Saindo da estufa

Letrux: “Quando a paranoia bate na minha porta, não abro”

Talvez você já tenha ouvido a Letrux falando por aí sobre maconha. Para ela, seria uma hipocrisia enquanto artista não se posicionar sobre o tema e fingir que nada está acontecendo. Trazer para a roda o debate da maconha é um dos objetivos da cantora que nasceu e cresceu numa família tradicional da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, e viu um mundo novo se abrindo quando fumou um beque pela primeira vez aos 18 anos.

Hoje com 42, mantém o hábito de fumar maconha e comer special cookies quando quer preservar a voz dos danos da fumaça, assim como também adora experimentar outros produtos à base dessa planta cujos efeitos a ajudam a lidar com a ansiedade de ser uma artista independente, de ser uma tentante (termo que definem aquelas pessoas que estão tentando engravidar) e de viver num planeta caótico como a Terra.

Nessa conversa com Anita Krepp, Letrux se orgulha de não cair na paranoia e dá dicas espertas de como identificar o caso e cortar a bad. A artista lembrou de uma vez que tava mucho loca depois de ingerir azeite de maconha em excesso e quase morreu por não se tocar que o cachecol dela estava preso na roda do bug. Mas também falou de coisas belas, como as experiências com psilocibina, que ela curte ritualizar em momentos especiais, não em qualquer festinha (a gata é do petit comitê), e do dom que tem de transformar o sofrimento.

Certa vez você disse que usa tanto álcool como a maconha de uma forma bem capricorniana. O que isso significa?

Sempre fui muito responsável. Comecei a beber com 24 anos. Fiz uso da maconha antes do álcool, tinha mais curiosidade com maconha do que com álcool. E pra mim foi muito bom porque eu sou capricorniana, com virgem e touro. Eu posso ser, e luto muito contra isso, muito ansiosa, organizada e certinha. As pessoas não veem tanto isso porque elas veem o palco, e aí eu sou doida. Mas eu tenho mercúrio e vênus em aquário. Também ajuda muito, sem dúvida. E aí quando faço o uso da maconha com 18 anos, aquilo me mostrou uma perspectiva de outro mundo. Venho de uma família muito tradicional, zona norte do Rio, Tijuca. O mundinho que eu vivia era normativaço, ninguém era gay, ninguém falava da contracultura. E aí, opa, a vida é diferente, aquilo me mostra um novo mundo. E aí eu começo a beber com 24, também com muita responsabilidade, acho que eu vomitei duas ou três vezes na vida por causa de álcool. Porque eu vou até um ponto e, depois desse ponto, eu penso “aqui eu vou perder a comunicação, eu vou perder… ” E aí, claro, entra o capricórnio, meu ascendente, claro que eu também vou querer controlar a loucura. Mas é que todas as vezes que eu perdi, quase morri. Vai para um lado que realmente eu quase morro. Então penso assim “gente, nessa vida eu vou ter que controlar até onde posso ir com tudo, com todas as substâncias”. E todas as vezes que falei “ah, vou um pouco mais”, quase morri.

Conta pra gente alguma dessas de quase morte? Porque é intenso e a gente não esquece…

