
Gilberto Gil chega aos 82 anos luminoso, com a consciência reluzente de quem se permitiu explorar bem essa existência e suas várias possibilidades. Tem oito filhos, doze netos, apresentou a sua música mundo afora, construiu um legado que vai permanecer tocando na vitrola e nas caixinhas de som de muitas, muitas e muitas gerações.
Boa parte do legado artístico que Gil nos presenteia foi inspirado nas experiências de expansão de consciência com a cannabis e com os psicodélicos, que ele mesmo define como portas de percepções para os cinco sentidos e para a sua sensibilidade.
Por sorte, suas viagens psicodélicas aconteciam sem maiores dificuldades, as bad trips, conhecidas como peias. Exceto uma, na primeira experiência com ayahuasca. “Tive dificuldade de conviver com as primeiras sensações de dissolução do ego, que foram muito fortes naquele primeiro momento e tive que me concentrar muito, rezar muito.”
Ainda que as vivências canábicas e psicodélicas tenham sido uma constante durante décadas, já não fazem parte de sua rotina: “Não tenho mais coragem de ficar enfrentando todos esses redemoinhos que vêm junto com essas experiências”. Pela grandiosidade da obra de Gil, a gente só pode agradecer à ele, à sua abertura de espírito e às substâncias mágicas que o inspiraram.
Nesta conversa com Anita Krepp e Filipe Vilicic, editores da Breeza, Gilberto Gil refletiu sobre os avanços da maconha nos últimos cinquenta anos, desde quando foi preso por porte da erva. Confidenciou que sempre fumou um na frente dos filhos, e que alguns deles só chegaram a experimentar depois de adultos. Filosofou sobre nossos primeiros e últimos suspiros, de sermos radical na adesão ao bem, e ainda deixou um conselho aos jovens que estão considerando expandir suas consciências.
Como é para você, quase cinquenta anos depois daquele episódio de prisão por porte de maconha em Florianópolis, ver o Senado querendo botar a criminalização na Constituição do país? Dá uma sensação de que a gente não evoluiu?
Pelo contrário, acho que evoluiu, exatamente pelo fato de que há setores muito amplos da sociedade brasileira e mundial que entendem a necessidade do tratamento das substâncias transformadoras de estados de consciência como substâncias de uso livre. É essa a posição de uma boa parte da sociedade mundial que faz com que os mais conservadores, mais reacionários, mais retrógrados, mais crentes de um punitivismo necessário para enquadramento dos comportamentos, se manifestem favoráveis à proibição e, nesse caso, na inserção dessa proibição na própria constituição brasileira. Quer dizer, muita ousadia porque é na contramão da compreensão cada vez maior de que as substâncias sejam de uso livre e que a saúde pública, a medicina, a ciência e etc., se incubam de dialogar com a sociedade no sentido das autorizações necessárias para os usos.
Durante a leitura da sentença, ainda lá, cinquenta anos atrás, você tava se segurando pra não rir. Pra quem vê, dá a impressão de que você tava achando aquilo tudo um circo desnecessário, surreal. Você lembra o que tava pensando enquanto segurava o riso?
Tava pensando que ali, exatamente, se confrontavam duas posições em relação a isso que a gente tá falando agora. Uma posição conservadora, clássica, criminalizadora, punitivista, etc., diante de alguém que tinha, com sua própria vida e com suas próprias experiências, se colocado na posição contrária a tudo isso. Era isso que eu via ali, os dois movimentos, um na direção de uma compeensão maior em relação ao uso, e o outro, com uma intolerância cada vez maior, exigindo punição, exigindo um exercício duro da legislação.
Você disse que hoje em dia ainda dá um tapa de vez em quando. Em que tipo de situação isso pode acontecer? Com amigos, sozinho, com a família?
