Saindo da estufa

“Se eu estiver morrendo, bota o ácido da melhor qualidade na minha boca e me deixe”

A coisa mais psicodélica que existiu no Brasil até o início da década de 1970 foram os Secos e Molhados, e muito dessa psicodelia tinha influência direta com nome e sobrenome. Ney Matogrosso, vocal sui generis que quando entrou para o trio, com 30 anos de idade, “já tinha passado pela fase das drogas”, e dessas experiências também saíram grande parte do conceito visual e sonoro da banda. Uma maluquice linda que até o Kiss não resistiu, foi lá e copiou.

Nascido com o manto da mais pura autenticidade, banhado na coragem e vestido na transparência de ser quem se é, Ney atravessou oito décadas nesse planeta sem perder (nem vender) seus valores. Como ele mesmo afirma, valores que foram lapidados com a ajuda das substâncias psicodélicas, em especial do ácido lisérgico, da ayahuasca e da maconha.

Depois de um ano e meio no daime, mais de 20 experiências com LSD e uma vida inteira íntimo da cannabis, o intérprete de clássicos como Sangue Latino, Rosa de Hiroshima, O Vira – e tantas outras canções que tiveram a oportunidade de crescer na sua voz –, utiliza todas essas substâncias como ferramentas para o autoconhecimento e a expansão da sua (linda) alma.

Nessa conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, Ney conta que fuma maconha quando tá perdido, sem saber o que fazer frente a alguma situação. Falou também dos últimos dias de vida de Cazuza, que morreu acompanhado de uma garrafinha de ayahuasca, e do combinado que tem com um médico amigo que lhe dará um bom ácido na hora de sua morte. Aos 82 anos de idade, ele choca os desavisados e segue apaixonando quem tá vivo de corpo e alma.

Como é pra você, uma pessoa que na década de 1960 já expunha a hipocrisia e a caretice, viver em 2024 numa sociedade ainda hipócrita e careta?

Tá pior, tá pior em todos os sentidos. A questão das drogas, agora tá pior porque é um Congresso tão hipócrita, e eles proibiram só pra contrariar. Eu sei que o Supremo quer liberar, mas o Congresso brasileiro só por pirraça… a impressão que me dá é que tá tudo disseminado e as pessoas fazem o que elas querem, independente de proibição.

Você foi um dos primeiros artistas de grande expressão a falar explicitamente sobre drogas. Nunca teve medo de associar a sua imagem a essas substâncias e perder contratos, oportunidades?

Isso não é um problema pra mim. Eu tenho um compromisso apenas com a verdade, com a minha verdade. Então eu não tenho nenhum problema. Agora, não saio na rua fazendo passeata, isso eu não faço. Mas toda vez que tenho que falar sobre o assunto eu falo com muita clareza, acho que tem que ser tudo liberado. O álcool é liberado, o remédio pra dormir você compra facilmente, então tem que ser tudo liberado e as pessoas têm que ser conscientes do que estão fazendo. Agora, claro, não é pra criança.

“Acho que tem que ser tudo liberado. O álcool é liberado, o remédio pra dormir você compra facilmente, então tem que ser tudo liberado e as pessoas têm que ser conscientes do que estão fazendo”

Como você analisaria a sua trajetória com as drogas? No que elas te ajudaram, ou como impactaram a sua experiência de vida na Terra?

Já usei muitas coisas, mas nunca usei pra festa. Eu uso para o meu entendimento próprio. Foi assim com o ácido. Eu tomei mais de vinte ácidos, mas tudo era foco no autoconhecimento. E a maconha também é para aumentar a minha percepção, porque amplia a percepção, né? Mas não faço uso regularmente. Eu uso a maconha quando tenho algum problema que eu não estou entendendo qual é a solução praquilo. Aí vem a solução.

Sempre foi assim?

Sempre foi. Nunca usei nada pra festa, nem vou pra festa. Eu uso essas coisas sozinho, prefiro sozinho. Eu fico antissocial, não consigo conversar, sabe? 

Em que ponto as suas experiências psicodélicas foram também espirituais?

Todas são. Nas vinte viagens que eu fiz com ácido, a minha meta era só essa. Tomei ayahuasca por um ano e meio, mas só buscando o dentro, nada do lado de fora, sabe? Eu não tava afim de ter miração, eu queria entender quem eu era, e entendi muita coisa. Inclusive da minha relação com meu pai, com minha mãe.