A gente não esquece! (risos) A experiência da quase morte. Eu estava em Caraíva numa casa com amigos e um amigo querido, que faz um ótimo óleo de maconha, e eu, como cantora, às vezes nem posso ficar fumando muito porque estraga a voz. Ás vezes como mais um cookie porque fumar, no meu caso, sendo cantora, pode prejudicar a minha voz. E aí eu sou um pouco estabanada, derrubei o óleo dele na cozinha e fiquei tão mal, e comecei a pegar um pão e a entuchar o pão no óleo e falar que eu como esse do chão, não se preocupe, e falei “eu pego aqui, deixa comigo”, e exagerei na dose, muito, assim, de um jeito… olha que loucura, gente! E aí, eu já tinha, imagina, já era macaca velha de óleo, de maconha, de cannabis, de tudo. Só que nesse dia foi demais e eu perdi a comunicação. E isso para mim é muito forte, porque eu sou uma tagarela, uma pessoa que fala, e eu olhava para o Arthur, meu melhor amigo, e ficava muda, e as lágrimas desciam do meu rosto e ele falava “está tudo bem e tal”. E foi tudo muito estranho, ainda bem que eu estava cercada de pessoas incríveis. Na volta da praia, já estava um pouco mais consciente da vida. Eu fui num bug, aqueles carrinhos abertos.  E falei “eu vou na frente com o motorista”, sentei na frente, estava até tocando Bob Marley, mas eu ainda estava muito desatenta, completamente perdida, e coloquei a minha canga assim, ó (faz o gesto de colocando ao redor do pescoço com as pontas caídas para frente). Eu coloquei a minha canga assim e aí a minha canga enrolou no pneu do bug e eu fui lanhada. Se tivesse assim (faz o gesto de dar duas voltas no pescoço), eu morria. E eu me lanhei inteira, eu fiquei em carne viva no braço e no pescoço. Foi uma loucura. E eu dei um grito que ninguém entendeu, tava de noite. O motorista parou e as pessoas nem entenderam direito o que estava acontecendo. Foi uma loucura. Claro, exagerei na dose, eu percebi. E não posso. Tem gente que tem muitos anjos, claro que eu também tive um anjo aquele dia, mas tem gente que exagera e chega em casa e dá tudo certo (risos). Essas pessoas, você vê muitos anjinhos. Eu acho que aquilo foi um aviso do tipo “olha, você não pode exagerar tanto”, porque perdi a concentração. E eu sou muito cuidadosa, sou assim “cuidado, seu casaco ficou preso”. Eu sou essa pessoa. “Amiga, cuidado, não pula daí”. E eu não fiquei atenta. E quase fui para o outro lado, gente. Foi uma loucura, foi uma loucura. Fiquei toda fodida, em carne viva. Estraguei as férias um pouco, porque entrava no mar, ardia enlouquecidamente. Foi caótico, foi caótico. Mas olha, eu não sou uma pessoa que “ai, nunca mais como maconha”. Magina, tô comendo aí. Mas é a dose. Quando as pessoas falam comer maconha, eu falo tudo é dose. Viver é dose. Alegria é dose. Gozo é dose. Tristeza, tudo é dose. Entendeu? Então, agora eu aprendi. E eu faço utilização de cookie com cannabis, THC, CBD e é ótimo, porque divido em pedacinho e é maravilhoso. É minha hora de dormir.

“Gosto de ritualizar celebrações pontuais, não vou tomar cogumelo em uma festinha qualquer, não tenho esse interesse”

Como tem sido ser usuária desde os seus 18 anos até hoje em dia? Quais são as fases pelas quais você passou?

Tive o meu primeiro namoradinho, coitado, ele tinha paranoia. E isso foi muito difícil até. Porque eu estava amando aquele novo mundo. E do meu lado tinha uma pessoa… “esse carro está seguindo a gente, ou injetaram uma coisa em mim”. Foi um relacionamento super difícil até, foi uma coisa muito esquisita. Porque eu estava “uau!, novas perspectivas”. Tenho pouca tendência a ter paranoia justamente porque sou capricorniana. Então chega uma hora que, eu faço análise há muito tempo também, tem uma hora que eu sei falar “isso não é meu, você está inventando, vou comer um chocolate, vou tomar uma Coca-Cola”. Redução de danos, eu sou muito boa nisso. E quando a paranoia bate na minha porta, não abro. Sou muito espiritualizada também, sou da Umbanda. Eu tenho o momento de pensar se eu estou inventando, se é telepatia. Isso é uma ilusão. Muita terra, né? Anita, muita terra. Desde os 18 anos eu uso. Já usei mais, diariamente, depois já passei um mês sem usar. São fases. Mas sei que eu vou fumar maconha para o resto da vida. Sei que eu vou estar perto da planta para o resto da vida porque me faz bem, me faz muito bem. Para quem não faz, busca outra coisa que te faça bem. Para mim me faz muito bem. E é engraçado porque já tive todas as fases. Minha mãe e meu pai, quando eles descobriram foi um choque, meu pai nem tanto. Eu acho que ele testou na adolescência dele. Minha mãe não fuma, não bebe. Ela é yogi. Então ela fala “minha filha, você pode atingir níveis na sua mente apenas com a meditação.” E ela ficou um pouco chocada. Passavam os anos, ela ficava perguntando “o quanto você fuma?”. “Você fuma todo dia?”. Mas hoje em dia ela toma CBD, então o mundo dá voltas. É só ignorância das pessoas sobre o assunto. Mas ainda bem que meu pai e minha mãe são pessoas inteligentes. Sempre mostrando artigos e coisas, e eles vendo também. E aí minha mãe toma CBD. Meu irmão já tomou, não fuma, mas o CBD toma, entende essa importância da planta. É muito sério. Você vê vídeos. Aquele vídeo de um senhor com Parkinson, tremendo muito, muito, muito. Depois do CBD ele consegue se controlar. 

