Saindo da estufa

Marcelo Tas: “Meu plantio (de cannabis) foi como curioso. Quis entender como a planta nasce e flore”

A erudição e as histórias maravilhosas de Tas sobre psicodélicos, medicinal, família...

A depender da sua idade, você deve lembrar de uma forma do Marcelo Tas, um multiartista – apresentador, ator, escritor, diretor (até de ópera).

Quem tem mais de 40 ou 50, pode se recordar dele no papel de Ernesto Varela, o repórter de mentira do Olhar Eletrônico, criação com o cineasta Fernando Meirelles. Os com seus 30 anos, eram crianças quando acompanharam o Professor Tibúrcio e o Telekid, personagens do Rá-Tim-Bum. Se você é da época, deve ter ficado na cabeça o bordão “Porque sim não é resposta”… e falamos com Tas de como para muita gente, como para uma parte enorme dos políticos em Brasília, tornar a maconha um crime é se conformar com o “porque sim”.

Mais jovens logo se recordam dele de terno e óculos escuros comandando o polêmico CQC. E quem o acompanha hoje, o vê agora em seu papel de entrevistador no Provoca, da TV Cultura, onde herdou o manto de Antônio Abujamra, ícone do teatro brasileiro.

Já sabíamos do envolvimento de Tas com o medicinal. Mas com a Breeza ele saiu bem, mas bem mais da estufa.

Vamos falar de maconha, psicodélicos e muito mais com Marcelo Tas. Na conversa com Filipe Vilicic, jornalista da casa, ele conta histórias como de quando a avó confundiu guaraná com cannabis; das vezes em que experimentou LSD e ayahuasca; de quando plantou maconha; e de como Ituverava, sua cidade-natal no interior de São Paulo, achou que ele tava “enfiando” ganja na sua mãe de 86 anos.

Vi teu depoimento na Assembleia Legislativa de São Paulo falando do uso de medicamentos de cannabis para combater dores crônicas. Como começou seu envolvimento com a cannabis?

Tenho os dois calcanhares fraturados desde 1990, faz mais de trinta anos, e convivo com as dores crônicas por muito tempo e tem uma hora que a gente se acostuma com elas, o que não é muito saudável. Meu primeiro contato com a cannabis medicinal foi esse, quando visualizei a possibilidade de melhorar minha saúde. E depois entendi que não é que você vai simplesmente abrandar as dores, é que quando você consegue baixar a tensão muscular causada pelas dores, você começa a fazer outras coisas. Passei a fazer mais esportes, comecei a me cuidar mais, a viver com mais disponibilidade, você fica menos preguiçoso (risos). Engraçado que o senso comum geralmente associa a cannabis à preguiça, pelo preconceito relacionado aos efeitos alucinógenos da maconha, sendo que quando eu vivenciei na prática que as dores estavam se transformando em outra coisa, aí eu comecei a levar muito a sério, comecei a estudar, a ir atrás de especialistas. E acabei encontrando a Carolina Nocetti [médica], que é uma das pioneiras aqui no Brasil desse assunto, e me engajei, comecei a me colocar como alguém que pudesse ajudar na comunicação disso. Fiz a primeira entrevista com ela, que ainda estava morando nos EUA, fazendo as pesquisas dela em Nova York. Fizemos um Provoca [o programa de entrevistas na TV Cultura], remoto, ainda era pandemia. Quando ela veio para o Brasil, virou minha médica e até hoje é a pessoa que prescreve a cannabis para mim.

Mas como foi a primeira descoberta da cannabis? Já tinha fumado, já tinha sentido essa redução das dores? Vou dar um exemplo: tenho fibromialgia e descobri fumando que reduzia as dores. Como foi essa descoberta para você?

O meu contato com maconha foi muito tardio. Sou um cara nascido no interior, o que a gente gostava era de beber cerveja. E não tinha, é muito engraçado falar isso, não existia maconha no interior quando eu era jovem. Então, meu primeiro contato com o baseado foi quando estava na universidade em São Paulo. Foi uma coisa assim de gostar do efeito e tudo mais, mas nunca foi uma coisa, assim, uma prática… eu nunca fui um maconheiro, na concepção de alguém que fizesse uso regular, mas eu tinha muitos amigos que usavam e tal, músicos, artistas, a galera do audiovisual. Sempre foi uma coisa eventual e nunca foi importante, no sentido de pensar nisso como medicação, de algo que fosse interferir na minha saúde. Desde o começo eu percebi que o preconceito com a maconha era muito bobo, eu já corri muito mais riscos com álcool do que com maconha. Já estive dentro de carros que se acidentaram, as pessoas tinham bebido, eu próprio tive um acidente muito grave, eu tinha bebido, onde a gente tava de zoeira…tudo isso na juventude, né? Onde a gente foi muito irresponsável, numa época em que não se usava cinto de segurança, nem existia cinto de segurança.

