
Nelson Motta é um pilar da cultura brasileira, em especial de nossa música. Dono de talentos múltiplos, limitá-lo a uma definição única seria injusto. Nelsinho, como também o chamam, é produtor musical, compositor, escritor, teatrólogo, roteirista, jornalista e se pode arriscar que outras coisas mais aqui esquecidas.
Em entrevista a Filipe Vilicic, jornalista da Breeza, ele conta que toda a sua obra (assim como a de artistas como Rita Lee e Lulu Santos) foi feita sob o efeito da maconha. “Sempre digo para minhas filhas: ‘Parece um paradoxo, mas é uma regra. Para ser um maconheiro full time, tem de ter uma baita disciplina”, afirma ele, em tom professoral.
Esse maconheiro full time já compôs mais de 300 músicas para estrelas como Erasmo Carlos, João Donato, Rita Lee, Jota Quest e tantos outros. Pense em hits como Uma Onda no Mar, do Lulu Santos, e Bem que se Quis, da Marisa Monte. (E, se você os conhece, provavelmente o refrão de um deles agora vai ficar grudado na sua cabeça por bom um tempo)
Como escritor, assina mais de uma dezena de livros. Como Vale Tudo, a biografia do Tim Maia que inspirou série e filme, e Noites Tropicais, um relato apaixonante sobre a MPB dos anos 1950 aos 1990, temperado com cenas de bastidores. Além de ter virado rosto famoso da TV brasileira, pela participação em um leque variado de programas televisivos – até o fim do ano passado, mantinha uma coluna no Jornal da Globo.
Aos 79 anos, Nelsinho representa parte da memória viva da música brasileira. Na conversa a seguir, solta o verbo sem (qualquer) papas na língua.
São mais de 50 anos fumando. Nesse tempo, o que mudou na percepção que as pessoas têm em relação à maconha?
Talvez essa revelação tenha surpreendido muita gente. Mas eu já tinha um conceito firmado. O cara que pensa “pô, decepção, é um maconheiro, eu admirava tanto”… caguei pra ele. É um idiota. O tratamento em relação a mim, não mudou muita coisa, sempre tem gente que se identifica, faz uma abordagem simpática. Sempre vem um garoto e me põe um baseado no bolso. Eu gosto disso. Acho bacana. Ao mesmo tempo, também, achei que haveria a hora de botar isso. Tenho vontade da falar isso faz cinquenta anos. Mas se falasse isso de 1964 a 1983, ou até antes do golpe militar, seria preso no Brasil. Incitar drogas, ia dar uma merda colossal. O Brasil, como sempre, está muito atrasado. Não está, é. É de nosso caráter. Último país a acabar com a escravidão. A gente sempre fica no último vagão do trem, né? Isso é bem chato.
O que mudou muito foi a cena em volta, também. A pressão internacional é avassaladora. Quando vinte estados americanos liberam a maconha até para fins recreativos. Estão fazendo fortuna com isso. Ninguém morreu. Não tem problema nenhum. Os estados ficaram mais ricos, as pessoas estão pagando mais impostos. E o tráfico? O tráfico sempre vai existir. Metanfetamina, ópio, cocaína, qualquer droga. Ficarei muito feliz no dia em que separarem a cannabis das drogas. É uma planta medicinal e, conforme o uso, pode provocar alucinações. Ponto.
Acho que ultimamente, depois que acabou o Bolsonaro, deu uma melhorada. Na cannabis medicinal, primeiro passo para liberar para geral. Quando começa com medicinal, fica difícil querer proibir uma substância que faz bem. Mas e se usar muito? Se usar muito penicilina, se dá mal. Com a cannabis, depende de cada pessoa e do uso que cada um faz dela. Para uns, é um desastre, vira um verdadeiro zumbi. Sempre digo para minhas filhas: “Parece um paradoxo, mas é uma regra. Para ser um maconheiro full time, tem de ter uma baita disciplina”. Tem de ter uma puta disciplina, não pode se entregar.
Eu adoro fumar para trabalhar. Para escrever um texto, uma crônica, qualquer trabalho. Se eu tiver de fazer de cara limpa, faço, mas é um sacrifício. Se faço na brisa, brisado, é um prazer que não termina. Essa é a grande diferença para mim. E desconfio que as coisas feitas com prazer, saem melhores. Então, minhas coisas saem melhores under the influence, que é uma expressão americana terrível. Antidroga, para falar que fulano foi preso under the influence. Olha, eu fico com a Rita Lee nessa história. Ela disse que tudo que escreveu na vida dela, músicas, crônicas, sete livros infantis, biografia, tudo foi sob a influência. Eu posso dizer a mesma coisa. Letra de música, livros, tudo desde meus 23 anos. Faz parte do meu metabolismo. Do meu metabolismo criativo, digo.
