
O neurocientista Sidarta Ribeiro se tornou um dos rostos mais conhecidos da ciência de nosso país ao decifrar os mecanismos dos sonhos em seu livro best-seller O Oráculo da Noite, de 2019. Desde então, descobrimos o quão versátil é essa joia intelectual brasileira. Professor e pesquisador da Fiocruz, no Rio, e do renomado Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, é dono de vasta produção científica, citada mais de 11 mil vezes em trabalhos acadêmicos de seus colegas. Isso além de ter uma prosa agradável e didática, e de ser um poeta.
Já se sabia que Sidarta era entusiasta dos usos medicinais da cannabis e de psicodélicos. Todavia, no ano passado ele surpreendeu ao lançar o livro As Flores do Bem, no qual detalha sua história com a maconha, que envolve traumas familiares, descobertas em um mochilão pela América Latina e, claro, muito estudo e conhecimento.
Na entrevista a seguir, conduzida por Anita Krepp e Filipe Vilicic, jornalistas da Breeza, o neurocientista não hesita em contar como é o seu uso crônico da planta, dos motivos de ter saído da estufa para falar do tema publicamente, ou mesmo de como educa seu filho adolescente sobre a erva.
De onde surgiu a ideia de fazer um livro sobre maconha?
Foi uma necessidade minha. Já tinha feito um sobre maconha, mas em coautoria com Renato Malcher-Lopes, meu amigo e o maior especialista em sistema endocanabinóide no Brasil. Mas esse novo livro, com relatos mais pessoais, eu achava que não ia fazer. (a ideia) Veio em um retiro de meditação vipassana. Impressionante como os pensamentos podem tomar conta da cabeça. Samskaras negativos, mas também samskaras positivos, de avidez. Me veio que era para eu fazer três livros. Esse (As Flores do Bem) foi o primeiro. Lembro que não podia (no retiro) gravar áudio, falar com ninguém, escrever. Ficou tudo na memória, o que foi exaustivo. Saí de lá com o livro pronto na cabeça e achei que levaria um mês para escrever. Demorou mais, comecei em dezembro (de 2022) e acabei depois de me mudar para o Rio, em março (de 2023).
Como está a relação com a maconha hoje? Ainda tão forte quanto foi em sua descoberta no Chile, como relata no livro?
Mudou bastante, por várias razões. O usuário crônico é diferente do iniciante. O efeito é muito menos notável. E hoje eu sou também usuário terapêutico, tomo o óleo. Tudo isso muda a relação com a substância. Hoje o efeito é mais lento. Além disso, a gente vai envelhecendo e o olhar vai mudando. Com certeza a maconha não tem mais a mesma força lá do início (do uso), mas não atrapalha tanto como era. A maconha vai dando poderes, mostrando como e onde eu preciso me transformar frente a obstáculos. Quem tem contato ao longo de muitos anos, como é o meu caso, tem de aprender a usar de outras maneiras.
“A maconha vai dando poderes, mostrando como e onde eu preciso me transformar frente a obstáculos. Quem tem contato ao longo de muitos anos, como é o meu caso, tem de aprender a usar de outras maneiras”
Há diferença entre o uso medicinal e o recreativo?
Essa distinção é útil para algumas coisas, mas atrapalha em outros aspectos. Tudo que é terapêutico pode até ser recreativo. Agora, tudo que é recreativo é, quase que por definição, terapêutico. O Brasil deixa muito claro essa dissonância cognitiva quando se começa a falar desse assunto. Como pode que três quartos da população seja a favor do uso terapêutico, só que a mesma porcentagem ser contra o recreativo? Então, usar maconha para tratar uma dor neuropática, tudo bem… mas para escutar música, não? Essa percepção é péssima. Tem um problema moral, de culpa cristã. Esses mitos e esses preconceitos têm funcionalidades. Servem a agentes econômicos e políticos, aos micropoderes constituídos pelo Estado corrompido pela Guerra às Drogas. Tudo isso faz com que não consigamos resolver o problema principal. Que nem é o uso terapêutico. Mas, sim, como a guerra contra a maconha é usada para matar gente pobre, favelada, jovem, inclusive crianças.
“Tem um problema moral, de culpa cristã. Esses mitos e esses preconceitos têm funcionalidades. Servem a agentes econômicos e políticos, aos micropoderes constituídos pelo Estado corrompido pela Guerra às Drogas”
Você fumou enquanto escrevia As Flores do Bem?
Sim. O Nelson Motta deixa isso muito claro, de que quem tem uma relação com a cannabis, não a usa para fazer nada, mas, sim, para fazer algo. Ela é incrível e ajuda muito na produção intelectual, na reestruturação de memórias, no processo que a gente chama de criatividade.
No livro você chega a se arriscar até na poesia.
Desde criança escrevo prosa e poesia. Meu primeiro livro foi de prosa poética, isso faz parte do meu estilo. Nesse livro, saí do armário em grande estilo e me vulnerabilizei. A gente tá nesse momento: se a gente não se expuser, também não conquistaremos direitos.
