Reportagens

O fim do California Dream?

Um relato de como a terra-natal dos hippies, dos beatniks e da Apple tem se tornado cada vez mais careta e lotada de espaços (caros) para alugar. E pode ser salva pela cannabis!
21|03|24

Aquele não era qualquer bar. O Vesuvio Cafe marcava a minha imaginação desde que eu era um garoto deslumbrado com os beats de Jack Kerouac. Apesar de, como muitos jovens fascinados com os beatniks, só ter lido dele o On the Road, que naqueles tempos de 2000 e pouco ainda saía com o título traduzido, Pé na Estrada. Mas com o tempo acabei virando fã de William S. Burroughs, autor do de tirar o fôlego Naked Lunch (nunca encontrei título em português). A fantasia adolescente de “quero ser um beatnik breezado” me levou para o famoso balcão rodeado de fortes luzes verdes e amarelas que me espantariam se eu não fosse um turista curioso.

A história do Vesuvio teve início em 1948. Por lá passaram e de lá saíram movimentos culturais que deram uma aura mágica ao California Dream. O mais marcante foi o dos beatniks. Ao se chegar, se é recebido com um mural com uma frase inspiradora: “Quando a sombra do gafanhoto cai sobre a trilha do rato do campo na grama verde e viscosa enquanto um sol vermelho se levanta acima do horizonte oeste, delineando a silhueta de um guerreiro indiano magro e musculoso, empoleirado com arco e flecha armados e apontados diretamente para você, é hora de outro martini.”

Não sou de martini, mas a sugestão me fez pedir um. O barman, cujo martini decepcionou, gostava de contar a história do bar: “Ano passado (2018), comemoramos 70 anos.” O Vesuvio fica em um beco que já foi chamado de Jack Kerouac Alley. Hoje em dia, o mesmo beco virou uma passagem aberta para os pedestres, mas continua a levar tanto para o bar quanto para outro ícone da cultura local, a livraria City Lights. Ambos são pontos obrigatórios para turistas em São Francisco.

O barman, no entanto, não sabia dizer quem seria o autor da frase no mural. “De onde é esse seu sotaque? Europa?”, me perguntou um senhor que estava sentado ao lado. Ao falar que sou brasileiro, completou: “Agora só tem turistas. Quem era de São Francisco, foi embora. Impossível morar nesta cidade.”

O californiano de uns 70 anos de idade continuou: “E você tem cara de que veio aqui por causa dos beatniks”. Acertou. “Esquece. Não era nada disso naquela época. Agora é museu pra turista. São Francisco tá chata, cara e cheia de gente morando na rua”.

Podia soar, digamos assim, papo nostálgico de uma pessoa mais velha. Porém, naquele 2019 se completavam nove anos seguidos que eu ia à Califórnia; quase todo ano, em alguns anos mais de uma vez, e na maioria das vezes a São Francisco. Principalmente como fruto do trabalho de repórter, para entrevistar CEOs, founders, VPs e outras siglas da indústria da tecnologia. Em uma década, a mutação californiana era evidente até para um observador ocasional de então 33 anos de idade.

No ano passado, o de 2023, voltei a visitar o estado mais rico dos Estados Unidos, com um PIB na casa dos 3,5 trilhões de dólares, algo como o dobro de todo o Brasil. Espantei-me com a quantidade de espaços comerciais para alugar, com placas de “rent” pelas avenidas e nos calçadões à beira-mar. A pobreza era perceptível em uma cena que nunca havia visto lá e que me lembrava das ruas de São Paulo: famílias morando em barracas de acampamento armadas nas areias das praias e em praças públicas.

HOJE, ONTEM E NOS ANOS 80

Na chegada a Los Angeles, tive a sorte de encontrar o fotógrafo Claudio Edinger, acompanhado de sua filha, no ônibus que nos levou para a empresa de aluguel de carros. Conversamos no caminho, Edinger perdeu as contas de quantas vezes viajou para a cidade de Hollywood. Praticante de ioga, conta que foi lá que aprendeu e desenvolveu a técnica.

Um dos maiores expoentes de sua arte, Edinger morou em Venice Beach, a icônica praia canábica de Los Angeles, nos anos de 1980, logo depois de residir em Nova York e pouco antes de ir para a Índia. Lá fez um de seus livros mais famosos, e que leva o nome do lugar, Venice Beach. Suas fotos retratam como a praia exalava contracultura e, ao mesmo tempo, o culto à beleza, ao corpo e aos psicodélicos.