Quando você fala que tem certeza que vai fumar a vida inteira porque te aporta alguma coisa muito interessante. Na verdade várias coisas, eu imagino…

No meu caso sempre teve a questão do relaxamento, porque sou uma pessoa muito ligada. Nem tomo café, não preciso tomar café, eu já nasci ligada. Então a maconha tem uma coisa, ela me coloca num lugar de relaxamento, e de possibilidade de existir sem muita preocupação. Porque sou uma pessoa preocupada. “Você fez isso? Fez aquilo? Esqueci de responder. E ao meu redor. É o ladrão? É não sei o que? É uma loucura.” E não chega a ser paranoia, são preocupações reais. Eu tô numa rua perigosa, eu sei que ali tem um ladrão, não são paranóias, são coisas reais que me atravessam. E a gente vive no capitalismo. Então como não ser preocupada? Sou uma artista independente, conquistei um lugar, mas tudo pode acabar amanhã. Então sou essa pessoa preocupada, mas não quis a escolha da vida segura, da CLT, então arco com essas preocupações de ser artista independente no capitalismo selvagem, com mudanças climáticas alucinadas. E tanta coisa que passa na nossa cabeça, 42 anos. Vou ter filho, não vou ter filho? O mundo vai acabar? Então a maconha entra num lugar de calma. Calma, Letícia. Calma. É a natureza. É uma planta me mostrando que a natureza também tem o seu tempo. As plantas são sementinhas. E aí eu acho que quando me conecto com a planta eu fico mais natural. Mais bicho, mais planta, menos capitalista, menos na velocidade da sociedade excitada, mais calma, vai dar certo. Mesmo que não dê alguma coisa. O caule vai achar aqui um outro lugarzinho pra procurar a luz, me traz mais relaxamento. E isso pra mim é muito importante.

“É uma pena as pessoas não falarem sobre drogas. Ah, o banco vai parar de patrocinar. Amor, você já é milionária”

Você falou agora dessa coisa de vai ter filho, ou se não vai ter, e eu me lembro de uma entrevista que você deu que você falava “não sei se eu tenho essa disponibilidade emocional de ter filho”. Cara, aquilo me pegou de uma maneira que, assim, eu fiquei pensando nisso. E repetia na minha cabeça. Eu nunca tinha enxergado por esse lado.

Claro. Eu agora estou com vontade de ter. A loucura é tanta, porque ano passado eu tive um tumor no ovário. Aí eu pensei “meu Deus, não tive”. É porque esse assunto é um assunto, gente, eterno. Pra quem tem e pra quem não tem. Acho muito louco porque, claro, todas as mulheres que têm filhos merecem muito meu respeito, mas não ter filho é uma coisa muito louca, tá? Assim, tem pessoas que lidam bem com não ter filho. Eu ainda não lido bem com não ter filho. Amo criança, amo bebê, amo ver alguém se desenvolver. Vejo meus sobrinhos crescendo e fico “que mágico, que mágico”. Então, não ter filho pra mim é um assunto até que eu trato em análise. É um assunto doido. Doido e doído, porque 50% fala tudo bem, outros 50% falam “putz”. Então, é muito doido. E a disponibilidade emotiva que talvez eu não tivesse mais nova, tenho agora, mas talvez agora eu não consiga mais. É uma loucura. É uma loucura. Por que não consigo mais? Porque a minha questão do tumor, do ovário, produção de ovos e tal, é mais ferrada.

Tudo bem falar sobre isso?

Tudo bem. É a primeira vez até que eu falo publicamente, mas tudo bem falar sobre isso.

Como é que foi esse câncer no ovário?

