
Com suas palavras, Geovani Martins fura bolhas deste nosso Brasil cheio de desigualdades e abismos sociais e raciais. Em seu livro de estreia, o “O Sol na Cabeça”, trouxe uma necessária renovação, algo distinto do usual nas prateleiras da literatura brasileira. Com a linguagem da periferia, apresentou aos leitores contos de uma realidade que ele, que nasceu e cresceu em favelas do Rio, como a Rocinha e o Vidigal, viveu na pele. E é uma realidade cheia de maconha, que tá nos momentos de risadas e nos de tensões.
Depois veio em 2022 seu romance Via Ápia, sobre cinco jovens que têm as vidas transformadas quando a polícia invade a Rocinha. O sucesso literário foi enorme, os livros foram lançados em vários países e agora neste mês de dezembro ele vem com uma novidade: a série documental “A História de uma Planta”, que fez com a cineasta Nina Kopko, sua mulher. Anota aí: serão cinco episódios, a partir do dia 15 de dezembro, no canal GNT e no Globoplay.
Em conversa franca com Filipe Vilicic, da Breeza, Geovani Martins fala de como convenceu a mãe de que tudo bem fumar maconha, da salvação que a erva foi em sua adolescência, do processo de gourmetização e higienização da cannabis no país e de como levar a linguagem e cultura dos morros, e as pessoas que por tanto tempo foram excluídas, para o nascente mercado da ganja.
Geovani, resgatei aqui o seu primeiro livro, de contos, “O Sol na Cabeça”, e ele começa já com uma história em torno do baseado. E depois tem várias vezes isso, em várias situações que envolvem o usuário, com graça e humor, e situações que envolvem polícia e tráfico. Por que você traz a maconha na sua literatura, o que ela representa?
Sinto que a maconha, na minha literatura, é uma chave muito importante para trabalhar a sociabilidade. Nesses dois primeiros livros a gente fala muito de juventude e acho que a maconha cumpre um papel social na vida dos jovens em geral, especialmente dos periféricos, de favela. Para falar do direito ao lazer, muitas vezes querer o baseado pra ir na praia. Outra coisa que vem nos meus livros é a maconha como remédio para estresse e a exploração do trabalho. A maconha assim como na sociedade brasileira, nos meus livros é uma pauta 360 (graus), está ligada à questão da saúde mental, mas também da segurança pública, por conta da proibição. Está ligada à sociabilidade, à cultura, à ancestralidade. Quis trazer de uma forma muito natural, por ter sido e ser usuário de maconha há muito tempo, e ter passado minha sociabilidade, na adolescência e como jovem adulto, a sociabilidade ter girado em torno dessas rodas de usuários e dessas missões pra conseguir a maconha. Toda essa experiência pessoal acabo trazendo para a literatura e uso isso como ponto de partida para discutir questões estruturais da sociedade brasileira. Que é uma questão do acesso a transporte público, acesso a substâncias e como esse acesso se dá. No Via Ápia (romance de sua autoria), tem um tipo de tráfico, que é o da pista, e outro tipo, que é o do morro, e a gente vai vendo os contrastes. Quem tem acesso a maconha de qualidade, quem não tem. Quem é perseguido pela polícia, quem não é. A maconha nesses meus dois primeiros livros vai servir como um modulador de dinâmicas que estão na sociedade brasileira.
“A maconha é uma pauta 360 (graus), está ligada à questão da saúde mental, mas também da segurança pública, por conta da proibição. Está ligada à sociabilidade, à cultura, à ancestralidade”
Parece às vezes que é uma história de nicho, do nicho dos jovens maconheiros, mas isso é um grupo muito grande de pessoas. A gente está falando da substância ilícita mais usada no mundo inteiro. Então ela é disparadora de muita coisa e agente catalisadora de vários sistemas que me interessam. Nesses meus dois livros falo muito também da questão da violência contra a população negra, a gente sabe que a proibição das drogas é a principal justificativa para essa violência estatal, para esse projeto genocida de combate a essas substâncias, de combate a quem vende, mas também a quem consome. Então eu acho que a maconha é uma chave para discutir assuntos que me incomodam e que pela experiência como usuário acabei vivendo muitas vezes, observando de perto muitas vezes, acompanhando as histórias de vários amigos. É como se fosse uma porta de entrada pra falar de um tema muito grande. E dentro desse tema não cabe só a tragédia, cabe também a diversão, o riso, o lúdico . É bem importante a gente tratar os usuários de drogas, moradores de favela que são usuários de drogas, também no viés do prazer e da transcendência. Quando a gente falar sobre drogas, tem essa separação, se for favelado só tem a ver com tráfico. E aí quando a gente vai falar de uma coisa mais espiritual, lúdica, aí tem uma coisa mais Woodstock, mais branca, mais hippie, né? Tento quebrar um pouco disso ao trazer personagens de favela que sejam usuários e não apenas traficantes, como são retratados em outros livros, outros filmes etc.