Quando você fala em se entender, entender o quê? Porque a gente tenta trazer um assunto pra sessão e tentar focar, mas às vezes a substância te leva pra outro lugar…

Sim, te leva a ficar solta no espaço, né? Mas quando eu foco em alguma questão eu foco naquela questão, não deixo ficar perdido. Vou falar uma coisa que parece uma bobagem: namoro. Se eu começo a sofrer com aquilo, foi por isso que eu fumei pra resolver, porque tava sofrendo. E, porra, sofrendo? Qual é a graça de estar com alguém pra sofrer? Aí fumei pra resolver isso e dali a pouco veio o entendimento: ninguém merece o sofrimento de ninguém. Não é pra isso que a gente se relaciona.

“Eu tomei mais de vinte ácidos, mas tudo era foco no autoconhecimento”

E nesse momento você tava numa relação?

Estava numa relação que já tava na reta final e pronto, acabei a relação. Se é pra sofrer tá errado, se é pra sofrer tá errado.

Você foi aconselhado pela ayahuasca?

Pela minha voz.

Você conseguiu alguma maneira de acessar essa voz interior sem ser pela via dos psicodélicos?

Sim, sim. Agora ela fica aqui na minha cabeça falando o tempo todo (risos). Mas é mesmo! Foi mais fácil naquela experiência, mas agora a gente já entende o mecanismo, e aí você já não precisa de nada. Alguma coisa acontece e já pá, você já entende. 

Teve alguma outra eureka que você teve durante essas sessões psicodélicas?

Quando eu resolvi o problema com meu pai. Existia uma fotografia que toda vez que eu via aquela foto alguma coisa me chamava atenção e eu não sabia o que era. Quando eu tomei o daime, a foto adquiriu vida e eu falei “Opa!” Aí entendi toda a questão relacionada àquela foto. Eu acho muito bom ter esses recursos.

Você é o tipo de pessoa tão apaixonada por esses recursos que sai por aí convidando gente?

Não, porque eles sempre disseram pra gente não convidar ninguém, então nunca convidei. Todas as pessoas que me procuraram pra ir eu levei, inclusive o Cazuza.

Pois é, ouvi essa história. Conta pra gente?

O Cazuza tava muito doente já, foi na época em que nós começamos a ensaiar o último show dele, que foi o último da vida dele, e aí ele dizia “Ney, você está com um aspecto tão bom, o que você anda fazendo?” Eu disse “Olha, Cazuza, eu tô tomando daime”, e ele disse “Ah, quero ir com você”. Então nós fomos lá. Levaram ele pra fazer uma estrela no meio da floresta. Estrela você sabe o que é, né? Uma alta dosagem num trabalho fechado, não aquele aberto pro público. Cazuza tava sentado do meu lado e eu falei pra pessoa que tava comandando o trabalho “pode deixar que eu cuido dele”. Então combinei com Cazuza: cada vez que você precisar de mim, bate o seu cotovelo em mim que eu saio da minha viagem e vou te atender. A última vez que ele fez isso, bateu em mim, eu levantei prum lado e ele levantou pro outro (risos). Eu tava tão louco que não conseguia nem coordenar os movimentos (risos). Eles davam muito pra ele porque ele tava tomando muita droga, e o daime não ultrapassava aquela coisa das drogas que ele tomava. Aí teve um momento em que eu vi um raio de sol batendo no rosto dele, aí ele abriu os olhos e disse assim “é só isso?”. Aí eu entendi que ele tinha captado, e eu disse “Sim, é só isso, Cazuza, é só aceitar, entende e aceita o que você tá entendendo porque é verdade”. Aí quando acabou ele disse “quero chegar em casa rapidamente porque eu quero conversar muito com meu pai e minha mãe”. Nunca soube dessa conversa, também não perguntei se teve. Dias desses a Lucinha tocou rapidamente no assunto dizendo que tinha tido essa conversa sim, mas eu não perguntei o que eles conversaram.

E ele nunca mais voltou?

Não, ele andava com uma garrafinha que não deixava ninguém se aproximar, porque viajava com aquela garrafinha de daime e só ele tomava, não deixava ninguém se aproximar dela. A reta final do Cazuza, pelo que eu saiba, ele tomou o daime. A reta final da temporada dele. Mas ele tomava dois goles, não um copo. Sabe o que eu gosto de tomar hoje em dia? Uma colher. Não quero ficar desvairado, eu quero uma colher só pra ficar na sintonia. 

Viajava com aquela garrafinha de daime e só ele tomava, não deixava ninguém se aproximar dela. A reta final do Cazuza, pelo que eu saiba, ele tomou o daime”

É a tal da microdose, né?

