
Para quem era adolescente nos anos 1990 ou nos 2000, quem está hoje lá com seus 30 e tantos ou 40 e poucos, Marina Person era sinônimo de MTV. Ela e seus colegas VJs foram responsáveis por formar gerações de jovens brasileiros. Por meio da TV mais descolada do Brasil, consagraram-se como vozes que espalhavam (na maioria das vezes) ideias progressistas, pautando a sociedade em debates sobre música, cinema, AIDs, sexo seguro e drogas.
Pense o quanto bandas como Planet Hemp e Cypress Hill influenciaram a nossa comunidade breezada. E Beavis and Butt-Head (que, aliás, ganhou novas temporadas, sabia? fica a dica)? E Aeon Flux? Muito da visão mais progressista que se constrói sobre nossa erva teve como base uma cultura fomentada pela MTV e que tinha como embaixadores os VJs, encabeçados por nomes como Marina Person.
Depois da MTV, Marina continuou como apresentadora de TV, mas se destacou ainda mais por trás da câmera, dirigindo filmes como “Califórnia” (2015) e séries como a recente e recomendadíssima “João Sem Deus” (2023). Na conversa a seguir, Filipe Vilicic, jornalista da Breeza, conversou com ela sobre efeitos criativos da maconha, de como não existem mais VJs hoje em dia, de música, de filmes… confere aí que o papo tá saboroso demais.
Muitos jovens, como eu mesmo, fumavam um à noite vendo Beavis & Butt-Head, clipes do Planet Hemp e do Cypress Hill, Aeon Flux na MTV Brasil, a dos anos de 1990 e 2000. Promover a cannabis fazia parte da agenda da MTV?
A gente não tinha uma agenda muito avançada nesse sentido. Era muito mais pura e simplesmente descriminalizar, fazer com que a cannabis fosse aceita como uma erva natural, que não não pode fazer mal, como o Planet Hemp cantava. A proibição é desnecessária, descabida. Naquela época a gente teve aquele filme “Grass”, lembra? [documentário canadense de 1999 que então revelava de forma pioneira as farsas por trás da política de Guerra às Drogas, tendo a erva como principal alvo, promovida pelos Estados Unidos, em especial a partir dos anos 70]. Justamente explicava qual era o caminho entre algo que fazia tão bem aos povos originários e à cultura do México e que, quando foi para os EUA, nas mãos de um único político americano [Harry J. Anslinger], se conseguiu fazer algo incrível: demonizar a maconha no mundo inteiro. Aí quando começa a desdobrar, você vê que a coisa mais burra que o ser humano fez foi proibir a maconha, que é uma planta que dá tudo para você, né? Ela dá tecido, dá remédio, dá produtos para a pele [Marina passa a mão no rosto, em gesto como se passasse um creme], dá, enfim, em qualidades recreativas. O que aconteceu é que passamos muito tempo sabendo muito pouco.
“Você vê que a coisa mais burra que o ser humano fez foi proibir a maconha, que é uma planta que dá tudo para você, né? Ela dá tecido, dá remédio, dá produtos para a pele, dá, enfim, em qualidades recreativas”
Adolescência em São Paulo nos anos 80, a gente não sabia o que a gente fumava, entendeu? Não tinha conhecimento de qualidade, não sabia que tinha outras qualidades. Fui entender isso quando fui pra Holanda, aí vai no coffee shop e vê que tinha descrição do que cada um poderia provocar em você. Então, a minha cultura foi sendo construída em cima de uma base de que é proibido, uma droga ilícita, que vicia, várias coisas erradas, que a gente entende [hoje] que não faz o menor sentido. Você estava perguntando da MTV, especificamente. A gente não tinha… nem lembro quando a gente começou a falar de descriminalização, exatamente. Mas a luta, ela só veio depois, assim. Olha, parece coisa de maconheira, mas não lembro.
Mas você usa ou já usou maconha?
Muito de vez em quando. Passei muitos anos sem fumar, pois na adolescência tive alguns episódios em que fiquei, sei lá, muito introspectiva. Sou daquelas que não consigo fumar maconha e fazer algo que eu tenha que interagir com pessoas. A não ser que eu esteja muito relaxada, entre pessoas amigas, em que eu não preciso performar, assim, falar coisas em que eu preciso raciocinar muito, sabe, assim? Nunca entendi meus amigos que fumavam pra ir pra aula, que fumavam pra ir trabalhar, não sou eu essa pessoa. Tem gente que fica mais criativo, que se sente bem. Eu nunca fui isso.