Desde o começo eu percebi que o preconceito com a maconha era muito bobo, eu já corri muito mais riscos com álcool do que com maconha. Já estive dentro de carros que se acidentaram

Então eu tinha consciência, muito antes, de que o preconceito com a maconha é o que é o preconceito: uma ignorância. Taxavam como algo muito perigoso, que a “pessoa vai viciar, vai ficar louca”, e eu percebi que não era nada daquilo. Que a maconha era uma forma de alteração de consciência que, se você souber usar com responsabilidade, é mais segura do que com o álcool. Para mim até hoje é assim, fico chocado com o álcool e, principalmente, com remédios que estão na farmácia e são usados de maneira muito irresponsável, e nós discutimos pouco isso. Eu vejo hoje ao meu redor, ao meu redor mesmo, amigos, familiares que estão usando remédios tarja preta sem a consciência de que aquilo é uma adicção, de que já tomou o corpo dele, que agora já é dependente e não percebeu ainda o quanto faz mal para os rins, para o estômago, para a bexiga, para tudo. E o quanto alguns medicamentos que são feitos de plantas, e aqui não estou falando só da cannabis, mas de várias outras plantas, hoje sendo pesquisadas e tal, que podem nos ajudar na saúde. E isso hoje é uma realidade que eu espalho inclusive dentro da família. Minha mãe e meu pai hoje são pacientes de cannabis, com outra terapeuta, inclusive, lá em Ribeirão Preto, e a vida deles tá muito melhor.

Como é o seu uso no dia a dia?

Tenho dois óleos que uso, o CBD é o principal, com a maior dosagem de gotas em óleo, e o THC é uma dosagem bem leve, que uso diariamente. São duas vezes por dia, de manhã e no final do dia, mas isso foi uma coisa que, auxiliado por essas terapeutas, eu fui percebendo que cada um tem de encontrar que horas que toma, qual é a dosagem. É como afinar um violino, você tem de descobrir qual é a sua afinação para aquilo. E legal dizer que não estamos falando nada de alteração da consciência, estamos falando de estímulo a um sistema, chamado endocanabinóide, que todos nós temos, inclusive quem não faz uso de cannabis, e que essas substâncias estimulam. E o que eu acho bonito nesse sistema é que o defino como um sistema de comunicação. Nas minhas conversas com especialistas, eu comecei a dar esse meu feedback pra eles, e eles “caramba, eu vou usar isso aí”. E eu “pode usar à vontade”. Entendi que é um sistema que regula, conversa, faz com que os órgãos entendam de uma maneira mais eficiente, o que é uma coisa semelhante ao que acontece com as plantas. Então eu vi uma beleza que tem muito a ver com a nossa natureza. A gente se esquece muito de nossa natureza, que humano vem de humus, que é terra, uma palavra que vem pra nos lembrar que nós somos feitos de substâncias orgânicas. A gente se esquece disso.

Você disse que a maconha não era presente na sua juventude. Mas como era a educação em relação às drogas, se falava disso?

Se falava disso com muito preconceito. Muito preconceito! Vou te contar uma história da minha avós, eu tive a sorte de conviver com avós e bisavós. Eu tive quatro bisavós vivos quando eu era criança, hoje eu percebo a loucura que foi isso. Mas eu tinha uma avó, Julieta, muito rigorosa e ela era casada com meu avô, João, meu mentor, que era o contrário, um baiano engraçado, com uma oratória… era meu ídolo! O cara com quem aprendi muita coisa na infância. Os dois queridíssimos, mas, um dia, quando eu já tinha contado de minha namorada em São Paulo e tal, eles estavam no Guarujá e eu fui com uma namorada passar um fim de semana com eles, no veraneio da família. E chegamos, e essa minha namorada gostava muito de cannabis, maconha, tinha várias boas cepas de maconha… e aí chegamos lá, apresentei minha namorada, uma mulher muito bonita, com umas roupas diferentes, digamos assim, aquele visual meio hippie daquela época. E ela, no café da manhã, usava um bastão de guaraná, na época tava na moda isso, guaraná em pó, até hoje se usa. Ela cuidava muito da saúde dela, é bom dizer isso, e ela raspava o bastãozinho com uma lixa e botava no mamão, fazia a sua granola orgânica. A gente tomou café e ela esqueceu o bastãozinho de guaraná em cima da mesa e saiu pra dar um mergulho. Quando voltamos, ela “Nossa, cadê meu bastão?”. E aí ninguém achava e uma cozinheira que tava lá começou a rir, uma cozinheira muito engraçada que a gente tinha, a Nenzinha. E aí falei “Nenzinha, cadê esse bastão?”. E ela “Vou contar a verdade! A dona Julieta achou que era um pau de maconha!” (muitas risadas). E eu: “E aí?”. “E aí ela cortou um pedaço e me deu pra eu comer pra ver se era mesmo”. (mais gargalhadas) 

E será que ela achou que sentiu alguma coisa, uma brisa, meio sem saber, achando que era maconha?