Na conversa, Edinger contou que, naquele dia, ia levar a filha ao Getty. Eu me envergonhei de nunca ter visitado o museu, com a desculpa de que sempre ficava longe demais de onde eu me hospedava na Califórnia; e havia viajado poucas vezes a Los Angeles, especificamente. Resolvi então corrigir a falha.

Antes de rumar para o Getty, fiz o que costumo fazer ao chegar. Achar dispensários em Los Angeles é bem mais fácil do que chamar um carro por aplicativo na cidade (dica de viagem: é mais barato e prático, se puder, alugar um). Basta digitar dispensaries no mapa do Google. Marco um que está no caminho para o apartamento de uma amiga onde me hospedei, chamado Firehaus.

As prateleiras estavam cheias de maconha em muitas variedades. A planta, já enrolada para fumar, ou em latas para beber, ou em doces para comer. Pego dois maços com 5 pre-rolls (se estiver por lá, peça assim caso queira os já bolados) cada. Na Califórnia, todavia, é proibido fumar em qualquer lugar público, ao ar livre ou não. Por isso, também levo um saco com vinte balas, as gummy bears, por praticidade. (E apesar de concordar com a crítica que Sidarta Ribeiro fez a esse tipo de consumo de cannabis em entrevista nesta mesma edição da Breeza)

Se você for menor de 21 anos e, vamos assim dizer, isso for evidente por seu rosto jovem, não vão nem te deixar entrar na loja. Nas compras, sempre solicitam uma identificação. Funciona tanto o passaporte quanto a carteira de motorista, mesmo que brasileira. Na hora de pagar, pedi para ser no cartão de crédito e me recordaram que só aceitam dinheiro nos dispensários. Estava sem, mas havia um caixa eletrônico dentro da loja, do qual saquei os 200 dólares para arcar com a conta, que deu pouco menos do que isso.

O museu Getty Center é parada obrigatória aos breezados em LA. As obras-primas de nomes como Van Gogh, Paul Gauguin, Edgar Degas, Renoir e tantos outros saltam aos olhos, assim como as antiguidades, algumas de mais de 5 mil anos atrás. Mas não há como não se admirar ainda mais com a arquitetura do museu e de seus jardins, que se mesclam perfeitamente à paisagem de Los Angeles ao fundo, vista do alto de uma colina.

Após uma manhã pelo Getty, rumei para o destino mais breezado da região, Venice Beach. Era no auge do verão, mas a praia não estava lotada. O clima underground evidenciado nas fotos de Claudio Edinger não existe mais. Há ainda cenas clássicas do lugar, com os homens sem camisa e as garotas de biquíni e shortinhos circulando de patins, artistas de rua que parecem saídos de filmes hippies dos anos 1970 e skatistas realizando manobras em escadarias. Só que agora essas imagens usualmente procuradas pelos turistas se misturam com as de famílias morando em campings na areia das praias e em praças próximas ao calçadão, e a galerias de lojas inteiras fechadas. Dentre os locais, vê-se mais jovens bem-nascidos se exercitando e passeando com seus cachorros, e nada daqueles personagens descolados, na linha Cheech & Chong, que costumam ser associados a Venice Beach.

Treze anos antes, em 2010, em minha primeira visita a Los Angeles, o clima da contracultura existia, apesar de já pouco perceptível. Naquela época, a cidade, assim como outras da Califórnia (em particular, a Bay Area, na região em torno de São Francisco), exalava mais era riqueza e poder. Sim, a Califórnia continua trilhardária, o estado o de maior PIB dos EUA. Contudo, muito mudou com uma crise financeira e de moradia que se alastrou.

AOS NÚMEROS

Segundo dados da Los Angeles Mission, uma entidade dedicada a auxiliar a população de rua, há hoje quase 59 mil sem-tetos na cidade. Desde 2018, houve um crescimento de 12%. Segundo outra pesquisa, de uma ONG local chamada RAND, nos locais mais procurados da cidade pelos sem-teto, o crescimento da população vulnerável tem sido acelerado, de 18% tão-somente entre 2021 e 2022 (no auge da pandemia).

Dentre pessoas em situação de rua em LA, 75% não possui nenhum tipo de abrigo fixo para dormir à noite e, por isso, recorre a tendas, carros ou dormem pelas calçadas. A crise é recente: sete em cada dez sem-tetos de LA enfrentam a situação pela primeira vez. Venice Beach, a praia que é referência histórica para a cultura canábica, é a vizinhança na qual o problema se tornou mais evidente, com crescimento de 32% da população morando na rua.