Depende. É cada vez menos frequente, eu não tenho nenhum impulso, nenhuma vontade de forçar os processos de transformaçao da realidade através de situações mentais porque não tenho vontade disso, não tenho mais. Não tenho inclusive energia suficiente pra isso, as transformações de estado de consciência através de substâncias… é uma exigência, pelo menos pra mim, pra minha pessoa e condição, é uma coisa de muita exigência física, exigência mental, então não tenho gosto, não tenho ímpeto e nem coragem pra fazer esses exercícios de expansão mental tão exigentes (risos) . Viver com a quase quietude cotidiana da minha mente e do meu corpo já é um esforço cada vez maior e, com o envelhecimento, com a idade, essas coisas ficam mais difíceis, por isso que falei também da coragem. Não tenho mais coragem de ficar enfrentando todos esses redemoinhos que vêm junto com essas experiências. Ficar quieto já é muito dificil (risos).
“Viver com a quase quietude cotidiana da minha mente e do meu corpo já é um esforço cada vez maior e, com o envelhecimento, essas coisas [experiências com drogas psicoativas] ficam mais difíceis, por isso que falei também da coragem. Não tenho mais coragem de ficar enfrentando esses redemoinhos ”
Mas, Gil, o que te levou lá atrás a procurar essas experiências? Foi a arte ou foi uma coisa pessoal que você precisava expandir?
A vida, o desejo, esse ímpeto natural pela descoberta, pela expansão, pelo alargamento das compreensões. Pela solidariedade também, porque jovem, compartilhando muitas formas de tentativa de compreensão do avanço, do deslocamento. Eu tinha vontades novas na vida, queria descobrir coisas, e pra isso me juntar àqueles que praticavam coisas com as quais eu tinha um mínimo de identificação, de atração. Dentre os hábitos da minha geração, um deles era as experiências com expansores de estados de consciência, então eu acho que tava de acordo, compatível com um momento da vida, a minha idade, o meu impulso daquele momento. Era a minha vida, foi natural na minha vida que eu tivesse aqueles impulsos e desejos que me levavam àqueles hábitos e práticas. Durante muitos anos experimentei a cannabis, o peyote, o ácido lisérgico, experimentei a ayahuasca, experimentei vários transformadores, expansores de consciência porque, afinal de contas, tava na pauta. Eram coisas pautadas pelo meu povo, pela minha geração, pelos meus iguais, pelos meus colegas.
E o que essas substâncias te brindaram na sua evolução como ser humano?
Olha, me abriram portas de percepções, mesmo, com relação à expansão dos sentidos, esses sentidos pelos quais a gente dialoga permanentemente, o tato, a visão, a audição, os vários campos de sensibilidade, os vários invólucros de sensibilidade que envolvem os nossos corpos e mentes, e tive a felicidade de não ter dificuldades maiores, como muitas pessoas têm em relação a essas experiências. Eu tive as chamadas viagens provocadas por essas substâncias, no meu caso foram todas sempre benignas, com exceção de uma, que foi a primeira experiência com ayahuasca, onde eu tive uma dificuldade de conviver com as primeiras sensações de dissolução do ego, que foram muito fortes naquele primeiro momento e eu tive que me concentrar muito, rezar muito, pedir muito intensamente à existência que me salvasse, que me fizesse boiar e poder nadar naquela correnteza forte. Isso foi uma vez só. Com os ácidos lisérgicos eu tive experiências muito benignas, todas elas. Fumar maconha foram experiências muito benignas, também.
“Eu tive as chamadas viagens provocadas por essas substâncias, no meu caso foram todas sempre benignas, com exceção de uma, que foi a primeira experiência com ayahuasca, onde eu tive uma dificuldade de conviver com as primeiras sensações de dissolução do ego”
Nos grupos de ayahuasca, todo mundo repetia uma frase que eu agora tenho a oportunidade de saber se de fato é sua, a respeito da sua experiência, que você teria dito que tomar ayahuasca é como se tivesse num foguete, onde você passa por aquele momento turbulento pra sair da atmosfera e aí finalmente quando vai pro universo, aí sim..
