Saindo da estufa

Krenak: “A gente precisa ser capaz de produzir outros mundos”

Imortal. Ailton Krenak é o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras. Mas essa imortalidade vem de antes de seu reconhecimento. Foi em 1987, quando discursou com contundência na Assembleia Nacional Constituinte, enquanto pintava a cara de tinta preta, que ele se imortalizou. A tinta preta de jenipapo é a tradição de sua tribo para o luto, usada ali, em protesto ao retrocesso dos direitos indígenas.

Ambientalista, filósofo, poeta, escritor. De lá pra cá, Krenak refinou seus conhecimentos, produziu vários livros – três deles publicados pela Companhia das Letras – e se tornou uma das nossas referências, uma espécie de xamã que nos ajuda a clarear as ideias, com sopros de um futuro que pode ser melhor, mas só se a gente agir agora. 

Nesta entrevista exclusiva conduzida por Anita Krepp, diretora de redação da Breeza, Krenak não usou tinta de jenipapo, mas poderia tê-lo feito face a outro retrocesso que vivemos: a PEC das drogas, que passou com folga no Senado há poucos dias. 

“Eles metem uma manchete assim ‘legalização da droga’. Em cada esquina da cidade tem uma drogaria, tá cheio de drogaria. E nessas arapucas, eles vendem tudo quanto é veneno, só que é veneno-mercadoria.”

Cannabis e psicodélicos são o mote da conversa, que passou também por outras drogas, legais e ilegais, pela hipocrisia em que a nossa sociedade está afundada, pela sanha dos políticos pelo controle de nossos corpos e mentes, e pelo uso que faz da ayahuasca, da cannabis e de outras medicinas da floresta.

Você é um pensador, filósofo das questões de fato importantes do nosso país, por isso faz tempo que eu tenho vontade de te ouvir sobre a questão das drogas. Da guerra às drogas, da descriminalização que tá sendo discutida no STF…

Eu não sou um especialista em regulação de uso de qualquer medicina. Eu tenho tido a oportunidade, nos últimos anos, de conviver com pessoas como Jeremy Narby, Emanuele Coccia, Sidarta Ribeiro, Antonio Nobre, cientistas com quem a gente troca visões sobre a vida, o planeta, esses temas que antes eram reduzidos à uma conversa sobre meio ambiente e ecologia. E faz muito tempo que nós estamos questionando essa separação entre os humanos e os outros seres vivos. Essa coisa centrada, esse antropocentrismo que centra tudo na perspectiva do humano e ignora, por exemplo, a inteligência das plantas. Essas plantas mestras nos abrem para uma conexão com o mundo da microbiologia, digamos assim, que vai alcançar os fungos, os cogumelos, e que obviamente vai chegar às estruturas mais visíveis do cipó, da ayahuasca, das árvores maravilhosas, gigantescas, da Samaúma. Quer dizer, vai estabelecer rede com muitos organismos inteligentes e que nos últimos talvez 50 anos passaram a ser marcados como proscritos. Eles só podem ser utilizados nos laboratórios farmacêuticos, na indústria farmacêutica, nessas coisas que o mercado consegue configurar como produto, se eles virarem produto, tudo bem. Agora tem uma polêmica no STF e no Congresso sobre basicamente a liberação do uso da maconha. Mas eles metem uma manchete assim “legalização da droga”. Em cada esquina da cidade tem uma drogaria, tá cheio de drogaria. E nessas arapucas, eles vendem tudo quanto é veneno, só que é veneno-mercadoria.

Ora, as plantas já estavam aqui antes da gente.

Como diz o Kopenawa Yanomami, um xamã que nos ensina sempre, é um querido amigo, nós socialmente vivemos no mundo da mercadoria. Nesse mundo da mercadoria vale tudo, desde que possam se apropriar. Essa é a questão, digamos, ética, o paradigma que deveria ser considerado. Mas como a maioria das pessoas são pouco informadas, a discriminação e as acusações, a condenação, a proscrição desses usos acaba caindo na cabeça do senso comum como uma proteção. O sujeito médio que tá pegando um ônibus e vai trabalhar, pega metrô, indo pra lá e pra cá, ele escuta “agora o governo vai proibir o uso de drogas”, aí ele vira e fala “ai que bom, graças a Deus vai parar aquela violência lá na minha favela, na minha periferia, porque agora finalmente o governo vai tomar providência”. Ele não tá entendendo nada. Esse pobre coitado acha que esses caras que assumem mandatos vão atuar no interesse comum e que vão proteger uma determinada comunidade. Então a gente tem um problema amplo, um problema mais do que social. A gente tem uma tragédia sociológica onde ninguém fala com ninguém, é uma Babilônia. Ora, as plantas já estavam aqui antes da gente.