Como a maconha entrou em sua vida? Você já abriu o jogo que é usuário, como eu, como nossa comunidade, muitos dos que ouvimos aqui na Breeza, é nosso centro. Como ela entrou na sua vida, em que momento, e o que representa hoje?
A maconha chegou na minha vida na adolescência, tinha por ali 16 anos de idade quando experimentei. E foi um período muito difícil pra mim porque eu cresci em Bangu, que é zona oeste do Rio de Janeiro, extrema periferia da cidade, e tive toda minha sociabilidade ali. E de repente eu mudei pro Vidigal, que é uma favela na zona sul, com outras corres culturais, outros tipos de fricções sociais também, e foi difícil lidar com essa mudança. Tive um período de isolamento também, com poucos amigos, e dificuldade de me entrosar nesse novo ambiente. Hoje em dia, olhando pra trás, acho que estava num processo de depressão. Tinha pouco estímulo para sair de casa, a única coisa que eu queria saber era de literatura e queria ficar lendo muito. É muito legal um garoto de 16 anos que lê, mas não muito legal um que só lê. A vida tá ali pra ser experimentada e eu tava num momento muito retraído. Aí eu tive a oportunidade de experimentar, tive um interesse por drogas em geral, queria saber qual era a das drogas. A primeira que consegui acessar foi a maconha, através de um conhecido na escola. E aí entendi que na verdade gostava muito daquilo. E aquilo começou a me obrigar a sair de casa, não podia fumar em casa, não podia falar com minha mãe, e comecei a fazer novos amigos e tudo. E foi uma espécie de renascimento na minha adolescência, comecei a frequentar novos lugares, a fazer novas amizades, a me abrir mais pro mundo. E sinto que a maconha mudou muito meu jeito de sinalizar, e também muito minha sensibilidade, a maneira como eu lia aqueles livros, a maneira como eu lidava com a arte. É uma companheira desde então, eu nunca mais parei de fumar maconha desde então. Eu me tornei usuário habitual, do dia a dia, nunca mais parei. Com vários momentos, às vezes fumando um pouco mais, às vezes um pouco menos, mas sempre uma constância na minha vida. E eu sinto que hoje em dia ela representa essa companhia, essa planta companheira que está comigo em todos os momentos. Várias vezes estou viajando, com turnê de livro, tô sozinho e às vezes sou eu e a maconha no hotel. Nessas viagens faço outras amizades procurando um baseado, fumando um baseado numa praça. Continua de alguma forma como agente modelador de encontros. E grande parte dos meus amigos de hoje em dia foram conquistados nessa dinâmica. Tenho amigos de 10, 15 anos que todas as vezes em que nos encontramos fumamos um baseado, é algo ritualístico na nossa amizade. E interessa por toda essa dinâmica social que envolve a maconha. Quando era mais novo tinha essa coisa de tô sem maconha, preciso de alguém pra salvar. E aí quando consegue, logo quer salvar aquele amigo que te salvou naquele dia. Então você vai criando uns códigos de ética e sociabilidade que são mostradores de caráter também. Influenciou muito na maneira como eu lido com as pessoas. Então a maconha significa muito pra mim, como companheira, essa planta que me faz estar bem comigo mesmo quando estou sozinho. Mas também que me ajuda a mediar relações com outras pessoas. Sejam meus amigos ou pessoas desconhecidas, que possivelmente podem entrar em minha vida. Tive muitos encontros únicos a partir da maconha. Encontrar um rasta na praia que só vai encontrar uma vez, mas vai te passar aquela visão pra vida, vai te falar um monte de coisa que vai te abrir a cabeça. Então ela formou a maneira como eu olho pro mundo, ajudou nessa formação. A maconha hoje pra mim significa isso: essa companhia e essa chave de sensibilidade. Minha habilidade parte muito de ser um usuário frequente dessa substância.
“É bem importante a gente tratar os usuários de drogas, moradores de favela que são usuários de drogas, também no viés do prazer e da transcendência“
Você falou aqui no começo de nossa conversa da diferença que é quando você usa dependendo do lugar em que está, classe social. Teve essa experiência do prensado pra flor? Começou no prensado, ou por algum motivo foi na flor? Como é que é hoje?
