
Você pode ter visto o Matuê falando por aí sobre maconha, mas hoje é diferente. Hoje o Matuê sai da estufa de peito aberto, contando, por exemplo, que tem vontade de ter uma marca de sementes com strains variadas, e que tá só esperando para entender o rumo da regulamentação da planta no Brasil para decidir no que empreender.
O artista nunca cultivou seu próprio fumo porque tem um paladar, digamos, exigente, e por isso virou sommelier dos amigos growers que o presenteiam em troca de feedbacks do cantor. Maconha nunca falta pro Matuê, porque além da produção que recebe de presente dos amigos fazendeiros, é de lei ganhar ganja dos fãs – vários deles, por sinal, muito talentosos na arte de cultivar.
Matuê, que já fumou muito prensado na vida, hoje só topa flor e espera que no futuro ninguém mais precise conhecer a maconha pelo prensado. Nesse papo com Anita Krepp, da Breeza, Matuê fala sobre arte, comportamento e compartilha com a gente a sua brisa mais recente: bolar baseado sem piteira, numa seda branca, bem roots mesmo, que faz ele se sentir um rastafari.
O que te fez escrachar o uso da maconha? Como foi que você tomou essa decisão de falar abertamente sobre o uso recreativo que faz da erva?
Cresci meio que colocando a maconha dentro da mesma caixa com várias outras drogas muito mais pesadas. E aí, eu sempre fui o moleque mais focado nos esportes, me conectei com a ganja cedo, mas eu não cheguei a ser um usuário cedo. Comecei a fumar mesmo quando fiquei mais velho e já tinha um entendimento melhor sobre as coisas, que foi justamente quando entendi que tinha sido enganado e que, durante aquela época eu assisti vários documentários sobre a ganja, documentários focados mais em questões sociais ou questões científicas. Lembro que eu assisti um documentário de um mano que era um comediante, chamava Super Size Me, que o mano ficava trinta dias fumando, trinta dias sem fumar, e aí ele fazia os exames médicos, ele acompanhava o humor dele, se o stand-up dele era mais ou menos engraçado, um bagulho assim, então a minha mente foi abrindo nesse sentido. Eu nunca gostei de ver uma coisa sendo tão estigmatizada, só que não era nada daquilo, tá ligado? Eu não tinha uma pretensão de falar pra mudar isso nem nada, mas eu achava isso tão zoado que foi uma coisa natural eu querer escrachar e mostrar isso, porque eu falava “pô, velho, eu me sinto melhor fazendo uso da cannabis, isso vem de uma forma positiva na minha vida, e todo mundo fala que é algo negativo, então, porra, eu vou mostrar aqui que eu consigo ser a minha melhor forma, fumando umzinho, e que não faz mal”, acho que talvez tenha sido por isso.
“Vou mostrar aqui que eu consigo ser a minha melhor forma, fumando umzinho, e que não faz mal”
Você nunca teve medo de perder oportunidades de publicidade, por exemplo, por ser conhecido como maconheiro?
Quando eu comecei, só pra te dar um contexto, comecei fazendo trap, e na época que eu comecei esse som era um cenário totalmente diferente, a gente tava no ano lírico, então eu tava fazendo uma coisa mais pra me expressar mesmo, pra botar a minha criatividade pra fora, do que imaginando que talvez um dia eu teria oportunidade de publicidade, alguma coisa do tipo. A coisa foi ficando séria depois e eu comecei a levar realmente aquilo a sério e a visar isso de uma forma mais profissional, mas acho que inicialmente eu só queria me expressar mesmo, através do som, da criatividade.
Não tinha ainda um pensamento comercial?
É, eu não tava muito visando isso. Acho que isso aí também é um contraponto interessante porque, realmente, logo depois eu enxerguei várias oportunidades dentro daquilo que eu tava fazendo e fui levando pro lado bem profissional mesmo, tentando realmente melhorar, profissionalizar, fazer a coisa com excelência mesmo, mas sem deixar de ser autêntico, sem deixar de ser eu, e como sempre fui um grande maconheiro, falei “assim, ah, velho, eu não vou esconder nem nada do tipo, eu vou mostrar que é possível ter um relacionamento positivo com a erva, é possível ter um relacionamento saudável com a maconha”.
E aí, pelo que vejo, essa associação da sua figura à maconha, na verdade, tem te trazido ganhos, né? Porque desde então você já fez publicidade pra Bic, não sei se fez pra outras marcas de cannabis, mas como é que tá isso? Você vem sendo muito procurado pelas empresas de cannabis?
