
“The answer, my friend, is blowin’ in the wind. The answer is blowin’ in the wind.” Lembro do entrevistado desta semana cantando Blowin’ In The Wind no auditório da faculdade. Na minha época, no meio universitário se espalhavam vídeos de Eduardo Suplicy recitando os versos de Bob Dylan.
Suplicy tem uma longa lista de contribuições para o país, em particular para São Paulo. Foi senador por 24 anos, Secretário Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, deputado federal e vereador. Sempre pelo PT, do qual é um dos fundadores. Hoje é deputado estadual de São Paulo. Na Assembléia, capitaneia, ao lado do colega Caio França (PSB), a Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial.
Suplicy é economista e sua proposta mais ousada está ligada à área. Ele é o maior defensor na nossa política da ideia da renda básica universal.
No fim do ano passado, levantou publicamente nossa bandeira da maconha, após revelar que está usando o óleo medicinal para atenuar efeitos do Parkinson.
Na conversa a seguir, com Filipe Vilicic, jornalista da Breeza, Eduardo Suplicy conta como falou com a família de sua decisão pelo tratamento, da experiências com a maconha na juventude e do desejo de ver cooperativas do MST plantando cannabis. Você pode conferir a entrevista também em nosso podcast, o Saindo da Estufa.
No ano passado, o senhor anunciou, sem entrar em maiores detalhes, que passou a fazer uso do óleo medicinal. Como foi essa escolha?
Tenho um geriatra que me acompanha e que, há mais ou menos um ano, após uma bateria de exames, me disse “Eduardo, você está com Parkinson”. Comecei a tomar então medicamentos, sem cannabis, e continuo a tomá-los. Naquele momento, eu já estava conhecendo o que eram as mais diversas experiências da cannabis. Visitei a Cultive, organização da Cidinha Carvalho. Fiquei impressionado por ela, a primeira mãe a ter autorização na Justiça para plantar medicinal em casa porque a filha tem uma síndrome (Síndrome de Dravet). Aos dez anos de idade, todo mundo no hospital. A filha, a Cacá, teve uma melhora formidável na qualidade de vida (com o uso de óleo de cannabis). Hoje, com 19 ou 20 anos, ela passou a andar, a pular na cama elástica, a falar com maior facilidade. (a cannabis) Dá muitas alegrias. A mãe passou então a oferecer cannabis para outras pessoas que tenham problemas de saúde dos mais diversos. Eu tenho participado de alguns desses encontros e a conhecer melhor o CBD. Hoje, tomo um óleo full spectrum da Flor da Vida (associação), com CBD e THC.
De fato, eu me interessei mais e mais. Em julho passado, fui a Franca visitar a Flor da Vida. Pude testemunhar o grande ânimo das mães e dos pais ao relatarem como as suas crianças, desde bebês, alguns com problemas dos mais sérios, melhoraram significativamente com o tratamento da cannabis. Fui a Marília, visitar outra instituição terapêutica, que acho que tem também nome de flor. Agora saiu da cabeça. E outra instituição em Olinda, por ocasião de um Congresso organizado pela OAB, que está muito interessada em saber melhor das oportunidades da cannabis. A cannabis tem feito um bem para mim e para todos aqueles que estão usando com responsabilidade e acompanhando as recomendações médicas.
Eu atualmente estou tomando cinco gotas de cannabis pela manhã, cinco gotas após o almoço e cinco gotas no jantar, ou após. Três vezes ao dia. O tratamento fez com que dores nos músculos da perna sumissem. Eu tremia bastante nas mãos e nos dedos e agora, nas últimas semanas, percebo que estou tendo um tremor menos. As pessoas que tem me acompanhado estão notando essas diferenças.
