Reportagens

A saga da cannabis em quadrinhos

Box Brown, desenhista renomado, conta sobre como sua prisão por fumar o motivou a documentar a história da maconha
28|03|24

Era 1996 e ele tinha 16 anos de idade quando foi preso por fumar um baseado no campo de baseball público de sua cidade-natal, Filadélfia, na Pensilvânia. Naquela época, a maconha era estritamente proibida no estado e aquela era “a quarta ou quinta” vez em que experimentava. Brian “Box” Brown e seus amigos estavam relaxando quando viram policiais correndo na direção do grupo. Tentaram fugir, sem sucesso. Foram algemados e levados para a delegacia. Ele teve de pagar 600 dólares de multa e ficar alguns meses em liberdade condicional.

A história de repressão, porém, saiu pela culatra. Sua prisão fez com que Box Brown mergulhasse de cabeça na cultura canábica, tornando-se usuário crônico e, hoje, referência artística e de ativista para os adeptos da planta.

Quadrinista talentoso, tornou-se conhecido no movimento dos amantes da ganja, principalmente em seu país e no Canadá, com sua primeira HQ de não ficção sobre o tema, Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos. Lançada em 2019, a obra conta como os Estados Unidos montaram narrativas falsas para basear a Guerra às Drogas, em especial com movimentos políticos dentre os anos de 1930 e 1960, inclusive nas leis proibicionistas brasileiras. Agora está produzindo uma sequência, Legalization Nation (A Nação da Legalização), que vai compilar tirinhas que publica em seu perfil no Instagram.

A Breeza o encontrou no Beco do Batman, ponto turístico tradicional da Vila Madalena, bairro hypado (e classicamente breezado) de São Paulo. Era uma segunda-feira, início de dezembro passado, e Box Brown visitava a cidade como atração da Comic-Con brasileira, a CCXP, o maior evento de cultura pop do planeta.

Ao avistar um grafite do Batman no beco que leva o nome do super-herói, ele questionou “Por isso o nome desse lugar?”. O repórter respondeu que “Alguns dizem que sim… mas que na adolescência, no fim dos anos 1990 e início dos 2000, também gostavam de espalhar o boato de que seria por algo que a gente fala quando tá muito doido, assim ‘tô mais louco que o Batman'”. Depois de questionar e entender o significado da expressão, o quadrinista disse que vai tentar popularizá-la em sua terra-natal, como “Crazier than Batman”, talvez colocando isso em alguma HQ futura. E então ele caiu na risada.

RELAÇÃO (ÍNTIMA) COM A ERVA

No Brasil, Box Brown conseguiu algumas gramas da planta com um colega local. “Fumei no evento, nas ruas perto do hotel. Mas sei que se eu fosse um negro e pobre, dificilmente não me daria mal.” Descendente de italianos e irlandeses, ele estava hospedado em um hotel chique no bairro dos Jardins.

Também é comum que fãs levem algumas flores de presente para ele. Ocorreu o mesmo na CCXP brasileira, em que ganhou o mimo de um admirador. “Acendia meu baseado numa área onde os funcionários iam fumar cigarro. Ninguém me repreendeu. Um cara só me olhou, fez alguma piada em português, deu risada e saiu andando. Ele deve ter pensado ‘quem é esse gringo querendo fumar esse baseadão inteiro sozinho'”.

Na Filadélfia, onde apenas o medicinal é totalmente liberado, chegou a ter uma receita médica para o consumo de cannabis para combater TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), ansiedade e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade). Mas diz ter deixado de renovar o documento por preferir comprar de cultivadores ilegais.

Autorretrato de Brian Box Brown, com efeito avermelhado inserido pela Breeza

“É melhor e mais barato”, garante. Segundo Box Brown avalia, a legalização em seu estado acabou elevando as taxas, criando uma série de burocracias e restrições para empreender no setor e, no fim, limitando a produção e o consumo a uma elite.

Ele comenta que perto de seu estúdio na Filadélfia há uma região que ele julga ser similar à cracolândia paulistana. “Vejo gente sendo presa lá todo dia, inclusive por porte e venda de maconha. Enquanto isso, no mesmo bairro há dispensários que vendem a mesma planta, mas para quem tem dinheiro.”

É obcecado por estatísticas sobre o assunto: “No ano passado, milhares ainda foram presos na Pensilvânia por venda e porte. Sendo que é um estado no qual o uso é legalizado ou descriminalizado na maioria das maiores cidade.”

No dia a dia, vê a erva como essencial. Ele compartilhou que uma viagem recente para se apresentar em um evento em Paris foi estragada pela falta de maconha, já que não conseguiu arranjar em nenhum dos dias em que esteve pela capital francesa. “Tudo fica mais chato, devagar, tenho dificuldade de focar nas coisas, só dá vontade de ficar trocando de canais na TV.” Já quando está sob efeito… “fico inspirado, faço tudo com prazer e tranquilidade, produzo muito”.

A (INJUSTA) HISTÓRIA DA PLANTA

Após sua prisão aos 16 anos de idade, ele se indignou com a perseguição à marijuana. “É hipócrita como alguns stoners que só estão relaxando num canto são presos, enquanto menores de idade bêbados e brigões são liberados.”

Box Brown tem a característica de ficar sempre obcecado por um assunto. Só que quanto mais observa um tema, mais também aguça seu olhar crítico, ácido e anticapitalista.

Em André: O Gigante, lançado originalmente em 2014, narra a história de um ícone da luta livre dos EUA. A HQ o catapultou para a fama, estreando em nono lugar entre as mais vendidas da lista mais popular do gênero, a do jornal The New York Times, ranking no qual permaneceu por três semanas consecutivas. Com Tetris: os jogos que as pessoas jogam, de 2016, desenhou a história da indústria de videogames, que roubou tempo de (mas também divertiu e diverte) muitas pessoas. Já em o Efeito He-Man, narra como o mercado dos brinquedos moldou a forma como consumimos tudo e qualquer coisa.