Como eu me tornei uma figura que dificilmente eles conseguem ignorar, assim, na internet, na música e tal, eu consigo introduzir essas ideias que são cannabis friendly, tá entendendo? Então, comecei fazendo publicidade que não tinha nada a ver com a cannabis, as minhas primeiras publicidades eram coisas relacionadas a outras áreas, e à medida que a gente foi abrindo nesse ramo e meio que se provando “ah, o cara consegue vender o produto bem, o público dele adere às coisas que ele consome, que ele fala, e ele também não costuma nos vender besteira”, eu não fica vendendo golpe nem nada do tipo, entendeu? Eu acho que as marcas entendem que a gente tem essa credibilidade com o público e que o público canábico, jovem, é também muito vasto, então existe toda uma indústria e personalidades que representam esse nicho, essa cena, e à medida que a questão legal da coisa se abre mais e a questão social também se torna um pouquinho menos tabu, eu sinto que essas marcas abrem um pouco mais a mente em relação a pessoas como eu. E aí, no caso da Bic, eu gosto sempre de dar ideias e na primeira oportunidade de falar, de fazer uma propaganda de isqueiro, a gente já trouxe essas ideias fazendo esses trocadilhos, fazendo as menções, coisas que são do nosso universo da cannabis. A galera vê e fala assim “caraca, da hora”, é bom entender essas piadas internas pra quem realmente fuma um e tal, então acho mó vibe.
A gente vê muita celebridade lá fora, inclusive investindo e empreendendo em cannabis, como o próprio Snoop Dogg, Mike Tyson e tal. Você pensa em montar uma marca sua de cannabis?
Bom, eu acho que primeiro quero ver que modelos de legalização a gente vai ter aqui no país, eu tenho minha previsão de legalização, eu sou um cara otimista em relação à minha previsão. Eu acho que o modelo vai contar muito pra ver se eu montaria uma genética ou então se eu iria mais no ramo de produtos e vender coisas que são relacionadas a cannabis.
O que te atrai mais?
Eu acho que o que me atrai mais seria fazer uma plantinha mesmo, sabe? E ter a minha marca lá, tipo Gorila Roxo, Temaki do Tuê, OG do Tuê, tá ligado? Umas coisas assim eu acho que me atrairia. Sou fascinado, amante do universo canábico, então eu tô cada vez mais participando desse meio de uma forma despretensiosa mesmo, não tô nem visando tanto essa questão do que vai ser, ou de se legalizar, se vai montar uma marca, eu quero mais fazer parte de espalhar, ser meio que um intermediário, um veículo, já que eu tenho um público muito grande. Eu gosto de conectar, por exemplo, uma pessoa que entende mais do que eu, talvez, sobre a parte científica, a parte social, e aí meio que colocar o holofote nessa pessoa, eu acho que essa é a minha função dentro da história, no momento, tá ligado? Mas quem sabe no futuro venha mais coisa?
“Eu acho que o que me atrai mais seria fazer uma plantinha mesmo, sabe? E ter a minha marca lá, tipo Gorila Roxo, Temaki do Tuê, OG do Tuê, tá ligado?“
Como é que você define a sua relação com a cannabis hoje? Você fuma todos os dias?
Acho que isso muda muito, eu tenho fases onde eu dou uma diminuída, se eu preciso focar um pouquinho mais no trampo, se eu tô tendo muitas demandas que preciso realmente tá com outro tipo de pensar.. tem uma época que eu tô mais dentro do estúdio e trabalhando mais com a criatividade, tô trabalhando mais, enfim, com coisas da música, coisas da arte, desenvolvimento de conceito e tal, e acabo fumando mais, então acho que isso varia muito. Eu também sou um cara que apoio a ideia de que nada pode me controlar, se eu sinto que alguma coisa tá controlando a minha vida, ou que eu preciso parar pra fumar, eu preciso fazer isso pra não sei o que, eu já começo a meio que me policiar. Sinto que a minha relação é a que eu preciso mandar na ela, não ela mandar em mim, mas no geral eu diria que eu fumo diariamente, e aí a quantidade, que nem eu falei, varia muito mesmo, depende realmente do que eu vou tá fazendo, mas pelo menos umzinho por dia eu tô ali fumando.
“Se eu sinto que alguma coisa tá controlando a minha vida, ou que eu preciso parar pra fumar, eu preciso fazer isso pra não sei o que, eu já começo a meio que me policiar“
E você tem strains pra cada coisa? Tipo, essa daqui eu uso pra relaxar, essa daqui eu uso pra ficar mais criativo, dar risada… você tem isso?
Como a gente não tem a possibilidade de escolher e de entender exatamente qual é a genética, hoje em dia tem muita coisa que é híbrida, a maioria das coisas são híbridas, das ervas, das genéticas e tudo mais, eu não tenho mais esse lance de “ah, eu fumo isso aqui pra fazer isso aqui, ou essa aqui pra aquela ali”, eu sou um cara mais de gosto, de sabor. Então eu sou um cara que eu gosto de doces e cítricos, mas, por exemplo, uma strain que tem uma 24k, uma tange, é uma coisa que eu vou fumar. Um em cada três baseados é tange, as outras duas eu prefiro uma cookies ou então um girls scuts, alguma coisa menos cítrica. Eu diria que as tange são mais uma sobremesa pra mim, enquanto que as cookies e as girl scouts, são mais a minha ração do dia a dia mesmo (risos).