É, eu tenho essa sensação, não só em relação à ayahuasca, mas a quase todos os outros expansores de consciência, todos eles, de uma certa forma, provocam essa sensação, igual quando você bebe um copo d’água, o primeiro momento das suas reações físicas à ingestão daquele líquido trazem uma necessidade imediata de readaptação, você tá sendo reconduzido a um modo de reagir diante da vida que em quase todos esses casos exige de você uma readaptação. Com o alimento é a mesma coisa. Quando você come uma feijoada ou um cozido, você logo em seguida precisa de uma aquietação das energias gerais do corpo pra poder induzir a boa digestão e fazer com que aquilo seja benigno e faça bem. Então eu associei sempre ao que, entre aspas, chamam de drogas, associei sempre a um foguete, à dificuldade natural de sair do chão. Eu tenho a impressão que é a mesma sensação que os cientistas, os tecnólogos nas bases de lançamento de foguetes, em Canaveral ou na Rússia, em Altamira ou em qualquer lugar do mundo. Quando o foguete vai subir eles têm todos essa sensação, o tremor inicial do novo grau, da nova densidade vibratória que se coloca naquele momento. Tudo isso chama você pra outra situação, e a fé que você tem, e a experiência, o fato de você ter experimentado isso algumas vezes lhe dá a expectativa de que aquele foguete suba, de que aquela vibração inicial se transforme. A mesma sensação que a gente tem, todos nós, cotidianamente, diariamente, frequentemente nos aviões, nas decolagens do avião. É a mesma sensação. Tem gente que não tem nem coragem de entrar num avião, até hoje. Tem muita gente que ainda permanece em estados aflitivos quando se sentam numa cadeira de avião e o aparelho desliza na pista pra começar a subida. E já quando chegam lá em cima, se tranquilizam, apesar, ainda, dos receios das tempestades, das turbulências. Tive a felicidade de sempre superar os estágios iniciais das decolagens de forma rápida e de forma a de sempre alcançar voo de cruzeiro nas partes superiores da atmosfera de uma forma muito benigna e muito tranquila. Foi isso, aliás, que me fez permanecer experimentando durante muito tempo essas coisas. Até que eu cheguei em estágios mais recentes que já não tenho mais condições físicas de enfrentar essas decolagens, essas subidas.
Como essas decolagens, esses voos psicodélicos, impactaram a tua arte, a tua música?
Não tenho nem como comentar isso. É natural, a possibilidade de compartilhar a expansão e a suavidade dos estados mais elevados é uma coisa que a gente tem o tempo todo com várias coisas da vida. Esses momentos são sempre de acréscimo, sempre momentos de conquista, você conquista sempre alguma coisa, por mais simples que seja, quando vivencia esses estados. Eu, por exemplo, pra música, pra afluência do gosto, da energia musical, essas viagens todas, usando, de novo, entre aspas, essas transformações de estados de consciência foram muito criativas, acrescentaram sempre muita satisfação ao meu modo de compreender a vida. Esses momentos foram de prazer e, portanto, de satisfação, de desejos, de crescimento, expansão, elevação, de melhoria de vida, sempre fui melhor, eu me tornava sempre melhor quando eu conseguia fazer minhas subidas e os voos (risos).
“Esses momentos (de uso de psicodélicos) são sempre de acréscimo, sempre momentos de conquista, você conquista sempre alguma coisa, por mais simples que seja, quando vivencia esses estados”
E dentro de casa, Gil, como é a conversa com os filhos, os netos, sobre maconha? Vocês fumaram juntos?
Em geral, os meninos sempre estiveram ali ao lado, eu nunca ofereci a eles, nada, sempre deixei a eles a opção de escolherem, na medida do crescimento, na medida de quando iam crescendo e iam expandindo suas próprias vontades, como eu tinha expandido as minhas na minha juventude, sempre deixei a eles a opção de irem fazendo as escolhas que quisessem fazer. Evidentemente, muita gente pergunta, mas tinha o exemplo ali em casa, as pessoas que conviviam na sua intimidade presenciavam suas práticas e, portanto, de alguma maneira poderia ser influenciados, para o sim ou para o não, a fazer uso daquelas práticas, e eu sempre deixei muito à vontade. Alguns dos meus filhos só vieram a experimentar maconha, rapé e outras tantas substâncias, depois de crescidos, depois que já estavam autorizados, a auto-afirmação. A autonomia de cada um deles já tava nas suas próprias mãos, e aí eles foram fazendo escolhas. Foi a mesma coisa que torcer pra time de futebol, nunca fiz um filho meu torcer pro mesmo time que eu. Com as substâncias transformadoras de consciência sempre foi a mesma coisa, sempre deixei que eles adotassem os hábitos que quisessem adotar, não influenciei, ou ao menos espero não ter influenciado muito, em nada.