Nada. Talvez tenha sentido um pouco mais de energia, que era o que o guaraná fazia, mas, enfim, acho que essa história mostra como nossa ignorância cria fantasmas absurdos. Um pau de maconha, veja você, e no fundo estamos falando de guaraná em pó, que é uma coisa muito saudável.

Obviamente isso surge na escola, nas amizades… quer dizer, a maconha está aí, isso é uma realidade, é uma droga que está presente no Brasil e sendo tratada com muito preconceito. De novo, esses jovens têm acesso a álcool de uma forma muito nociva e de péssima qualidade

E como você fala disso com os seus filhos?

Nós conversamos bastante sobre isso. Pra mim tem uma coisa que aprendi e que é muito importante: a maconha, o THC, é importante que seja evitado até os 21 anos. Isso é uma coisa que entendo. Por quê? O cérebro produz naturalmente muitas conexões e o THC potencializa essas conexões. Então, pode não ser saudável para quem tem menos de 21, o consumo de THC, principalmente o consumo exagerado de THC. Pode ser uma escapatória, às vezes, de algo que está vivendo e não quer olhar, e pode entrar em uma estrada que não é legal. Aqui em casa a conversa foi isso, não só com Clarice [adolescente], mas com Miguel também, que tá com 23. E obviamente isso surge na escola, nas amizades… quer dizer, a maconha está aí, isso é uma realidade, é uma droga que está presente no Brasil e sendo tratada com muito preconceito. De novo, esses jovens têm acesso a álcool de uma forma muito nociva e de péssima qualidade. Eu que gosto de uísque, vinho, vodca, gin, sempre gostei muito de álcool, acho que o álcool é uma droga, uma substância que você pode usar muito bem com os amigos, socialmente, na comida… eu gosto muito, aqui em casa a gente tem uma cultura muito legal de cozinhar juntos, junto com eles todos, eu e a Bel, minha mulher, o Luc, meu filho mais velho, a gente sempre teve isso de fazer a cozinha um lugar de encontro em casa.

Então, desde o início sempre fui muito claro sobre o uso de álcool, curiosamente nenhum deles gosta tanto de álcool, assim, às vezes tomam um vinho com a gente, às vezes tomam… a única coisa que faço bem na vida é caipirinha, classe A mesmo, então às vezes eles tomam minha caipirinha. Acho isso muito saudável na minha familia, de você usar o álcool como celebração e nunca como uma substância pra quando está pra baixo, sozinho, triste, o quanto o álcool é nocivo nesses momentos. Aqui a gente sempre procurou associar isso, o uso dessas substâncias a algo coletivo, a algo que se conversa, que se fala sobre aquilo, “Estamos aqui tomando esse vinho, no aniversário de fulano, num momento de encontro mesmo”. E creio que a coisa tá indo bem, eles [os filhos do Tas] não fazem uso, nem de maconha… eventualmente fazem, mas é uma coisa absolutamente leve pros padrões de hoje, que tem a ver com momentos especiais ou específicos, não tem a ver com rotina ou uso a qualquer hora, ou que atrapalhe estudos ou trabalho. Tem a ver com o que é mesmo, então é uma substância, no caso da cannabis é uma planta, que também tem uma função medicinal se você souber usar na dose correta e sendo auxiliado por médicos… isso é outra coisa, como comecei a falar disso, comecei a ser bombardeado de vários lugares.

