
Nossa entrevista da semana passada com Matuê se espalhou pelo Instagram por conta de uma polêmica: será que o prensado deve acabar? Nos disse o rapper do momento: “Nas próximas gerações, se Deus quiser, ninguém vai precisar conhecer a maconha através do prensado”. Resolvemos então dichavar o assunto para chegar numa conclusão: por mais que respeitemos a origem e as raízes do pren, a verdade é que seria melhor mesmo se ele fosse trocado por flores (estamos falando das legalizadas e orgânicas) nas próximas gerações.
Veja só, eu comecei no prensado, você provavelmente também. Iniciei errado, adolescente, e talvez você também. Em uma cena legalizada, essas duas atitudes destrutivas seriam bem mais raras, evitáveis, controláveis. Demorei uns 10 anos até provar a maconha de verdade e levaram mais outros anos para passar a ter acesso suficiente (em muitos sentidos) para usar só flores, dos fins medicinais ou não. Se você teve uma rota canábica privilegiada, talvez você também.
E, olha, sem hipocrisia na Breeza, e não que eu dispense um prensado dado. Outro dia provei um, pouco antes outro. Na roda, passa. Se fosse legalizado, não seria assim.
Quando garoto, depois de uns anos me contaram que tinha pren que vinha até com urina humana, e por isso exalava amônia. Não parei, mas passei a lavar o tijolo, num processo que te faz sacar que o negócio é sujo mesmo. O cheiro, forte, de coisas químicas daquelas que irritam o nariz, sem termos ideia do que se trata. A cor passa do amarronzado pra um pouco mais verde, mas longe do brilho da erva verdadeira. O que mais me enjoava era ver uns trecos boiando na água.
Anos depois, me deparo com uma pesquisa: ao analisar sete quilos de prensado, um estudo da Universidade de Brasília constatou 52 fragmentos de insetos, cujas espécies inclusive podiam ser identificadas. Leitor, insira aquele emoji de vômito aqui.
Ao analisar sete quilos de prensado, um estudo da Universidade de Brasília constatou 52 fragmentos de insetos, cujas espécies inclusive podiam ser identificadas. Leitor, insira aquele emoji de vômito aqui
Só que também descobri que urina não tem no pren. Mas o que tem? “O maior perigo é a contaminação, dada pelo uso de agrotóxicos, fungicidas, acaricidas, venenos que ficam sistêmicos nas plantas”, nos diz Raphael Meduza, cultivador de primeira e referência na cena.
O colega Matias Maxx visitou, em 2017, uma fazendo de prensado no Paraguai, representando a Agência Pública. Lá observou que os peões empilham as plantas sobre o solo e as cobrem de plástico, incentivando a proliferação de fungos. Antes de prensar, pisam no produto com botas enlameadas. Desse blend de nojeiras surge a amônia e tantas outras químicas (felizmente, não foram vistos trabalhadores mijando na erva).
Para o psicólogo e professor universitário Lauro Pontes, que há dez anos estuda efeitos da cannabis, há impactos fisiológicos e psicológicos no consumo de substâncias de origem ilegal. “O prensado é a mesma coisa que a maconha (da flor), mas pode estar envelhecido, contaminado, ser de má qualidade, eventualmente ter pedaços de bichos. É muito, muito diferente do que um californiano está botando para dentro do organismo (ao usar maconha legalizada, comprada nos dispensários)”.
Maconha também sempre foi e é sobre cultura e sociedade. Sua criminalização tem a ver com a força de uma elite que inventou a perseguição à erva como forma de reprimir pretos e pobres (isso no Brasil; nos EUA, somam-se os latinos, como nós, muitos dos quais usam a planta para perseguir o povo negro por aqui), assunto sobre o qual tanto já escrevemos na Breeza. Disso não há dúvidas.
A onda de legalização, principalmente a via medicinal, trouxe uma estratificação dos maconheiros, em particular em países da América Latina, onde o pren é tão popular e mais barato. Há o que alguns entrevistados já chamaram aqui na Breeza de higienização do mercado.
A onda de legalização, principalmente a via medicinal, trouxe uma estratificação dos maconheiros, em particular em países da América Latina, onde o pren é tão popular e mais barato
A consequência direta é que enquanto a maioria tá no prensado no Brasil, quem nasceu na Califórnia e hoje tem mais de 21 anos pode ter acesso a flores, gummies, óleos; de procedência verificada, ingredientes destacados, efeitos sabidos. No mundo das desigualdades, o proibicionismo cai em cima dos desfavorecidos.