Comecei com o prensado, como a maioria das pessoas, principalmente da minha classe social, mas no Brasil a maioria das pessoas e ponto. Tenho a impressão que o prensado daquela época era um pouco melhor do que o de hoje. Não sei se é uma nostalgia ou se é porque eu não conhecia outros tipos de erva. Mas sinto que antes o prensado era algo mais satisfatório do que é hoje. Até na questão do sabor, da erva, do cheiro. Fiquei muitos anos fumando prensado, comecei com 16 anos, a primeira vez que fui fumar uma flor eu tinha 25 ou 26. Demorou pelo menos uns 8, 10 anos, até eu experimentar a erva fresca. Quando lancei “O Sol na Cabeça”, mudei minha condição financeira e os acessos que tenho em relação a tudo, e isso incluiu a maconha. Comecei a comprar flor, mas esporadicamente, eu estava acostumado com o prensado. Mas no começo da pandemia teve uma seca histórica de maconha no brasil e era impossível comprar qualquer maconha prensada porque elas vinham visivelmente mofadas, em péssima qualidade. E nesse momento eu comecei a comprar flor, sempre. E desde então eu fumo flor. Mas lógico que se um amigo uma pessoa que eu encontrar for apresentar um prensado, não vou fazer desfeita. Mas pro meu consumo, eu compro as flores. É muito mais caro, acabo fumando menos, mas fumando melhor. Isso foi algo que fui entendo ao longo dos anos, o momento mais adequado. A quantidade de erva que consumimos está ligada à nossa vida no presente. Como é nossa dinâmica se apresentando. Hoje em dia fumo a flor e pra mim é muito prazeroso ter acesso a esse tipo de qualidade. Mas ao mesmo tempo é muito revoltante pensar que algo que poderia ser de acesso a todo mundo, uma planta fácil de manusear, no plantio caseiro, não seria difícil a pessoa ter acesso a uma planta de maior qualidade. Fico muito revoltado porque tenho amigos que não têm condição de fumar algo melhor, muitos amigos passando pelo perrengue do prensado. E nesse momento você entende que dentro dessa estrutura capitalista, tudo pode passar por esse raio da gourmetização, do acesso. Então você vai separando quem pode fumar uma maconha de qualidade, tem gente que não conhece, não sabe o que é uma flor fresca. Foi uma alegria conseguir descobrir essa potência da maconha, inclusive depois de viajar para vários países onde a maconha é legalizada, poder comprar em uma loja, no caso do Uruguai, ganhar de alguém. Mas ao mesmo tempo, quando olho pro lado vejo que a maioria das pessoas não têm esse acesso, é uma questão complexa.
“A maconha é uma coisa central na saúde mental de boa parte da população brasileira, boa parte da população negra“
Fazer essa série também foi um esforço pra poder falar sobre isso. A “História de uma Planta” é uma série que pensa esse desejo de levar esse debate do acesso de forma geral, desde a maconha medicinal, mas também da recreativa, de qualidade, pra poder ter a sua planta e consumir em paz. Então foi um acesso que acabou me engajando ainda mais em relação à legalização da maconha. Para pensar o quanto isso pode ser positivo, quando se tem acesso a uma erva fresca, tem muito mais retorno terapêutico. A maconha é uma coisa central na saúde mental de boa parte da população brasileira, boa parte da população negra. Mesmo o prensado já cumpre esse papel aos trancos e barrancos. Mas quando a pessoa tem a chance de acessar um óleo de qualidade ou uma flor de qualidade, os resultados são muito mais expressivos.
E vamos falar da série, “A História de uma Planta”, que é documental. Apesar de escrever bastante com relações com a realidade, você vem da ficção. Como é que caiu nisso de fazer uma série documental sobre maconha?
Eu e Nina conversamos muito , a gente codirigiu, idealizou, coordenou equipe de roteiro, e a gente conversava muito sobre maconha, como assunto de interesse de nós dois. Pra mim já tava muito na minha obra, pra Nina no campo do interesse pessoal, mesmo. Ela nunca tinha feito documentário, eu também, mas a gente falava muito sobre maconha por esse interessa de nerd, de quem pesquisa muito, trocando informações. E um dia o Ricardo Vidal, que é o produtor da Feel Filmes, convidou a gente pra fazer um projeto com eles, alguma parceria. Perguntou se a gente tinha alguma ideia de um documentário. E na hora a gente sabia que se fosse fazer um documentário, seria sobre maconha. Começou a organizar o projeto, e isso já foi em 2021. 2020, talvez. No final de 2020 começamos a ter reuniões até a gente entrar no trabalho de pesquisa mais a fundo em 2023. Teve todo esse tempo pra pensar a série. Então a gente tava entendendo que a maconha está vivendo um momento especial no mundo, não só no Brasil. Tem vários modelos de legalização ao redor do mundo, muitas descobertas da neurociência, a sociologia tem trazido informações a partir dos dados históricos. Uma ebulição muito grande de informações, e veio disso daí, desse desejo de aprender dessa planta e compartilhar esses conhecimentos. A gente tem essa história pessoal de sermos usuários e de ter conseguido convencer dentro de casa de que a maconha não era nada aquilo que ouviam falar. Tanto a minha mãe quanto a da Nina passaram de pessoas que tinham medo da maconha para pacientes de maconha medicinal, para militantes da legalização no seu ciclo. A gente viu como a informação passada com carinho e com paciência era potente para destruir essas mentiras que mantiveram e mantêm a proibição da maconha de pé até hoje.
