Reportagens

Quem conduz a marcha

Ouvimos as pessoas que organizam o maior ato de desobediência civil do país, sobre as urgências de hoje e os sonhos para o nosso futuro
13|06|24
Renato Filev, que está na organização desde o início: “Esperava que não precisássemos mais marchar, mas parece que é ilusão”

Na semana da Marcha da Maconha em São Paulo, a primeira que vai acontecer em um domingo (dia 16, na Avenida Paulista), a Breeza ouviu figuras-chaves do movimento para escutar o que pensam da história, do momento e do futuro do ato, que reúne todos os anos cerca de 100 mil pessoas para levantar a bandeira da legalização. Em um vídeo de divulgação, ressalta-se a relação da proibição das drogas como “combustível da guerra do estado contra pessoas negras, pobres e periféricas”.

O material da manifestação ainda destaca como em nosso país a Guerra às Drogas custa 15 bilhões de reais por ano aos cofres públicos, causa um terço das mortes por homicídio e quase um quarto dos registros de prisões. Aqui na Breeza, já versamos sobre e ouvimos muitas e muitos que falam da farsa criada em torno da política repressora como forma de inibir culturas, corpos e pensamentos.

Criada e construída por adeptos da cultura canábica, em seus apenas três meses de existência a Breeza não poderia deixar de entrar na Marcha. Quisemos entender mais sobre essa caminhada ouvindo as pessoas que estão no centro dela, centrais ao movimento, este formado por vários coletivos e que nos presenteia todo ano com um dia de celebração, resiliência, luta e conquistas.

“Esperava que não precisássemos mais marchar, mas parece que é ilusão”, afirma o biomédico Renato Filev, pesquisador da Unifesp e que está na organização desde o primeiro ato, em 2007. “Nossas demandas são muitas, nossa pauta é antiproibicionista como um todo e pela regulamentação da cadeia produtiva de todas as substâncias consideradas ilícitas, mas não apenas, pois nossa luta também é anticapitalista”.

Para coletar os depoimentos, fizemos entrevistas por vídeo e por trocas de mensagens de áudio, com uma exceção na qual as respostas vieram em textos. Procuramos saber como veem a estrada até aqui, quais são as maiores urgências de hoje e das expectativas para o futuro.

ATÉ AQUI

As conversas começaram em fóruns online, em 2007, e logo culminaram em um encontro na PUC-SP, universidade que foi símbolo de resistência à ditadura militar. No mesmo ano já havia acontecido a Marcha no Rio e decidiram fazer também em São Paulo, no Parque do Ibirapuera. “Era um movimento bastante branco, universitário, de galera classe média”, recorda Filev. 

Um dia antes do ato ocorrer, porém, ele foi impedido pela Justiça. O Estado alegou que os manifestantes estariam fazendo apologia ao crime. “O que é um contrassenso absoluto, afinal, estamos queremos nos manifestar para que algo deixe de ser crime”, defende Gabriela Moncau, da Marcha e também da Frente Estadual pelo Desencarceramento de SP. “Era um grande tabu falar desse tema e nossa pauta principal era poder marchar sem censura, sem ser reprimido, sem ser preso”.

Rebeca Lerer: “A gente não podia falar ‘maconha’, então passeamos pelo parque defendendo a ‘pamonha’. Meio ridículo, mas teve seu lugar para começar”

A Justiça continuou a impedir a Marcha até 2009. Em demonstração de resistência, os organizadores não desistiram, jamais! Em 2010, cerca de 500 pessoas se reuniram no Parque do Ibirapuera, dez vezes mais do que na estreia, e com tudo negociado previamente com a polícia. “A gente não podia falar ‘maconha’, então passeamos pelo parque defendendo a ‘pamonha’. Meio ridículo, mas teve seu lugar para começar”, recorda Rebeca Lerer, jornalista e ativista de direitos humanos. Mesmo assim, um manifestante foi preso por portar um cartaz no qual a mensagem pela legalização era, digamos assim, mais explícita e direta. Censura pura do nosso Estado.