Quando você era jovem, seu irmão foi expulso de casa por fumar maconha. Na época, você apoiou essa decisão. Como essa história te toca hoje?
Escrevi esse livro também como uma forma de fazer uma reparação. Meu irmão sofreu uma violência e demorei uns três anos para cair em mim e perceber que eu estava do lado errado. A culpa de nossos vínculos familiares estarem ruins não era da maconha, era nossa. Eu estava viajando pelo Chile quando tive a experiência de uso que relato no livro. Durante esse mochilão, voltei de uma região da Patagônia que representou um desafio, no ambiente gélido, fisicamente duro. No retorno, senti que eu estava pronto, emocionalmente, e escrevi uma carta pedindo perdão. Combinamos de nos encontrar e marcamos em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Foi lá que conseguimos refazer nossos laços, que continuam firmes desde então, desde 1992. No âmbito da família, porém, demorou um tempão para falar de maconha sem estigma. Tive de desconstruir a imagem que minha mãe tinha de mim, a de um filhinho perfeitinho e que faria tudo do jeito que ela esperava. Quando ela soube (que Sidarta usa maconha), ficou furiosa. Mas depois entendeu e, agora, é até usuária de cannabis terapêutica.
O que falta para a sociedade brasileira passar por esse processo de transformação pelo qual sua mãe passou?
Para mim é muito óbvio que se trata de uma pauta com vida própria. Isso porque tem muitos vetores alinhados e que estão empurrando para frente. O dos direitos legítimos dos pacientes e de seus familiares. Dos direitos das associações e dos cultivadores. E também das empresas que, nesta sociedade, têm esse direito legítimo (o de comercializar). Nos últimos sete anos, essa foi a única pauta progressista que tem avançado no país. O que tem transformado a opinião das pessoas, em geral, é quando a desgraça bate à porta. Se alguém ou um familiar desse alguém fica doente, e se a cannabis ajuda, passa a se querer a planta para toda a vida. Vi isso acontecendo com pessoas extremamente conservadoras, autoritárias, preconceituosas. Só que não podemos esperar todo mundo ficar doente para mudar. Sendo que o maior problema nem é esse (o acesso ao uso medicinal). O maior problema está nas 800 mil pessoas encarceradas, a maioria por crimes insignificantes de comércio de maconha e de outras substâncias. Ficam lá (na prisão) e apodrecem, tornando-se um problema maior para todo mundo. Em vez de estarem na escola, por exemplo.
“O que tem transformado a opinião das pessoas, em geral, é quando a desgraça bate à porta. Se alguém ou um familiar desse alguém fica doente, e se a cannabis ajuda, passa a se querer a planta para toda a vida. Vi isso acontecendo com pessoas extremamente conservadoras, autoritárias, preconceituosas. Só que não podemos esperar todo mundo ficar doente para mudar”
Você tem um filho já com 13 anos de idade. Como conversa do assunto com ele?
Nunca escondi nada do meu filho. Sempre deixei claro de que se trata de uma decisão que um adulto pode fazer, não um adolescente. Seja para maconha, para o álcool ou para qualquer droga. Nem café ele toma em casa. Ele entende que o sistema nervoso dele está em desenvolvimento, sabe que a idade ideal para experimentos dessa natureza é após os 25 anos de idade. Agora, o que vai acontecer na vida dele, se ele vai experimentar por curiosidade? Eu espero que ele faça boas escolhas, e que retarde isso ao máximo. Está bem claro que, tirando em raras situações médicas, maconha não é para adolescentes. É para adultos e idosos. Em relação ao meu filho, minhas preocupações são outras, como o hiperconsumismo e a reprodução do modelo patriarcal e da casa grande e senzala em famílias de classe média alta. Isso me preocupa bem mais. Pois em relação a substâncias, deixo claro aqui em casa que não existem aquelas de Deus e aquelas do Diabo. Somos nós que temos de saber o que estamos usando, de qual forma, o que tem ali, em qual contexto.
Logo no início do livro, você ressalta que adotou, na linguagem, “maconha” para todas as situações, sem diferenciar para cannabis ou outros termos. Por quê?
Resolvi usar um nome que abrange todos os tipos, chamando de uma coisa só. Já que existe um pânico moral contra esse nome (maconha), decidi usar. O termo cannabis foi muito útil para chegar com o debate a certos círculos em que há tanto pânico moral que nem dá para usar a palavra ‘maconha’. Aí, ‘cannabis’ sanitiza ‘maconha’. Neste momento do debate, prefiro falar em maconha justamente para não sanitizar e, assim, lembrar que se trata da mesma erva trazida pelos africanos escravizados na Diáspora e que foi criminalizada junto com a capoeira, o candomblé, o samba de roda e várias manifestações afro e indígenas. Se a gente não lembrar disso, legalizará a cannabis apenas para a classe média branca. E os pretos, pobres e favelados continuarão sendo mortos e presos pela mesma cannabis. Isso não dá mais.
