Na Breeza

Na ficção e na realidade

Como o ator Luís Navarro venceu preconceitos, mergulhou na maconha, protagonizou uma série centrada no tema e agora investe em voos artísticos e canábicos, como num documentário e numa peça teatral
27|06|24

Após a legalização, como fica para os traficantes, em especial para aqueles que vendem o prensadinho nas biqueiras? Nos EUA, onde é liberado em quase todos os cantos, começaram a vir respostas. Muitos dos que migraram para o cultivo legalizado passaram a lucrar menos, só que agora sem risco de prisão; outros continuam a cultivar na ilegalidade, alimentando um mercado paralelo para quem prefere os caseiros aos industriais. No Brasil, até agora só é possível fazer um exercício de imaginação, como realizou a série “Pico da Neblina”, sucesso brasileiro do canal gringo HBO.

Na história fictícia, mas de tempero bem nacional, daquelas que só poderiam se passar mesmo em nosso país, o traficante Biriba, interpretado por Luís Navarro, se vira nos trinta para se adaptar a um novo contexto. Nesse Brasil da TV, a Câmara aprovou a legalização da maconha.

Irônico diante da realidade pra valer, na qual o STF deu passos diante do progresso nesta semana, enquanto deputados e senadores insistem em posições retrógradas, persecutórias, proibitivas e que na prática alimentam uma Guerra às Drogas que só serve a interesses de criminosos e de uma elite repleta de preconceitos.

Antes de começar a série, lançada em 2019 e que teve duas temporadas, Navarro tinha quase nenhum contato com a erva. Sua trajetória de transformação, colocando-o hoje em um lugar no qual sua figura é cada vez mais associada à cultura canábica, é exemplar de um Brasil que também se transforma e que, esperamos, possa ter um futuro de progresso.

ANTES DO PICO

“Dentro de casa era abominado qualquer uso de drogas”, lembra Navarro sobre sua criação. Por desde jovem ter seguido o caminho de artista, porém, conta que logo se viu em meio a rodas de maconha. A primeira vez que experimentou foi na Serra da Bocaina, um paradisíaco parque nacional na divisa dos estados do Rio com São Paulo.

O ambiente era ideal, ele conta que estava com amigos e “cheio de gatinhas”. Recorda, porém, de ter achado “zoada” a experiência de fumar. Era um prensado que, segundo tira da memória, tinha um gosto de “cocô de cavalo”. “Nem senti nada, nem sabia tragar”.

A relação com a maconha só começou a mudar quando soube que procuravam por um ator para interpretar um traficante em uma série da HBO. Já na preparação para o papel, Navarro passou a se interessar mais pelo assunto, conversando com amigos que fumavam. Após ser aprovado, mergulhou de vez nos estudos para assumir a pele do Biriba.

EXPERIMENTAÇÕES

Navarro fez o que nas artes cênicas se chama de laboratório. Ou seja, foi atrás de referências da vida real para montar seu Biriba.

Primeiro, voltou às suas origens no Cohab 1, conjunto habitacional em Artur Alvim, a Zona Leste de São Paulo. Ele sabia que um sobrinho, que então tinha 17 anos, fumava um e resolveu abordá-lo. “Ele fumava desde os 13, nossos parentes não sabiam. Sabia das gírias, me levou nas biqueiras, colocou na roda pra fumar. Me ajudou a entender mais da percepção real”. Antes dos rolês com o sobrinho, Navarro conta que nem sabia como encontrar uma biqueira, muito menos como se comportar dentro de uma. “Achava que ia entrar e já ter tiro”, comenta, de forma propositalmente exagerada.

O ator também visitou traficantes e cultivadores. “O Instagram me ajudou a ter contato com uma galera que plantava”. Viajou ao Uruguai para observar como era o cenário em um contexto de pós-legalização e assim “imaginar a distopia do Pico da Neblina”.

Apesar da maconha pra valer não ser usada nas filmagens, nos bastidores da série o fumo rolava solto, a maioria da equipe era entusiasta. Em um clima contagiante e agradável, segundo ele mesmo relata na entrevista à Breeza, teve contato mais constante com a flor. Obviamente, a experiência foi totalmente diferente da que teve no passado com os prensadinhos.

“Sei o valor que o prensado tem para quem não tem acesso ou não pode comprar a flor”, opina. Para ele, não existe uso chamado de recreativo. “O cara da quebrada que sofre o dia inteiro lavando carro e depois fuma um baseado na laje lá na favela, tá usando como terapia. Sempre é terapêutico porque a cannabis é terapêutica”.

Ao mesmo tempo, defende o quanto seria melhor se ninguém precisasse fumar do prensado e todos tivessem acesso facilitado à flor. “Muito especial esse contato real com a planta. É um remédio e é agradável. Me permitiu ficar concentrado no trabalho e com uma relação mais aberta, feliz em casa. Trabalhava doze horas e chegava com ânimo para brincar com a filha”. Navarro defende que fumar um do bom ajuda as pessoas a verem o mundo de forma mais humanizada.

Tornou-se um experimentador. Tem contato com o fumo, com óleos… “apresentei à minha esposa o lubrificante de CBD,  uso óleos (de cannabis) para massagem, trouxe uma vez várias coisas interessantes da Europa”. Também consultou uma série de médicos e hoje em dia toma CBD com receita.

Sua visão sobre a maconha na juventude nasceu em preconceitos que lhe colocavam na cabeça. De achar “zoado” fumar um, Navarro se tornou um fascinado pela erva e pelo assunto. “Eu era um robô do sistema, mas ao encarar a realidade, mudei. Faltam informações para as pessoas superarem seus preconceitos”. 

NO CALDO DA CANNABIS

O Biriba fez com que a imagem de Navarro passasse a ser associada ao tema. Ele diz defender a causa, mas sem ficar “pregando no trabalho”. Pode até não pregar, mas que tem levantado a bandeira e apostado nesse caminho, é certo.

Está nos planos a produção de um documentário, que por ora apresenta com o nome de “Ver de Perto” (sacou o jogo de palavras?), no qual a proposta é percorrer o mundo em busca de experiências e vivências exemplares em torno da erva. Navarro bancou parte da produção com o próprio bolso, conseguiu um patrocinador e está atrás de outros.

Por enquanto, gravou duas cenas, uma durante a Marcha da Maconha de SP, outra em uma copa do Secret Labs, também em São Paulo. Para março do ano que vem, ele programa realizar filmagens na Europa, já com alguns planos de entrevistas na Espanha.

Outro projeto canábico que está sob sua batuta é o da adaptação teatral do quadrinhos “Diamba, Histórias do Proibicionismo no Brasil”, de Daniel Paiva, que deve virar um monólogo protagonizado por Navarro. Após as apresentações programadas para terem início ainda antes do fim deste ano, está nos planos levar um médico para responder perguntas da plateia e eventualmente até agendar consultas e/ou receitar o uso da cannabis.

“Nos EUA tem um movimento atual e forte de artistas, atletas, atores que passaram a ser muito diretos sobre suas próprias relações com a planta”. Navarro é um dos protagonistas de uma onda nascente de pessoas, ilustres e famosas ou não, que estão cada vez mais dispostas a sair da estufa e a exigir seus direitos. Um movimento de progresso amparado pela lei e que só será parado caso nosso país queira dar muitos e muitos passos para trás no processo civilizatório.