
“Quem semeia, cultiva a maconha que eu consumo?”. Está aí uma pergunta que a maioria dos usuários frequentes já deve ter se feito. Caso não tenha receita médica, autorização da Anvisa, a origem é ilegal no Brasil. Sabemos disso. Ao mesmo tempo, há diversos tipos de origens, mesmo que ilegais. O que se sabe é que, nesses casos, os growers faturam bem, por vezes muito, muito bem. Mas e se a sua cannabis é legalizada?
Aí quem trata de plantar, de colocar a mão na terra, é um grupo que tem o mesmo nome, mas se chama em português: cultivadores. Os próprios se diferenciam dos growers. Enquanto os chamados em idioma gringo são os que normalmente operam na ilegalidade (para não dizer sempre), ganham diretamente na venda e costumam cobrar lá uns 60 reais a grama, os cultivadores trabalham no campo, usualmente ligados a associações do Terceiro Setor, e levam um dia a dia de camponês.
“Há uma percepção romantizada [do cultivador de maconha], acham que dá retorno financeiro e glamour. Mas se trata de uma vida de agricultor. Não só isso, o buraco é mais embaixo”, diz o cultivador Raphael Meduza, de 42 anos, referência na área e que tem sido voz dos trabalhadores, assim como defensor de seus direitos.
Para compreender como é o cenário atual para os cultivadores brasileiros, Breeza ouviu alguns desses profissionais. Poucos, como Meduza, se expuseram mais, justamente por se proporem a liderar movimentos que pedem por melhores condições de trabalho. Outros pediram para não serem identificados por medo de represálias, como de demissão ou mesmo de outras ameaças que já sofreram de seus patrões. Alguns ex-cultivadores trabalham hoje na ilegalidade e, por isso, também optaram pelo anonimato.
Breeza ainda escolheu por não identificar associações citadas pelos trabalhadores. Primeiro, por se tratar não de uma denúncia, mas de um esforço jornalístico que busca dar voz a quem planta nossa maconha legalizada (em alguns casos, não legalizada, né?). Segundo, para não expor algumas das fontes entrevistadas. Por fim, pois queremos propor o debate e a reflexão, como nos sugeriram os próprios trabalhadores, para depois entender quais são os próximos passos dessa história.
NA LAVOURA
Para Meduza, a lida na plantação de cannabis medicinal de uma associação não “destoa da de quem planta rúcula, tomate”‘. É preciso acordar cedo, fazer muita força, viver em função do solo, trabalhando muitas horas, por vezes sem fins de semana. “E as condições de trabalho incentivam a ilegalidade. Por isso não vejo os growers migrando para a legalidade, virando cultivadores”, afirma Meduza.
O salário mensal de um cultivador de uma plantação de maconha costuma ser inferior a 2 mil reais. Gerentes de cultivo ganham o dobro, enquanto os chefes da plantação chegam a receber 8 mil reais. “Mas enquanto tem mulheres alimentando famílias sozinhas com menos de 2 mil, há diretores que ganham acima de 30 mil”, diz Meduza. Para ele, essa disparidade não combinaria com o status das associações, ligadas ao Terceiro Setor.
“O alto valor da commodity cannabis não está sendo repassado a quem trabalha no campo”, completa ele. Em sua perspectiva, tem se reproduzido a mesma injustiça social que sempre se viu em fazendas brasileiras, mas em um setor que publicamente diz que quer ser diferente.
Tenhamos o caso de Lucas [nome fictício, mas o caso é real], de 35 anos, e que trabalhou por 2 anos em uma associação na Paraíba. Após ser convidado a trabalhar, não foi registrado como CLT, lhe pediram para abrir uma MEI. Porém, nunca assinaram um contrato. Ele conta que recebia um salário mínimo, sem outros benefícios. Na verdade, os patrões pareciam tratar como parte do pacote a moradia. Isso porque, durante o período em que trabalhou na plantação, Lucas tinha de morar em uma casa dentro da colheita.
Durante os anos de trabalho, resolveu que necessitava de consultas médicas para entender algo de diferente nele mesmo e diz ter usado dinheiro que ganhava de um programa social do governo para agendar as consultas. “Pagando parcelado, foi o maior sacrifício. Sendo que esse povo conhece médicos e poderia ter me ajudado mais”, opina ele, em entrevista à Breeza. Assim descobriu o diagnóstico de autismo e lhe foi receitado óleo de cannabis. “Demorou muito para eu convencer a me darem um ou outro [frasco de] óleo, dos muitos que produziam na plantação que eu cuidava”.
Segundo conta, após sair um habeas corpus que liberou o plantio para a associação na qual trabalhava, o demitiram. “‘Sinto que fui usado”. Hoje, mora na casa de amigos, procura emprego e planta na ilegalidade, principalmente para suprir o próprio tratamento. “Cheguei a ser procurado por outros, mesmo associações, que queriam que eu continuasse a cultivar para eles. Mas tem gente que nem oferece salário, querem trocar por moradia.”