Então, não chegou a ser câncer, né? Foi um tumor. Porque ficou também essa dúvida. Durante muito tempo teve a dúvida. Rasgaram minha barriga pra tirar o tumor no ovário mas sem saber se iam tirar tudo. Eu fui pra uma cirurgia sem saber como eu iria acordar. Se iria acordar sem vários órgãos, na menopausa, ou só sem o ovário que estava com o tumor. Foi um dia muito louco, claro que o sol estava em escorpião. Claro que a cirurgia foi em escorpião (risos). E eu fui com muita loucura. Foi um dia muito doido. E quando eu acordei, ainda um pouco grogue, veio uma enfermeira pra mim e falou “qual sua religião?” Fiquei um pouco tensa porque achei que ela podia ser evangélica e falar algum texto pra mim. Eu ia falar umbandista, mas estava grogue ainda, então falei espírita. Aí ela falou “você tem uma cigana muito poderosa que não saiu do seu lado durante a cirurgia inteira”. E fiz “eu sei” (faz gesto afirmativo com o pescoço). Foi muito forte. E aí abriu e falou “não dá pra dizer se é benigno ou maligno, a gente vai ter que levar pro laboratório por quinze dias”. Mais quinze dias. E no final o tumor era borderline. Que não é nem maligno, nem benigno, e significa que eu tenho uma tendência a ter tumor, posso desenvolver um câncer no futuro nessa área. Em algum momento eu vou ter que fazer a estereotomia, que é tirar tudo pra evitar. Mas ela falou “não quis tirar tudo porque justamente você não engravidou”. Então, questões.

Mas aí tirou um ovário…

Um ovário. Ainda tenho outro, ainda menstruo, eu ainda não tô na menopausa. Ainda tenho minha menstruação. Tá até normal. Até pensei “será que vai diminuir?” Será que vai vir errado? Capricornianamente, ela veio certinha, cólica e tal. Mas engravidar, engravidar não rolou.

E se não rolar, você pensa em adotar? Tem esse assunto? 

Tem muito. Inclusive, o assunto é todo esse, porque eu sempre quis adotar. E aí eu fico assim “gente, eu tô achando que eu não tô conseguindo engravidar porque eu sempre tive o sonho de adotar.” Então, é porque eu queria adotar e ter um parto, queria ter a experiência do parir. Mas eu tô achando que o meu sonho tá falando mais alto, entendeu? Porq ue eu sempre quis adotar. Desde que eu sou muito nova eu falava “eu sinto que eu vou adotar”. E já conheci meu parceiro e outras pessoas e falava “eu sinto isso, então, não sei, acho que o mundo pode tá dizendo, ué, mas cadê aquele sonho?”. Não, mas tem dois sonhos aí, eu tô aqui acreditando. E vou comemorar muito, anyway. Mas tudo bem também, porque sou muito analisada e, sei lá, sofro e não sofro. Eu transformo os sofrimentos, sabe? Tem um desapego. Porque tem muita gente que tem que produzir uma dor muito forte. Você lê esses depoimentos e pensa “meu Deus, coitada, realmente, eu sinto a dor dessas mulheres que passaram por tratamentos dificílimos”. Não é o meu caso, assim, eu também sou artista, eu transformo, as coisas não podem ficar ressentidas em mim, não posso ter rancores, porque senão vou ficar até doente. Eu vou transformando. Choro, falo caralho. E vou e sigo, sabe? A Alessandra Colasanti, atriz e escritora, escreveu uma vez “somos os sentimentalistas, os que sentem, mas seguem”. Eu sinto, mas eu sigo. Não posso paralisar ou ficar ali empacada. É um assunto forte, mas tenho que seguir também.

Quando você fala que você não dá bola para a paranoia, quais são as melhores maneiras de não dar bola pra paranoia? E inclusive diferenciar o que é paranoia do que não.