“Já que existe um pânico moral contra esse nome (maconha), decidi usar. O termo cannabis foi muito útil para chegar com o debate a certos círculos em que há tanto pânico moral que nem dá para usar a palavra ‘maconha’. Aí, ‘cannabis’ sanitiza ‘maconha'”
Como a maconha virou essa “erva do diabo”?
Há dez anos era muito pior no Brasil. Nos EUA, a opinião pública mudou rapidamente. Existe até um exagero na maneira como a maconha foi da sarjeta para as prateleiras de dispensários. Isso tem a marca do exagero e das distorções do capitalismo. Não acho que a gente deveria estar batendo tambor e vendendo balinha, gummy bear de maconha. Isso representa um risco, sim, para os jovens. Ser a favor de legalizar a maconha não quer dizer ser a favor do uso desenfreado.
E tem a indústria que quer transformar tudo.
O capitalismo quer monetizar a maconha e impedir o acesso à maior parte da população. Maconha deveria ser tratada como uma planta, igual boldo. Grande parte do problema se resolveria assim. Não todo, como o da Guerra às Drogas, mas uma parte.
O que trava o Brasil nesse assunto e para o debate progredir mais rápido?
Há duas iniciativas importantes em curso. A PL 399, que não é dos sonhos, como por não contemplar o cultivo doméstico. Mas representa avanços. Já a outra iniciativa é o caminho (no STF) que se está fazendo para descriminalizar o porte, provavelmente de até 50 gramas. Um avanço ainda pequeno, não resolve o problema para os grupos mais vulneráveis… mas é um avanço. Agora, em pesquisas científicas, deveríamos ter total liberdade. Isso, não sei quando vai acontecer. Não podemos travar esses estudos, que estão na fronteira da ciência de hoje e são revolucionários. Só que o que tem acontecido é o contrário. Para se fazer pesquisas hoje no Brasil, é preciso ser guerrilheiro, ter flexibilidade cognitiva, criatividade com os recursos e coragem.
Por que, no livro, você descreve a maconha como um ippon, um golpe perfeito?
Chamei de ippon especificamente o uso para tratar epilepsia. A planta tem usos terapêuticos e é sagrada e medicinal há milênios. A visão ocidental, de raiz europeia e branca, é que resolveu fechar os olhos para isso. O tratamento para epilepsia quebrou de vez os contra-argumentos. Como negar (as propriedades medicinais) quando uma criança que tinha 300 convulsões passa a ter uma ou duas, após o uso?
“Não acho que a gente deveria estar batendo tambor e vendendo balinha, gummy bear de maconha. Isso representa um risco, sim, para os jovens. Ser a favor de legalizar a maconha não quer dizer ser a favor do uso desenfreado”
A grande imprensa parece ouvir sempre os mesmos nomes sobre esse tema, como você. Há poucos pesquisadores do ramo no Brasil?
Pelo contrário, está cheio de gente interessante, diversa e jovem. Em toda grande universidade há hoje um centro de estudos do tema. Além disso, é preciso entendermos os usos indígenas, como pelos guajajaras. Não é só a Cannabis Cup na Holanda que deve nos interessar. Devemos estudar as sementes crioulas e as suas genéticas. (o Brasil) Tem séculos de contato com a jamba. Esses saberes têm de ser acessados de maneira igualitária, respeitosa, com repartição de benefícios e entendimento democrático do assunto.
Uma questão mais rotineira: qual é o seu ambiente preferido para fumar maconha?
Quando eu faço uso sozinho, acho super interessante, Acompanhado, é interessante de outro jeito. A única coisa que eu não gosto é de usar em situações onde há estresse. Aí geralmente não vai bem com a maconha. Pode ir bem com um óleo rico em CBD, que é ansiolítico. Mas um pouco de THC em uma situação estressante pode levar ao risco de se perder a tranquilidade para tomar decisões, saindo do controle. Fora isso, a cannabis vai muito bem e se mistura com a realidade. Isso para mim, pois percebo que a maior parte das pessoas tem dificuldade de fazer atos corriqueiros com cannabis. Para chegar em outro patamar, ou se tem a genética adequada ou se faz uso contínuo o suficiente para virar apto a tudo (quando sob efeito). A maior parte das pessoas para no momento inicial de uso, quando a maconha ainda desorganiza os pensamentos.
Você falou que o retiro de meditação te deu três ideias de livros. O primeiro é As Flores do Bem. Quais são os outros?
Um será sobre psicodélicos, também misturando ciência, história e relatos pessoais. O outro, em parceria com José Luiz Balestrini, psicólogo junguiano e mestre de kung-fu, gira em torno da ideia de reconstituir o percurso evolutivo dos arquétipos, utilizando para isso a biologia. Será uma conversa entre a psicologia e a biologia.