Mas se deve à qualidade do que a gente fumava. Anos 80 era aquele prensadão que sabe lá o que tinha dentro, entendeu? E aí aconteceu algumas vezes de eu ficar muito, muito fora de mim e não conseguir nada, de ter ido embora de festa. Aliás, acontece até hoje: de eu fumar um e falar ‘gente, minha capacidade de interagir desapareceu e tenho de ir pra casa’.
Mas eu gosto muito das possibilidades que a maconha, a planta tem, por exemplo…. Quando vi aquele documentário das mães, “Ilegal” que chama, né? É maravilhoso esse filme, ele explica de uma forma muito didática e simples quais são as capacidades. É uma planta única. Imagina, tinha casos de crianças que tinham, sei lá, 27 convulsões por dia e passaram a ter três por ano, ou na semana [os números foram usados de forma meramente figurativa]. Como assim? Como isso até hoje não é entendido como um remédio necessário? Tinha aquela história da filha do militar, que tinha um filho com uma doença, e que teve de se desfazer de todos os preconceitos por ter sido criada em um ambiente militar… a maconha era assunto de Jornal Nacional, magina… ambiente preconceituoso… e aí ela conta a história dela super bonita.
E para além dessa condição de remédio, das pessoas que têm essas condições mais agravadas, existe toda uma coisa terapêutica e que hoje em dia a gente entende. Quem é médico, assim… não conheço ninguém sério que estude e que fale “ah…”. Assim, não há uma controvérsia em relação a quais são as possibilidades e o potencial que a maconha tem para melhorar a vida das pessoas. Pode pegar o médico mais careta do mundo e, para alguns pacientes, ele vai recomendar, falar “não, assim, você pode fazer uso, ou do óleo, o do CBD com THC, ou pode até fumar, se não tiver condição no pulmão”. As possibilidades terapêuticas da maconha são muito grandes, muito vastas.
Lembro daquelas vinhetas mais antigas da MTV com informações sobre AIDs, camisinha, drogas. Qual é a importância de se ter acesso a esse tipo de conhecimento ainda quando se é jovem?
É tudo, né? Informação é acesso e poder. Quando você sabe de uma coisa, você tem o poder de escolher. Eu não uso a maconha recreativamente na minha vida cotidiana. Eventualmente, alguém aparece com um, diz que foi plantada pelo pai, que tem um jardineiro que faz ali e tal, mas é realmente uma coisa muito esporádica na vida. E tenho muita consciência de minha escolha, de saber a procedência, de quais os efeitos que podem causar em mim, qual é o impacto que tem no meu entorno. Conhecimento é a chave de tudo, para poder escolher e para você às vezes ver que aquela ideia plantada na sua cabeça, de que era uma coisa errada, uma coisa proibida… vai entender que, poxa, a ideia que você tinha e que plantaram em sua cabeça estava errada. Entenda por que aconteceu aquilo e forme a sua própria ideia. Tenha você uma opinião que é sua e não algo que é repassado por uma sociedade que abraçou a demonização da maconha por puro desconhecimento.
Tenho muita consciência de minha escolha, de saber a procedência, de quais os efeitos que podem causar em mim, qual é o impacto que tem no meu entorno. Conhecimento é a chave de tudo, para poder escolher e para (…) entender que, poxa, a ideia que você tinha e que plantaram em sua cabeça estava errada
Qualquer pessoa que entende, que consegue acessar todas as pesquisas científicas das qualidades da cannabis, acho difícil a pessoa continuar na chave do “isso deve ser proibido”. Qualquer pessoa que tenha acesso à quantidade de pessoas beneficiadas por alguma coisa relacionada à planta, e isso falando em termos médicos, assim, como a pessoa pode ter qualquer preconceito em relação a isso? Fora que, economicamente para o Brasil, que tem tanto Sol como temos aqui…. pega o nordeste brasileiro, é o solo perfeito. A gente estaria economicamente muito na frente [se fosse legalizado], teria um benefício gigante, econômico. Se conseguisse lidar com isso de uma forma não preconceituoso, de você se despir dessas ideias atrasadas, erradas, retrógradas, que ficam te puxando pra trás. Atrasam o Brasil, atrasam o mundo. Mesmo que para nós economicamente seria incrível se conseguisse cultivar, comercializar, ganhar impostos; e o governo se beneficiaria, os produtores se beneficiariam, seria um baita produto de exportação. Uma loucura não fazermos isso, se fosse pensar racionalmente, não faz o menor sentido.