A gente teve esse desejo de falar com mais gente e a gente sabe que o produto audiovisual tem essa potência. Então vai estar em um canal de televisão, vai ter gente que vai chegar completamente desavisada e ver essa série. A gente tentou uma linguagem muito acessível pra poder realmente conversar sobre a maconha. A gente tem esses dois públicos alvo: da pessoa que não tem nenhuma relação mais próxima com a maconha, mas que pode ser fisgada por aquilo; e ao mesmo tempo a pessoa que é usuária ou pelo menos defensora da ideia da legalização, para de dar instrumentos pra conversar com seu entorno. É muito importante também a gente instrumentalizar propagadores de informação. A série nasce também desse desejo, da comunicação simples, mas a partir de uma pesquisa profunda. A gente pesquisou muito, tanto o conteúdo quanto os personagens, e aí conseguimos conceituar esse projeto que tenta falar da maconha, de várias facetas da maconha, e também mostrar como tudo isso é interligado. Então a gente fala de neurociência, sociologia, direito, história, medicina, mas também fala de cultura, lazer, meio ambiente e economia. Assuntos que a maconha e meia. O desejo parte daí, de aprender e compartilhar.
Vi no trailer aqui que no documentário falam com várias figuras relacionadas à maconha. Teve gente que a gente já conversou na Breeza, como o Gregorio Duvivier, o Sidarta Ribeiro. Vi que tem Cintia Guajajara, Juliana Borges, um pessoal muito legal. Quem mais te marcou desse pessoal?
A gente teve muita felicidade no resultado do nosso casting, todo o elenco contribuiu muito pra gente contar essa história. A gente teve essa preocupação de construir uma visão afrocentrada do Brasil, então a maior parte de nossos entrevistados são pessoas negras, de todas as áreas, muitas das vezes quando vão ouvir pessoas negras em relação à maconha, é muito voltado pro campo da sociologia do direito. A gente tentou e trouxemos médicos, agrônomos, cientistas, pensadores e artistas. A gente tentou trazer outras visões a partir dessa perspectiva e eu acho que tiveram vários momentos marcantes. Eu citaria a Mariane Ventura no primeiro episódio, o Sidarta Ribeiro também. Nem preciso falar do Sidarta, porque todo mundo que tá ouvindo a gente aqui já deve conhecer. Mas gosto muito da Mariane Ventura, que é uma médica de Salvador, da Bahia, que estava produzindo conteúdo na internet, super carismática, jovem, super apaixonada pela história da maconha medicinal. E acho que foi uma grande entrevista. A gente pensou muito no Drauzio Varella pra ser o médico desse episódio, pelo acesso que ele tem aos usuários brasileiros e pelo carisma. Acabou não rolando por uma questão de agenda, mas trazer a Mariane foi uma grata surpresa, pois assim conseguimos falar da nova geração de médicos que pode entrar na casa das pessoas, que são carismáticos também. Que representa uma nova possibilidade de Brasil, uma médica negra, que está pensando essa questão da maconha medicinal a partir da perspectiva negra. Nesse mesmo episódio tem a Maria Conceição, que é uma senhora e é usuária de maconha. Uma pessoa já da terceira idade. Pra mim um dos momentos mais bonitos da série inteira é dela falando “Eu acredito na maconha, fui em todas as Marchas aqui em São Paulo. Não acredito que porque sou velha a responsabilidade de mudar o mundo é dos jovens. A responsabilidade de mudar o mundo é minha também”. Simboliza muito o espírito que a gente queria trazer pra essa série, é uma senhora que pesquisa gastronomia, em relação à maconha também. Como a gente tá falando de rejuvenescimento do cérebro, ouvir uma usuária de mais de 70 anos falando isso mostra como esse cérebro tá elástico, num funcionamento muito intenso apesar da idade. Então Maria Conceição foi uma. Tem também a médica Camila, que é uma medica de Minas Gerais que começou a estudar maconha para prescrever para a própria mãe. A mãe em um processo de demência, e a partir do uso conseguiu interromper esse processo, e depois de dez anos ela continua dirigindo e vivendo a vida. É um caso muito emblemático de uma pessoa que trouxe pra própria casa e depois levou para o consultório. Esse tipo de história se conecta muito com o