“Sempre digo para minhas filhas: “Parece um paradoxo, mas é uma regra. Para ser um maconheiro full time, tem de ter uma baita disciplina'”
Claro que o efeito não é o mesmo para todo mundo. As pessoas que estão tomando CDB estão se dando muito bem. Adoro quando tem algum amigo meu, tipo meu amado, parceiro Dori Caymmi (filho de Dorival Caymmi). Oitenta anos, como eu. Supostamente um cara sério, severo. Ele na verdade é um debochado, sacana, hilariante, com grande senso de humor. Agora está tomando o cannabidiol.
Lembro eu, Macalé e João Donato, aquilo era uma esquadrilha da fumaça. Praticamente cercando Dori no quiosque, uma vez. Recebendo ele como um novo maconheiro na praça. Ele resistia.
Quando você contou publicamente que fumava maconha, no O Globo, em 2019, ocorreu uma enorme repercussão reacionária, principalmente dentre políticos. Vários deles te faziam a seguinte pergunta: “Nelson Motta, onde você compra sua maconha?”.
Com o Queiroz. Isso foi durante o bolsonarismo. Os caras me sacaneavam, chamando de ‘maconheiro, esquerdista, veado, o de sempre’. Perguntavam “Onde você compra?”. Eu respondo assim: “Com o Queiroz”. Eu quero lá a aprovação dessa gente? É lixo humano, não serve pra nada, nem pra adubo.
Um post que fiz sobre cannabis, bem sério, texto todo argumentado, difícil rebater sem ser com preconceito. Esse não deu muita margem para falarem ‘esquerdista, maconheiro’, sem clima para isso. Mas teve vários, olha que loucura, falando assim “realmente, tem toda razão, o uso da cannabis medicinal é um avanço; mas recreativo, não, nem pensar”. Quatro ou cinco pessoas comentaram mais ou menos a mesma coisa. Me dei ao trabalho de responder: “Sabe do que está falando? Que uma coisa deve ser liberada por fazer bem, mas não por dar prazer. Se der prazer, aí é crime, é pecado, contravenção. Católico isso. Não pode dar prazer”. Totalmente cristão isso. Tive redução jesuítica, sei do que estou falando.
Você separa a questão do medicinal para o recreativo?
De certa forma é uma divisão estratégica pela liberação. Foi um passo decisivo. Os estados americanos mais caretas foram os primeiros a liberar o medicinal, como o Colorado. Aí é isso: “Se libera o medicinal, por que não o recreativo?”. Vejo assim. É um contrassenso durante anos manter o medicinal com ótimos resultados, mas aí um cara acaba indo preso por fumar um baseado… pelo amor de deus. Outro ponto é em respeito à qualidade. Sou bem viajado, em todos os sentidos. No Brasil se fuma uma das piores maconhas do mundo. Esse prensando, que fuma em São Paulo, Rio de Janeiro, de Minas para baixo, paraguaio, que mijam em cima para tirar o cheiro, tem cocô de cavalo. Faz mal, mas se fuma no Rio de Janeiro faz mais de 20 anos. Eu mesmo já fumei muito prensado. A qualidade evoluiu então a partir de uma cultura canábica principalmente nos Estados Unidos. Com o skank, vários tipos. Há muito tempo que eu passo bem aqui no Brasil, também. Quando morei em Lisboa, em Nova York, também passei bem, de altíssima qualidade. Em Nova York, se um cara te vender um prensado uma vez, ele estará para sempre fora do mercado. Agora começa a ter uma qualidade maior, o consumidor começa a ser mais exigente, tudo melhora. A maconha está fazendo fortunas e fortunas nos Estados Unidos. É uma coisa incontrolável. Quando entra o dinheiro, não para mais. Quem vai ousar parar uma torrente de dinheiro monstruosa? Nem guerra atômica.
“No Brasil se fuma uma das piores maconhas do mundo. Esse prensando, que fuma em São Paulo, Rio de Janeiro, de Minas para baixo, paraguaio”
Enquanto os Estados Unidos estiverem mandando no mundo, aqui vão pensar “os americanos devem saber, eles são mais evoluídos”. É um atraso. Mas de um tempo para cá, de uns dois anos para cá, está melhorando de forma sensível. As pessoas perderam o medo de falar, ao menos. Menos os políticos. Políticos são tão cagões porque não querem o bem do povo. Eles não querem o bem do povo, querem ganhar eleição. Para ganhar eleição, o político sabe que não pode ser à favor da maconha. É tabu. Como o aborto. Até quando vai ser isso, até onde vai essa hipocrisia, não se sabe. Por que cada congresso é pior do que o anterior.
Há alguns políticos que falam do assunto, como o Suplicy.
Pode dar voto num nicho. Rincões da esquerda. Mas vai tirar muito mais votos, do que vai dar. Tem um estigma: “O cara é maconheiro, como é que pode?”. Você vai ver, o Gilberto Gil fumava maconha diariamente até os 50 anos de idade. Ele falou. Você vê um cara como Lulu Santos, que é uma chaminé humana. Toda a obra colossal do Lulu é em parceria com a boa e velha cannabis. E muitos outros, né?
