
A gente ama a Roberta Martinelli porque ela é uma VJ da MTV numa época em que já não há MTV. É como uma VJ solitária. Por isso, também, é amada por tanta gente. Ela tem aquele despojo, carrega aquela simpatia sem ser forçada, uma honestidade de MTV, de TV Cultura.
À frente do programa Cultura Livre, da TV Cultura, desde 2011, Roberta muitas vezes nos apresenta músicas, discos, artistas que a gente não conhecia, assim como faz uma amiga. Diariamente, também na rádio Eldorado, lá está ela se misturando com a música brasileira e entrando na nossa casa, no nosso carro.
Essa “paz de maconha” que ela passa, como ela mesma diz, tem mais a ver com “o olhinho caído de nascença” do que com maconha, que ela já não usa há alguns anos. E mesmo assim, praticamente abstêmia, reconhece que ficar lúcida nesse mundo não é mole não.
Roberta achou que o pessoal ia ficar chateado porque ela já não fuma. Magina, Roberta! A gente gosta de contar diferentes experiências e pontos de vista. A beleza da maconha é que ela não aprisiona. Muita gente deixa de fumar maconha, e isso não é ruim. É como um casamento longo que acaba, não quer dizer que não deu certo, mas que chegou o momento de mudar alguma coisa.
Nesse papo entre Anita Krepp e Roberta Martinelli, não tem só maconha. Tem maternidade, lucidez, autoconsciência, música, umas breezas (claro), como a vontade que sente de usar alguma substância psicodélica em cena – sim, ela também é atriz –, porque assim “eu me sentiria protegida nesse sentido”, conta ela, que até hoje não experimentou nenhum psicodélico.
Uma vez eu vi você perguntando no Instagram como escrevia beck, e as dezenas de respostas e repercussões muito engraçadas disso…
É muito maravilhosa essa história! Eu tava passeando com a minha filha na rua. E aí tinham três jovens fumando maconha e quando eu passei eles esconderam o beck e eu senti “uau, realmente cheguei no momento que eu já sou a tia Lourdes passeando com a neném”. As crianças esconderam o beck e eu fiquei muito abismada que eles tinha escondido o beck, aí eu fiz um stories escrevendo que eles tinha escondido o beck, e escrevi beque, com q, u, e, aí todo mundo começou a rir porque não era assim que escrevia beck, que era beck com c e k, só que Beck é o cantor! Aí virou uma piada gigantesca. Como é que escrevia? A gente começou a falar que era a cerveja, era o cantor, foi uma uma piada enorme e a gente ficou horas nessa, juro. Acho que foi meu story mais visto da vida. E, afinal, como é que escreve? (risos)
Ah, cada um escreve como quiser (risos)… As pessoas acham que você tem cara de brisada?
Eu acho que as pessoas acham. Teve uma uma vez um negócio que acho que rolou no Twitter (hoje, o X), alguém falando e eu eu repostei e foi muito engraçado que era “a Roberta Martinelli passa uma paz de maconha pra gente nos programas dela”. E aí virou uma piada e a gente ficou muito tempo falando da tal da paz da maconha que eu passo. Eu acho que vem dos meus olhos caídos, que é uma coisa de nascença e que não é fruto da maconha, mas as pessoas acham que é. Eu acho que é essa carinha, assim, que dá um ar.
Mas você passa mesmo uma paz…
Não sei da onde né? É uma paz lida, não é uma paz real, não é uma paz sentida ainda, ou por vezes, enfim… não, não, não é mesmo.
Mas você afinal é brisada ou não é brisada?
Eu já fui. Não sou mais, não. Sou ex [brisada]. Eu já fumei bastante na vida, mas faz bastante tempo que eu parei. Acho que até antes de ter a Rosa, a minha filha, que tem 5 anos. Eu parei de fumar faz uns 6, 7. Começou a bater errado, começou a dar ruim. Daí uma hora deu ruim mesmo e aí eu fiquei com medo e fui me distanciando e me distanciei total.
Mas você não acha que tinha alguma coisa a ver com quantidade de THC e o equilíbrio com o CBD?