Você tá já cultivando?
É, essa é a única área do assunto cannabis que eu sou bem iniciante mesmo. Eu nunca cultivei, até hoje ainda não tive essa experiência, eu acho que passou da minha época de cultivar, porque hoje eu tenho um paladar um pouco exigente, então, imagina, se eu fosse plantar e aí eu não curtir, eu ia fazer o que com a ganja? Provavelmente ia dar pros meus camaradas, mas eu não ia sentir aquele tesão por fazer a coisa, então eu prefiro passar meu feedback pros growers e fazendeiros chapas, os meus parceiros e tal, que eles sempre me usam como um sommelier (risos). “E aí, o que que tu achou dessa aqui, me dá uma nota, me fala o que que tu sentiu, a onda foi boa, o sabor tá pegando, tá dando muita tosse, como é que tá ali a cinza, se tá branquinha e tal?”, a gente vai analisando essas coisas e passando o feedback pros camaradas.
E eu imagino que você deve receber um monte de maconha no palco. A galera sabendo que você é maconheiro e te dá de presente?
Acontece bastante, eu não vou mentir não (risos), e muitas vezes surpreende, eu diria, em muitos casos surpreende. Tem uma galera que tem poucas plantinhas, mas faz com muito carinho, e às vezes chega uma coisa que você fuma e fala “caraca, legal, hein, bem interessante, bem diferente”.
Uma vez você falou que prensado não é maconha… polêmico, né?
É, eu entendo que o prensado faz parte do momento financeiro de cada um, eu já passei pela fase de fumar prensado pra caramba também, uma boa fase ali antes de poder conhecer outras coisas melhores, mas é difícil falar desse assunto, eu não sei se eu tenho uma solução pra dizer… pelo menos dá uma lavada no prensado. Eu acho que isso é válido, dá uma lavada ali, tira as paradas ou tenta fazer uma plantinha ou duas, porque o prensado já é aquela coisa que, porra, já sofreu tantas adulterações, a planta já apanhou tanto, já liberou tanta amônia, já foi guardado no mofo e porra, é totalmente contra o que a gente tá tentando fazer pro futuro, que é trazer a planta como uma saúde, como um benefício, eu acho que é mais por isso que eu falei, mas não é que a gente despreze o prensado, porque querendo ou não é o nosso início, infelizmente, mas a ideia é que pras próximas gerações, se Deus quiser, ninguém vai precisar conhecer a maconha através do prensado.
“Não é que a gente despreze o prensado, porque querendo ou não é o nosso início, infelizmente, mas a ideia é que pras próximas gerações, se Deus quiser, ninguém vai precisar conhecer a maconha através do prensado“
Você já chegou a dar um break, ficar um mês sem fumar?
Eu não lembro quando eu fiquei mais do que um mês, talvez eu tenha ficado duas semanas ou três, alguma coisa assim, durante a Covid, até porque eu não tava sentindo o gosto da planta, então fumava e não sentia gosto, não sentia nada, nem onda dava… aí, que eu me lembre, essa foi a última vez, mas que nem eu falei, às vezes eu dou uma reduzida boa, deixo pra fumar só a noite, só na hora de dormir mesmo, vou e fumo o último baseado, mas normalmente eu tô fumando bem, não vou mentir (risos).
Desde o ano passado você é autorizado pela Anvisa a fazer uso da cannabis de forma medicinal. Como tem sido durante esse tempo?
Eu acho que a maior diferença é que eu consegui provar que eu sou um usuário medicinal, e isso deveria ser normal pra todo mundo que precisa, poder tomar a planta, poder consumir a erva de forma medicinal sem precisar incomodar ninguém, ainda mais se for numa situação privada. Eu tô falando aqui bem livremente, então, mais uma vez, deixando claro que pode ser que a minha opinião não seja fundada na ciência, ou enfim, alguma coisa do tipo, eu tô falando do que acho da minha experiência, mas acredito que se você se automedicar, ainda mais quando o assunto é erva, na minha experiência, na minha situação, funciona, entendeu?, além do óleo ou seja lá o que for que você possa fazer. Na verdade, fumar um beck é uma das coisas mais terapêuticas, mais medicinais que eu faço no meu dia a dia, então, é meio que essa a minha visão, só queria estar resguardado na hora de fumar um beck. Acho que é o que muita gente quer, sem hipocrisia nenhuma.
Por que você topou entrar no documentário do Domingos Meira e do Luiz Navarro, o Ver(de) Perto?