Sim, sim. Pensando, assim, bem em termos práticos, acho que o açúcar, ele, claro, é uma droga, mas ele tem uma coisa de cortar o efeito. Então, quando tô achando que eu tô muito assim, eu pego um chocolatinho, uma Coca-Cola, pra já tentar dar um sinal pro meu cérebro de dar uma segurada. Acho que a melhor coisa é se afastar também, porque não quero ficar exposta. Antes de eu ser pessoa pública, eu já era assim. Quando sentia que tinha uma coisa estranha, eu não ficava; se eu tava estranha, porque tinha alguma coisa ali, naquele círculo de pessoas, e eu me afastava, vou pra casa, não fico, eu sou muito amiga do fim, né? Imagina, com esse mapa astral, gente!, sou a primeira a ir embora (risos). Meus amigos até ficam, aí fica mais um pouco, eu falo “gente, minha cama é tão convidativa”. Amo vocês, e eu amo bater papo, amo festa, amo tudo, mas também amo dormir, amo sonhar, amo ir pra casa, amo sair e amo voltar. Então, acho que ir embora é uma coisa boa, a não ser que você esteja numa situação, assim, até perigosa de ficar sozinha. Mas como eu lido bem comigo sozinha, é mais fácil até lidar comigo sozinha. Mas acho que numa situação de beirar a paranoia, se retira, vai pra casa, toma um chocolate, toma Coca-Cola, toma um chocolate e tenta meditar, porque esses pensamentos são muito intrusivos e querem ganhar, mas tenta, é difícil, né?, porque às vezes eles ganham, mas tenta, o que você gosta de fazer, sabe? Você gosta de ver, sei lá, desenho animado? Coloca porque aquilo vai te dar uma alegria, uma serotonina, o desenho que eu sinto confortável, a série, vê Seinfeld, fala, cara, Seinfeld é minha zona de conforto. Então, vê. Desbaratina um pouco. Para de ficar só pensando naquilo, né?, na ideia fixa. Vai ver um Seinfeld, tomar um banho e ver se isso vence. E muitas vezes vence. Muitas vezes você fala “ih, aquilo foi completamente paranoia”. Inventei, sabe? E aí dorme e no dia seguinte, vê o que, “opa, ali eu delirei, mas ali acho que foi uma intuição me dizendo que aquela situação, não sei o que, ah, pode acontecer”. Pode acontecer, mas quando você está muito sensível, né?, pelo uso, essa intuição pode ser muito elevada a nona potência e nem precisava tanto. É só uma intuiçãozinha.

“Tanta coisa, 42 anos, vou ter filho, não vou ter filho? O mundo vai acabar? A maconha entra num lugar de calma”

As substâncias alteradoras de consciência alteram, elas aportam essa percepção em você, quando você não está tomando, né? Obviamente, digo, de que você meio que aprendeu a também puxar esses fios que as substâncias te dão?

Acho que sim. Sempre fui muito intuitiva, venho de uma família religiosa, espiritualizada, né? Cresci em terreiro, cresci vendo meu pai incorporar. Semana passada fui lá e desde quando eu era criança eu ficava “papai tá diferente”. Hoje em dia eu choro, meu pai incorpora, eu choro, acho uma coisa muito bonita. É um privilégio me consultar com o exu do meu pai, com a imagem do meu pai, é uma coisa, um privilégio que eu tenho na vida. Mas, sem dúvida, as substâncias que eu já provei na vida, seja ácido, seja cannabis, eu sou mais psicodélica do que as outras substâncias que algumas pessoas gostam, mas eu não gosto de nada que me acelere. Não tomo café, gente, imagina. Se uma pessoa não toma café… entendeu? Então, acho que elas reforçaram alguma coisa que eu já sentia, que ei tinha um sexto sentido. Vou entrar nessa rua porque alguma coisa veio e eu obedeço. Todas as vezes que eu desobedeci o meu sexto sentido, minha intuição, lá na frente eu falei “pô, tem aquela vozinha dizendo ‘não, não, não, não acredita nessa pessoa, não contrata essa pessoa’, e deu ruim”. Então, acho que as substâncias foram um portal novo pra mim, de outras coisas, de “relaxa, confia, acredita”, as coisas que eu já tinha só se engrandeceram nesse sentido de intuição. Quando eu faço uso, ela fica mais aflorada.

E essa sua vivência com seu pai, na Umbanda e tal, você já experimentou um umbandaime?

Não. Então, eu acho que eu ainda não experimentei, já fiz rapé três vezes e vomitei o rapé, então, fiquei muito impressionada, eu falei “gente, eu tô vomitando com rapé, eu não conheço quase ninguém que vomitou com rapé”. Eu fiquei muito impressionada e percebi a força da ayahuasca. Falei “se o rapé já me trouxe isso, imagina”. Então, acho que pode acontecer, não digo não pra nada, nunca, imagina, dessa água não beberei. Sei que a vida é maior e cada dinâmica da vida exige um momento. Por enquanto, ainda não tive, já tive a curiosidade, mas ainda não tive a coragem, mas sei que pode acontecer. 

Então, maconha e LSD… tem MD e cogumelo na sua experiência?