telespectador, a pessoa se identifica muito com uma filha que foi tratar a mãe. Nos outros episódios, Juliana Borges foi sensacional. Suzane Jardim, que foi nossa pesquisadora de conteúdo, deu uma entrevista lindíssima. Tem a Rafaela França,de um projeto de uma associação canábica que distribui maconha para 114 favelas do Rio. Pra mãe de crianças autistas, de crianças com epilepsia. Foi muito bonito contar com a presença da Rafaela e ouvir as mães. No episódio 4, que a gente fala da maconha criativa, o episódio que tem o Gregorio, gosto muito da entrevista da Jeane Tavares, que é uma socióloga que tem uma página de saúde mental da população negra e traz questões muito importantes de maneira acessível. A gente tem a última entrevista do Nêgo Bispo (que faleceu em 2023), nesse episódio, e eu fico sempre emocionado quando vejo ele falar. Foi a primeira entrevista longa que ele deu sobre maconha, a gente já tinha visto que ele tinha passado pelo assunto em algumas entrevistas e tivemos a ideia de chamar pra falar só sobre isso. Ele topou porque era sobre maconha. Não era um bom momento de agenda, o cachê não era lá essas coisas, mas como era pela maconha, falou. Tivemos vários desses encontros, foi um choque de realidade pra gente quando começou a convidar pessoas, e várias começaram a se recusar a falar com a gente por medo do estigma, por estar em um canal de grande alcance, estar no Globoplay. Várias pessoas recuaram, pessoas que a gente admirava, mas a gente entende. Ao mesmo tempo, várias pessoas aceitaram falar com a gente ou trabalhar com a gente justamente por causa do tema. Então foi essa coisa, teve muito desses encontros, por exemplo, a gente tem uma trilha sonora original do Metá Metá. Com o orçamento dessa série, se não fosse o tema relevante, a gente nunca conseguiria contratá-los.
Nos seus livros, você leva muito a linguagem que não é normalmente da maioria dos livros, a linguagem periférica. Aí fico com uma dúvida: quando a gente fala do mercado legal da maconha no Brasil, da legalizada, é muito medicinal, muito higienizado, e até há uma preocupação de que acabe por excluir as pessoas que já eram excluídas. Como a gente leva essa linguagem para o mercado da maconha?
A gente tem que estar disputando esse espaço, já está um pouco melhor do foi. Até há pouco tempo tinha essa máxima de que falar da legalização da maconha era coisa de playboy, que o playboy queria fumar seu baseado em paz. Hoje em dia o entendimento é que é uma pauta relevante pro braisleiro em geral, tá começando a crescer. Mas a verdade é que tá havendo essa nova colonização da maconha, que estão entrando nesse mercado simplesmente porque entenderam que é uma fonte de renda. E assim vão sair na frente de quem sempre sofreu com a proibição e que tudo indica que ficarão de fora da festa da legalização. Acho que projetos como a Iniciativa Negra, de várias mídias negras, são importantes para conseguir disputar esse espaço de narrativa. “A história de uma Planta” é um movimento nesse sentido, de olhar para essa questão a partir de uma perspectiva de quem esteve realmente excluído nesse processo.
“Até há pouco tempo tinha essa máxima de que falar da legalização da maconha era coisa de playboy, que o playboy queria fumar seu baseado em paz“
E aí começa a pautar ideias de reparação. Como se pode fazer uma legalização, lutar por uma legalização que seja justa, que contemple as pessoas que estiveram mais na linha de frente da guerra às drogas? A gente tá longe de conseguir emplacar um movimento organizado, mas existem boas iniciativas. A Iniciativa Negra, por exemplo, publicou um documento muito interessante sobre reparação histórica no ano passado, analisando vários processos de legalização, propondo coisas legislativas. Tem gente do direito falando muito disso, como a Rede Reforma de maneira geral. Acho que existe e estamos cada vez mais organizados, mas é isso, quando a gente vai falar de controle de mídia, de marketing, a gente tá falando de poder aquisitivo, de capital simbólico. E isso que é lógico que as pessoas ricas, os empresários, estão muito na nossa frente. Mas a gente já conseguiu melhorar alguma coisa e estamos trabalhando nisso.