Eu topei o convite porque eu queria ser um veículo, uma voz, ou melhor, um veículo para outras vozes que sabem mais que eu de poder comunicar informações sobre a cannabis e desmistificar um pouco mais a questão da erva. Acho que quanto mais a gente faz isso, mais a gente quebra esses tabus, esses preconceitos, e traz a erva para um debate de legalização, de regulamentação, onde a gente pode regulamentar a qualidade, o acesso, enfim, tornar isso uma indústria, gerar impostos em cima disso. Isso aí é que é da hora, é esse tipo de pauta que eu tô tentando levantar.
Conta pra gente uma brisa sua, já que você deve ter várias (risos).
Nossa, tem várias, é até difícil de escolher uma (risos). Ultimamente eu tô numa brisa de fumar essa seda aqui que um chapa meu trouxe da Jamaica, chama Lion Pride.
O que que ela tem de especial?
Não é nada, assim, eu não sei se é algo especial, pra te falar a real… ó, eu sou um cara que só fuma brown, costumo fumar brown com piteira, piteira de vidro e tal, mas volta e meia eu bolo um baseado sem piteira numa seda branca, da forma mais rude possível, sem piteira mesmo, assim, um tarugo máximo e eu me sinto tipo um Rastafari mesmo, fumando um bag (risos). Isso é uma brisa recente, assim, que tem rolado ultimamente.
Você falou de voltar pra raiz, essa coisa do papel, da coisa mais roots possível… você entrou nessa onda de fumar extração e vaporizar?
Eu vivi uma fase legal de extrações, de Puff Co, Dab Rig, esse tipo de coisa, eu tive uma fase legal que eu tava curtindo isso, mas assim, foi mais pelo lance da novidade. Como era tudo muito novidade, queria conhecer, queria entender se o sabor era diferente, se a onda era diferente. Foi mais pra entender mesmo qual que era do rolê. Hoje em dia eu sou bem devagar nesse assunto, porque aqui dá uma extrapolada. Prefiro fumar um baseadinho, no máximo, com haxixe, planta com haxixe, porque eu não fumo tabaco, eu sou um cara 100% ganja. Às vezes eu misturo a ganjinha ali com haxixe, mas no máximo. Mas a maioria mesmo é só beck puro.
E você chega a fazer viagens com o objetivo de explorar a cannabis do lugar, ou você só vai onde você tá com o show e aí já aproveita o ensejo?
Então, eu tive sorte ali, porque várias vezes a gente vai fazer show, aí vai pra Barcelona, ou então a gente fez show em Amsterdã este ano. Nessa mesma ida pra lá, por coincidência, eu fui pra Berlim no primeiro dia que eles legalizaram lá, no dia 1º de abril. Eu tava lá no primeiro dia, então, por coincidência, acaba que eu vou. Eu não cheguei ainda a fazer uma viagem canábica mesmo. Mas, dos lugares que eu já visitei, que eu achei interessante, e foram experiências diferentes, já fui em Cristiania, em Copenhague, uns 10 anos atrás. Eu fui já em Barcelona, já fui em Amsterdã, e já fui em alguns lugares dos Estados Unidos. Também vi que realmente é bem diferente, cada um tem o seu modelo de legalização, a sua forma de cultivo, as próprias plantas e extrações são bem diferentes, cada um tem uma pegada diferente, e acho que o modelo também interfere muito na experiência. Por exemplo, em Amsterdã, você vai na rua e tem um monte de coffee shop, você fuma mais tranquilo. Nos Estados Unidos, você entra no dispensário, compra, não tem um lugar onde fumar, você tem que ir pra sua casa, pra um ambiente privado pra fumar. Em Barcelona, você pode fumar no local, e lá tem comida. Então cada lugar tem a sua experiência diferente, eu ainda tô vendo qual eu acho a melhor, tenho que voltar algumas vezes ainda (risos).
Pois é, você falou disso lá no começo, mas não chegou a desenvolver a ideia. Qual é a sua legalização ideal?
Ah, eu acho que o fundamental seria o autocultivo, essa é a primeira parte da legalização, porque eu acho que isso traz acessibilidade pra todos que querem a medicina, traz um lance mais sustentável também, que a gente não precisa ter um espaço muito grande. O que cada um pode fazer no seu ambiente, posso estar falando besteira aqui, mas eu acho que naquele tom sustentável também é um ponto positivo. Seria legal, na minha opinião, um modelo talvez parecido com o Barcelona, dos clubes, que é uma coisa que é possível e controlável, regulamentável. Essa seria a minha sugestão, mas talvez tenha um modelo pro Brasil que não seja um modelo de outro lugar, que seja o nosso modelo e mais adequado pra nossa realidade, de repente a gente possa pensar um pouco nisso.