Dentro do nosso próprio país, repete-se a lógica. Aqui, uns poucos compram com receita em mãos, respaldo da Anvisa, associações. Outros ainda mais poucos têm HC de cultivo. Existem até aqueles que, apesar de comprar no ilegal, pagam caro o suficiente para saber a origem, isso quando não vem embalado e na latinha direto da Califórnia, lacrado e com o QR code do rastreamento.
A maioria vive no pren, e nem ache que a solução seja tão simples quanto passar a comprar flores na boca. Na origem do solo, sabemos que ambos são flores e, no ilegal, usualmente é impossível saber de qual cepa, como é o equilíbrio de CBD e THC, ou qualquer informação sobre qualidades (e eventuais problemas). “O ilegal vem do cultivo sem padrão. Enquanto indústrias estão fazendo rastreabilidade para vender ne farmácia, a galera que faz no ilegal não tem nenhuma margem de padrão, compromisso com qualidade. Como nada pode, pode tudo. Esse é o problema da falta de regulamentação”, defende Meduza. Ele tem razão.
A falta de compromisso, fiscalização e qualquer rastreabilidade do mercado ilegal, além de todos os outros perigos envolvidos, leva à comercialização de um produto com grande rico de contaminações e adulterações. Foi assim com o álcool na Lei Seca dos EUA (1920-1933), que teve picos de intoxicação com as bebidas clandestinas, é com o mercado ilegal de vapes e também com a maconha.
Alerta Meduza, apontando que há poucas diferenças entre a flor soltinha e o prensado, se em ambos os casos a origem for ilegal e não sabida: “A flor tem mais área em volta. O prensado, como vem em tijolo, tem mais umidade. Mas ambos podem estar contaminados, como com agrotóxicos. Como isso não altera sabores e aromas, acaba passando, quem compra acha que isso (o aroma) garante que a flor (solta) é mais limpa”.
Consumir algo, o que for, sem saber os ingredientes, a procedência, os efeitos, é um risco enorme para o indivíduo e para todos ao redor, ou seja, para a sociedade. Afeta o corpo e a mente.
“Há o aspecto psicológico, tem inclusive a diferença de a flor parecer menos errada do ponto de vista da psicologia. Até pelas pessoas que compram flores serem aquelas com mais recursos”, pontua o psicólogo Lauro Pontes. A desigualdade penetra nossos cérebros até na hora de fumar um.
“Há o aspecto psicológico, tem inclusive a diferença de a flor parecer menos errada do ponto de vista da psicologia. Até pelas pessoas que compram flores serem aquelas com mais recursos”, pontua o psicólogo Lauro Pontes
A solução é regularizar e legalizar. Alguns acham que o caminho é como na Espanha, pelos clubes. Outros, pelas estradas de estados dos EUA mais liberais, onde vale até milk shake de maconha. Há quem está do lado do modelo estatal do Uruguai. E tem uns, em especial representantes da indústria medicinal – não todos, talvez nem maioria –, que preferem restringir a venda via receita. (A Breeza não defende esse último caminho, senão como primeiro e rápido passo, pois acredita na legalização de todo o mercado)
O progresso é dar os próximos passos rumo à legalização. “Replicar padrões de cultivo, garantir que a plantação é orgânica, saber a origem e a genética da semente. Ter garantias! O que o mercado ilegal não consegue dar”, defende Meduza, que está do lado daqueles que apoiam o modelo de mercado dos clubes espanhóis.
Admitir que substâncias que alteram nossos corpos e mentes são estudadas, experimentadas e úteis pelos usos industriais, religiosos, medicinais e sociais, no mínimo contribui para a construção de uma sociedade menos hipócrita, menos preconceituosa e bem mais transparente e honesta consigo mesmo.
Qualquer sessão psicanalítica parte do esforço de encarar a realidade como ela é e assim melhorar. No caso, progredir é aceitar, regularizar e espalhar informação, educação e conhecimento. Vê-se que a sociedade está encarando esse divã agora. Espera-se que saia dele com cabeça evoluída, escolhendo ser mais honesta consigo. Aí teremos aquela realidade esperada pelo Matuê: que nas próximas gerações, ninguém conheça a maconha pelo prensado.
Filipe Vilicic