O único meio possível, já que a gente não detém os meios de produção, é nesse trabalho de difundir a informação, engajar novas militâncias. O trabalho da distribuiç ao em favelas é sensacional, além de distribuírem as medicinas pras mães, tem todo o processo de empoderamento dessas mulheres, de municiá-las com informações para poder difundir nas redes sociais E essa revolução parte desses lugares, do lugar do encontro, desses envolvimentos com o nosso entorno. Já falei várias vezes em outras entrevistas, o Brasil como instituição tem muito o que aprender com as favelas do Brasil. Em relação à maconha é isso também. Quando conseguirmos ter esse olhar mais horizontal em relação a isso, a gente vai conseguir criar uma nova linguagem. Na nossa série, por exemplo,a gente conseguiu trazer vários personagens. Seis a oito personagens por episódio, o que é bastante gente pra um episódio de 26 minutos. Mas a gente quis ter essa potência da roda de conversa. Esse pensamento não é do Sidarta, da Juliana, do Nêgo Bispo, é um pensamento que está sendo difundido por várias pessoas. A gente usou muito bate-bola, um entrevistado começa, o outro complementa. A gente tá trazendo um discurso que não tem dono, mas tem o objetivo de democratizar o acesso não só à planta, mas à informação também. Esse caminho de mudar a linguagem passa por a gente conseguir trazer cada vez mais pessoas para poder contribuir no debate. E com isso tô falando de política também, pessoas que estão ali disputando a lei, mas pessoas da academia, das artes, enquanto usuários e militantes se alinhando com pessoas com o pensamento próximo do nosso. A coisa acontece muito mais lenta do que a gente gostaria, mas está acontecendo. Do momento que a gente começou a pesquisa dessa série até hoje, já teve muita mudança. Novos conteúdos, novas maneiras de olhar, mais espaço em mídias especializadas para poder falar também das questões raciais em torno da maconha, o que há pouco tempo atrás era coisa de nicho, e hoje em dia está em espaços que alcançam o grande público. É um trabalho que está sendo construído aos poucos e essa série é mais um espaço para poder contribuir.
Nas suas histórias há várias cenas bem reais, como a do garoto que acha um revólver, ou da galera procurando seda pro baseado e com medo do enquadro, ou a questão do traficante com fuzil na hora que todo mundo tava fumando. Várias cenas que envolvem a realidade de quem usa maconha. Você passou pelo o que aconteceu nessas cenas, são cenas reais, traz mesmo a realidade?
Quando a gente pensa na ficção, tudo é real em alguma medida. Várias cenas aconteceram comigo, com outras pessoas que eu conheço. Isso se mistura com outras cenas que eu imaginei. A ficção é esse lugar, essa colcha de retalhos que vai costurando pra chegar em um lugar maior. Tenho sse processo de escrita, principalmente dos contos, que é trabalhar nessas duas chaves: ou uma história real minha ou de alguém que conheco, que vi no jornal, que fiquei sabendo de alguma forma, e essa história me impacta de alguma forma e começo a entender o que tem por trás, o que motivou; ou, o outro método que acontece muito, é ter um tema que gostaria de falar e a partir desse disso começo a pensar na história. O primeiro conto do livro Sol na Cabeça, o Rolézim, é a história de cinco meninos querendo ir pra praia e que tão com esse problema de não ter a grana, não ter a maconha, e quando chegam lá, a polícia não quer deixar eles voltarem. Essa é uma coisa que estava acontecendo muito no verão carioca, que ainda acontece no verão carioca. Começa o verão, começam essas blitz parando ônibus e levando jovens pra delegacia. Isso estava sendo muito comentado naquela época e eu comecei a pensar que tinha muito sobre isso, a favor, contra, mas ninguém ouvia o jovem que passava por essa situação. Então pensei em construir essa história em primeira pessoa, pra gente poder ouvir a voz do jovem que vai ser detido porque estava curtindo na praia. A partir disso vou trazendo várias histórias, histórias que vive, que ouvi, que inventei, pra poder ilustrar esse tema do acesso ao lazer. Basicamente estamos falando do acesso ao lazer, ao transporte público, e aí eu começo a pensar essas várias histórias. E aí vai ter a história de como consegui a maconha, como consegui a seda.