Você é de dois meios, a música e o cinema, pelos quais circulam muitos temas relacionados à maconha. Qual é o papel de músicos e de filmes nesse esforço de romper nossos preconceitos?
É a mesma raiz pras duas coisas, de formas diferentes, né? O cinema tem esse poder de entrar na cabeça das pessoas de uma forma que é muito orgânica. Porque é isso: o cinema pode ser, e é uma grande peça de propaganda. Os americanos quando começaram a entender isso, que dominando o cinema no mundo, eles não estariam vendendo só ingressos, mas também um modo de vida, estariam vendendo produtos, calças jeans, o rock, Coca-Cola, hambúrguer… fast-food está no mundo todo pelo cinema americano, que vendeu aquela coisa dos filmes adolescentes de que aquela era uma comida de filme, literalmente, pois usamos essa expressão. O cinema tem esse poder, sobretudo na ficção, que pega você mais desarmado, de uma forma que você não sente, nem sabe, vai direto pro seu inconsciente. É muito mais eficiente você pegar um filme em que a pessoa não demoniza a maconha, simplesmente faz uso de uma forma Ok, falando ‘é legal, tudo bem, tô fumando um e me divertindo, trabalhando, me curando”, a gente absorve de forma mais orgânica.
O cinema tem esse poder de pegar as pessoas desavisadas. Você não tá esperando, não tá defendido, não tá querendo gostar, desgostar, concordar ou não. Aquilo entra em você e pronto
E com a música é a mesma coisa. Sendo uma música que a gente goste, a gente vai cantar aquilo e as letras começam a fazer sentido. É raro parar pra pensar numa música e pensar “essa música tá errada, falando um negócio meio”. Hoje em dia a gente tem um filtro maior, como com letras machistas, mas isso hoje. Sei lá quantas vezes eu cantei com Tim Maia “Só não é certo dançar homem com homem e mulher com mulher”, e achei que tudo bem, tava lá cantando. Mas se for pensar na letra, é uma letra cancelada. Tim Maia não tá aqui pra corrigir a letra, então quem fará isso? Sei lá. Então, esse poder é muito grande. É muito mais eficiente do que ir numa palestra, do que entrar em papo de ativista, em post de Instagram em que levantam a bandeira… você já vai desconfiado. Alguém tá levantando a bandeira, deixa eu ver: se é do universo de meu círculo, já concordei, não estarei defendida, dou like e nem olho até o final; se é uma pessoa do outro lado, do outro lado da trincheira, olho e já discordei, “que merda que esse pessoa tá falando”. Então, o cinema tem esse poder de pegar as pessoas desavisadas. Você não tá esperando, não tá defendido, não tá querendo gostar, desgostar, concordar ou não. Aquilo entra em você e pronto, aí é ver como será processado dentro de sua cabeça.
O cinema pode ser usado mesmo como uma ferramenta, mas pros dois lados, né? Hoje vemos cannabis em todo lugar, em Hollywood, em todo filme do Seth Rogen, lá o filme stoner virou uma categoria, super normal. Mas no passado era bem pró Guerra às Drogas, combinemos. Existe a tal guerra cultural ou seria isso uma bobagem?
