Na Breeza

A pregadora da palavra da erva

GIL INOUE

Maeve Jinkings, uma das atrizes mais celebradas do nosso cinema e da nossa TV, não lembrava de seus sonhos. Foi com a planta que voltou a dormir e a sonhar bem. Ela descobriu a cannabis no começo da pandemia, em 2020. “Comecei me automedicando”, conta para a Breeza.

Seguiu as indicações de uma amiga e passou a usar uma dosagem diurna. Recorreu ao óleo para combater a ansiedade e a insônia. Encarava então o pico de gravações da série DNA do Crime (sucesso da Netflix), misturado a, como ela diz, “Bolsonaro e pandemia”. 

Após um começo sem orientação médica, marcou consulta. Segundo relata, teve uma primeira experiência desagradável por não ter gostado das orientações que recebeu. 

No consultório

“A médica parecia vanguardista, denominava-se pioneira”, conta Maeve. “Só que na consulta ela começou a relativizar a pandemia e receitou cloroquina. O óleo recomendado também era muito industrializado e caro.”

Há divergências no meio médico. Existem alguns que defendem produtos mais industrializados. Outros, dão preferência aos artesanais, de associações e cultivadores, os nossos growers.

Esse é um dos temas mais controversos dentro do campo da cannabis. Certos médicos e pacientes preferem importar ou comprar direto na farmácia, enquanto que há quem goste de alternativas à cadeia mais industrial.

Após consulta com uma segunda médica, Maeve passou a consumir um óleo full spectrum, comprado de forma 100% dentro da lei, com uma associação. Segundo conta, seguindo uma linha da fitoterapia.

Pastorinha da planta

“Eu fiquei tão deslumbrada com a diferença que o óleo fez na minha vida!”. Sim, Maeve, a gente sabe bem como é isso. “Que eu comecei a pregar a palavra da planta.” E quem nunca, não é mesmo? Quando percebia qualquer sintoma em um amigo que a erva pudesse aliviar, apresentava essa alternativa. “Recomendei até para a minha avó.”

Maeve revelou que precisou aumentar as doses de cannabis durante as gravações de DNA do Crime para lidar com os altos níveis de estresse que agudizaram ainda mais a sua insônia. “Consegui, digamos assim, sobreviver às filmagens tomando óleo, dobrando a dose para além das noites, também com o uso diurno.”

Ela diz já ter experimentado “as possibilidades da cannabis”. Considera-se bastante aberta para testar os efeitos da planta em várias versões. “O que acabou ficando e eu considero vital, que não vivo sem, tipo o grão de café que eu moo na minha casa, é o óleo. Meu cbdzinho não pode faltar.”

Experimentações breezadas

Hoje em dia, Maeve também usa “uns creminhos durante o dia, para melhorar a ansiedade”. À noite, nunca abre mão do óleo full spectrum.

Ainda na adolescência, experimentou os primeiros baseados. Aconteceu muito dela fumar e ficar quietinha. Para ela, se tiver num meio com muita demanda social, não funciona. Por isso, ficar anos sem fumar maconha não é um problema. Tanto que, quando alguma flor vai parar na mão dela, fica dentro da gaveta até mofar.

A atriz, que coleciona prêmios e é formada em Artes Dramáticas pela USP, já esteve em séries de sucesso, como a global Os Outros, e filmes renomados como Aquarius. Dentre todos os papéis, considera o em O Som ao Redor como o no qual interpretou sua personagem mais maconheira.

“Só que eu mesma sou uma péssima maconheira”, brinca ela, que ressalta não saber bolar. Apesar de afirmar já ter fumado várias vezes, conta que sempre foi com amigos e nunca chegou a comprar do, digamos assim, recreativo (ela não acredita na distinção para o medicinal). Atualmente, não fuma por ser “muito controladora, e às vezes vem (a brisa) com crises de ansiedade”. “Ou pode ser que eu ainda não tenha encontrado a cepa certa”, indaga-se.

Para Maeve, a “cannabis encara uma série de tabus e por isso é preciso falar muito sobre ela”. Segundo compartilha com a Breeza, a planta foi responsável por controlar sua ansiedade, desestressar, fazê-la dormir profundamente e “voltar a sonhar”.