Há cerca de três semanas, fui ao lançamento do livro Flores do Bem, do professor Sidarta Ribeiro. Obra notável que registra experiências tão significativas. Na página 28, ele descreve o caso da filha da Cidinha Carvalho, que formou a Cultive. Aqui ele relata algo muito significativo, da própria Cidinha (ele abre o livro, em uma marcação): “Várias crianças com Dravet não chegavam à adolescência. Como Clárian tinha risco de morte súbita, eu e Fábio vivíamos correndo contra o tempo, revezávamos até o sono. Precisávamos esticar a traqueia dela, além de termos medo de perdê-la dormindo. Quanto à hipotonia, a falta de sudorese, até seus onze anos eu nunca a tinha visto transpirar de verdade, o que não dava equilíbrio à temperatura do corpo e desencadeava mais crises convulsivas severas. Eu tinha que usar garrafas de água ou toalhas úmidas para molhar o cabelo e a nuca dela, para evitar convulsões que duravam mais de uma hora. A cognição de Clárian era comprometida: [tinha dificuldades na] coordenação motora, falta de equilíbrio, marcha prejudicada. Ela se automutilava, batia a cabeça na parede e tentava arrancar os dentes com a mão quando era contrariada.” Quando começou o tratamento, aos dez anos, Clárian Carvalho não conseguia correr, pular, subir escadas nem conversar (…) Após quatro meses de uso do óleo (de cannabis), Clárian mostrou as mãos dizendo que estavam molhadas. Achei que ela estivesse mexendo na água, mas não, as palmas das mãos e dos pés estavam transpirando. Foi a primeira vez que vi a minha filha suar de fato. A partir daí ela foi conseguindo alcançar o equilíbrio da temperatura do corpo e tudo começou a se encaixar. Após oito meses de uso foi muito visível a melhora no equilíbrio, Clárian já não andava mais se apoiando nas pessoas, com os joelhos semiflexionados, ela conseguia subir e descer escadas sozinha. Foi a primeira vez que ela pulou sem ajuda numa cama elástica num aniversário. Já conseguia articular frases completas e dentro do contexto. Hoje, as crises convulsivas diminuíram 80%. Ela tem uma ou duas crises por mês, que duram menos de um minuto”.
“Algumas vezes na minha adolescência, e na fase adulta, cheguei a experimentar um ou outro cigarro de maconha“
Eis aí um exemplo notável do livro, que recomendo a todos que queiram saber melhor de todas as vantagens da cannabis medicinal.
Como o senhor vê uma outra face do uso da maconha, o chamado recreativo. O Sidarta, por exemplo, vê tudo como maconha, e tudo como uso terapêutico. Como o senhor vê esse debate?
Todos nós devemos usar a cannabis medicinal, a maconha, com muita responsabilidade. Você pode ter o prazer em fumar, mas isso poderá causar certos transtornos, como de saúde, no trabalho e nos estudos. É importante que esteja sempre ouvindo recomendações médicas. Não pode ser para prejudicar a saúde, mas para melhorar a sua qualidade de vida.
Antes do medicinal, o senhor já tinha experimentado?
Algumas vezes na minha adolescência, e na fase adulta, cheguei a experimentar um ou outro cigarro de maconha. Mas sempre fui um bom esportista, um bom atleta. Dos meus 15 aos 21 anos, além de sempre estar jogando futebol, basquete, vôlei, natação e tantos esportes, treinei boxe e disputei o campeonato da Gazeta Esportiva. Até hoje eu faço uma hora de ginástica pelas manhãs. Procuro manter a forma física e é algo que recomendo a todas as pessoas que façam seus exercícios, suas caminhadas. Eu costumo não fumar e, algumas vezes que experimentei algum cigarro de maconha, poderá ter sido em algumas festas. Mas eu não tinha grande interesse e vontade de estar fumando maconha.
Recentemente, o senhor agradeceu aos seus filhos (os músicos Supla e João e o advogado André) pelo apoio ao uso da cannabis medicinal. Houve algum tipo de resistência na sua família?
Era setembro do ano passado quando fui convidado para falar do uso medicinal da cannabis na Câmara. Antes eu marquei com meus três filhos um jantar de domingo para dizer que tornaria o assunto público. Falei que estava usando, acompanhado de orientação médica e que estava melhorando minha saúde. Achei importante o apoio de meus filhos. Foi tudo tranquilo, sem qualquer objeção.
Houve resistência ao tema entre colegas da política?
Entre tantos senadores e deputados, há alguns com resistência à maconha, à cannabis medicinal. Avalio que é um dever nosso explicar, transmitir (conhecimento) às pessoas, inclusive aos deputados. Vou citar aqui o Osmar Terra (deputado federal, foi ministro de Bolsonaro), que tem grande dificuldade em aceitar e quer proibir e coibir mais. É importante acabar com o preconceito e que venhamos a compreender as vantagens, especialmente porque a cannabis pode ser utilizada como medicamento. No âmbito da política brasileira, esse debate precisa ser muito ampliado e pautado na realidade das pessoas. Está muito polarizado. Devemos nos guiar por conclusões científicas, não por preconceitos e questões morais. (temos de perceber como está) Contribuindo para melhorar a qualidade de vida (das pessoas).