Super. Cogumelo amo, inclusive no meu aniversário neste ano. Maravilhoso, cogumelo é muito gostoso, não dá ressaca, é um axé. É um axé o cogumelo. O cogumelo é uma coisa assim “gente, que axé”. O MD, eu tomei, mas tomei pouco na vida, em situações muito específicas, porque tem uma coisa depois ali que talvez eu não goste tanto, uma rebordosa. Mas tomei várias vezes pontuais, festa, aniversário. Eu sou muito da praia, então a primeira vez que eu tomei foi num réveillon na praia, com melhores amigos. não numa boate, nada contra também quem toma, mas não é a minha parada. Falando aqui da minha experiência, eu tava com dez amigos numa praia deserta, num réveillon. Então foi incrível, foi assim “meu Deus do céu, o que está acontecendo?” Mas eu também não tenho tendência a vício, né, Anita? O meu mapa astral é de uma pessoa sem compulsões. Eu consigo abrir uma caixa de chocolates, bis e comer dois. Eu sou assim. E já tive em círculos de muitas pessoas que são mais compulsivas, vão até um lugar perigoso, vão até um lugar que pode danificar sua vida, sua cabeça, enfim. Então, por sorte, eu sou uma pessoa que poderia experimentar tudo, apesar que não experimentei várias coisas, por medo até. Mas eu sei que eu não tenho tendência a vício. Mas MD tive experiências assim, pontuais, um carnaval… mas tenho um pouco mais de medo.

É, não dá nem pra saber o que tem ali, né? Que MD é esse que a gente está falando também?

Cada um é uma coisa, essa é a questão. Se a gente tivesse mais controle, mais noção de que substância é essa, a vida seria diferente, né? Mas o cogumelo, como é bem mais natural, eu tenho uma relação… eu uso mais tranquilo, não uso tanto. É porque eu gosto de situacionismo, não gosto de banalizar as experiências, apesar que muita gente está fazendo microdose e tal, mas aí, a minha microdose é a cannabis. E funciona, e é ótimo. O óleo de CBD também, às vezes eu não quero o THC. Eu tenho óleo, sempre tenho óleo. Mas aí o cogumelo eu quero também criar experiências.

Ritualizar. 

Gosto, gosto de ritualizar. Aniversário, reunião, coisas que são pontuais. Não é uma festinha qualquer que eu vou tomar cogumelo, não tenho esse interesse. E quando tem muita gente, a loucura é outra. Gosto de loucura com poucos.

E como foi esse rolê do seu aniversário?

Eu acho que o cogumelo tem essa coisa também de uma alegria e de uma sensação… Eu gosto muito de de ver outras coisas também. Tipo o ácido. Meu primeiro ácido na Chapada dos Veadeiros… aquilo foi um sonho. As cores, a derretência do céu, as plantas falando comigo. Isso pra mim foi… e falam que a íris, depois que você é apresentada à lisergia, é uma coisa que se transforma mesmo, cientificamente, fisicamente, alguma coisa não volta. Ou alguma coisa abriu, não sei, eu queria decorar mais as coisas que eu leio (risos). Às vezes é cansativo passar dez horas vendo as coisas derretendo, então acho que o cogumelo entra aí, como ele é um mezzo-ácido, ele é uma mezzo-lisergia, não é uma lisergia profunda, as coisas não derretem. Eu sou a água, a água sou eu, eu sou a árvore, a árvore sou eu. É uma conexão e uma alegria, uma alegria gostosa de sentir. Eu gosto muito de uísque também. O dia seguinte de cogumelo é uma coisa, o dia seguinte de uísque é outra coisa. Sempre falo que o cogumelo é um uísque e um baseado. Eu sinto isso. Eu bebi duas doses e fumei um. E aí pra mim o cogumelo é a substituição. Bela Gil, você pode substituir o seu uísque por cogumelo (risos).

Você já teve experiências com cannabis fora do Brasil?