Fui muito atacado, tentativas de carimbar minha reputação com “olha aí, o Tas, que fez programas infantis, agora falando desse assunto”. Eu nunca tive medo de falar disso, porque hoje eu falo disso com toda clareza e recomendo. Recomendei aos meus pais, meu pai foi o primeiro que entendeu, ele tem 90 anos, muitas dores crônicas e era usuário dessa farmacologia que abranda essas dores, mas ataca outros órgãos, tô falando de remédios conhecidos da praça, desses que vemos em propagandas da televisão. E isso fez mal pra ele. Aí um dia ele percebeu que eu estava usando e me perguntou “Mas o que é isso, que gotinhas que são essas?”. Aí eu expliquei “Lembra daquele acidente que eu tive quando  tinha 30 anos? Então, eu tô fazendo uso disso e as dores foram abrandando”. Meu pai é professor de Educação Física e ele entendeu que eu estava com outra performance, hoje eu faço remo, por exemplo, que exige muita performance aeróbia, além de mental. E ele: “Caramba, eu queria experimentar esse negócio”. Falei “Perfeitamente”. Encontrei uma terapeuta em Ribeirão Preto, excelente, uma senhora cardiologista em seus 70 anos e que dedica uma parte da vida dela à cannabis medicinal, e por uma razão que acho extremamente didática para quem ainda tem dúvida do poder disso aí. Ela tem duas filhas autistas, com TEA 2 e 3, que é o autismo com menos autonomia, com menos cognição. Uma delas tem mais de 30 anos. Imagina a vida de uma médica cardiologista em Ribeirão e o quanto ela já não dormiu, já sofreu, com remédios muito pesados para segurar a onda do autismo, que é outra condição muito pouco conhecida. E depois que o filho dela, que é médico também e se dedica à cannabis, pediu a ela, que tinha preconceitos com relação à cannabis… e o filho dela falou assim “mamãe, posso tentar?” . Aí hoje as filhas dela não tomam mais remédios químicos, a vida delas se transformou, as filhas estão em outro momento. Aí ela (a médica) falou “vou pesquisar desse assunto”. É uma médica que vale pesquisar dela, pois teve a vida transformada e mergulhou para entender o que era isso, se formou, se especializou e hoje ela reserva uma parte do dia pra tratar pacientes com cannabis medicinal. E a gente se conheceu, uma vez ela me abordou pois eu tinha falado disso no Provoca. Aí o meu pai virou paciente dela e ela transformou a vida do meu pai.

Um dia fui visitar meus pais e lá veio a cuidadora ‘Marcelo, você precisa desarmar um negócio aí, a sua mãe tá falando pra cidade inteira que você quer enfiar maconha nela'” 

E a minha mãe, e acho legal falar disso também pro pessoal da revista, teve muito preconceito. Quando ela percebeu que meu pai ia partir pra cannabis, e minha mãe tem Alzheimer e às vezes tem uns lampejos incontroláveis no mundo em que ela vive…  é um Alzheimer, digamos… ela convive muito socialmente com todos nós, não é nada extraordinário… mas ela encanou, pra usar uma expressão dos anos 80, ela encanou que eu queria enfiar maconha nela e espalhou por toda Ituverava, onde nasci, e eu não sabia disso. Um dia fui visitar meus pais e lá veio a cuidadora “Marcelo, você precisa desarmar um negócio aí, a sua mãe tá falando pra cidade inteira que você quer enfiar maconha nela”. Aí eu tive de explicar, começando pelas pessoas conhecidas ao redor, o que era aquilo, explicar o que é cannabis, fazer todo o beabá, disse que meu pai já tava usando, mostrei que passou uma matéria no Fantástico, aí você vai usando o que tem disponível. Lê isso daqui, veja esse vídeo…

Você virou o evangelizador da maconha na cidade!
Exatamente, mas eu fui por necessidade, cara. Tive de desarmar uma bomba relógio que tava lá. Por que daqui a pouco eu ia sair na Tribuna de Ituverava como o cara que queria enfiar maconha nos pais. (risos) E foi ótimo, foi muito legal, pois aí eu ajudei a explicar um pouco pra família, pra todos nós, e chegou o dia em que minha mãe falou “E por que você não me ofereceu esse tratamento?”. E eu falei: “Porque você falou que eu queria enfiar maconha em você”. E minha mãe [Tas imita uma voz de mulher]: “Eu quero, sim!”. E também está hoje [usando cannabis medicinal], parou de tomar os remédios que tomava pra dormir, o sono dela mudou de qualidade. E é legal dizer, assim, não é magia, não é que ela está incrível e maravilhosa, ela tem condições da idade dela, tem 86 anos, tem Alzheimer, várias questões; obviamente, como toda pessoa que tem idade, já caiu, já quebrou um osso. Mas o uso da cannabis, CBD, THC, essa combinação, e no caso da minha mãe tem outra substância que não vou lembrar agora, minha mãe também é paciente da doutora Patricia Bighetti, de Ribeirão [a mesma do pai de Tas], e aí a vida dela foi transformada.

Lidar com o preconceito é uma tarefa de décadas. Nós precisamos saber disso: quem traz uma informação nova como essa vai ser atacado. Tem grupos que tem interesses comerciais, nós estamos falando de uma indústria farmacêutica que fatura bilhões com remédios

O preconceito, cara, lidar com o preconceito é uma tarefa de décadas. Nós precisamos saber disso: quem traz uma informação nova como essa vai ser atacado. Tem grupos que tem interesses comerciais, nós estamos falando de uma indústria farmacêutica que fatura bilhões com remédios que resolvem umas partes e pioram outras partes. Felizmente a realidade vai sendo transformada com resultados, inclusive a indústria farmacêutica, que já acordou e viu que é uma solução que pode ser boa para todos, inclusive comercialmente, se for bem organizado e tal. Hoje tenho procurado falar abertamente sobre isso, como estou fazendo com vocês, quando me sinto num terreno seguro, onde essas informações vão ser lidas de uma maneira que dá para conversar, onde elas não vão simplesmente ser usadas de maneira sensacionalista, só pra causar.