Como você vê o uso de drogas pela nova geração? Tem um livro, o iGen, que fala da geração iPhone, e que traz uma tese de que a nova geração é muito careta, que ousam menos, que experimentam menos, seguem as coisas mais padronizadas. Como vê essa geração nova de artistas e pessoas?
Depende muito da visão, as pessoas têm substâncias eletrônicas hoje em dia, modos eletrônicos de adesão, de contaminação, quer dizer, os vícios novos ligados a jogos eletrônicos, a uso de computadores, a uso de smartphones. Tudo isso são drogas novas que tão aí induzindo novos hábitos, induzindo novos vícios. E ao mesmo tempo as velhas, entre aspas, drogas, também continuam tendo seu papel, até porque tão associadas a interesses comerciais muito fortes, ao tráfico. Acho um pouco que a liberação, por exemplo, do plantio da cannabis é uma coisa positiva nesse sentido de autonomizar um pouco mais os indivíduos no sentido das práticas, dos usos. Dar mais autonomia, mais possibilidade de escolha a esse pessoal todo, acho isso mais interessante do que a manutenção dessa coisa proibitiva e do punitivismo clássico. Tem esses sintéticos novos… que apresentam benefícios por um lado e malefícios por outro. Continua tudo sendo como sempre foi, quer dizer, uma questão de bom senso, de escolha, de conveniência, de bem-estar versus mal estar. A população do mundo cresce muito exponencialmente, cada vez mais, são bilhões, bilhões e bilhões de pessoas… os interesses industriais, comerciais, cada vez maiores no sentido da produção, distribuição e consumo dessas drogas. Tudo igual, tudo como sempre. Continua tudo nas mãos do bom senso das melhores escolhas possíveis e dos modos de vida que favoreçam as melhores escolhas.
“Com as substâncias transformadoras de consciência sempre foi a mesma coisa, sempre deixei que eles (filhos e netos) adotassem os hábitos que quisessem adotar, não influenciei”
E Gil, você usou drogas no período do exílio em Londres como uma maneira de se adaptar à nova realidade. Você pensa em usar psicodélicos quando chegar o momento de se despedir da vida. Você já pensou a respeito?
Já pensei, mas não me parece algo que eu queira adotar como uma atitude. Como disse antes, viver com essa calma do envelhecimento já é um desafio muito grande. Você tem que se adaptar a tudo isso. Aos novos sinais que o tempo vai trazendo pra sua vida, quer dizer, já não tenho mais coragem de instrumentalizar meus desejos e minhas vontades. E com relação ao último suspiro, então, nem pensar no assunto. Eu fico deixando que a vida, da forma mais natural e simples possível, decida como é que eu darei o último suspiro. A não ser que eu venha a ter necessidade de uma paliativo, que eu espero que não. Com relação à questão do sofrimento físico, daí eu vou usar como uso qualquer analgésico. Que tipo de analgésico vai ser necessário que eu utilize nos últimos momentos da minha vida? Eu espero que eu não precise, espero que a quietude do momento seja suficiente.
Voce falou de último suspiro e eu quero te contar que o primeiro suspiro da minha filha, que hoje tem 7 meses, foi ouvindo Luminoso…
Oba!
…e eu tava ouvindo durante todo o trabalho de parto e lembro de você falando “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” e eu sofrendo, puta da vida com a música, (risos) como assim o melhor lugar do mundo é aqui?
O melhor lugar do mundo, nada! (risos) Venha passar pelo que eu estou passando pra poder ter coragem de dizer isso? Essas visões, e essas afirmações baseadas em visões desse tipo, servem pra que as pessoas possam ter a possibilidade de viver os contrastes profundos. Você ali teve naquele momento a possibilidade de viver um contraste extraordinário entre uma afirmação que tava vindo de um plano etéreo, suave, benigno, uma visão ultrapositiva da existência, do viver, diante de um sofrimento físico real, concreto, que você tava passando ali naquele momento, ao mesmo tempo aquilo ali era um nascimento, era a dor do parto, era uma confirmação, por outro lado, de que o melhor lugar do mundo era ali e naquele instante. Ainda que mais contraditório que isso pudesse ser naquele momento. (risos)
Agora falando com o Gil ministro, a autoridade Gil (de 2003 a 2008, foi Ministro da Cultura durante o governo anterior do atual presidente Lula), pra entender uma coisa. Aqui a gente tá conversando com Gilberto Gil livremente sobre drogas, a gente pode falar livremente, mas outro dia influencers foram presas por usar vape e, pouco antes, um garoto que foi pego com um baseadinho foi arrastado numa avenida de São Paulo. Por que essas disparidades no tratamento da questão?