Tive. Eu fui pra Espanha no ano passado, a gente foi fazer uma mini turnê na Europa e na Espanha, e a produtora levou a gente no Gorilla, um clube de cannabis. Nossa, foi assim… foi o máximo. Ah, foi uma sensação de reconhecimento de uma coisa que a gente faz há milhares de anos, de uma forma mais humanizada, não clandestina. Foi uma sensação de eu estar num bar. Ah, me vê essa aqui, por favor. Que nem as pessoas fazem com álcool há milhões de anos também. Então, por que um pode e o outro não pode? Tem muito racismo envolvido na questão da cannabis e a gente sabe. Então, me senti uma cidadã, pago meus impostos, sou um ser humano que vive nessa sociedade. Por que não ir num lugar e falar “oi, me vê tantos gramas de cannabis”? Eu quero isso. Eu acho que isso pode acontecer no Brasil, talvez 2030, talvez a gente ainda precise de um pouco mais, mas as coisas estão avançando, as coisas estão melhorando. É muito passinho de formiga no Brasil, infelizmente. Mas, tenho alguma confiança que vai rolar um despertar coletivo, até talvez da bancada evangélica, que é mais retrógrada em relação a isso. Sinto que as pessoas vão perceber. No futuro 80% da população pode ter câncer. E é um número alarmante. Acho que as pessoas vão buscar coisas fora da medicina tradicional e vão perceber os poderes da planta, possivelmente até a bancada evangélica, mas não agora. Agora ainda tem muito fundamentalismo no Brasil, mas acho que daqui a alguns anos pode haver um despertar.

Você fala sobre drogas com muita naturalidade, com muita verdade, e é uma coisa pouco comum entre figuras públicas. Por que você tem essa liberdade para falar a respeito?

Acho uma pena as pessoas não falarem mais sobre drogas, é uma hipocrisia, inclusive. Pessoas até que já estão em lugares de super holofote não perderiam nada com isso. “Ah, o banco vai parar de patrocinar”. Amor, você já é milionária. Foda-se que o banco vai parar de patrocinar. O seu dinheiro dá para três gerações abaixo de você. Então, é uma ganância, uma ambição sem fim, uma loucura. Eu falo porque sou uma pessoa honesta com os meus sentimentos. Uma ou outra coisa eu posso guardar, mas isso para mim é caso de saúde. A saúde é um assunto que eu gosto, e falo também porque sinto que, de alguma maneira, posso estar no meu tamaninho, que sou, colaborando para algo maior. Às vezes eu vejo as pessoas falando que minha música inspirou elas. Ah, sei lá, um cara falou, você mudou minha tese de mestrado. A outra pessoa falou “eu pedi minha mulher em casamento com a sua música”. Então, se eu transformei minimamente vidas com a minha música, será que falar sobre esse assunto é um assunto muito importante? Será que isso também não gera algum bom burburinho sobre a gente? Porque é muito hipocrisia. Muita gente fuma, muita gente faz outras coisas e paga de não faço nada. E, poxa, se você falar… eu amei quando o Giba, medalhista olímpico, foi pego. Não sei se foi o doping que pegou, o THC no sangue dele, eu não lembro. Mas eu pensei, olha aí, medalhista olímpico. Teve o outro também, o Michael Phelps. O nadador que tem o recorde de todos os tempos da natação é maconheiro. E seis medalhas de ouro, amore. Acho importante também a gente dizer “olha, eu fumo maconha”. E sou uma pessoa intelectual, leio, escrevo, as palavras jorram, não sou um clichê bobo. E vocês estão aí, açúcar, álcool, alimentos processados, é muita hipocrisia. É muita hipocrisia. Então, a gente tem que, passinhos de formiga mesmo, tentar iluminar, esclarecer e explicar para as pessoas que ainda têm muita ignorância sobre esses assuntos. E se pessoas públicas falassem mais, acho que facilitaria, porque a gente ainda vive numa era onde pessoas seguem outras pessoas. E de repente, essa pessoa fala uma informação, você fica “uau”. Então, isso é muito importante. Eu, com meu tamaninho, tento também.

O que você gosta de ouvir pra brisar?

Olha, parece super clichê, né? Mas eu e Bruna Béber, uma grande amiga minha, poeta. A gente fala “amiga, tem uma coisa de espiritual quando a gente coloca Bob Marley”. É uma limpeza de ambiente, parece clichê, mas gente, desculpa, acontece comigo, acontece com ela, a gente tem esse encontro marleyano. E a gente coloca pra tocar e tem alguma transformação no ambiente. Eu gosto muito também, pra falar uma coisa brasileira, de um disco que chama Baião de Princesas. É de 2003, se eu não me engano, uma mistura de religião com folclore do Maranhão. Tem até a Jussara Marçal, muito novinha, com a voz dela. E você ouve esse disco e você se cura. Eu já apresentei esse disco pra algumas pessoas e todas as pessoas falam “muito obrigada, aconteceu alguma coisa”, e eu falo “eu sei, é uma cura”.