fumo. Quando sei que vou passar por uma situação de gatilho para minha ansiedade, aí me preparo comendo a gominha. Uma gominha e viro a pessoa mais feliz do mundo!”.

MACONHEIRO É TUDO MARGINAL?

“Cresci nesse ambiente em que o maconheiro era visto como à margem da sociedade, que jamais representaria uma pessoa de sucesso”. Desde criança Maíra ouvia sobre nossa diamba, mas em um lugar marginalizado, estereotipado. “Natural eu achar que a maconha só prejudicaria”.

O primeiro contato com a maconha, em si, ela lembra que foi quando tinha uns 14 anos. Era, na real, cânhamo. “Tinha um tênis feito de hemp, com hemp no nome, e eu namorava um menino que queria muito ele”, recorda. 

– Hemp é maconha! Logo lhe falou o namorado. E assim veio o vislumbre com o tênis feito de maconha, que ela deu de presente a ele após juntar um dinheiro. “Lembro até hoje que eram 120 reais, muito pra época”.

Os preconceitos enraizados continuavam a verter em 2005, quando ela foi fazer um intercâmbio de trabalho em um restaurante na Califórnia. Mas foi aí que ela começou a ter contato com maconheiros, ou seja, quem usa rotineiramente, muitas vezes todos os dias. Naquela época, o uso para fins medicinais já era liberado por lá, mas o de fins recreativos, não. Isso deixando claro que a divisão é puramente estética: fumar um é sempre fumar um, independentemente da intenção, e invariavelmente possui efeito terapêutico; maconha, afinal, é maconha; e era bem fácil para um californiano conseguir receita, convenhamos, mesmo que não apresentasse qualquer tipo de doença.

Foi quando ela fumou pela primeira vez, em um roda de amigos do restaurante no qual ela trabalhava. O maior impacto que sentiu foi moral, a pressão social a condenando por ter usado. Logo depois, porém, a brisa foi boa, acompanhada de amigos que lhe ajudaram e guiaram na experiência. Uma experiência que a levou a pensamentos diversos, como à percepção de que, para ela, o álcool parecia bem mais nocivo do que aquela erva sobre a qual tão lhe falavam mal desde criança. 

Na Califórnia, voltou a usar outras vezes. Só que, quando retornou ao Brasil, naquele mesmo ano, escondeu essas primeiras vezes a sete chaves, não queria que amigos e família descobrissem. Chegava a fumar algumas vezes, “com amigos de amigos que arranjavam”, mas não se via comprando, justamente por julgar que estaria alimentando o crime organizado. 

Lá entre 2015 e 2017, a situação mudou gradativamente. Após a estreia de seu canal no YouTube, Maíra cresceu em popularidade e, com a fama, vieram trocas de cenários. Logo ela se encontrava em festas com youtubers, instagrammers e outros dos novos famosos. No ambiente da arte e do entretenimento, a maconha era muito presente e, apesar dela não comprar, o hábito se tornou mais rotineiro.

Ao longo da trajetória de youtuber, as viagens se tornaram constantes, pois também rendiam conteúdos para seu canal e suas redes. Em 2017, em uma viagem a Los Angeles, entrou em um dispensário pela primeira vez. Apesar de já estar com a mente mais liberta em relação à ganja, sentiu-se como se estivesse fazendo algo escondido, “ficava parecendo que estava cometendo um crime”.

Na loja, foi recebida por um atendente que começou a lhe explicar os efeitos, positivos (relaxamento, de aliviar ansiedade e depressão) ou potencialmente negativos (como paranoia), de cada cepa. Ela e o marido saíram com compras feitas e cabeça transformada. “Abriu a mente para esse mundo [canábico]”‘. A partir de então, a única coisa que lhes impediria de comprar no Brasil seria o incômodo em deixar dinheiro com o crime organizado.

Na pandemia, Maíra achou um canal confiável e que plantava de forma caseira. Foi então que começou o uso constante.

QUANDO ELA MUDOU A CABEÇA DA MÃE

A mãe de Maíra tinha aquela visão preconceituosa sobre a erva, que alimentou os monstros na cabeça da influencer não só durante a juventude, como quando eles ressurgiram nas primeiras experiências canábicas. A mudança de opinião viria de forma gradual, até um momento em que venceria os preconceitos.

A apresentação da daga à mãe, que tem 62 anos, teria início após a volta de uma viagem a Portugal. “Ela é viciada em skincare e uma das coisas que eu descobri é que maconha é impressionante pra produtos da pele”. Ela então trouxe na mala tonificantes, hidratantes e outros desses creminhos. “Experimenta e me fala”, disse à mãe. E ela adorou! “‘Virou a pessoa que mais consome creme à base de cannabis que eu conheço”.

Maíra então abriu para a mãe que é à favor da legalização, e em troca a mãe, que já tinha tendências holísticas, começou a entender o potencial da planta. “Foi um elemento de interesse [os produtos de skincare] que rompeu a bolha que tinha na cabeça dela”.

“Só que ela apenas entendeu 100% de como isso fazia bem quando me viu melhorar com o uso das gominhas”. No ano passado, bastaram três meses de uso constante para Maíra sentir progresso significativo em sua ansiedade. Após uma vida na qual foi do preconceito ao uso diário da erva, seja em qual formato for e para qual fim quiser, ela achou o alívio pelas vias canábicas. Aos 39 anos, pôde fazer o mesmo pela mãe: “Quando ela me viu e me reconheceu novamente, que entendeu como melhorei, é que ela realmente passou a aceitar.”

Como influencer, ou seja, com uma voz ouvida por multidões das redes, ela se vê no papel de comunicar ao público de suas experiências. Por isso, em janeiro publicou no seu Instagram um breve depoimento em vídeo no qual compartilha dos impactos positivos que a cannabis teve em sua vida, como também ao aliviar sintomas da diabetes e ajudar na criatividade.

“Todo debate tem profundidades diferentes. Como criadora de conteúdo, estou numa das primeiras camadas, em que posso trazer [o público] para um ponto em que consigo falar diferente, como falei com minha mãe. Despertar curiosidade e quebrar estereótipos são passos importantes para se chegar na descriminalização.”

Filipe Vilicic