
Nas eleições deste ano, as candidaturas ligadas à bandeira da maconha, que ganham força desde o início das Marchas pelo país, tomaram ainda mais as redes e o noticiário, em torno de movimentos como a Bancada da Maconha e a Ganja Coletiva. Só que das 31 candidaturas à vereança desses dois coletivos, por exemplo, apenas duas tiveram êxito, com os eleitos Leonel Camasão em Florianópolis e, em São Paulo, Marina Bragante, como bem contabilizou o Smoke Buddies.
A Breeza foi atrás de entender o que o cenário representa para a causa, o que faltou para atrair mais votos e quais são os planos para as próximas eleições. Entrevistamos eleitos e não eleitos em busca de compreender o que é preciso para o conhecimento sobre a erva se espalhar e virar também votos nas urnas.
OS ELEITOS
A pauta da maconha, seja pela ótica da legalização ou pelo medicinal, é majoritariamente de âmbito federal. Então, o que os vereadores podem fazer a favor da causa? Comecemos por essa explicação, pois eles podem fazer é muito.
“Tem o papel nosso dentro da Câmara que envolve a questão do acesso medicinal pelo SUS“, exemplifica Camasão, eleito vereador em Florianópolis pelo PSOL. Ele também destaca o papel do vereador na articulação entre sociedade civil, médicos, pacientes, universidades, o estado e outros atores envolvidos com a questão canábica. “Demonstrar os benefícios do plantio de maneira geral, com trabalho na formação, em informar, na articulação política, o que vai ao longo do tempo diminuindo os preconceitos”.
Marina Bragante, da Rede, reforça as atribuições práticas: “A lei aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, de autoria do deputado Caio França (PSB) e co-autoria com a deputada Marina Helou (Rede), precisa ser executada”. Ela faz referência ao avanço que institui a política estadual de SP para o fornecimento de medicamentos derivados de cannabis. “Enquanto vereadora vou garantir a fiscalização adequada para que o acesso fácil e rápido aconteça para todas as famílias que fazem uso da cannabis medicinal”.
Além dos vereadores mais diretamente ligados ao tema, há também aqueles que defendem a causa de alguma forma. Um levantamento dos comprometidos, por exemplo, com a pauta da cannabis medicinal, especificamente, amplia para mais sete o número dos eleitos ou reeleitos para câmaras do estado de SP, representando cinco partidos distintos.
Como sabemos, a questão não envolve apenas o medicinal ou a legalização do uso adulto e para lazer. Há outras diversas propriedades da planta, como as do cânhamo, para uma série de mercados. “A máxima de que tudo que é de plástico poderia ser de cânhamo conecta diretamente nós, sustentabilistas, com o tema”, pontua Bragante.
E acrescenta Camasão, seu colega de Florianópolis: “Podemos usar para recreativo, para tratamentos de doenças graves, mas também para substituir plásticos, em vestimentas, como papel… tem toda uma indústria que pode ser desenvolvida no Brasil”.
NÃO ELEITOS
Em 2020, Luciana Boiteux não se elegeu no Rio para a Câmara, mas ficou como suplente. No ano passado, após a saída de um colega que se tornou deputado federal, ela assumiu como vereadora. “Mostrei o que faz uma vereadora antiproiba”, afirma, antes de defender como o papel na Câmara está também ligado a “trabalhar como as políticas públicas vão chegar na cidade”.
Nas últimas eleições deste ano, porém, Boiteux não venceu nas urnas e voltou à suplência. Para ela, é possível identificar pontos que teriam atrapalhado os postulantes ligados à bandeira da ganja. “Falando do Rio, aqui não tinham tantas candidaturas comprometidas e a eleição foi muito morna, com pessoas alienadas, o que prejudica pautas que precisam de mais energia, amplitude e provocação”.
A ainda vereadora, e a partir do ano que vem suplente, ressalta também que conflitos internos nos partidos de esquerda, com uma “lógica violenta e machista”, contribuem para a dificuldade em se eleger. “Milito na pauta faz 20 anos, mas fui acusada de ser oportunista por levantar a bandeira”.