Me falam que sim, que pode ser, mas eu fico com medo, eu fiquei receosa, de fato. Eu algumas vezes tentei e nunca foi igual de novo. Eu acho que talvez tenha a ver com a idade, com o passar do tempo também, eu juro que eu acho! Eu acho que são as novas nóias, acho que é o mundo que a gente vive, acho que são coisas que vão também acumulando. Com o tempo eu fui perdendo uma leveza que eu tinha e que eu conseguia mais ir e vir numa boa. e que agora eu acho que eu tenho mais um peso, mesmo.
É, essa coisa da leveza eu também sinto que perdi totalmente na maternidade e espero recuperar. Mas engraçado que isso aconteceu com você antes mesmo da Rosa, né?
Foi antes da Rosa, depois piorou muito, e você falou “ah, espero que isso passe” e eu não sei se passa de fato, mas a maternidade, ela dá uma… para mim deu uma quase panicadinha, assim, de ter uma pessoa que depende de mim e eu preciso estar muito bem, ela precisa estar muito bem. Então me deu uma atenção plena que eu preciso estar sempre muito, muito consciente, muito sabendo do que eu tô fazendo, em que momento eu tô… então eu perdi uma leveza, mesmo. Eu tava lendo um post outro dia, nem lembro de quem era, falando que tinha saudades de ser só filha. E é isso, quando você deixa de ser filha e passa a ser filha e mãe muda muito o rolê, eu acho que pode ter a ver com isso também, isso acentuou.
“A maconha tinha esse lugar de me baixar a bola, de dar uma desligada no controle geral“
Me conta de antes, da época que você era brisada, como era o seu consumo?
Eu sempre fui muito muito noinha, né? Eu sou uma pessoa noiada, então a maconha tinha um lado que ela sempre me relaxou muito e me deixava num lugar mais… mais da paz de maconha mesmo. Mas eu sempre tive uma paranoia muito grande… eu nunca, nunca fumei e trabalhei. Eu sempre fazia momentos separados porque eu pensava “nossa, imagina fazer um programa fazendo alguma coisa, né?” Porque você tem o ponto no ouvido, você tem um controle, você tem que fazer mil coisas, então isso para mim era meio demais. Eu via gente fazendo e falava “nossa, que loucura isso, jamais que eu vou conseguir fazer isso na vida”. E aí teve um uma vez que teve um show no Sesc Vila Mariana, era um show que a Letrux fazia que chamava Tru & Tro, Desfrute ou Frite, que era um outro projeto dela. E aí nesse projeto rolou uma coisa muito engraçada que foi: tava eu e um amigo meu, Fábio Rigobelo, e a gente fumou e entrou no show. No que a gente entrou no show, começou, tal, show rolando, de repente entrava uma pessoa com uma placa escrito FUMAÇA, no que entrou a placa escrito FUMAÇA, começou a tocar o alarme de incêndio do Sesc e as pessoas começaram a evacuar o teatro. Eu e o Fábio, a gente se olhava e falava “meu, não tá dando para entender se a vida e a arte se encontraram no exato momento ou se a gente está viajando ou se ninguém tá entendendo nada”. Enfim, foi tipo muito difícil, a gente começou a entrar numas “o que que tá acontecendo?”. A Letrux saiu do palco também, todo mundo saiu do palco, chega um segurança do Sesc que falou pra gente assim “gente, por favor, vocês queiram me acompanhar que a gente tá num procedimento de emergência”. Eu falava assim, “moço, olha no meu olho e fala se é verdade ou não é, porque tá muito difícil de entender o que que tá acontecendo”. E aí o cara olhando tipo “esses dois vão ficar aqui? São dois malucos, né?”. Aí a gente saiu, foi todo mundo pra calçada do Sesc. Tinha realmente alguma coisa acontecendo no 4º andar, uma lixeira pegou fogo, sei lá, e era realmente um procedimento de emergência e a arte e a vida tinham se encontrado no exato momento e tinha acontecido isso. Mas naquele dia eu falei “meu Deus, o quê tá acontecendo?”. E quando a gente voltou para o palco, porque aí acabou o procedimento de emergência, e quando voltou, a Letrux começou a cantar ´teatro teatro, es todo teatro´. Nossa! A gente ficou assim, “não, não é possível! Que que tá acontecendo? Eles tão querendo acabar com a gente”. Essa vez foi o foi o auge, foi muito louco.
Mas, pera, até eu tô confusa e eu nem fumei (risos), isso foi teatro ou ela tava zoando todo mundo?