Legal ouvir dessa sua disponibilidade de ser um evangelizador. E tô aqui com seu novo livro em mãos, o “Hackeando sua Carreira”, que fala muito de transformações, mudanças que acontecem e estão aí, trazem desafios e oportunidades. E como você foi um craque em se adaptar a cada zeitgeist, ao que o público precisava em cada momento. Fico pensando: onde a maconha se encaixa nessas transformações de hoje? Tem um termo que você usa no seu livro, de “desatenção a uma transformação exponencial”. Será que tem essa desatenção com a maconha?

Total. Vou dar um exemplo prático, até para sair do THC e pro pessoal poder olhar pra outras ramificações da cannabis: o cânhamo. O cânhamo é uma indústria gigantesca e exponencial e, ao mesmo tempo, muito antiga. O que é o cânhamo? Uma fibra que foi utilizada, por exemplo, nos tecidos mais resistentes para navegação, lá atrás. As caravelas usavam fibras de cânhamo para as velas. É uma coisa muito antiga, hoje é uma indústria gigantesca e os chineses, que sabem olhar para a história, usam nas roupas que eles vendem para nós aqui. É uma fibra orgânica, muito resistente, mais barata que o algodão e que algumas fibras sintéticas, e aí tem uma oportunidade que tá sendo perdida pelo Brasil. Um dos maiores fornecedores de fibras de cânhamo é o Paraguai, que eu venho estudando, até para escrever o livro. Eu não citei no livro, mas fica aqui já o bônus para quem quer entender de transformação exponencial. O Paraguai tem associações de plantio de cânhamo há muitos anos, que incluem indígenas e empresários. Com as terras deles que são bastante férteis, como as nossas, bom lembrar que o Paraguai faz fronteira ali com o Mato Grosso do Sul, é uma terra extremamente fértil… o Brasil poderia ser um enorme produtor de cânhamo e isso poderia ser uma indústria inclusive para a agricultura brasileira, que é extremamente desenvolvida – eu conheço bem, sou um cara do interior. A agricultura brasileira poderia se beneficiar muito se tirássemos esse véu da ignorância em relação à cannabis. O Brasil poderia ser um grande produtor de cânhamo, e não tô nem falando aqui [da maconha], pra não assustar as pessoas que tem medo da maconha, como a vó Julieta tinha… estamos falando aqui de uma fibra que faz tecido. Eu mesmo tenho várias roupas de cânhamo, mas infelizmente compro quando estou fora do Brasil. Estamos perdendo um bonde! É igual ao bonde da tecnologia, é exponencial, é uma transformação gigante, é uma necessidade, para usar uma palavra que gosto muito. O mundo hoje tem necessidades de soluções viáveis e sustentáveis.

Estamos perdendo um bonde [da indústria do cânhamo e da maconha]! É igual ao bonde da tecnologia, é exponencial, é uma transformação gigante, é uma necessidade, para usar uma palavra que gosto

Então, o plantio de cânhamo pode ser uma indústria muito adequada ao Brasil, que pode abastecer mercados norte-americanos, na Europa, na Ásia, a China é um parceiro potencial para isso; e aí, sim, a gente se alinha a uma transformação, a uma inovação, que é exponencial. A gente participa de um diálogo global, como às vezes a gente tem dificuldade de participar, como foi na produção de conteúdo para smartphones. A gente é consumidor, geralmente, de redes sociais, normalmente os maiores consumidores. Somos consumidores de roupinhas chinesas, sempre tem esse debate sobre as sacoleiras. Nós temos de sair dessa… estamos patinando nessa lama de sermos só consumidores de bugigangas. Nós temos de participar de um diálogo com o mundo civilizado – no sentido de transformação do mundo de maneira sustentável, saudável, comercialmente bacana –, de como poderia ser essa nova indústria têxtil. O Brasil tem uma tradição têxtil muito antiga, já produziu os melhores algodões, lãs. Sou casado com uma atriz, a Bel Kowarick, que a família dela, Kowarick, tinha um dos lanifícios mais incríveis do Brasil e que desapareceu, pois não soube entender as transformações naquela época tecnológicas, com a chegada do nylon e desses produtos todos sintéticos. O pessoal não acompanhou. O Brasil precisa entender, inclusive no próprio nome, pois “Brasil” era o nome de uma matéria-prima que a gente exportava, mandava para fora sem processar. A gente era na verdade assaltado: o pessoal arrancava o ouro, depois a cana-de-açúcar, hoje o minério, a soja, o lítio, tem gente querendo mandar o lítio lá pra fora. É legal entender que o lítio é o que faz as baterias, mas nós temos de ter a ambição de fazer as baterias, ou pelo menos uma parte delas, ou de fazer games pro celular, como tem muita gente fazendo no Brasil, mas de maneira ainda muito incipiente. Na minha vocação de educador, e nesse livro minha intenção é justamente essa: se não acha que dá pra transformar o mundo, olhe pras transformações exponenciais. Começa com algo que parece pequeno, invisível, como é nas transformações exponenciais, e de repente, uma empresa que era pequenininha e vendia só livro, vira uma das maiores do mundo… que é o caso da Amazon. Quem entende que o mundo hoje está diante de possibilidades de transformações exponenciais, deveria olhar para o cânhamo. Essa é a mensagem que eu deixo pra turma. 