Santo Legaliza, que com esse nome tentou uma vaga em São Paulo pelo PSOL, aponta questões estruturais para o insucesso da maioria dos candidatos, como ele: “Falta apoio institucional dos partidos, falta educação política para a população em geral e para quem fuma em específico, falta engajamento de quem já lucra com o nicho, heemprendedoras, influencers, headshops, marcas de sedas e etc. Falta derrubar a censura das mídias sociais”.
Um ponto que reflete também conflitos internos que podem gerar dificuldades para uma coalizão é o desentendimento para alguns entre as palavras “maconha” e “cannabis”. Na prática, são sinônimos, mas alguns preferem o segundo termo, cannabis, como forma de, digamos assim, amenizar o discurso e focá-lo no fim medicinal.
Para Camasão, eleito em Florianópolis, chamar de cannabis seria uma “higienização com interesses comerciais”‘. Alguns candidatos, como Santo Legaliza, preferem também “maconha” por questões similares: “Quando falamos da proibição sabemos que a substância em si nunca foi o problema, então num momento em que a indústria decide lucrar oficialmente com a maconha é muito fácil para essa fazer um rebranding gentrificador da planta, a chamando de ‘cannabis medicinal’ e criando novas barreiras arbitrárias”.
Há, todavia, aqueles e aquelas que valorizam a força que “cannabis” tem ganhado na popularização e aceitação da planta. Afirma Marina Bragante, eleita em São Paulo: “Entendo que maconha é um termo que ainda carrega muitos preconceitos e desinformação, ainda cria muitos muros. Se cannabis é um termo mais aceitável, por que não usá-lo?”.
Ela acrescenta outro obstáculo para a falta de maior êxito dos coletivos em torno da pauta. “Trago uma visão bem pragmática: o valor do fundo eleitoral nestas eleições foi muito discrepante ao de qualquer outro na história do país. Sem sombra de dúvidas o acesso a recursos é a principal barreira de entrada na política”.
Dário de Moura, que na política se apresenta como Dário4e20 e tentou, sem sucesso, vaga na Câmara de Belo Horizonte, concorda: “Não estamos entre as principais prioridades (financeiras) do partido. Eleger é que seria o inusitado nessa competição financeira”.
Ele diz que teve cerca de 70 mil reais para investir em sua campanha, em custos como com gráficas e em impulsionamentos de posts em redes sociais. Porém, um candidato que é priorizado pelo seu partido, o PSOL, receberia bem mais, em média 300 mil reais. Já aqueles que tentam reeleição estariam na casa dos 500 mil reais.
MACONHA NA POLÍTICA
Por que é importante ter uma bancada da maconha? Santo Legaliza defende de uma forma mais macro: “É importante porque a proibição é um dos maiores atrasos de nossa sociedade, em termos práticos deixamos de gerar bilhões em receitas para o país, gastamos outros bilhões com a injusta repressão e encarceramento, negamos remédio para muitas pessoas que poderiam se beneficiar, deixamos de desenvolver soluções sustentáveis. Mas acima disso tudo temos que combater o racismo que essa proibição escancara“.
Camasão, eleito em Florianópolis, reforça com uma explicação de como seria difícil convencer até mesmo alguns vereadores progressistas, “com mais de 60 anos, a compreender objetivamente porque a legalização da maconha é boa pro Brasil”. Uma bancada em torno do tema ajuda no combate a estigmas.
O movimento político em torno da ganja dá maior poder a urgentes debates sociais, mercadológicos, industriais, de saúde pública, de segurança… e tantos outros de altíssima relevância que rodam em torno da cultura canábica e psicodélica. Ilustra Santo Legaliza: “A própria presença de alguém que se intitula ‘Santo Legaliza’, se veste com roupas com maconha escrito ou desenhada, porta e faz o uso da planta em eventos onde está o próprio presidente da República, é um importante rompimento de barreiras”.
Filipe Vilicic