Muito mudou em 2011. “Conseguimos habeas corpus para que dezessete de nós tivéssemos autorização para mencionar a maconha e a folha, como em bandeiras e camisetas”, conta Filev. De nada adiantou. Com a alegação de que a Justiça havia novamente proibido o ato, agora já na Avenida Paulista e reunindo milhares, houve repressão violenta. Para contornar a censura, os manifestantes tinham adotado medidas preventivas, como em todos anos, a exemplo de chamar o evento de Marcha da Liberdade, sem alusão à erva. A PM não quis saber e agiu de forma truculenta sem, até hoje, ter tido qualquer razão para tal.

As cenas de agressões policiais contra jovens, mulheres e jornalistas tomaram o país e se espalharam pelas redes sociais, que tiveram papel fundamental na disseminação das mensagens. “Ainda éramos um grupo majoritariamente branco e universitário, o que chamou atenção e causou comoção [devido ao sabido racismo que permeia nosso país, quando as vítimas são pessoas brancas de classe alta, há alvoroço]”, continua Filev.

Com a permissão do uso poético de expressão tão bruta, mas que cabe no contexto, o tiro saiu pela culatra para a PM de SP e para o Estado. Espalharam-se atos pelo Brasil em reação aos ataques na Avenida Paulista, o que culminou no STF autorizando de vez a Marcha da Maconha em junho daquele ano, um mês após o evento na Paulista.

E AGORA

É a primeira vez que a Marcha ocorre em um domingo. “Para alinhar ao Passe Livre [de ônibus] em São Paulo e com o dia em que a Paulista é fechada [para passagem de carro, toda semana já é assim]”, explica Filev. A mudança é simbólica de uma transformação que fez o movimento, inicialmente branco, elitizado e bem universitário, se tornar majoritariamente jovem, preto e periférico.

“[no início] Tinha um perfil de público de estudantes de cursos de História, de Humanas, que trazia um conteúdo de análise crítica”, diz Rebeca Lerer. “O maior acesso à informação com [a popularização da] internet mudou o debate sobre drogas, o que tornou crescente a mobilização popular”. Segunda ela analisa, a organização começou também a entender o “impacto interseccional da política de drogas” e como a repressão é bem, bem diferente a depender de “raça, classe, soberania”. “Ligamos [a bandeira da Marcha] com outras pautas similares, como de direitos sexuais e reprodutivos, direitos civis em geral, direito à cidade, direito a fazer propostas”, complementa Rebeca.

Daniel Mello: “Conseguimos poucos avanços, alguns retrocessos. Não tem como avançar com a política de drogas se não pensarmos na violência policial, no encarceramento”

Ela lembra que se iniciou, principalmente entre os anos de 2013 e 2014, um processo de descentralização da organização do ato: “A gente trabalha em rede, opera junto. Fomos para a Baixada Santista, Campinas, Diadema… agora somos um grande contingente de jovens da periferia, principalmente com entre 18 e 25 anos, sendo praticamente metade de mulheres, e incluindo pacientes [que se remediam com cannabis], portadores de deficiências, idosos, crianças, grupos LGBTQIAP+ e vários outros coletivos relevantes”.

Diva Sativa, uma jovem ativista de 29 anos, tinha somente 16 quando começou o movimento, lá em 2007.  Ela começou a marchar em 2015 e nos conta que entrou “pela dor”. Antes de morrer, sua mãe sofria de fibromialgia, cujas dores intensas nas articulações são aliviadas pelo uso da maconha. Todavia, de origem periférica, a família não conseguiu acesso ao remédio a tempo. A revolta a levou à Marcha.