Claro que existe, é uma batalha de narrativas. O preconceito, em relação à maconha, por exemplo, é uma coisa que está tão arraigada. Apesar de você falar com números, com ciência, com dados, usar exemplos de outros lugares do mundo em que isso já foi feito, como nos Estados Unidos. O Colorado é um estado que prosperou, um dos primeiros a legalizar o comércio. E não é só a maconha em si, são os derivados. E aí vai desde óleos essenciais pra pessoas que buscam alguma terapia, até tecidos, alimentos. Quando vou pros Estados Unidos, tem três coisas que eu adoro. Uma é o hemp milk, que é um leito super produtivo e protéico, baixo carboidrato, uma maravilha. É um leite vegetal, bom pra vegetarianos e veganos, faz bem pro corpo, pro meio ambiente. Tem um negócio que chama Hemp Hearts, que são as sementinhas que você… é tipo uma panaceia, com um monte de ingredientes, vitaminas, aminoácidos, dá saciedade, e gostos, é um negócio maluco, muito bom, e fora que tem um cheirinho de maconha engraçado. Dá até pra fazer umas receitas com ele, uns cookies, mas sem THC.
Não dá barato, isso?
Não dá barato. E tem um outro também, que são as sementinhas, que eles fazem meio salgada e coloca na saladinha, dá um crocante, meio azedinho e meio salgadinha. Tem até isso, alimentos que são feitos com a cannabis. Como pode, né [a proibição]? Muita burrice. Uma planta que dá tudo pra você, tudo que a gente precisa. Essa guerra de narrativas é baseada muito na ignorância, preconceito e em cabeça dura. Virou uma questão de pirraça, quase, sabe? Num país agro como o nosso, a bancada agro [do Legislativo] deveria fazer essa reivindicação, é a solução dos nossos problemas. O plantio de cannabis regenera o solo, o que é o contrário do que o de cana faz, que suga todos os nutrientes, a água o escambau do solo. Tem de fazer uma alternância de plantio. Monocultura é uma merda, mas se tiver de fazer uma monocultura, a de cannabis é a menos nociva. Então, é tudo muito burro.
Essa guerra de narrativas é baseada muito na ignorância, preconceito e em cabeça dura. Virou uma questão de pirraça, quase, sabe?
Como você se informa tanto sobre cannabis, pega informações sobre o tema?
Uai, na vida, né? É um tema muito cotidiano. Como é uma questão de você falar, cara, como a gente tá nesse ponto, na história da humanidade, discutindo se deveria ou não explorar essas possibilidades? Pego de meu interesse pelo mundo. Por ser uma brasileira que se preocupa com o futuro do país, o futuro da Amazônia. Em uma economia tão baseada no agro, mas que não faz isso de forma inteligente. As grandes monoculturas, desmatamento, pecuária extensiva e sem freio, não fazem o menor sentido. É explorar a terra de forma pouco eficiente. Pego essas informações porque gosto do Brasil e sou a verdadeira patriota. Não como aquele cara na frente do caminhão. Sou muito feliz de ter nascido aqui e me orgulho de nossa ancestralidade indígena. E tenho culpa por ser filha dos povos que exploraram o Brasil, meus avós eram imigrantes. Tenho consciência desse lugar, mas sou muito grata por ter nascido aqui. Adoro a Mata Atlântica, a natureza, a Amazônia, a cultura indígena. Acho fascinante. Mas tem isso, né? Um país muito grande que foi e ainda é muito explorado, que sistematicamente deixou a população num desconhecimento, pois é mais fácil manipular pessoas que não tem conhecimento. É sistemático, não fornecer educação de verdade pra todo mundo desde a pré-escola. A gente sente as consequências disso.
Falando de ter brasileiras e brasileiros que nos representam, como os VJs me representavam no passado… quem tem esse mesmo papel hoje, de VJs para a juventude? Influenciadores?
Acho que aquela MTV não tá em lugar nenhum hoje em dia, porque aquele mundo não existe mais. A gente era ao mesmo tempo antena receptora e difusora de ideias, de coisas que hoje estão muito… existem, estão por aí, mas estão espalhadas. A MTV era o anti-algoritmo, de uma certa forma. Claro, você ia lá, sabia que horário era o Disk MTV, pra saber o que estava na parada. Sabe aquelas músicas americanas e tudo mais. Mas também tinha outras coisas. Tinha debate, programa que falava de sexo, de rap, de cinema, de tudo, mesmo. Ao mesmo tempo em que você estivesse ali porque o seu algoritmo tava brilhando por alguns daqueles programas, mas ao mesmo tempo via coisas que não estava esperando. Como se alguém estivesse fazendo uma curadoria para você, e a MTV fazia essa curadoria. Não só de música, mas de cultura em geral e comportamento, sobretudo. Aquela MTV prosperou, primeiro, porque não tinha no Brasil algo como aquilo, no sentido de entender os jovens. Era uma TV feita por jovens, também. As pessoas lá tinham 24 anos, a mais velha tinha uns 30. Era muito comum pegar gente lá de 18 anos, assim, tipo, entrou na faculdade e vai estagiar na MTV. Tinha isso. Uma TV realmente muito verdadeira nesse sentido.