Depois a Letrux contou que o que aconteceu foi que ela queria entrar com fumaça de fato e o Sesc não deixou porque o Sesc não deixa entrar com fumaça e quando começou o alarme de incêndio, ela achou que eles estavam zoando ela também. Enfim, cada um achou uma coisa, foi um dia difícil de se compreender, mas a gente conseguiu de alguma maneira sair de lá com todo mundo se divertindo, mas foi cada um numa trip. Cada um na sua brisa.
E falando em brisa, qual que era a sua brisa? Nunca para trabalhar, mas com amigos? Sozinha? Como era o seu momento com a cannabis?
Meu, eu tinha uma coisa, eu tenho isso, né? Acho que isso que se apoderou de mim com o passar do tempo, que é essa tensão, essa rigidez, essa coisa de ser durinha, sempre foi uma coisa que teve comigo, então a maconha tinha esse lugar de me baixar a bola, de dar uma desligada no controle geral. Então era uma relação prazerosa, eu gostava muito, eu sempre gostei muito de fumar e me fazia bem fumar, porque baixava uma ansiedade, baixava uma cobrança, eu fico brincando que eu ficava uma pessoa normal (risos). Porque eu sou muito pilhada. E aí eu ficava mais mais paradinha, apesar de não parecer pilhada, porque eu tenho essa voz de paz de maconha que me persegue, mas a minha relação era essa, era uma relação boa, e com o tempo começou esse gatilhinho, assim, era uma vez ou outra que eu me sentia mal, aí começou a aumentar e começou a espaçar. Até que não, não quero mais. Eu fiquei achando, falei “ih, as pessoas da revista vão ficar bravas comigo”, porque eu mudei de time, né? No final das contas.
Magina! A gente ainda tem fé que você vai voltar em algum momento (risos). Você não sente falta?
Sinto falta do que eu sentia. É louco, né? Porque eu sinto falta do que eu sentia antes de ter o que eu tive, mas tendo o que eu tive eu não sinto falta. Eu tava lendo um livro da Rosa Monteiro que tem um título maravilhoso, “O Perigo de Estar Lúcida”. E eu acho um pouco isso, assim, é super difícil estar lúcida, ainda mais no mundo em que a gente vive. É uma decisão muito louca, eu arrisco dizer que uma decisão mais louca é a gente ficar lúcida nesse mundo. Eu adoraria conseguir resgatar o sentimento que eu já tive, mas eu não tenho conseguido.
“Eu sempre gostei muito de fumar e me fazia bem. Baixava uma ansiedade, baixava uma cobrança, eu fico brincando que eu ficava uma pessoa normal”
Tanto é assim, dessa coisa de ficar lúcido é uma loucura, que quase todo mundo tem o seu escape, a sua cervejinha. Eu não conheço muitos abstêmios…
Eu sou, né? Praticamente. Agora eu não bebo, não fumo… e adoro quem bebe, quem fuma. Adoraria beber e fumar, mas acho que são momentos da vida e acho que também respeitar o momento que se vive é uma grande lição, de sacar o que que tá acontecendo. É claro que quando eu encontro pessoas que eu tinha uma ligação forte, que a gente sempre fumava, a primeira coisa que eu falava era “putz, que legal”, mas aí eu penso que eu tô num momento que talvez não seja legal. Tem muita gente que fuma maconha e uma hora para.
E o que é ser breezada pra você, Roberta?
Pergunta difícil, essa. Quando você fala breezada eu fico pensando na sensação do desacelero, de ficar numa rotação mais lenta, para mim é isso. Eu me lembro da primeira vez que que eu fumei maconha, que a gente era jovem e tava numa praia e chegou um argentino. Clichê do clichê do clichê essa história, mas chegou um argentino e ofereceu, pegamos, não sabia fazer, ficou 6 horas enrolando. Aquela coisa né? Aí conseguiu, a gente fumou. Era eu e mais quatro amigas e elas ficaram tipo alucinadas e eu fiquei parada assim, não entendendo nada. Falei “Gente, que que tá acontecendo? Eu fiz alguma coisa errada porque não aconteceu nada”. Eu ficava olhando para elas e eu acho que eu nunca fiquei desse jeito sabe? Eu até hoje acho que elas estavam performando, que elas estavam me enganando, que eu falava “Não, não é possível, gente. Não dá para alguém ficar assim”. Pra mim não muda grandes coisas, mas estar breezada pra mim me dá quase uma janelinha no olho, uma janelinha de calma. E quando ela deixa de ser calma e passa a ser nóia, aceleração, taquicardia, aí não é legal.