A hipocrisia atinge até pessoas insuspeitas. Fiquei revoltado quando vi o Paul McCartney, que sempre gostou de fazer o gênero bom moço e que, há uns sete anos, falou que iria parar de fumar maconha para não dar mal exemplo para a juventude. Olha só, como pode? Ele já voltou a fumar, é claro.
Mas ele tava dizendo, ali, pra juventude, que toda a obra do Paul, feita à base de cannabis, seria uma merda e faria mal? Como pode? Dizer que faz mal pra juventude?!? As pessoas perdem a noção. Fica tão passional, demagogo, bom mocismo, politicamente correto.
No Brasil, quem sabe? Daqui a pouco as grandes farmacêuticas entram no business. Vira um monstro. Mas é o caminho da liberação, né?
A cannabis e a música tem uma relação muito intrínseca. O que veio antes, a cannabis ou a música? A cannabis desperta a criatividade ou são pessoas criativas que buscam a cannabis?
Pelo o que eu sei, o primeiro maconheiro histórico é o Louis Armstrong. Ele nasceu talvez antes de 1900 (para ser exato, 1901). Primeiro grande músico que se tem notícia que assumiu. Todo mundo sabia. Era coisa de preto, também, né? Por isso você podia estabelecer uma relação ali da escravidão com a maconha, pra dar um alivío naquela merda toda… uma inspiração para a música… talvez possa se estanbelecer essa relação, né? Agora, e depois, quase todos os grandes músicos de jazz eram no mínimo maconheiros. O Miles Davis sempre foi um grande praticante. O Miles é um gênio. Sempre movido a isso (maconha). Agora, a bossa nova, não. A bossa nova é toda movida a uísque e cerveja. A mesma relação da Rita Lee com a maconha, vamos ser sinceros aqui, o Vinicius de Moraes e o Tom Jobin… eram alcoólatras. Muitos da bossa nova eram alcoólatras. Especialmente o Vinicius.
Já João Gilberto, pelo menos a partir de certa idade e até morrer, fumou todo dia, a vida inteira. Mas o Tom e o Vinicius eram alcoólicos, pela própria natureza. Provavelmente uma grande parte da obra dos dois foi feita meio bêbada, ou calibrada, como eles diziam. Cada geração tem uma (droga)… o pessoal dos anos (19)90, certinho. Outras paradas, lisérgicas. Mas a maconha basicamente é a droga rock’n’roll.
Dentro do showbiz, em geral, a maconha é totalmente aceita? Ou tem gente que olha feio?
Depende, né? Eu acho que o pessoal de música, sim (aceita). Mas o pessoal de teatro é mais complicado. Imagina decorar textos, peças, capítulos de novelas… para atores é bem mais complicado. Embora tenham alguns que fumem direto. Agora, para pintores e artistas plásticos, é uma maravilha, uma coisa totalmente visual. Grande Antonio Dias, fumou a vida toda. Pintor extraclasse. Pras artes visuais, é muito bom. No meio artístico sempre é visto com mais tolerância. Fui casado por muitos anos com a Marília Pêra. No mundo teatral, pouca gente fumava. Mas ninguém criticava. Eu fumava em festas e nunca senti esse problema.
“Para ganhar eleição, o político sabe que não pode ser à favor da maconha. É tabu. Como o aborto. Até quando vai ser isso, até onde vai essa hipocrisia, não se sabe”
Para você ser maconheiro full time precisa ter uma puta disciplina, Não pode deixar rabo. Pro cara não chegar pra você e falar “Que é isso aqui? Coisa de doidão!” Aí fudeu! Único conselho que eu daria: faça um bom uso. Se estiver cheio de problemas na cabeça, não fume. Não seja burro. Cabeça vazia (para usar maconha) pra imaginar coisas, fazer planos, ouvir música. Mas pra resolver problema, não serve.
Pode ter consequência negativa, né?
Acho que geralmente tem. Se sua imaginação já tá numa bad vibe, só vai piorar.
Já passou por isso?
Brevíssimos períodos. Para não complicar minha cabeça. Estava com problemas afetivos, num bode total, não queria dar mais gás para a minha imaginação. Não foi mal, também, não. Foi a coisa certa.
Você já deve ter fumado com pessoas incríveis. Quem mais te marcou?
Foi com o João Gilberto, né? E Tim Maia, né? A glória! Já fumei com Tim Maia. Isso era uma glória! Você morria de rir. O cara era garantido. Diversão garantida. Os baseados que ele enrolava, as coisas que ele falava. No outro posto, João Gilberto, ali com a cannabis oriental, zen. Totalmente zen, absurdamente zen. Minimalismo total, paz absoluta. Em busca daquela perfeição sonora. Ambiente de quase meia estação pra ele. Já o Tim Maia, era explosão.
E os planos futuros?
Tenho um romance novo saindo: Corações de Papel. História de amor. Totalmente canábico, é claro.
“O Gilberto Gil fumava maconha diariamente até os 50 anos de idade. Você vê um cara como Lulu Santos, que é uma chaminé humana. Toda a obra colossal do Lulu é em parceria com a boa e velha cannabis”
Nelson Motta