Quem deveria definir onde nós andamos seriam as plantas. Nós pisamos, abusamos, extinguimos milhares de espécies. Tem um livro muito interessante que é uma pena que ele circule em ambiente muito seletivo, nas academias, que chama “O Cogumelo do Fim do Mundo”, é o trabalho de uma pesquisadora que se interessa por observar quem se deslocou primeiro no planeta, se foram mesmo os humanos que colonizaram a face da terra ou se eles foram induzidos, empurrados, carregados pelas plantas. É uma quase parábola sobre o equívoco que os humanos cometem toda vez que eles pensam que já estavam aqui primordialmente antes dos outros seres. E no caso das plantas, elas estavam aqui provavelmente antes dos humanos saírem do lago primordial, antes deles conseguirem soltar o rabo, ganhar uma estrutura humanoide, e sair por aí andando feito um chimpanzé. Então as plantas já estavam aí, aliás os primeiros hominídeos tiveram que trepar nas árvores para escapar das outras feras que podiam comer esse sujeito pretensioso que evoluiu biologicamente, virou um bichinho esperto, cheio de dedos, que quer controlar o mundo sempre a favor de si mesmo. Quer dizer, ele é um péssimo jogador, sempre blefando em relação aos outros seres, especialmente as plantas, que são desprezadas na relação com os humanos, desde que os humanos descobriram que podiam cultivar. Há 10 mil anos atrás as plantas mandavam no planeta, os humanos deveriam pedir licença para pisar suavemente sob a terra.

No seu discurso de posse na ABL você tocou na questão do genocídio do povo palestino e eu fico pensando se a gente também não tá vivendo um genocídio do povo preto e de baixa renda, nas favelas e comunidades de todo o Brasil, por conta da nossa política de drogas…

Eu tenho uma visão um pouco mais, digamos, complexada da coisa, porque eu acredito que o pretexto de eliminar jovens pretos, dessa mortandade na quase infância dos meninos negros e pobres, tem uma relação agora circunstancial com o consumo da cannabis, o uso, o consumo, o cultivo, mas sempre foram desprezados e dentro de uma estrutura colonial, sempre foram carne barata. A carne mais barata do mercado continua sendo a mesma. É bom a gente não se esquecer que até o final do século 19 a nossa sociedade brasileira era escravocrata, quando virou o século 20, até ali pela década de 1930, uma pessoa preta podia ser vendida ou comprada, negociada no mercado, mesmo depois da abolição da escravatura.

Então não é correto dizer que a polícia mata os meninos pretos porque eles têm proximidade com a cannabis, se eles comessem açúcar ou farinha, a maldita polícia treinada feito cão para farejar pobre ia matar os meninos porque eles são pobres.

A pergunta é a seguinte: será que a polícia, a tal das Forças Armadas, têm uma preferência por humilhar e matar pobres por que são pobres ou então por que essa gente são uns monstros treinados para matar mesmo? Mas a gente não precisa fugir do tema da cannabis considerando que no Brasil ela foi introduzida por duas entradas historicamente muito demarcadas. Uma é o povo da diáspora, os africanos que vieram arrastados para cá pela escravidão, e a outra é a entrada pelo Caribe, que muito provavelmente também tem a relação com a África, mas pode ter relação com a índia. Porque os indianos também chegaram, só que não vieram na primeira leva de escravos aqui para América do Sul. Eles foram escravizados na América Central na mesma época em que chegaram negros escravizados, arrastados da África para cá. Na América Central também chegaram pessoas trazidas dessa região do mundo que é genericamente chamada de Índia, para ser escravizados. Nessa peregrinação pelo continente, provavelmente a planta da cannabis chegou como medicina, chegou como rito, chegou como práticas muito vinculadas à cultura de matrizes africana e asiática.

