
Augusto Soares estava indo treinar baguazhang, arte marcial similar ao kung fu, enquanto fumava um, quando começou a lembrar das cenas de Drunken Master (O Mestre Invencível, naquelas traduções de Sessão da Tarde que ficaram no Brasil). De 1979, o clássico filme chinês protagonizado por Jackie Chan, ícone do cinema de artes marciais, conta a história de um jovem que aprende um estilo de kung fu “do bêbado”, com movimentos que lembram os de embriagados. Foi aí que lhe veio a ideia: Por que não um filme de kung fu com o “estilo da fumaça”?
Quando chegou à praça em São Paulo onde treinava com o mestre e amigo André Sigwalt, logo compartilhou a ideia. “Paramos na mesma hora de treinar”, lembra Augusto. A dupla então já começou a bolar o filme. André já tinha experiência em cinema, Augusto em vídeos. Ambos se uniram, toparam investir dinheiro do próprio bolso e assim começou a saga do primeiro filme totalmente stoner do Brasil.
O Mestre da Fumaça conta a história de dois irmãos amaldiçoados pela “Vingança das 3 Gerações”, que levou à morte do pai e do avô e fez com que a máfia chinesa os caçasse. Para revidar, o irmão mais novo, interpretado por Daniel Rocha (que também fez o papel do boxeador Popó na série Irmãos Freitas), precisar achar um enigmático e emaconhado mestre de kung fu para aprender o ancestral “Estilo da Fumaça”.
A história faz referência aos filmes antigos de kung fu, com maldições, cenas de lutas coreografadas, a criação de um estilo de luta próprio ao filme, a figura do mestre excêntrico e do jovem aprendiz, o treinamento no estilo Karatê Kid (mas com desafios como bolar um beck) e até na imagem de um vilão totalmente do mal (e estrangeiro). “Vimos uns cinquenta filmes de kung fu antes de criar o argumento. Fumava altos baseados assistindo”, compartilha André.
A GANJA… MAS NÃO EM CENA
Além dele e de Augusto, que dividiram as funções de produtores, roteiristas e diretores, por vezes as sessões de cinema contavam com atores e atrizes do elenco. “Fumar para ler o roteiro é essencial. E também para ver outros filmes específicos que dialogam com o nosso”, comenta Luana Ichikawa, atriz que faz um papel que seria o mais próximo de “mocinha” do filme, com vasta experiência nos palcos de teatro de São Paulo e que hoje mora em Nova York.
Além das obras de kung fu, a equipe e o elenco se dedicaram também a assistir longa-metragens stoners, o clássico gênero canábico que tem em Cheech & Chong o símbolo máximo, mas perdura em filmes modernos como Superbad (2007), Pineapple Express (2008), Harold & Kumar Go to White Castle (2004). Que no Brasil ganham títulos caretas como Segurando as Pontas (Pineapple Express) e Madrugada Muito Louca (White Castle).
Atores e atrizes também tiveram de treinar kung fu com o mestre e diretor do filme, André Sigwalt, na mesma praça onde surgiu a ideia do roteiro. Apesar de que boa parte já tinha alguma experiência em práticas de luta. “Já tinha treinado uns três ou quatro anos de kung fu, além de karatê”, pontua Luana. “Quando era jovem, praticava kung fu por curiosidade e achei genial a ideia de ter um estilo que uso os efeitos da maconha”, acrescenta o francês Jean Paul Kinfoussia, também conhecido pelo seu nome como rapper, Pyroman, e que mora no Brasil e atuo na produção. Pyroman acrescenta que tem muito mais experiência como maconheira, já que fuma faz uns 20 anos.
A maior parte das filmagens de O Mestre da Fumaça ocorreram em 2019. Todos os membros da equipe e do elenco são, evidentemente, a favor da legalização. Ser maconheiro, porém, não era pré-requisito e nem todos são adeptos. O caso mais emblemático é o do próprio Mestre da Fumaça, interpretado pelo ator chinês Tony Lee, que mora em São Paulo. Ele nunca experimentou maconha na vida.
Durante as filmagens, raros eram os atores e atrizes que fumavam um. “Sou ansiosa e posso ‘panicar’. Tenho conhecidos que fumam logo antes de entrar em cena, mas para mim, a depender do jeito que bate, não rola (atuar)”, compartilha Luana, que em outras situações é adepta.
O fumo era um costume mais comum entre a equipe de filmagem, como entre os próprios diretores, que seguem o hábito de forma rotineira e que se vêem, em certa medida, como ativistas. “Não quisemos ser panfletários, mas não dava para fugir dessa parte. Há um ativismo inerente, que dosamos com carinho”, avalia Augusto, um dos diretores-roteiristas-produtores.
Apesar de estar presente nos bastidores, não havia cannabis de verdade nas cenas. “Substituímos por outras ervas, legalizadas, para não ter problemas depois, mas também porque se os atores fumassem aquela quantidade, sem costume, e batesse forte, iam acabar esquecendo o texto, pode ficar chapado e baixar a pressão”, conta André, o outro diretor. Foram testadas várias plantas, como kumbaya e tabaco. “No fim, a campeã foi a alfafa, que é comida de coelho”, diz o diretor do filme.
Isso não impediu que alguns atores entrassem bem no papel. Foi assim com Tony Lee, o senhor chinês que interpretou o mestre, após uma cena na qual fumava um baseadão de 50 centímetros como parte do treinamento canábico do Estilo da Fumaça. “Ele veio até mim, doido, falando ‘Só vocês mesmos pra fazer eu fumar cocaína’. Ao que eu interrompi ‘Não, Tony, nem maconha é. Isso é alfafa. Cocaína é a droga do vilão.”
NÃO PERCA!
O Mestre da Fumaça estreou nos cinemas no ano passado e teve sucesso com a crítica. Na tradicional 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, ganhou o prêmio de melhor filme de ficção brasileiro. Assim como levou o Golden Ganja Awards no The Amazing Stoner Film Fest, festival canábico na Tailândia. Em fevereiro, o filme estreou no catálogo da Netflix, um grande feito para um longa brasileiro totalmente independente.
Segundo exaustivas pesquisas realizadas pelos próprios diretores, O Mestre da Fumaça é o primeiro longa-metragem stoner do Brasil. E pode ser também o segundo, com uma continuação em vista. “Não posso adiantar a história, para não estragar. Mas se antes tínhamos receio disso, por conta da imagem da maconha, o sucesso do filme agora nos permite procurar até uma parceria com uma produtora grande para fazer O Mestre da Fumaça 2“, instiga Augusto, o breezado que teve a ideia original enquanto fumava um à caminho do treino de kung fu.
Filipe Vilicic




