Na Breeza

Esperando para morrer

Os cuidados paliativos com cannabis de Carol Arruda à espera da eutanásia
11|07|24

Lidocaína, cetamina e morfina, essa é a bomba de anestésicos que Carol Arruda estava tomando quando conversamos, para induzi-la a um sono profundo . “Em breve o meu cérebro vai desligar totalmente da dor e o médico disse que vai reprogramar ele”, conta a estudante de 27 anos, que terá de ficar internada por no mínimo quinze dias para cumprir o protocolo de tratamento para a dor crônica que a persegue há dez anos sob a alcunha de neuralgia do trigêmeo (um nervo central da face). 

Esse não é o primeiro intento de encontrar alívio para as pontadas intensas que sente atravessar o seu rosto, como descargas elétricas, várias vezes ao dia. Já tentou de tudo, inclusive quatro cirurgias, e agora Carol não tem muita esperança de que essa seja a solução para o seu problema. Em todo caso, tenta. Essa falta de horizontes e a rotina de dores intensas que a impossibilitam de ter uma vida tranquila e prazeirosa fizeram ela se perguntar se valia a pena continuar vivendo desse jeito.

“A eutanásia foi a decisão mais difícil e ao mesmo tempo a mais clara que eu já tive. Encaro como um fim ao sofrimento de uma forma digna, de uma pessoa que não pode ter paz durante a vida e finalmente vai ter paz na morte”, reflete a estudante, que diz não crer em céu ou inferno. “Acredito que a gente vá descansar depois da morte e é isso que eu procuro. Quero descansar, quero uma paz.”

Nos últimos anos, ela estudou os critérios de elegibilidade para passar pelo procedimento na instituição Dignitas, na Suíça, e está tratando de reunir todos os documentos necessários. Só faltava mesmo a grana, mas isso já não é problema. Carol lançou uma vaquinha online para arrecadar R$ 150 mil e em menos de uma semana já bateu 90% da meta. 

Toda cannabis é terapêutica

“Acredito que serão uns dois anos até conseguir uma data para a eutanásia, nesse meio tempo tenho que conviver com a dor da melhor forma possível”, conta Carol, que nessa estratégia para contenção das crises adotou também a cannabis. Mesmo com uma década sofrendo de dor crônica, foi só em janeiro passado que conseguiu uma prescrição médica, coisa que vinha tentando nos últimos quatro anos, mas que os médicos nunca recomendavam “porque diziam que não havia estudos suficientes, que faltava comprovar os benefícios”.

O balanço que faz desses sete meses de relação com a cannabis é positivo, sobretudo pelo efeito no sono, que costumava ser picotado em cochilos de no máximo meia hora cada, e desde que começou com o tratamento, já conseguiu dormir durante três horas seguidas, um recorde. Além disso, “a cannabis conseguiu fazer com que eu tenha menos crises de dores por dia e a dor constante, fora de pico, deu uma amenizada”, conta ela, que toma 1ml de óleo de CBD e THC a cada seis horas, intercalando com gummies de THC, e uns baseados de vez em quando.

“Mas não é a flor, claro, é os prensado da vida, e eu percebo que melhora muito, instantaneamente.” Se a Carol quisesse comprar flor de cannabis para fins medicinais ela hoje não poderia fazê-lo, já que desde o ano passado a Anvisa proíbe a importação de cannabis em flor. Em muitos países do mundo, porém, a cannabis em flor é responsável por mais de metade das vendas do mercado medicinal, caso no caso da Austrália e de Israel.

No domingo que vem ela vai sair numa matéria do Fantástico e sabe que vai chover gente oferecendo ajuda com terapias alternativas. Apesar de desacreditada, ainda mantém viva uma esperança de quiçá… se um dia acontecesse de pintar algo realmente efetivo, que chegasse a reduzir o seu nível de dor em 50%, Carol desistiria da eutanásia sem pensar duas vezes.

Anita Krepp