A censura recai sobre os nossos hábitos e os nossos corpos com o objetivo específico de controle e lucro

Até que no século 18 ela chegou em muitos territórios indígenas e, em alguns desses territórios, ela passou a incluir, a integrar, inclusive com a cultura local. A cosmogonia desse povo passou a ter lugar e ela tem uma ampla conexão com o mundo sensível, com isso que a gente poderia chamar de religião, então todas as religiões que não são cristãs evangélicas devem ter uma relação muito forte com essas plantas, assim como o Islamismo. Se você chegar numa mesquita ou se você chegar em qualquer uma dessas grandes comunidades islâmicas você vai ver os anciãos usando o hashish, o narguilé, os equipamentos deles de fazer suas defumações e baforadas. E isso não é discriminado ou condenado como aqui, na nossa cultura colonial brasileira de que tudo que não é mercadoria é censurado. Assim que eles conseguirem fazer uma sistemática ordenação do produto cannabis para vender nas lojas e farmácias não vai ser mais crime, mas os pobres vão continuar morrendo, é bom a gente não se esquecer disso. Os pobres não morrem pelos seus hábitos e costumes, eles morrem porque não tem dinheiro.

Um indigenista me falou uma vez que a maioria dos povos indígenas não gosta de falar sobre cannabis por ser um tema tabu, que segundo a leitura de algumas etnias pode mais atrapalhar a causa indígena, que tem outras urgências e prioridades. Como você vê essa questão?

Algumas das nossas famílias cultivam suas medicinas e obviamente tratam isso com o necessário respeito e não ficam divulgando, não ficam propalando isso, né? No caso da Ayahuasca e da Jurema demorou mais de 300 anos para que as pessoas pudessem ter acesso a essas práticas nos terreiros e mesmo nas aldeias indígenas. A cannabis, por ela ter sido desde sempre criminalizada e discriminada como uma planta que não é daqui, ela é considerada uma planta exótica, que veio para o Brasil, já que não é do Brasil, e isso deveria ser observado. As pessoas que têm interesse em conhecer a história dessa planta aqui no nosso continente, no nosso país, deveriam saber que ela sempre foi estigmatizada, desde que chegou aqui. Qual é o peso que recai sobre essa planta que já foi utilizada como cânhamo, como fibra para indústria, para confecção, tecelagem, para tudo e também para a medicina? E que a partir da década de 1930 passou a ser vista como um perigo, provavelmente porque descobriram que ela podia ser muito facilmente cultivada, distribuída, processada, e com o potencial que ela tem, passou a sofrer um cerco comercial.

É tudo hipocrisia essa história que estão preocupados com a disseminação da droga, na verdade é um cerco comercial, é para controlar quem detém o monopólio disso. O moralismo e a hipocrisia dos governos. Em diferentes regiões dos EUA decidiram que essa planta pode ser cultivada, transportada, consumida, que não é crime No Paraguai. No Uruguai, ela foi regulamentada como uma planta que pode ser cultivada, comercializada, processada, dentro de normas que aquela sociedade achou conveniente. Quantidade e tal, mas a possibilidade de um governo reacionário tomar o governo num desses países e mudar tudo e censurar tudo… um sujeito como Trump, por exemplo, nos EUA, um cara de extrema direita, um boçal, fascista, se ele conseguir ampliar o poder dele nos EUA, ele censura tudo. Apesar de a gente saber que ele é um drogado.

Não pode ficar com esse critério social democrata, com essa moral social democrata, querendo discutir coisas no século 21 que já deveriam ter sido superadas no século 20, discussões como aborto, que eles querem misturar com a questão da licença para o uso das medicinas, mas eles não têm nenhuma vergonha de liberar as armas. Qualquer criança pode andar com metralhadora, com AR5, pode entrar na escola, matar os colegas, esses imbecis da política global e local não têm parâmetro para dizer o que que pode e o que que não pode. Se uma criança pode enfiar uma arma na mochila e ir para escola e matar a professora e os coleguinhas, como é que esses sujeitos que regulam a legislação de cada país pretendem estabelecer um regime para as plantas? Que planta pode que planta não pode, que uso pode que uso não pode, quem pode cultivar, quem não pode cultivar, a não ser que eles estejam a serviço do capitalismo.

Se uma criança pode enfiar uma arma na mochila e ir para escola e matar a professora e os coleguinhas, como é que esses sujeitos que regulam a legislação de cada país pretendem estabelecer um regime para as plantas?