Segundo Claudio (nome fictício; neste caso, a fonte pediu para trocar o nome após a publicação da reportagem, por receio de ameaças e congêneres e, numa enorme excessão, visto o eventual risco físico da situação, Breeza aceitou o pedido), que chefiou o cultivo em uma associação do Rio durante pouco mais de um ano e é ligado a movimentos sociais de produtores orgânicos, são frequentes as histórias de dificuldade entre os trabalhadores. O convidaram para o trabalho pela experiência prévia com plantações de tomates, mas ele diz que a grande maioria dos trabalhadores não tinha visão técnica sobre a colheita.
Na associação, diz ter descoberto ser realidade uma frase do músico Criolo: “Terceiro Setor, vem que tem dimdim”. “Vendem que estão lá para cuidar das pessoas. Mas só cuidam é daquelas que podem pagar pelo óleo”‘, opina Claudio. “Quem tá na produção, das seis da manhã às quatro da tarde, faça chuva ou faça Sol, atola carro na lama, sofre acidente de moto no percurso. Aí o cara [o patrão] que nunca morou na roça, não tem noção, vem com um discurso neoliberal que parece que faz bem pra sociedade, mas continua a replicar o modelo fordista: um trabalha feito um cavalo por menos de 2 mil reais, enquanto o diretor tira de 20 para cima.”
Dentre os times de cultivadores, Claudio afirma que na maioria são mulheres, com filhos e sem maridos, em um perfil que parece se repetir. “Usam [os patrões] a desgraça ao próprio favor”. Ele também aponta que há problemas de segurança nas fazendas. Tanto funcionários quanto a colheita estariam expostos, segundo ele, a milícias e traficantes que frequentemente furtam as lavouras à noite. “Mas, por algum motivo, ninguém fala disso”, diz.
NÃO É (TÃO) MELHOR NA GRINGA
Talita [nome fictício], de 33 anos, trabalha desde 2018 nas lavouras de maconha da Califórnia. Hoje, lá é tudo legalizado. Nos tempos em que chegou, não.
Em seu perfil no Instagram, o @fazendo_legalizada, ela compartilha a vida de cultivadora nos Estados Unidos. A pedido dela, Breeza usa um nome falso para identificá-la, pois sua situação de trabalho em solo californiano se situa em uma área cinzenta da lei. Apesar de ter tudo que é necessário para morar e trabalhar por lá, somente cidadãos dos EUA podem ser empregados pela indústria da erva. Talita achou algumas brechas jurídicas para estar nas lavouras, mas tem como arriscado demais revelar seu nome.
Ela conta que se ganhava muito mais com cultivo quando chegou à Califórnia do que hoje. Todo o trabalho era ilegal e ela dormia por meses de improviso, como no banco do carro. Os lucros, todavia, eram quatro vezes maiores. “Dava para trabalhar na estação, uns três meses, e passar o resto do ano viajando o mundo”.
Após a legalização, os salários caíram, mas as condições melhoraram. Ela, que agora é responsável pelo cultivo de três fazendas, mora em uma casa com o marido. “Hoje, se parar para pensar no dinheiro, seria melhor abandonar e virar secretária na cidade”. Há seis anos, a região onde trabalha era tomada por fazendas (ilegais) de maconha e os lucros eram altos para todos. Hoje em dia, Talita conta que as pessoas foram embora, desistiram dos trabalhos como cultivadores, e diminuíram o número de lavouras. “Estamos cercados de cidades-fantasma. Temos até uma piada aqui, ‘Make weed illegal again’ [faça a maconha ilegal novamente]”.
Um cultivador em início de carreira ganha cerca de 12 dólares a hora, o que lhe dá um salário mensal de pouco menos de 2 mil dólares. Para os padrões brasileiros, parece até que Ok, se convertido para reais. Mas não na Califórnia, com o custo de vida do estado mais rico dos EUA. Na prática, o cenário é melhor, mas não tanto assim, em comparação com o Brasil.
QUAL É O CAMINHO?
Parece haver certo consenso entre cultivadores de que a categoria carece de representatividade, como por meio de um sindicato ou de uma associação dedicada a isso. Assim como pleiteiam um piso salarial, benefícios de plano de saúde e alimentação, creche, dentre outros. “É uma indústria como qualquer outra, transvestida de Terceiro Setor”, defende Raphael Meduza. “As diferenças salariais, por exemplo, não podiam ser tão dispersas.”
Ele é uma voz que procura defender os direitos trabalhistas e a criação de um sindicato. Também fala em aumentar a transparência das contas, dos salários e dos lucros das associações. “A ideia é abrir um diálogo para evoluir. Principalmente para melhorar a qualidade de vida do colaborador [o cultivador]”‘.
Para Claudio, o ex-chefe de cultivo de uma fazenda fluminense, o caminho passaria também por sensibilizar o público consumidor de cannabis medicinal. “Quem representava os cultivadores internamente foi demitido e, hoje em dia, tem sido um esquema militar de ‘sim, senhor; não, senhor; se não tá gostando, vai embora que há gente querendo”. Segundo ele, por isso os trabalhadores têm medo de se identificar quando falam sobre o assunto.
“Será que os pacientes, ou os pais que veem como a cannabis melhora a condição de seus filhos, não querem saber como vivem aqueles que plantam e cuidam do remédio deles?”, questiona Claudio. “Eles não podem achar que só por bancar o valor da associação, não precisam prestar atenção no cenário ao redor”.
Filipe Vilicic