“O único meio possível, já que a gente não detém os meios de produção, é nesse trabalho de difundir a informação, engajar novas militâncias“
Na ficção eu costumo pensar que o mais importante é a coisa do ponto de vista. Toda história será autobiografia em alguma medida porque a maneira que se olha pra ela está condicionada a como a gente olha o mundo. Tem várias pessoas que olham esses ônibus parados, os jovens com a cara no muro, sendo revistados, como uma coisa legal, de (a polícia) “está trabalhando pela cidade”. Outro pensa “que pena, poderiam estar estudando, mas estão se drogando”. Tem vários pontos de vista para essa situação. A maneira como eu olho pra isso tem a ver com minha biografia. Já fui parado pela polícia um milhão de vezes, já fui parado de ônibus. A empatia que eu vou ter com essa cena é diferente da empatia que outras pessoas podem ter. O acesso que eu tenho a esse universo é diferente do acesso que várias outras pessoas têm. Isso é o mais autobiográfico que tem na minha escrita, a maneira como olho pra ela. Por exemplo, você falou do conto do menino que acha a arma. Eu quando era criança era proibido de brincar com arma de brinquedo, nunca tive pistola de água, nada que parecesse como uma pistola, uma arma de fogo. Era uma política dentro de casa pra poder me afastar desse lugar da marginalidade. A gente já vivia numa favela, sabe que você é criminalizado só por existir Então existe essa tentativa de muitos pais, de não pode usar o cabelo tal, pintar o cabelo, brincar com arma. Existem várias ações desses pais pra tentar proteger o filho da criminalidade. Pensar essa história é pensar sobre essa questão desse fascínio que a mídia, o cinema, que a TV traz em relação à arma, e a relação que tem como pessoa favelada, que tá em conflito ali, no meio de um conflito entre policiais e traficantes, muitas vezes conflitos armados. Como esse fascínio se revela pra a criança, como ela joga com isso? Pra mim é muito autobiográfico no sentido de pensar minha relação com a arma desde a infância, de meus amigos, de meus vizinhos, da brincadeira de rua em torno da imagem da arma. Mas nunca aconteceu comigo, de achar a arma e levar pra rua. Mas as vivências que eu tive me levaram a pensar isso, sabe?
Existe essa tentativa das pessoas de separar biografia de obra, ou ver como uma coisa só. Acho que é muito mais manchado do que isso, por isso estamos vivendo hoje um momento especial da literatura, do cinema, das artes plásticas no Brasil. Estamos podendo consumir obras geradas por outros pontos de vista e “O Sol na Cabeça” é uma dessas obras. É isso que tem mais de autobiográfico. Morava em Bangu, eu tinha que cruzar a cidade pra ir na praia. Cruzar a cidade pra ir à praia, usar transporte público tantas vezes, óbvio que minha biografia tá ali, das horas que tive no ônibus, passadas nesse lugar de convivência. Lógico que tem uma ou duas histórias que estão ali, integrais, começo e meio e fim, do jeito que aconteceram. Mas a maioria são colagens e histórias de sonhos, tem histórias que nem sei mais de onde veio. E tem pessoas que me inspiraram com histórias e que quando leem, nem percebem que estão ali. Aquilo ali foi tão misturado, a história da pessoa ela vê de um jeito, quando eu vi, já vi de outro jeito, deixa de ser o que ela contou e passa a ser o que eu entendi. Nesse processo de ficcionalização a gente borra muito o que é autobiográfico e o que é imaginação. Acho que inclusive a imaginação é uma forma de biografia. Ninguém pode imaginar o que eu imagino, essas ferramentas são so minhas.
Você mostra lá várias realidades na sua ficção, e no seu documentário parece que está falando de um novo momento da maconha, diferente das histórias que viveu na sua juventude. Acha que os jovens de hoje vão encarar uma realidade diferente, por exemplo, em relação à maconha na favela? O seu documentário mostra que tem algo mudando, ou não,?
A gente espera que esteja mudando, mas a gente sabe que é muito complicado, enquanto a gente tiver a polícia operando da maneira como opera no Brasil. Teve agora toda a discussão sobre a descriminalização do STF. A série estava acontecendo enquanto estava essa discussão, é claro que dá segurança saber que existe uma quantidade mínima para ser considerado crime. Mas isso impede um flagrante forjado, não lida com a relação que se tem com a maconha. Às vezes a pessoa mora muito longe de onde compra e não vai querer voltar lá, por isso vai comprar mais do que as 40 gramas. Isso não lida com uma realidade em que as pessoas se juntam para comprar maconha. Uma pessoa vai e compra maconha para várias pessoas. Na lei brasileira, é crime. Tem uma legislação que não lida com a realidade dos usuários, mesmo quando tenta apontar uma desmineralização, ela lida com coisas muito concretas da realidade dos usuários. Dá uma certa tranquilidade em algum momento pensar que existiu um passo em relação à legalização, mas é uma tranquilidade muito frágil. A gente sabe como a polícia do Brasil opera e a gente sabe, como usuário, que não é tão simples assim. Não é todo mundo que vai conseguir comprar 40 gramas, existem várias nuances que precisam ser discutidas. Em relação à lei, caminhou um pouco, mas em relação à vida real, a gente tá num momento até pior do que na minha juventude.
