Na Breeza

“Queremos ver é a bancada da maconha”

Como surgiu o jingle em favor da legalização que viralizou em 2022? Dário, que então se candidatava a deputado federal, agora quer ser vereador por BH
06|06|24

“Boi, bala e Bíblia, isso só nos envergonha. Agora queremos ver é a bancada da maconha.” Nas últimas eleições, em 2022, viralizou esse jingle pelas redes sociais. Ao ritmo de um funk que lembra os hits de Claudinho & Buchecha, um senhor com uma carequinha no centro, cabelos grisalhos nos arredores, óculos meio escuros e meio claros (como aqueles dos infomerciais de antigamente), camisa verde e um adesivo no peito com o slogan “Eu [símbolo da erva] MG”,  faz um passinho no estilo tiktoker.

Ao longo do pleito de 22, o jingle passou de 2,5 milhões de visualizações no TikTok e 613 mil no Instagram (onde também se espalhou a propaganda de TV do político do PSOL, com 1,8 milhão de views). Não o suficiente para eleger Dário de Moura, que na política se apresenta como Dário4e20, para deputado federal. “Sou segundo suplente, o objetivo do movimento era eleger a Célia Xakriabá [primeira indígena no cargo por MG]”, diz Dário, em entrevista à Breeza.

É a quarta tentativa de Dário. Em 2016, foi para vereador. Dois anos depois, deputado estadual. Já em 2020, voltou a se candidatar para a Câmara Municipal de Belo Horizonte. Há dois anos, teve a campanha pra deputado federal. Nunca foi eleito, apesar de argumentar que ajudou a puxar votos para outros políticos do partido.

Em outubro deste ano, pretende voltar a se candidatar a vereador por BH. Está confiante: “A campanha pra deputado federal [de dois anos atrás] criou repercussão, explodiu a bolha e entrou em discussão nacional, sobretudo pelo trecho de Boi, Bala e Bíblia. Depois disso conseguimos manter uma rede bem posicionada, ampliando o discurso”.

Do carnaval ao funk

A estratégia de jingles está em todas as campanhas de Dário. Tudo começou pela sua proximidade com o Bloco do Manjericão, que desde 2011 desfila no Carnaval de BH. “Quando o bloco começou, a repressão era ainda maior e por isso chamamos de Manjericão, pra não ser considerado apologia às drogas”, recorda ele.

Na primeira musiquinha de seus esforços políticos, em 2016, inspirou-se no Carnaval. “Eu vou plantar manjericão / Vou plantar no meu jardim / Se todo mundo plantar manjericão, não vai faltar pra mim”, canta ele.

O ritmo de marchinha colou na campanha até 2020. “Maconha não vai ser tabu / Maconha é medicinal”, continua a cantar, durante a entrevista à Breeza. Em 2022, ele e equipe resolveram adotar o funk. Dário afirma que ter tido espaço no horário eleitoral gratuito da TV o ajudou a espalhar suas mensagens. “Mesmo com pouco tempo, pudemos falar de forma objetiva que maconha é remédio, é solução, é emprego”.

O motivo de ter viralizado, atribui a razão inusitada. “O Constantino [voz e cara da extrema direita brasileira] criticou o vídeo. Aí, por isso, se espalhou. Veja só, por causa da crítica vinda da oposição.”

A bandeira da erva

As experimentações com maconha e outros psicodélicos tiveram início na universidade, quando cursava filosofia, nos anos de 1980. “Uso há mais de 40 anos, hoje tenho receita médica”. 

Dário conta que sempre se aproximou de movimentos políticos, como de universitários e ligados a estudantes com baixa renda. “Também tive contato com jovens em medidas socioeducativas, em conflitos com a lei, para os quais a questão das drogas e da repressão se apresenta de outra forma, no lugar da injustiça e do desamparo do estado.” Não demorou para se associar a movimentos sociais ligados à bandeira da legalização. 

Para Dário, a batalha pela liberação da ganja é motivo para erguer outras bandeiras progressistas. “É uma luta antiproibicionista. O que está em jogo no STF é o direito à privacidade. Se temos o direito de nos arriscar pulando de paraquedas, por que, em nossa intimidade, não podemos fazer uso de uma substância, qual for ela, assumindo os riscos como os adultos que somos?”.

Filipe Vilicic