Apesar de ser o estado mais rico dos EUA, a Califórnia não tem conseguido enfrentar a crise. Em LA, 85% dos sem-teto declararam que aceitariam auxílio governamental, como para a moradia, se houvesse disponível. Porém, as cidades californianas estão carecendo de recursos destinados à assistência social.

O mesmo cenário tem ocorrido em São Francisco. Em maio do ano passado, um tuíte de um professor universitário, Pedro Domingos, viralizou após Elon Musk, dono do X / Twitter, comentá-lo com um “Sadly, it seems so” (infelizmente, parece ser assim). Domingos afirmava na mensagem que São Francisco “está morrendo”, com uma legenda acompanhando uma imagem que identificava dezenas de lojas que foram recentemente fechadas na rua Market, uma das principais vias de comércio da cidade.

Aquele senhor reclamão do bar dos beatniks estava certo ao dizer que moradores estão saindo de São Francisco. Desde 2020, mais de 250 mil pessoas deixaram a cidade, o que representou uma queda de cerca de 0,7% na população.

Na minha primeira visita à cidade, em 2010, ocorria um fluxo contrário. Havia uma corrida à Bay Area, a região de baía na qual se localiza São Francisco e cidades vizinhas. Jovens se mostravam ansiosos para trabalhar em empresas que viraram joias locais, como Google, Apple e Facebook.

Em meados de 2010, o ânimo com as empresas de tecnologia começou a diminuir gradualmente. Um marco foi o escândalo da Cambridge Analytica, a consultoria inglesa que roubava dados de pessoas no Facebook e os usava para fins obscuros como espalhar notícias falsas e influenciar eleições federais – até mesmo a favor de Donald Trump, eleito presidente em 2016. Desde então, as redes sociais têm sido criticadas por pensadores modernos, como o sul-coreano Byung Chul-Han e o brasileiro Muniz Sodré, que as veem como plataformas para discursos de ódio e para extremistas. Isso em meio a notícias com escândalos e mais escândalos em torno da forma como as chamadas Big Techs capturam nosso tempo, nossos dados, nossa atenção e, assim, impactam a sociedade.

Conforme o vislumbre com a Califórnia se arrefeceu, as crises afloraram. Hoje em dia, corretoras regionais calculam que 30% dos imóveis de São Francisco estão vagos. Além de vazios, os preços exorbitantes afastam potenciais novos moradores – para se ter um teto próprio na cidade é preciso desembolsar algo como 1,5 milhão de dólares.

Assim como as outras grandes cidades californianos – uma das poucas que aparenta ainda estar um pouco mais protegida das crises é San Diego –, São Francisco observa o número de moradores de rua subir ano a ano. Também enfrenta crescentes problemas de segurança pública, em particular com o aumento de roubos a lojas e carros. Pela internet, principalmente em fóruns e em sites que compilam vídeos e fotos virais, têm se espalhado imagens de crimes ocorrendo na Califórnia. Virou, como se chama hoje por influência do linguajar californiano, uma trend. A internet tem tratado de documentar o que os números também evidenciam.

AINDA ASSIM…

É impactante observar as mutações da Califórnia. A The Atlantic, uma revista cult dos EUA, fez a seguinte radiografia da situação, em um texto de 2021: “Se a Califórnia falhar em oferecer aos jovens e aos recém-chegados a oportunidade de melhorar de vida, as consequências serão catastróficas – e não só para a Califórnia. O fim do California Dream (o Sonho Californiano) pode ser um golpe devastador na noção de que políticas em prol da diversidade podem prosperar. Na verdade, o modelo da América enfrenta o seu teste de stress mais importante num dos seus estados mais seguros, onde uma série espectacular de prosperidade quase ininterrupta pode ser destruída por uma abordagem mesquinha às oportunidades.”

O texto da The Atlantic percorre a história da Califórnia, feita com base no fenômeno da Corrida do Ouro do século XIX e da próspera indústria da tecnologia dos séculos XX e deste início de XXI. Mas logo ressalta as crises atuais, inclusive na identidade californiana, abalada pelas crescentes críticas a um modo de vida que se provou impossível de ser emulado em outros lugares do mundo e dependente da exploração de informações pessoais e de manufatura barata de países pobres para manter sua própria fortuna.

Mesmo assim, é inegável que, ainda que em crise, as cidades californianas continuam mais ricas e prósperas do que metrópoles… como as brasileiras. Historicamente, o diferencial do povo californiano é ter sido inovador e criativo frente a desafios e crises. Assim nasceu a Corrida do Ouro que começou a enriquecer o estado dos EUA, assim como foi com o Vale do Silício, de onde são geradas tecnologias que reinventaram nossos modos de viver.