Aí é que tem uma coisa errada acontecendo…
É, e nem sei se é com a maconha ou se é comigo a coisa errada, né? Esse é o lance também, que é tão mais profundo do que dizer que a droga é o gatilho. Talvez o gatilho já esteja em mim. Eu só não posso agatilhar, né? Talvez o que eu tenha que arrumar seja eu. Eu acho que sou eu mais do que a substância, sempre. Eu acho que são as pessoas, são os momentos, né? Ao mesmo tempo que as pessoas falam que se fumar no momento legal vai dar certo e às vezes você tá no momento legal e não dá certo também, entendeu? Então eu não sei se existe o tal do momento legal quando você não tá bem. Mas quem é que tá super legal, gente? Depois de uma pandemia, depois de tudo que aconteceu, Bolsonaro, é impossível. Não tem como, não, o gatilho tá aí.
As suas rodas de amigos são fumetas? É uma coisa que de fato tá no dia a dia das pessoas, pelo menos das pessoas da sua bolha?
Eu acho que tá, mas acho que tava mais, sabia? Sinto que diminui e não sei se é porque eu parei… Não se puxa tanto assunto, mas enfim, roda de música, de arte, sempre tem, então tem muita gente que fuma na minha volta e acho que tem bastante. Mas diminuiu, não sei se é a idade… ou eu tô achando que tudo é a idade hoje (risos).
Mas diminuiu de você ver rolar na roda ou de falar verbalmente a respeito da maconha?
Falar acho que se fala muito mais hoje. Antes era muito mais uma coisa encoberta, fala baixinho, olha pro lado. Hoje fumar é uma coisa muito mais aberta. Tudo mais aberto, mas eu fico pensando como não é mais como antigamente do tipo “ai vamos fumar, vamos fazer isso”. Talvez eu não repare mais tanto nisso, pode ser. E como eu não tô fumando também reparo menos ainda, talvez o meu olhar para isso tenha diminuído com o passar do tempo, e não a quantidade de maconha rolando.
Você anda pelo teatro e pela música, como que você define a brisa de cada um?
Acho que é diferente o uso. Eu fiz teatro e aí o camarim do teatro fica todo mundo ensaiando a voz, fazendo respiração, fazendo não sei o quê, e no camarim da música fica todo mundo fumando, bebendo. Acho que a música tem uma coisa mais de celebração festiva, que talvez envolva um camarim mais tunado do que o do teatro. Acho que é mais concentração corporal, tem um lance mais de preparações técnicas, o que a música também tem mais agora, sabia? Acho que é… esse oba oba, eu acho que a gente tá ficando, todo mundo vai ficando mais técnico com o tempo. Porque eu tô falando disso e lembrando de umas bandas indies nos porões assim… mas vendo essas mesmas bandas hoje, elas estão com fono, fazendo aquecimento vocal, preparando a voz, então acho que os tempos estão mudando. A nossa noção de profissionalização e a nossa noção do que fazer também muda, e aí muda o nosso comportamento e isso passa a ser uma coisa que aconteça talvez depois do trabalho. Porque agora enquanto eu tava falando eu me achei injusta com a música porque hoje em dia os mesmos artistas que eu já vi fazendo um monte de festinha em lugares undergrounds, hoje ficam ali ensaiando a voz…
Mas isso antes do show, né?
Antes, antes! Quando a gente era jovem, antes era uma balada também. Eu acho que existe um uso jovem que é mais inconsequente, de qualquer coisa, e que com o tempo a gente passa a exercer as nossas funções mais corretamente. Acho que é isso, e não que isso exclua a maconha, não que exclua a bebida, não que se exclua outras coisas, mas a gente passa a fazer um uso mais responsável, mais ajuizado.
“A música foi responsável muitas vezes por romper preconceitos que as pessoas têm com as drogas“
Você começou a fumar com quantos anos, ainda na adolescência?