Por que é assim, o ser humano é esse contraditório permanente, entre um impulso no sentido da libertação, da adoção cada vez mais intensa de benignidade. O ser humano bruto, brutal, afundado em sua animalidade mais grotesca é esse ser humano que quer proibir, que quer punir, que quer cercear a liberdade, que quer negar ao outro a possibilidade de fazer suas experiências e alargar o conhecimento, de exercer sua bondade. Os maus fazem tudo pra que os bons não prevaleçam. Os maus querem que todos sejam maus da mesma maneira que os bons trabalham para que todos sejam bons. Esse contraste permanece na vida. O que é importante em determinadas situações é observar tendências. Nós começamos a conversa falando exatamente da tendência, que é cada vez mais evidente, efetiva no mundo, a tendência de que as liberdades prevaleçam, de que a capacidade de escolha seja efetivamente exercida pelos seres humanos. Tem os que tão querendo liberar, e tem os que tão querendo endurecer a lei colocando na constituição um parágrafo proibitivo do uso da cannabis ou qualquer coisa desse tipo. É isso, são os bons e os maus na eterna luta pelo território, enfim, animais que somos.
“O ser humano bruto, brutal, afundado em sua animalidade mais grotesca é esse ser humano que quer proibir, que quer punir, que quer cercear a liberdade, que quer negar ao outro a possibilidade de fazer suas experiências e alargar o conhecimento”
O que é mais forte para enfrentar o mau, políticas públicas ou arte? O que é mais essencial pra liberar a cabeça das pessoas?
Eu acho que é sendo radical na sua adesão ao bem, à bondade, eu acho que é isso. Quanto mais noção aprofundada de fazer o bem você tem, mais possibilidades de superar ou pelo menos de exorcizar o mau. Isso vale pra luta política, vale para a luta religiosa, vale pro campo da luta existencial, pra todos os campos de vida você tem esse desafio permanente, esse jogos de contrastes, e acho que é a sua adesão cada vez mais firme, mais radical ao bem, ao gosto, ao desejo de ser bom, que vai fazendo com que você aprenda o que é ser bom, aprenda cada vez mais o que é ser melhor. Como eu posso ser melhor e não pior? Você falou da música, da arte, eu falei da religião, você tem as várias formas de adesão a esse ser bondoso, cada vez mais bondoso, que por ser bondoso se torna um anteparo ao mal, se torna uma barreira, e isso vai passando para a política, para a legislação, vai passando para os vários instrumentos. Toda a instrumentalização vai sendo ofertada ao homem pra melhorar, pra progredir. Eu uso muito essa expressão, a bondade radical. Radicalizar em relação ao bem é uma coisa que ajuda muito. Risos.
O que você diria aos jovens que vão ler e ouvir essa nossa conversa e tão pensando sobre com encarar as drogas, a cannabis, os psicodélicos? Alguém na flor da idade pensando a respeito.
A percepção daquilo que lhe faz mal, sensibilidade suficiente pra perceber aquilo que lhe faz mal e aquilo que não lhe faz mal. Quase que forçosamente aquilo que lhe faz mal vai lhe tornar mais sujeito a também fazer mais mal. Se você faz mal a si mesmo, a tendência é que você também relaxe com relação a fazer mal ao próximo, então cuidado consigo mesmo, cuidado com a apreciação daquilo que lhe é mais prazeiroso, mais importante, mais auspicioso. Seja cuidadoso, se não tá lhe fazendo bem, não está lhe fazendo bem, e é melhor você trocar por alguma coisa que lhe faça bem.