Um dos caminhos que a Califórnia tem apostado para se reerguer é o da cannabis. Trata-se do maior mercado regional de maconha do planeta, sendo o estado dos EUA que mais fatura legalmente com a planta. Ou seja, é o lugar do mundo onde a indústria da maconha mais prospera, movimentando cerca de 5,9 bilhões de dólares (o equivalente ao PIB de um país como Barbados). Desde 2016, ou seja, em apenas sete anos, esse valor quase dobrou e se projeta que se tratará de uma indústria de quase 7 bilhões de dólares em 2024. Vende-se mais maconha na Califórnia do que em todo o Canadá.

Quando se chega a Venice Beach, em LA, logo se nota que dentre os comércios mais lotados estão os ligados à planta. Na principal entrada para a praia há um dispensário medicinal, ao lado de um recreativo, este colado a uma série de lojinhas vendendo comidas de larica, como pizza e hambúrgueres. As filas, gigantes.

Quando visitei a Califórnia pela primeira vez há quatorze anos, o mercado da cannabis legalizada se restringia a umas poucas e exóticas lojas medicinais (a única forma então legalizada). A dificuldade e o risco de conseguir unzinho me levou a ficar careta toda a viagem, na qual percorri de carro, pela icônica paisagem do Big Sur, de São Francisco a Los Angeles.

Com o tempo, a hipocrisia não conteve um mercado que queria sair da clandestinidade. Já em 2014, bastava parar um pouco ao lado de um dispensário medicinal em São Francisco para ser abordado por alguém que te vendia por fora a mesma planta que era comercializada legalmente na loja. Após a liberação geral, em 2016, aí virou um ritual similar a comprar uma cerveja na loja de conveniência.

As ruas californianas sempre cheiraram a maconha. Nos últimos anos, um tanto menos, pela popularidade que tomaram os comestíveis e por não ser mais bem-visto (além de ser ilegal) fumar um em público. A ironia é que antes, quando era ilegal, era mais comum esbarrar com alguém baforando em uma praça. Em um show de Snoop Dogg em São Francisco em que fui antes da liberação do chamado recreativo, rolava fumo solto, sem pudores, e o rapper chegou a distribuir flores pela plateia. A legalização também trouxe uma fiscalização maior sobre como e onde se pode consumir.

Mas outra prova de civilidade californiana é que não vão reprimir um breezado se ele estiver usando em um ambiente tradicionalmente ligado à cannabis. Assim é em Venice Beach, em LA, como também em Haight-Ashbury, o bairro de São Francisco de onde saiu o movimento hippie dos EUA e que hoje é lotado de lojinhas, livrarias, cafés e curiosos (parada obrigatória em uma viagem).

Caso queira fumar ao ar livre, cuidado. Há fiscalização e a multa é alta, em Los Angeles pode passar dos 300 dólares. Porém, é também comum sentir o aroma no ar. Em lugares onde se faz vista grossa, como os points tradicionais da comunidade breezada, nas pontas dos píeres e em algumas áreas praianas, como Venice, adeptos de perfis dos mais variados se unem para confraternizar. Moradores de ruas, que costumam fumar com frequência e sem repressão, ao lado de jovens universitários, latinos, surfistas e curiosos. Uma mescla que revela muito dos motivos da Califórnia ainda dar certo.

Para sair da atual crise, talvez um bom caminho seja o da inovadora indústria da maconha, uma das poucas que cresce apesar dos últimos pesares. Em meu último dia de viagem no ano passado, na cidade de San Diego, uma situação parece ter me mostrado que as divindades da ganja podem estar a favor dos californianos.

Estava no fim de meu estoque para aquela viagem, com apenas algumas balinhas no bolso. Para piorar, as gummy bears caíram e se perderam em algum lugar do hotel. Sentei, ao lado de um amigo, desolado. Passaríamos sem breeza o nosso derradeiro dia por lá. Mas foi aí que surgiu um homem, em seus 40 anos, de camisa e blazer, correndo pelo saguão. Nunca o havíamos visto. Ele nos perguntou “Vocês curtem?” e mostrou um saco com dichavador, pipe, isqueiro e um frasco fechado cheio de flores. “Lógico”. O homem se explicou: “Tenho de pegar um voo, correndo, e não conseguirei embarcar com. Querem?”.

Aceitamos e garantimos a nossa breeza naquela última noite californiana.

Filipe Vilicic