“Em relação à lei, caminhou um pouco, mas em relação à vida real, a gente tá num momento até pior do que na minha juventude“
É uma contradição que a gente tá vivendo no Brasil de maneira geral. Tem produções de pessoas negras, vindas de favelas, tendo relevância no cenário nacional, seja no cinema, nas artes, na literatura, na música. A ideia de preto no topo nunca esteve tão em alta quanto hoje em dia, seja lá o que isso quer dizer. Mas ao mesmo tempo a gente tem a maior taxa de letalidade da polícia na história do Brasil, do nosso passado recente. Quando escrevi o Via Ápia, na época em que se passa, 2011 a 2013, tinha uma taxa de letalidade policial de entre 100 e 200 pessoas, um número altíssimo. Mas quando comparado com as 1500, 1900 pessoas assassinadas pela polícia em 2017 e 2018, é muito menos. A gente está no momento em que disputamos um lugar de visibilidade, ao mesmo tempo que quem está fora desse espectro da visibilidade tá sofrendo muito mais do que há 10 anos, 15 anos. A gente tá vivendo essa contradição, de nunca estar tão em alta, mas ao mesmo tempo tão em baixa.
Então a coisa da morte e da prisão deixou de ser um movimento silencioso pra virar capital político. Em 2011 as autoridades, diante de uma chacina, não comemoraram, diziam “lamentável que isso acontece numa cidade”. Hoje não, existem figuras políticas que usam isso como capital político, “Se me eleger vou matar mais vinte, mais trinta”. A gente tá vivendo esse momento de polarização, em que a morte e a prisão são capital político de certas figuras. E que a gente tem situações como a que aconteceu há pouco tempo, uma situação clássica do Rio de Janeiro. Teve a coisa do jogo do Botafogo e Peñarol, e Botafogo goleou. Os torcedores do Peñarol tacaram o terror no Rio de Janeiro e, no dia seguinte, a Secretaria de Segurança Pública, com uma necessidade de dar uma resposta, fez uma série de operações em várias favelas e, numa dessas operações, uma pessoa dentro de um ônibus, indo pro trabalho, morreu baleada. A gente tem que lutar contra isso, muita máscara caiu de 2018 para cá em relação à segurança pública. Tanto na esfera política quanto na social. A sociedade civil se mostrou muito mais sedenta de sangue do que há alguns anos e a gente tem um grupo de políticos que está fazendo carreira em cima dessa sede de sangue e alimentando isso o tempo inteiro.
Sinto que numa esfera discursiva de possibilidade de circular informação, de debater isso e levar pra academia, levar pra TV, tá muito melhor. Isso aponta talvez para uma mudança. Mas nossa realidade hoje em dia é muito dura. Acho que a gente tem que enfim se organizar para também conseguir mudar esse imaginário e esse desejo da sociedade por esse tipo de conflito. Esses políticos que pregam a violência como única forma de mediação de conflito não estão sozinhos, estão amparados por uma turma muito grande. Os torcedores das milícias, empresários conservadores. A gente tá numa disputa, num momento mais delicado. Não sei o que vai acontecer daqui pra frente, mas nosso trabalho é tensionar isso, gerar esse incômodo, gerar reflexões. Acho que o campo que se diz progressista no Brasil muitas vezes atrapalha na discussão com certas figuras da sociedade civil. A gente tem de conversar. Conversar com os livros ,com os documentários, mas na rua, no bar. Se a gente quiser se entender como país, têm de ser por meio de uma conversa mais ampla. Nessa guerra que a gente vive, nessa espécie de FlaxFlu, quem tem as armas é a galera conservadora. Esse pessoal é muito mais perigoso, é perigoso brigar com essas pessoas. Acho que tem muita gente que tá apoiando certas figuras e que poderiam não estar apoiando se a gente conseguisse conversar e se a gente conseguisse também respeitá-las, essas pessoas, como seres pensantes, respeitar a possibilidade das pessoas entenderem o que está acontecendo. Acho que tem muitos políticos que se dizem progressistas e que tentam mentir pro eleitorado. Isso não dá certo, temos de tratar as pessoas como indivíduos, como cidadãos e ter uma conversa franca. Acho que meus livros, e essa série, e vários trabalhos que fiz, são tentativas de conversar sobre isso. Não estou sozinho, tem uma galera muito interessante e potente fazendo isso também. Essa é nossa saída para conseguir abrir um debate sobre como a gente tá se matando como potência. Se o Brasil abraçasse o próprio Brasil, a gente teria um potencial de ser um país realmente muito forte, pensando mundialmente. Se a gente abraçasse nossa própria cultura, tecnologia, nossa maneira de fazer as coisas, teria muito potencial. Mas está muito longe ainda, quem toma as decisões ainda é um grupo muito restrito da população. Então é isso. Acho que o momento é complexo, é positivo quando se olha para um lado, negativo pelo outro, mas a disputa está em aberto e a gente tá lutando.