Um de seus personagens mais icônicos é o professor Tibúrcio, que falava “Porque sim não é resposta”, marcou minha infância, e aí fico pensando…

Esse é o Telekid. É legal você fazer essa confusão pois são dois personagens…

Ah, confundi (risadas)!

E não é só você, não. Eu gosto quando esses personagens viram um só. O Professor Tibúrcio é o “olá, classe”, e aí ele explica algo difícil. O Telekid, que é do Castelo Rá-Tim-Bum, é quando o Zequinha não sabia responder um negócio, os pais, os tios respondiam “Porque sim”, e eu entrava com a vinheta “Porque sim não é resposta”. 

É da infância, então povoa nosso imaginário, fácil de confundir.

E é bom, cara, essa confusão, eu gosto muito.

Então, tinha isso, do “Porque sim não é resposta”, que ficou muito forte para mim, eu cresci muito com isso, com o olhar curioso. Mas quando a gente fala de maconha, sinto que as pessoas e a sociedade ficam no “porque sim”, a Câmara tá nisso agora, parece. Como mudar isso? É um problema de comunicação, de informação?

É um problema de comunicação. Pra mim, hoje a comunicação é algo que temos de tratar como estratégia de Estado. Nós vivemos no mundo conectado e a capacidade de produção de desinformação é gigante, então temos de cuidar da comunicação como quem cuida de uma horta. Se você não sabe cuidar das ervas daninhas, das pragas… por isso que eu uso bastante essa metáfora no livro também. Por que eu sou roceiro, caipira, sou praticante… eu tenho as unhas sujas [Tas mostra as unhas, sujas de barro], hoje tá até limpa, mas mesmo assim você tá vendo uns pretinhos aí…

Mas aí tenho de perguntar: você já plantou maconha?

Já plantei pra entender a planta. Plantei num vaso, pois tem de tomar cuidado pra não cometer um crime. Por que tem de tomar o cuidado que não pode botar na terra, né? Tem de botar fora da terra e tal. Mas não foi pra consumo, eu queria entender a planta, ver se ela nascia, se era resistente. E fiquei muito impressionado com o quanto que ela é forte, uma planta linda, bonita. Foi aí que eu percebi a força da fibra, ela é uma vinha, tem uma coisa de parreira, de uva, cresce assim e tem uma força, de durabilidade e tudo mais. Mas eu deixo o plantio para os especialistas, eu sou associado da Abrace, uma das mais antigas associações, que conseguiu na Justiça, com mandado de segurança, com toda essa briga que sabemos, começaram lá na Paraíba, e hoje tem 40 mil pacientes e continuam crescendo exponencialmente, mas com muita qualidade. Eu vejo nos vídeos, eles têm umas redes sociais muito ativas, como eles cuidam com o maior carinho dessas plantas e com muita responsabilidade, eles têm médicos, farmacêuticos.

O meu plantio [de cannabis] foi mais como curioso que sou. Quis entender como essa planta nasce, quanto tempo leva pra florir, queria ter a planta na minha mão

O meu plantio, como você perguntou, foi mais como curioso que sou. Quis entender como essa planta nasce, quanto leva pra florir, queria ter a planta na minha mão. Hoje eu não tenho, inclusive. Eu planto batatas-doces, manjericão – tenho abelhas, que amam manjericão –, amoras, muita coisa aqui, viu? Espinafre, dois tipos de erva-doce, três tipos de hortelã e tudo isso em São Paulo, no teto verde do meu estúdio. E que era um teto verde, olha que interessante, cara, sabe teto verde que o arquiteto desenha e vem o paisagista, coloca plantas decorativas… e eu nunca subia lá. Na pandemia, eu falei “uai, o que vou fazer aqui?”. Fiz um canteiro de erva-doce e explodiu, pois é muito Sol. Fiz irrigação e tal, e hoje tenho dezoito canteiros lá. 