Eu fumei a primeira vez acho que eu tinha uns 15, 16, mas aí eu não comecei a fumar, só foi aquela vez na praia que eu tava com as minhas minhas amigas. E aí eu lembro que a gente foi para escola. E aí uma das meninas contou para a mãe. A mãe contou na escola e foi aquela coisa, rodou todo mundo. E aí eu escapei na hora de rodar. Esqueceram do meu nome, então só eu não rodei, meus pais nunca souberam. Fui sortuda, porque eu que organizei o movimento, fiz tudo e ainda saí de anjinha do rolê.
Como é que você vê essa relação histórica entre cultura canábica e música? Com o jazz, o rap, o funk…
Ah, a maconha é muito ligada com música. A música foi responsável muitas vezes por romper preconceitos que as pessoas têm com as drogas, durante muito tempo, por grandes artistas não só cantarem como contarem histórias, fumarem. Mesmo o Planet Hemp. Pensando no trabalho que o D2 fez e que era um trabalho, imagina né? Quando o Planet Hemp bombou era um absurdo aquilo, quem era aqueles caras muito loucos que faziam aquilo? E hoje o Planet Hemp é uma banda pop famosa, é outro rolê. E isso se deve muito também ao trabalho que eles fizeram. É um trabalho que se tem falando sobre droga e música e juntando as coisas todas. É muito ligado.
É, eu tinha 9 anos de idade, nem sabia o que aquilo queria dizer e já cantava toda animada…
Tinha isso total, o Planet Hemp tinha isso, todo mundo cantava “eu canto assim porque eu fumo maconha”. E nem fumava, mas cantava muito feliz. Foi um baita trabalho e hoje são uns baita artistas pop. Eu lembro direitinho quando conheci o BNegão, eu tinha uma imagem do Bê como um cara muito rock ‘n’ roll, da pesada, e ele é o cara mais doce, fofo do planeta Terra. É muito um estereótipo de uma coisa e de um título, mas é o cara mais legal do mundo, não tem ninguém que conheça o Bê e vai falar que não é.
“Eu já fumei maconha, eu já bebi bebida alcoólica. Eu já comi chocolate…“
Você fala de maconha abertamente, sem problemas?
Olha, eu não vejo problema, mas eu acho que as pessoas vêm problema ainda, né? Algumas pessoas veem problemas. Até fiquei pensando agora enquanto falava com você, “nossa, as pessoas que fumam vão ficar bravas comigo, com essa entrevista”, porque eu tô falando que hoje em dia eu tenho bad trip, que eu não passo bem, fico mal… acho que a maconha é uma coisa super natural. É a mesma coisa de falar que já fumei cigarro. Eu já fumei maconha, eu já bebi bebida alcoólica. Eu já comi chocolate (risos). São coisas que a gente faz na vida. A grande questão é ter a questão. Então acho que a gente tem que falar. Mas é claro que dá uma certa nóia de como as pessoas vão interpretar, as instituições… mas é uma bobagem, né? Tem que ser enfrentada de alguma maneira.
Qual o mundo que você gostaria que a Rosa encontrasse quando ela chegar na adolescência, no que diz respeito à como a sociedade lida com substâncias hoje tidas como ilícitas?
Acho que podia ser um mundo mais de boa com tudo, com menos criminalização, com mais informação, com as coisas como devem ser né? O cigarro faz um mal danado e é legalizado. A gente sabe, quem quer consome sabendo o que tá fazendo, né? Eu acho que é isso que a gente tem que saber, escolher fazer tendo informação. E tendo tudo, né? Do jeito que tem que ser tá tudo bem. Você mostra os problemas e cada um sabe o que faz.
E psicodélicos, Roberta, você já se aproximou desse tema?
Não usei, nunca, nada. Juro, nada. Morro de medo. Já li todos os livros tipo “Flashbacks – Surfando no Caos”, do Timothy Leary. Fauzi Arap, com “Mare Nostrum”. Sempre tive uma tentação, uma coisa curiosa. Lia muito sobre, fazia tudo, mas eu tenho pânico só de pensar, não tenho coragem. A única droga que eu usei na vida foi maconha, e cigarro e álcool, nunca usei outra droga. Mas li tudo que você pode imaginar, sou uma pessoa super lida. Às vezes eu falo que queria um processo de teatro que eu tivesse que usar alguma coisa em cena. Eu fico achando que estaria protegida nesse sentido, mas tenho muito medo. Sou bem medrosinha.