É muito importante, Anita, que as pessoas entendam que o que está em jogo é o controle capitalista dos nossos fazeres, do nosso comportamento, dos nossos costumes. A censura recai sobre os nossos hábitos e os nossos corpos com o objetivo específico de controle e lucro. Se perderem o controle do que nós podemos consumir, mover, morar, comer, a gente não vai ser o consumidor dócil que essa gente do capitalismo, essa gente da mercadoria, precisa que a gente seja. Querem a gente consumindo. O consumidor é o modelo de humanidade do futuro. Aquele consumidor imbecil, o cliente preferencial. Estamos marchando para produzir não cidadãos, como diz o José Mujica, o mundo não quer cidadãos, o mundo quer consumidores. Você tem que ser um consumidor da porcaria que querem que você consuma, você não pode inventar ou procurar alguma coisa que não seja o pacote da mercadoria. O pacote da mercadoria é definido pelo mercado e qualquer item diferente, se você quiser, sei lá, tomar um chá de gengibre ou comer uma bardana, você já tá fugindo da receita.

Tenho muita vontade de te ouvir também sobre a Ayahuasca, uma tecnologia da floresta que tem sido utilizada em vários contextos mundo afora. Qual é a relação que você acredita que o mundo deveria ter com a Ayahuasca, reconhecendo que os povos originários foram os primeiros que se dedicaram à sua utilização e à transmissão de seu conhecimento?

Olha, curiosamente a Ayahuasca tá vazando a esse controle de uma maneira admirável. Eu conheço dois praticantes e mestres dessa medicina que na década de 90, levando um galão de 100 litros líquidos da bebida para Europa, foram presos na Espanha e imediatamente postos em isolamento porque eles foram considerados como uma ameaça terrorista. A gente não sabe se de propósito ou de burrice, o Fernando e o tio Chiquinho Chico Corrente ficaram isolados durante um ano e meio, considerados um perigo para a Espanha. Lá no presídio, isolados. Quando finalmente os amigos, os advogados e todo mundo intercedeu, dizem que até o Papa intercedeu por eles, eles foram liberados e se provou que não eram terroristas, que eram pessoas pacíficas e que também não entendiam a Ayahuasca como droga. Aquilo é um enteógeno, uma bebida sagrada que desperta Deus, em quem comunga essa fé, a do Daime. Que é Deus no organismo de uma pessoa dando sabedoria, cura, e que é uma medicina utilizada inclusive no tratamento de desintoxicação de pessoas que já foram desenganadas por médicos. A ambiguidade da Ayahuasca é que ela consegue passar por esse crivo moral na Alemanha, na Itália, na França, mas de uma hora para outra alguém é preso ou então acontece uma blitz num centro religioso, como foi feito no Japão e a dona da casa foi levada presa, sendo uma japonesa de uma família tradicional.

“Os pobres não morrem pelos seus hábitos e costumes, eles morrem porque não tem dinheiro”

Na Alemanha também eu já soube de blitz em locais onde estava tendo o ritual do Santo Daime. Mas eu também sei que o pessoal faz rave e que mil, duas mil pessoas cantam e dançam além do ritual da Ayahuasca, consumindo outros estimulantes. Nós estamos numa espécie de balanço onde a maioria dos governos e mesmo a Organização Mundial da Saúde não tiveram ainda como classificar o uso da Ayahuasca. A Organização Mundial da Saúde ainda vai ter que se voltar para isso, mas ela só vai poder se voltar para isso quando parar essa Europa em guerra, em guerra na Ucrânia, em guerra de Israel contra Palestina, destruindo Gaza. Então parece que olhar esses usos medicinais, recreativos, religiosos da Ayahuasca não podem ser prioridade da Organização Mundial da Saúde nesse momento em  que deve estar realmente arrancando os cabelos com aquele criminoso do primeiro-ministro de Israel, se armando para aniquilar a Palestina. Esse tipo de hipocrisia é que governa o mundo, Anita, o que governa o mundo não são propriamente as prioridades da vida no sentido da vida no planeta, é essa malandragem. Infelizmente o mundo está sendo governado por bandidos e as pessoas que não fazem parte desse jogo são vulneráveis e viram presa fácil, assim como as crianças pretas correndo numa calçada enquanto uma viatura atropela, mata e faz todo tipo de abuso como se fosse uma licença para matar. Eu não gosto de discutir esse tema na perspectiva da legislação, o que congresso aprova, o que o STF diz, porque essa moral capitalista deveria ficar fora disso. Eles não deveriam invocar uma moralidade para isso porque eles não têm moral.

Você fala com uma sabedoria, uma conexão, que a maioria das pessoas só alcança com a ajuda dos psicodélicos, então eu queria saber, você faz uso de alguma substância psicodélica?