Tenho compostagem, dois tipos de compostagem, abelhas, minhocas, abelhas solitárias… e aí você vai entrando numa rede de profissionais, mesmo, de criadores de abelhas, de pessoas que plantam. Um professor da Universidade Federal de Lavras viu um @ (do Instagram) que eu tenho e que chama @roceirourbano, em que eu só falo disso; pra não encher o saco do pessoal da minha rede Marcelo Tas, eu tenho o Roceiro Urbano, em que eu só falo desse assunto. Então esse professor quis me mandar um tipo de batata-doce que eles criaram lá na universidade. Falei “Porra, professor, assim você…”… e chegaram pelo Correio e tá aqui, tenho batata-doce da Universidade Federal de Lavras, de altíssima qualidade, lá em cima.

Hoje eu subo lá e tem um momento de olhar o tempo, coisas que demorei muito tempo pra conseguir, como canteiros. Pois dá também muito errado, sinto a dedicação e conhecimento que são necessárias para qualquer coisa que se vai fazer. Inclusive a comunicação. Entendi melhor a comunicação, que é algo que eu pratico há 41 anos, e como ela pode ser mais eficiente quando você entende esses processos da natureza, pois nós somos parte dela. Mas ainda bem que eu tenho uns amigos legais, como o Ailton Krenak, que me lembram disso. A gente é parte da natureza! Marcelo Gleiser, falando que nosso corpo é feito de partículas que vem das estrelas. A gente tem de lembrar disso o tempo todo: isso não é uma viagem de maconheiros. Ou talvez até seja… Sidarta Ribeiro, outro cientista que eu admiro e tenho a alegria de dizer que sou amigo, ou a Carolina Nocetti, ou a Dra Patricia, de Ribeirão…

Eu tô começando hoje, talvez por conta dessa jornada já longa, a ligar pontos que antes não estavam conectados. O quanto cuidar de um canteiro, e de abelhas e de minhocas, tem a ver com cuidar de redes sociais, e haters, e desinformação e poder conversar como nós estamos conversando aqui, com o objetivo simplesmente de tentar entender um assunto juntos. Isso é uma coisa que para mim é cada vez mais importante: não se colocar como alguém que sabe tudo. E aí, sim, tem a ver com o “Porque sim não é resposta”: se colocar como alguém que faz perguntas.

Como eu fazia com o Varela no início de minha carreira [Ernesto Varela, alter-ego do Tas e criação conjunta com o cineasta Fernando Meirelles, foi um repórter de mentira que entrevistava gente de verdade], no CQC, no Telecurso, que é um projeto do qual eu também tenho muito orgulho de ter participado. Junto com quem está ouvindo, poder chegar em algum lugar.  Por que meu mantra hoje é esse: comunicação não é o que eu estou falando pra você, mas o que você está ouvindo e o que os seus leitores e leitoras vão entender do que eu falei. Temos de entender que não dá pra impor uma opinião, querer saber tudo e cravar um ponto de vista. Tem de lidar justamente com essa lentidão, que às vezes é necessária, na comunicação.

Como está acontecendo agora no processo do debate da descriminalização de uma planta. Uma discussão absolutamente fascinante, de uma planta que é proibida de ser cultivada. É como  se você colocasse a planta em uma gaiola. “Essa planta não pode ser cultivada em solo pátrio, em solo nacional!” É uma tremenda… perder uma oportunidade tremenda de inovação e de participar de um uso responsável, de uma indústria que já é gigante na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, em países que a gente acha que são cuidadosos com os seus cidadãos. E nós aqui brigando por conta de um cigarro de maconha, tem de ouvir vereadores, deputados, senadores gritando contra uma planta. Ou seja, temos de ter muita tranquilidade para entrar nesse assunto para que outras pessoas entendam que o que está sendo conversado é algo científico, com descobertas, muitas delas recentes… e até pouco tempo… tenho  amigos médicos que olhavam e davam risadinha quando eu contava que estava tomando óleo. E agora um me liga sabe por quê? Porque a mãe dele está com muitas dores e está querendo experimentar. Ele fala “Ela não dormia mais”. E, pô, que alegria… tô falando de médicos lá em cima, psiquiatras, pessoas que tinham dificuldade de olhar para esse assunto e começam agora a testar. Acho ótimo que seja assim, é a parte lenta, você vai testando, e depois não tem como segurar. Não tem como, assim, pessoas que simplesmente querem barrar um avanço, não tem como segurar, é como ser contra o carro elétrico, a internet… não vale a pena brigar!