E os VJs eram jovens, e aquelas pessoas. Tinha um textinho pra falar, mas a gente fazia muito da cabeça. Tinha muito improviso ali, reação imediata ao que estava acontecendo, principalmente no fim dos anos 90, quando a internet começou a possibilitar que recebêssemos e-mails nos programas ao vivo. A MTV também foi se transformando. Pega a dos anos 1990 para a de mais ou menos 2013, quando acabou, ou acabou aquela MTV, era uma TV totalmente diferente, já. Hoje em dia, não sei porque não assisto. Mas sei que produz pouco no Brasil e a diferença daquela MTV pra de hoje, porque fazíamos o que chamamos no audiovisual “com a cor local”. Alguns fazíamos em cima de programas americanos, ou europeus, só que do nosso jeito. Não era só uma questão de mudar a língua, de falar em português. Era realmente questão de adaptar aquilo para à nossa realidade, para o nosso Brazilsão. E a gente inventava muitos programas também, que não tinham lá, nos Estados Unidos. Lembro de uma vez que a Cris Lobo e o Zico Goes foram para os Estados Unidos para uma reunião das MTVs do mundo todo e isso foi falado lá, era motivo de orgulho para eles. A MTV Brasil daqueles anos 2000 foi reconhecida como a MTV do mundo que mais entendeu o espírito MTV e adaptou localmente. Eles entendiam que era isso: o tipo de programa que fazíamos aqui era muito brasileiro e ao mesmo tempo tinha o que eles chamavam de cabeça MTV, twist MTV, alma MTV, eles usavam vários termos lá.
A MTV era o anti-algoritmo, de uma certa forma. Claro, você ia lá, sabia que horário era o Disk MTV pra saber o que estava na parada (…) Mas também tinha outras coisas. Tinha debate, programa que falava de sexo, de rap
Então, onde tá aquela MTV hoje? Pode pegar alguns influencers que só são o que são porque aquela MTV existiu e eles tiveram onde olhar, diferentemente dos VJs, que não tinha modelo nenhum. Né? Olhava e falava assim “Tem uma câmera aqui, tenho de falar desse clipe, aí eu erro”. Aí a Astrid inventa aquele negócio da três tabelas de apoio, de botar a perninha lá, o que virou marca registrada dos VJs do Brasil. A Astrid um dia falou “pera lá, isso aqui tá estranho” e pegou a três tabelas lá e botou o pé em cima. Quando a MTV foi lançada aqui, todo mundo tava de olho, não dava nada de audiência, mas fazia muito barulho. Aí saiu uma crítica na Folha que falava assim “ah, insuportável ver a MTV, com aquelas VJs que não sabem o que fazer com as mãos, ficam parecendo uns helicópteros desgovernados”. Aí a gente pensou “realmente a gente não têm o que fazer com as mãos”. A gente falava com as mãos porque a gente tava de corpo inteiro no ar e não tinha o que fazer. Aí a Astrid disse assim “me dá aqui esse três tabelas, Zé”, pro Zé Gomes, que trabalhava no estúdio e que ficou quase até o final [da MTV]. Foi lá, botou o pezinho, pousou uma mão lá, quando precisava mexia, quando não botava de volta.
Você mencionou pessoas que por causa da MTV entendem os jovens. Quem são esses hoje? Tem alguns exemplos?