Eu participo dos trabalhos de feitio daquilo que vem a ser a bebida da Ayahuasca, porque ela é composta pelo cipó, pela folha e por outras medicinas que os Pajé desenvolvem. Eu participo dos ritos apesar de eu não ser nem da União do Vegetal nem do Daime, que são as as linhas do sincretismo cristão no Brasil que permitem que uma pessoa faça o uso da Ayahuasca sem ser considerado um consumidor de droga, né? Pelo menos se você tiver num ritual da Ayahuasca no culto do Daime ou da União do Vegetal, ninguém vai te tratar com esse preconceito. Inclusive porque é muito bem admitido pela classe média, se você olhar o perfil do pessoal que tá nas milhares de igrejas do daime é classe média. São médicos, engenheiros, psicólogos e mais recentemente você encontra clínicas onde terapeutas e psicólogos assistem aos seus pacientes e ministram o uso da Ayahuasca para ajudar as pessoas a saírem de situações de sofrimento, inclusive sofrimento mental, que é um diagnóstico que a Organização Mundial da Saúde acrescenta que é o que mais cresce no mundo hoje. Até criança já precisa de proteção contra essa condição de sofrimento mental. Eu não vou ficar aqui dizendo para você, sim, eu uso todas as plantas, eu como todas as plantas, porque a caravana está sempre de orelha em pé feito cães de caça para acusar as pessoas, para sacanear as biografias. Mas eu sou uma pessoa da floresta, eu vivo na floresta aprendendo a me curar.

[Krenak então canta: “Eu vivo na floresta aprendendo a me curar, eu vivo na floresta aprendendo a me curar”]

Então alguém que vive na floresta aprendendo a se curar, é filho da floresta, e o filho da floresta não tem estranhamento com nenhuma entidade da floresta, pode ser uma planta, pode ser um animal, pode ser qualquer outra essência da floresta, e os filhos da floresta têm livre trânsito. Eu acho que a média geral das pessoas é de preconceituosos, e por diferentes razões. Alguém que é submetido a um regime de trabalho cruel, levanta de manhã cedo, de madrugada, pega trem, metrô, ônibus, vai trabalhar, trabalha o dia inteiro sob vigilância de um chefe, e não tem tempo nem para sair para fumar um cigarro [de tabaco], é proibido. Então essa pessoa quando tá na vida dela doméstica, quando ela vê que alguém tá consumindo uma planta que dá prazer que amplia os sentidos, e tira você do contexto de escravidão capitalista, ao invés dela olhar isso e falar “olha, essas pessoas estão se libertando do domínio capitalista escravocrata”. Ao invés dele olhar nessa perspectiva, ele acaba se afetando com a moralidade do chefe que vigia ele, da fábrica que trabalha, do escritório que ele trabalha e fala “ah, mas eu não posso fazer isso, eu não posso chegar no meu trabalho com a cara de quem fumou um, eu não posso fumar, nem Hollywood”. E aí o carinha que já tá nesse contexto, de se integrar com a moral capitalista burguesa, tudo ele discrimina. “Ah, aquele cara lá, o meu vizinho fuma no terraço”. Então isso vira uma fofoca besta antissocial que contamina a vida de todo mundo. Esse é um ambiente moral que a sociedade gerencia. Nós estamos conversando num podcast ou numa revista onde as pessoas que nos leem, a maioria delas, já são convertidas, mas se a gente tivesse fazendo isso lá no Templo de Salomão, daquele pastor lá, a gente já tava preso.

Eu não vou ficar aqui dizendo para você, sim, eu uso todas as plantas, eu como todas as plantas, porque a caravana está sempre de orelha em pé feito cães de caça para acusar as pessoas, para sacanear as biografias.

Você acredita que os psicodélicos podem ajudar a humanidade a lidar com esse número altíssimo de males mentais que afetam boa parte das pessoas?

O mundo tá doente. O adoecimento das pessoas, como eu disse, não afeta só os adultos, mas também as crianças. Tem havido um crescente uso do canabidiol ministrado por médicos, por familiares, socorrendo crianças que ficam se sentindo inadequadas. Uma criança que não tem paciência para ler, que não tem paciência para ouvir, que não tem paciência para ficar numa sala, porque esses ambientes todos são saturados. Eles não são acolhedores para uma criança e as condições em que a maioria das famílias vivem também não permitem que eles ofereçam cuidado de verdade com a infância. Então você tem muitas crianças com oito, nove, dez anos que estão com todo tipo de perturbação, a mais visível delas é a obesidade. O que é óbvio. Mas tem outras, a timidez, o silêncio, o autismo. Então as pessoas vão ficando nesses estados catatônicos.