Mais e mais nós estamos quebrando esses tabus. É importante mencionar que a descriminalização já está adiantada nos mais diversos países do mundo, como Portugal, Estados Unidos, Canadá, Paraguai. É fundamental que possamos democratizar o acesso, independente da condição socioeconômica das pessoas. Diminuir os estigmas relacionados ao uso e garantir a desburocratização das pesquisas científicas. Aqui na Assembléia, eu e o Caio França, do PSB, temos realizado diversas audiências públicas. Isso começou no ano passado e temos uma série de audiências neste ano, com o intuito de fomentar a edução sobre o tema. Comtemplamos cinco organizações com emendas parlamentares, e que gostaria de citar (são projetos das seguintes instituições: Unesp de Araraquara; Cultive; Hospital Sírio Libanês; Instituto CuraPro: Acolhe Vidas; Unicamp).
Importante assinalar que no final do ano passado o governo Tarcísio de Freitas regulamentou a distribuição pelo sistema estadual de saúde, mas só para três condições. É preciso aumentar a abrangência, incluindo para crianças que têm autismo e para as quais a cannabis tem se mostrado um remédio formidável.
“Quero aqui também renovar o apelo que tenho feito ao deputado Artur Lira, presidente da Câmara, para colocar logo para votação o PL 399, que regulamenta o plantio de cannabis e que está engavetado há dois anos”
Quero aqui também renovar o apelo que tenho feito ao deputado Artur Lira, presidente da Câmara, para colocar logo para votação o PL 399, que regulamenta o plantio de cannabis e que está engavetado há dois anos. É fundamental garantirmos o acesso à cannabis para todos os brasileiros e todas as brasileiras. O direito à saúde está garantido na Constituição. Não podemos permitir que apenas quem tem mais recursos possa importar e ter acesso. É preciso democratizar o acesso à cannabis.
A sua condição, de Parkinson, seria contemplada pelo SUS?
Importante que logo, logo o SUS brasileiro, que é tão positivo, venha a democratizar o acesso à cannabis medicinal não apenas para mim, mas para todo o povo brasileiro. Inclusive, é preciso terminar os preconceitos em torno da maconha pois vemos como a população mais pobre e o povo negro têm sido perseguidos. A maconha historicamente tem sido usada como ferramenta de discriminação racial e social. Fazendo com que pessoas jovens, negras sejam presas por delitos não violentos relacionados à planta. Ao longo de minha trajetória política, sempre procurei defender os direitos humanos, como ao garantir que todas as pessoas tenham acesso a políticas públicas de maneira igualitária. Mas a falta de educação e informação dos benefícios da cannabis tem favorecido a estigmatização das pessoas que usam. Por isso escolhi divulgar para as pessoas em geral, não só para os meus filhos, para a minha família, que estou usando o óleo medicinal.
“Para que aquelas cooperativas do MST possam aumentar e diversificar suas plantações, incluindo mais e mais a cannabis medicinal”
Eduardo Suplicy para a Breeza
E espero que neste ano de 2024 nós possamos debater, como na Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial, os temas da agricultura familiar (para o plantio de maconha medicinal). E para que também possamos trazer a cannabis medicinal como estratégia de redução de danos para pessoas que usam de outras substâncias psicoativas, tendo em vista a amplitude do potencial terapêutico da cannabis.
(Suplicy, então, relaciona o acesso à cannabis a políticas públicas como a da renda universal. Para aí contar que está negociando com o governo Lula a “gradual transição do Bolsa Família para a renda básica universal e incondicional para todos os brasileiras e brasileiros terem o direito de participar da riqueza de nossa nação”)
Como o senhor educou seus filhos sobre as drogas?
Foi um procedimento normal e tenho uma conversa muito franca com eles.
Olha, para o senhor, o maconheiro, o brisado é um bom eleitor?
(ele ri) Importante que as pessoas que não tenham preconceito com a cannabis medicinal, com a maconha, com conhecimento do bem que isso pode proporcionar, e que pode haver um estímulo que possam, por exemplo….
…para que aquelas cooperativas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, possam aumentar e diversificar suas plantações, incluindo mais e mais a cannabis medicinal. Pois isso pode contribuir para que a cannabis possa chegar a baixo preço para a população em geral. Devemos contribuir para acabar com qualquer preconceito em relação à maconha, à cannabis para, assim, utilizá-la de forma mais inteligente.