É como  se você colocasse a planta em uma gaiola. “Essa planta não pode ser cultivada em solo pátrio, em solo nacional!” É uma tremenda…

Com a matemática, tem gente que quer brigar com a matemática, com a lei da gravidade. Sou um caipira do interior e tinha um prefeito lá que queria revogar a lei da gravidade, porque ele queria fazer uma caixa d’água debaixo da terra. Queria botar embaixo da terra porque outro prefeito tinha feito a caixa e ele queria tirar da visão do pessoal. E alguém disse para ele “Não pode”. E ele: “Por que não pode?”. “Pela lei da gravidade!”. E ele: “Então vâmo revogar essa lei aí”. (risos)

A nossa Câmara é bem assim, tem uns que querem até revogar a lei da gravidade.

Exatamente. 

Você citou aquela imagem preconceituosa do maconheiro, de largado. Mas quando a gente vê os maconheiros ou ex-maconheiros famosos, não é nada disso, como com: Gilberto Gil, que entrevistamos na Breeza, ou o Fernando Meirelles, que já falou sobre isso e foi super seu parceiro em produções, ou o Steve Jobs, adepto dos psicodélicos e citado no seu livro, outra pessoa genial. Por que essas pessoas inovadoras têm essa tendência à brisa, enquanto a sociedade acha que todo maconheiro é largado?

Por conta de uma palavrinha: medo. Nós temos medo do desconhecido. E artistas, nós que trabalhamos com criação, com desenvolver novos horizontes, sabemos que precisamos explorar limites da consciência, da linguagem. Lá no começo, no Olhar Eletrônico, eu e o Fernando, e uma galera incrível, fazíamos coisas consideradas contra as regras da televisão… e eram. Por isso que elas funcionaram. O professor Tibúrcio quase foi gongado do Rá-tim-Bum, pois era um professor muito agressivo e a avaliação que nos chegou era que causava medo nas crianças… e causava. Acompanhei muitas comunidades de “Eu tenho medo do Professor Tibúrcio”… e tudo bem, era intencional. No caso do Tibúrcio, quando eles queriam cancelar o Tibúrcio, eu levei vídeos da Disney e mostrei cenas de muito medo que existem em Branca de Neve, Bambi, Mago Merlim. Nas histórias infantis, sempre o medo está muito presente. Irmãos Grimm, todas as fábulas. E isso é muito importante para a criança de viver, uma catarse interior de ela conviver com o medo, claro que de uma forma segura e com os pais por perto.

Na arte nós praticamos isso de visitar fronteiras. E eu fiz isso muitas vezes, com diferentes substâncias. Sou um cara que apesar de não ser usuário frequente de substâncias fortes, eu tive muitas experiências com substâncias fortes

Mas eu percebo que na arte nós praticamos isso de visitar fronteiras. E eu fiz isso muitas vezes, com diferentes substâncias. Sou um cara que apesar de não ser usuário frequente de substâncias fortes, eu tive muitas experiências com substâncias fortes, onde eu senti confiança pra me dar ao luxo de poder viver uma coisa tentando conhecer meus novos limites. Posso citar para você, por exemplo, a ayahuasca, que é uma outra planta, duas plantas que se combinam e que podem gerar uma experiência muito relevante. Mas todo mundo que tiver interesse nisso, tem de fazer isso com muita preparação, pois não é trivial. A experiência da ayahuasca, por exemplo, talvez é a mais forte que eu já tive. Tive experiência com LSD, por exemplo, que é outra substância que agora começa a ser também pesquisada para uso medicinal. Mas tive uma experiência recreativa segura, tive um amigo que falou “vou cuidar de você”, e a gente estava em um lugar muito tranquilo, aquela experiência foi vivida de maneira muito  completa e para mim muito importante. Cogumelos, e a psilocibina é hoje algo bastante importante de ser olhada com seriedade porque tem um aspecto recreativo, mas tem um aspecto medicinal. E eu tô falando isso e não faço uso frequente de nenhuma delas, mas fui até lá e tive essas experiências, porque eu senti confiança que aquilo poderia ampliar a forma como eu “vejo a vida”, como eu falo lá no Provoca. E sugiro que quem tiver interesse, tenha essa cuidado, de se aproximar com calma, entender o universo daquele assunto, e se sentir confiança – e você vai ter medo, é importante dizer, e o medo é importante pois te dá aquela garantia de que tem de estar alerta para uma experiência nova, não pode ser irresponsável, usar uma substância dessa em uma atividade que exija sua atenção absoluta, como dirigir, participar de reuniões de trabalho, sei lá, é uma coisa que você vai viver para entender melhor quem é você. Eu acho que todo mundo está interessado nisso, ou deveria estar.