“Ficamos desesperados pela dor, pela tragédia de ser pobre em um país proibicionista”, afirma ela. “Percebemos a deslealdade dessa desproporção da Guerra às Drogas”. Para ela, o papel de mulheres periféricas, como ela, desde 2018 na organização da Marcha, é “trazer a inconformidade, que a gente traz do coração e para a voz, com essa revolta”.

Diva acredita que estamos hoje em um “ponto de inflexão, com uma sociedade [dividida] em dois extremos, fechada ao debate”, e que por isso é preciso conversar sobre “o projeto de país que queremos, e isso passa pela legalização da maconha”. O jornalista Daniel Mello, que se manifestou no ato pela primeira vez em 2012 e entrou para a organização em 2017 (quando passou a ser militante na Cracolândia), diz que sua motivação é “a perspectiva da legalização das drogas” por como ela instiga a “violência policial”.

Para ele, um dos grandes problemas da Marcha é que, desde que começou a caminhar com ela, as urgência não teriam mudado. “Conseguimos poucos avanços, alguns retrocessos. Não tem como avançar com a política de drogas se não pensarmos na violência policial, no encarceramento”, afirma. “A gente tem de unir mais em pensamento as pessoas que não estão alinhadas com a direita, com a extrema direita”.

Renato Filev, que está na organização desde a semente, afirma que as decisões do ato são feitas “por um coletivo horizontal, autônomo, que não se vincula a partidos e empresas, e que trabalha na base do consenso”: “No auge de nossos privilégios, a gente começou pela perspectiva de liberdades individuais, do uso do próprio corpo. Da ideia de que ‘pra dentro eu que mando’. Mas [com os anos] sentimos a necessidade de diversificar, trazer outras vozes, ampliar demandas e exigências”. Agora ele ressalta como a Marcha virou uma reunião de coletivos “feminista, psicodélico, religioso, terapêutico (…)”. 

PARA ONDE A MARCHA VAI?

Diva Sativa compartilha sonhar com um futuro (para breve, esperamos) no qual ao menos “todas as pessoas que precisam de cannabis medicinal tenham acesso, mas acesso de verdade, a preço acessível, de qualidade, certificada e produzida no Brasil”. Ela também gostaria que mudassem as perguntas que se espalham pela sociedade sobre a ganja. “Temos de nos questionar ‘Por que não legalizar? Qual é a razão de continuar encarcerando pessoas [por isso]?”.

Pioneiro da Marcha, Renato Filev ambiciona logo multiplicar por cinco, de 100 mil para 500 mil pessoas, a quantidade de manifestantes no ato. Para sua colega Gabriela Moncau, “o grande desafio é conseguir fazer com que o avanço da luta antiproibicionista vá além do avanço no debate público a respeito disso”.

O historiador e jornalista Júlio Delmanto, que está na manifestação desde 2008, vê que o futuro é “seguir desobedecendo e ampliando nossos espaços de autonomia  e liberdade, sem perder a ternura e a chapação”. Ele também ressalta que “mais do que uma manifestação, a Marcha da Maconha de SP, e são muitos coletivos autônomos ao redor do Brasil, também atua como movimento social, principalmente no primeiro semestre, nos meses que antecedem o ato, mas também no resto do ano”.

Delmanto interpreta que, lá no início, o desafio era “consolidar a Marcha como um movimento social relevante para além de ser vista como algo ridículo, engraçado, curioso, na melhor das hipóteses, ou criminoso, na maioria das vezes”. Após o fim da proibição da Marcha, em 2011, o ato cresceu e se multiplicou, em número de pessoas, diversidades e bandeiras. “Começamos a ser mais propositivos e saímos da defensiva, consolidando a Marcha de SP como um grande ato de desobediência civil, provavelmente o maior do país”, conclui ele.

O sonho maior? Rebeca Lerer resume bem: “Espero que legalize e que a gente não precise mais fazer. Como ativista, a meta de todo movimento social é não mais ser necessário, resolver nossos problemas para avançarmos para resolver outros novos problemas”.

Filipe Vilicic