“Mexo com temas pelos quais as pessoas são apaixonadas. Então é costumeiro aparecer fãs revoltados, como os adultos que amam brinquedos por nostalgia de sentimentos de infância e que não conseguem digerir a informação de que foram manipulados por uma indústria, mesmo que isso seja tão óbvio”, avalia ele, que em 2019 ganhou o prêmio Eisner, o mais prestigiado do mundo dos quadrinhos, pela obra Is This Guy For Real? The Unbelievable Andy Kaufman. Seus trabalhos já traduzidos para o português são publicados pela Editora Mino.

O fascínio pela cultura canábica vem desde a adolescência. Ele passou então a ver e ler tudo que pintava do assunto. “Brinco que culpo o governo Clinton pela minha prisão. Ele quis endurecer a Guerra às Drogas e assim dobrou o número de presos nos EUA por esse motivo, de 1995 para 1996, de 200 mil para 400 mil ao ano. Em 96, fui preso.” 

Quando começou o processo de legalização, afirma ter se espantado como as pessoas que defendiam a liberação, mas nada entendiam da história da planta. “No máximo, a ligavam ao jazz, ao rap e aos mexicanos.” Na primeira vez em que sugeriu uma HQ sobre o tema para uma editora, não teve êxito. Após o sucesso comercial de seus primeiros livros e com a popularização e legalização da cannabis, mudaram de ideia.

Em Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos, lançado há quatro anos, ele parte de uma fantasiosa primeira vez em que uma pessoa teria consumido maconha e sentido a pioneira brisa. Daí, percorre origens históricas e mitológicas, como as na Índia e a na religião hindu. Em uma narrativa didática, mas ainda assim divertida e com surpresas mesmo para entendidos do métier, resume a origem da cultura canábica até chegar ao ponto principal da HQ: o esforço regional e depois global dos EUA em criminalizar a maconha como forma de repressão econômica, cultural e social de grupos étnicos, como os negros, os latinos e os indianos.

Obra altamente indicada à comunidade breezada. Aos que querem saber da história da cultura canábica, pode-se ter como parada obrigatória. Tanto que, assim como é com as outras HQs documentais de Box Brown, a obra é referência para estudos em salas de aula dos EUA.

Um dos vilões centrais na trama não ficcional da HQ é Harry J. Anslinger, que basicamente criou e chefiou a divisão anti-narcóticos do governo dos EUA, entre os anos de 1930 e de 1960. Ele é o responsável pela fabricação de uma série de documentos falsos que serviram de desculpas para fomentar a narrativa das Guerras às Drogas, espalhada pelo governo de seu país por todo o planeta e intensificada na gestão de Richard Nixon na presidência, entre 1969 e 1974. Ou seja, Anslinger, com sua farsa global, é diretamente culpado pelo injusto encarceramento em massa em países como EUA e Brasil.

A HQ Cannabis chegou a lista de gibis mais vendidos nos EUA, foi traduzida para idiomas como francês, italiano e português e caiu na graça do nicho canábico, em especial dentre os países da América do Norte. Box Brown afirma estar ganhando um bom dinheiro com encomendas como de embalagens para jarros de flores, pôsteres para eventos do ramo e trabalhos similares pedidos por admiradores da indústria da maconha.

“Outro dia fui convidado para ser jurado de um prêmio dado ao melhor cultivador do estado de Nova York”, comentou, rindo. “Por algum motivo, fãs também gostam de enviar suas cepas caseiras para eu experimentar. Eu aprovo isso.”

HOMENS BRANCOS DE TERNO (OS CHADS)

Enquanto caminhava pelo Beco do Batman, fumando um despreocupadamente, Box Brown comentou ter notado um dispensário de produtos canábicos medicinais nas redondezas, no mesmo bairro paulistano. “A repressão sempre foi uma questão de classe e cor. Para uma elite, jamais foi efetivamente proibido, no máximo há uma pequena multa”, avaliou.

Seu projeto atual, Legalization Nation, de tirinhas no Instagram e que já virou livro, busca denunciar o que ele vê como abusos cometidos pelo governo e por grandes empresas ao longo do processo de legalização. “Na Pensilvânia, meu estado, são tantas as regras e limitações que há apenas umas cinco empresas com direito de plantar e vender nos dispensários. O resultado é que se fomenta o mercado ilegal, que não só fornece um produto melhor e mais barato, como anseia por se legalizar, caso tivesse uma real oportunidade para isso.”

No fim, segundo sua crítica, a indústria dos EUA seria hoje dominada pelo o que ele chama de Chads. O termo, pejorativo, designa homens brancos, ricos, urbanos e que normalmente reproduzem estereótipos machistas. Após algumas buscas no Google, ele chega à conclusão de que em São Paulo seria “algo como me falaram que são esses tais faria limers”.

Segundo teoriza Box Brown, as pessoas deveriam passar a conhecer a história da cannabis em seus países, em suas relações com as culturas locais e globalmente, caso se queira realizar um processo de legalização justo. “Temos de entender quem foi diretamente agredido, assediado, violentado e perseguido pelas leis proibicionistas e incluí-los no diálogo e no mercado.” Suas HQs e tirinhas sobre o tema mostram um caminho possível (por meio da arte e da educação) para democratizar o conhecimento sobre o assunto  e para que esse mesmo conhecimento chegue também aos que hoje têm e alimentam preconceitos e resistências.

Filipe Vilicic