E às vezes a família tem que recorrer a religião, recorrer a práticas de terreiro, recorrer a alguma ajuda que não é o sistema de saúde. Esse SUS que todos nós gostamos tem que existir mesmo, mas ele lida com o grosso da miséria, né? Ele socorre o cara que caiu da moto, quebrou a cabeça, o braço, pescoço, né? Mas a sutil medicina das plantas e as práticas das culturas da diáspora, os terreiros de Candomblé, os terreiros com todas as suas variedades, são os que acabam salvando vidas e ajudando as crianças e as famílias com plantas, não só da cannabis, não só o canabidiol. Com uma constelação de plantas que são sagradas e que estão aí para ajudar a humanidade. Cuidar da humanidade, essa humanidade cambaleante. Ainda bem que existem as plantas, nós chamamos de plantas mestras todas as plantas que buscam o Sol, todas, desde aquelas pequenininhas buscando a luz do Sol até aquelas frondosas Samaúmas que são medicina, quer dizer, a medicina não é só aquela planta secreta que você cultiva no vaso escondido no quintal. A medicina é tudo. Quem vive fora do controle do cimento, quem vive fora dessas caixas de concreto urbana, sai no quintal e já tá imerso na medicina. Eu me lembro que na pandemia uma das plantinhas que mais me ajudou foi um melão de São Caetano.

O consumidor é o modelo de humanidade do futuro. Aquele consumidor imbecil, o cliente preferencial.”

Quando eu me sentia totalmente ameaçado por esse pânico da pandemia, eu enrolava uma faixa de melão de São Caetano na minha cabeça e ele sumia com todo o estresse. Eu nem fumava e nem bebia melão de São Caetano, só enrolava a rama dele na cabeça, assim como alguém pode pegar uma folha e mastigar. A folha da Coca, por exemplo, é um remédio maravilhoso, que os nossos parentes dos Andes recorrem a ela para tudo. Nos Andes as pessoas precisam da folha da Coca para trabalhar, para viver, para subir aquelas montanhas. Homens, mulheres e crianças. Na bacia amazônica a Coca é muito usada em medicinas, lá no alto Rio Negro, durante muito tempo, as aldeias sofreram invasão pelo pessoal do exército para erradicar o epadu. O epadu não é outra coisa senão a folha da Coca. Então em diferentes regiões no médio Amazonas, no Solimões, as aldeias, as comunidades têm os seus canteiros com suas medicinas e têm o direito de fazer o cultivo e o uso dessas medicinas. Muitos povos já requisitaram ou requereram o direito dessas práticas na sua cultura. As pessoas que tiverem interesse em pesquisar vão conseguir bons trabalhos em etnobotânica. Nós já tivemos duas ou três conferências da Ayahuasca na Amazônia, já teve em outros países, toda hora tem nas Universidades dos EUA, sempre chamam conferência sobre esse tema e quando você abre uma conferência sobre uma dessas plantas mestras, obviamente você ilumina todo o ambiente de ignorância e desinformação manipulada pelo sistema comercial farmacêutico, de controle. A maior parte do relatos nessas conferências se constitui num manifesto contra a apropriação comercial, exclusivamente comercial, do princípio ativo dessas plantas para a indústria farmacêutica ou para qualquer outra esperteza capitalista. Então eu acho que as conferências são o melhor ambiente para quem quer conhecer aspectos de regulação legal de experiências de pessoas que são praticantes de ritos onde essas plantas são mestras e abre para uma outra percepção.

Na sua obra, você fala que a normalidade é um risco. A cannabis e as substâncias psicodélicas são parte importante para criar um novo normal?

Muitos cientistas e até alguns pensadores no campo social acenam para a necessidade de outras maneiras de viver o cotidiano, e apropriação desse debate criou uma chave chamada novo normal, que eu acho uma bobagem, não tem um novo normal, pelo contrário, tudo que é normal é velho. Então a gente precisa ser capaz de produzir outros mundos onde cabem todas as necessidades da pessoa humana. E nesses mundos é óbvio que as plantas mágicas, as plantas sensíveis, as plantas mestras, vão guiar a passagem desse tempo caótico que nós estamos vivendo para outras percepções de mundo, outras experiências de mundo, onde as pessoas não vão ser discriminadas, estigmatizadas, porque fogem do normal.