É, microdose de tudo, né? Agora existe microdose de tudo. Eu tô tomando cogumelo. Tô tomando microdose de juba de leão que é para a memória, que já funcionou muito comigo porque eu tava perdendo a memória. E tô tomando agora cannabis pra tirar, exatamente, o remédio pra dormir, porque eu só dormia com remédio. É CBD e THC que eu tomo de noite para dormir, tudo com médico. Comecei há uns 4 meses.

E como tá rolando o desmame?

Tá rolando e eu durmo. Eu tô dormindo. Não tô ainda sem o Frontal, ainda tomo ¼, porque é assim, tem que ir até ¼, Mas quando eu tomo a cannabis eu já sinto um sono que é diferente do Frontal, é um sono muito mais pesado. Então eu acho que a gente tem que desmistificar essas coisas, que isso é considerado drogas por alguns, mas pra outros é remédio. Nunca fui fumador, nunca fui do ácido. Eu sou de tudo isso, eu que determino o quanto. Nunca fui viciado em nada disso. Fui viciado em Frontal, a única droga que me viciou foi o Frontal, ele é a causa da minha perda de memória.

Mas voltando ao Cazuza, que foi acompanhado pela ayahuasca até o fim da vida. É interessante, porque os psicodélicos estão sendo testados pra acompanhar as pessoas no fim da vida…

Sim! Estão saindo do limbo que os governos americanos puseram. Só isso. A pesquisa foi retomada, porque a pesquisa era potente nos EUA até que eles cortaram tudo, agora tá voltando tudo e com muita força.

E que bonito que ele pôde desfrutar disso. É uma coisa que não deveria estar na mão do governo decidir se podemos viver ou morrer com mais dignidade…

Sim, não devia estar na mão de governo. Você sabe que eu já conversei com um médico amigo meu: “Olha, se eu tiver morrendo bota o ácido da melhor qualidade na minha boca, e me deixe morrer”. Não tente me manter vivo artificialmente e me dê um bom ácido e pronto, deixa eu ir. Ué, não temos que ir? Temos que ir em algum momento, eu convivo com muita tranquilidade com essa ideia.

“Se eu tiver morrendo bota o ácido da melhor qualidade na minha boca, e me deixe morrer”

Quando eu vi que você segue o Cannabis Hoje, fiquei honradíssima, claro, e também pensei “nossa, ele se interessa por notícias sobre cannabis e psicodélicos, como é isso”?

Sim, claro. Eu quero saber o que tá acontecendo, porque o Brasil não pode ficar botando gente presa, preta, pobre, na cadeia por causa disso. Eu tenho dois grandes amigos que ficaram um ano na cadeia cada um e em momentos diferentes porque estavam com um baseado. Como uma pessoa pega com um baseado vai pra cadeia e passa um ano presa? Isso tá errado, isso tá errado.

Se você pudesse categorizar maconha, LSD, ayahuasca, no que cada uma atua? São todas pra chegar nessa coisa da espiritualidade?

Sim, todas se dão aí, mas o ácido lisérgico é muito descontrolado, né, pra mim. Você não sabe que rumo a coisa vai. Agora, a última vez que tomei, eu tava em São Paulo e da minha casa eu via o cemitério da Consolação. Aí tomei um ácido, tomei um banho, porque eu era assim, tomava banho e me vestia de branco pra tomar ácido. Aí eu tomei um ácido, comecei a ver o cemitério dissolvendo na minha frente, aí chegaram visitas na casa, e você acredita que eu fiquei careta?

Como pode, como se explica?

Eu não tenho explicação, eu achava que eu ia me esconder das pessoas, mas não. Eu fui atender elas e fiquei careta, sumiu o efeito. Nunca vi isso, ninguém nunca me narrou uma coisa dessas. Aconteceu comigo. Uma vez só, mas cortou. Eu fiquei contrariado com a visita e algum processo desencadeou uma coisa na minha cabeça.

Interessante… você nunca chegou a ter uma questão com o uso de drogas, que você considerasse abusivo?

Parei muito tempo com a maconha porque acontecia o seguinte, eu tava conversando com você, você me falava uma coisa, o meu lado direito dizia “ela tá dizendo isso mas ela quer dizer aquilo”. Aí eu comecei a achar que eu tava ficando paranóico, aí eu parei de fumar e passei muitos anos sem fumar. Nunca fiquei viciado, dependente, porque na hora que via que não tava batendo certo, eu parei. Parei e fiquei muitos anos sem, eu não podia conviver com aquela sensação de que você falava uma coisa e eu entendia que você queria dizer outra coisa.