Não sou grande consumidora de YouTube, assim. Pelo Instagram vira e mexe vejo uma pessoa. Mas, sobretudo, assim, tem uma coisa que não falei, do que aquela MTV representava para os jovens, no sentido das pessoas se sentirem não somente representadas, mas acolhidas. Uma das coisas mais legais que fui entender depois que saí da MTV, porque na época só achava que tinha um baita trabalho legal, falava de música e cinema o dia inteiro, com pessoas incríveis e recebia um salário no fim do mês… aí, quando ai fui entender o que a MTV representou para aquelas pessoas, criadas naquele ambiente. Por exemplo, fomos fundamentais pra comunidade LGBT. Uma das coisas que mais me sensibilizam é quando uma pessoa vem falar comigo “Olha, eu morava no interior do norte do Brasil, num lugar que não chegava nenhum tipo de informação, do que é ser LGBT, meus pais não me entendiam, minha escola não me entendia, meus amigos não me entendiam, e aí eu ligava na MTV e vocês falavam que eu era Ok, cool. E que tinham outras pessoas como eu”.
Esse aspecto é muito importante do que aquela MTV representou. A internet, hoje em dia, transformou a forma da gente acessar certos conteúdos e o que acontece é que, como a gente falava pras pessoas, que de outra forma não teriam essa informação, aquilo aconteceu naquele tempo e espaço. Por isso que não dá para comparar com o que existe hoje, não há correspondência. A única relação que posso fazer é que aquela MTV e o que existe hoje no YouTube e no Instagram, é que a gente podia ser muito a gente. A gente tinha nossa personalidade explorada pela TV, num conteúdo difundido via TV, via qualquer tela hoje em dia. É meio isso, assim. Aí você vai encontrar pessoas especialistas nos assuntos mais diversos. A grande diferença é que tínhamos a nossa personalidade muito valorizada lá. A gente tinha o João Gordo, o Thunderbird. Duas quase caricaturas, no melhor dos sentidos. Duas pessoas totalmente fora do padrão. João Gordo falava padrão e tinha essa coisa punk. Ele sempre teve essa persona, mas sempre foi gentil, educado, nunca foi uma pessoa grosseira, apesar dos palavrões. Thunder, a mesma coisa. Claro tinha lá os mais padrão, como eu. Mas existia espaço pra você ser quem você era. E eram corpos dissonantes daquela coisa caretinha, padrão.
A cannabis parece muito presente no mundo das artes, criativo. Por quê? O que ela instiga na arte?
Quando você vê alguma obra de arte que fala sobre a cannabis é quase uma metalinguagem. Com certeza estamos falando de pessoas e artistas que se inspiram pelo efeito da cannabis. Mas não somente, pois é sabido que a cannabis é um baita destravador de criatividade. Nem sempre as ideias são boas. A gente tem muita ideia quando fuma um ou quando toma um, ingere qualquer coisa.
A cannabis é um baita destravador de criatividade. Nem sempre as ideias são boas. A gente tem muita ideia quando fuma um
Você faz isso?
Não pra isso. Mas acho [quando fumo] que tive uma ideia muito brilhante. Ou não me lembro, ou anoto e vejo “que merda de ideia”. Realmente sob o efeito. Lembra daquele episódio do Porta dos Fundos, da cabeça do Gregório? Tá o Totoro como guardião das ideias do Gregório [Duvivier]. Aí cai um papelzinho. Ele olha e fala “tá numa fase meio ruim”. Aí chovem papeizinhos. E um cara fala aí “Tá caindo um monte de ideias aí”. Aí ele [Totoro] fala “não, isso é quando ele fuma maconha, não vai prestar”. Aí ele pega uma [ideia] de exemplo, não prestava, outra também não. Então, é assim, não tem jeito, vai ser tudo ruim. Sou meio assim, sabe? A cabeça do Gregório quando fuma. Não sai coisa boa.
Agora, é muito bom pra quando você precisa solucionar alguma coisa. Por exemplo, tô fazendo um filme, tô na montagem ou no roteiro, mas não sei como sair de um lugar pra chegar no outro. Aí, sim, você destrava geral, sabe [com maconha]? Aí, funciona. Pra muitas pessoas, faz muito bem. Mas, sei lá, tenho uma coisa que eu não tinha acesso quando eu era jovem e li recentemente: fumar maconha quando você é jovem, quando está em formação, até os 19 anos, 20 anos, não é legal. Mas quando é mais velho, mais velho mesmo, 70 e tals, a maconha pode refazer sinapses que estavam interrompidas ou adormecidas.