Na Breeza

O precursor da Marcha

O historiador Henrique Carneiro, especialista na historiografia das drogas, lembra de quando foi detido com dezenas de colegas por se manifestar pela legalização. Em 1986, numa ação que virou semente pras marchas que hoje tomam avenidas
30|05|24
Os detidos por se manifestar a favor da legalização em 1986, em imagem reproduzida do Diário Popular

“Ato pela descriminalização da maconha acaba em detentos”. A manchete pode até parecer atual, mas vem de 31 de outubro de 1986. O Diário Popular, jornal de São Paulo, era um dos que espalharam a notícia de que cinquenta pessoas, na maioria universitários, haviam sido detidas pela divisão de entorpecentes da polícia civil de SP. O “crime”? Terem se manifestado pela legalização da erva em um ato na Praça Ramos de Azevedo, no centro da capital paulista.

“Nos agarraram, tiveram conflitos”, recorda o historiador Henrique Carneiro, professor da USP, em conversa com a Breeza. Então com 26 anos e candidato a deputado federal pelo PT, ele foi um dos organizadores da manifestação de 86. Os atos públicos pela legalização tiveram início em 15 de maio daquele ano, em um debate na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da mesma USP. Após a data, foram planejadas ações ao redor do país.

Antes mesmo de abrirem os cartazes, os cinquenta jovens da Praça Ramos de Azevedo foram abordados e levados para a delegacia em duas levas. Ao menos uma das universitárias presentes foi agredida ao ponto de ter exibido hematomas. “Tinha policial que era truculento, mas houve também um que chegou e me disse ‘Por que estão fazendo escândalo? Eu fumo também, não precisa de escândalo, o que querem com isso?'”, lembra Carneiro, ao descrever uma cena que vira um daqueles típicos retratos da hipocrisia da nossa sociedade.

Vai parecer ficção quando souber quem era o delegado responsável pela repressão em 86: Paulo Sergio Fleury. Aos que lembram das aulas de História, o sobrenome salta aos olhos e gera repulsa, ânsia de vômito. Pois ele é filho do Delegado Fleury, um dos maiores trastes que já nasceram em nosso país, torturador e acusado de múltiplos homicídios, foi o chefe do Dops, o centro das atrocidades cometidas pela ditadura militar, símbolo da repressão, da violência urbana e dos esquadrões da morte.

(Vale uma pausa para contar: Anos depois de atacar a manifestação de 86, aí em 2010, Paulo Sergio Fleury foi demitido de suas funções após ser condenado a seis anos de prisão [cumpridos em liberdade, num privilégio que não seria dado a uma pessoa preta presa com algumas gramas no bolso, né?] por crime de peculato, acusado de desviar materiais apreendidos no setor que então dirigia, responsável pelo combate à pirataria. Ou seja, trata-se de um sobrenome na latrina da História.)

Em 86, porém, a ditadura à qual serviu a família Fleury na prática não dava mais as cartas do jogo. Os manifestantes da Praça Ramos de Azevedo não tinham só resiliência e coragem, como estavam amparados.

Naquele mesmo dia, para se ter ideia, o plano envolvia rumar para a escadaria do Theatro Municipal e ler uma carta de apoio assinada por nomes como o dramaturgo Zé Celso, Florestan Fernandes (patriarca da sociologia brasileira), João Batista Breda (psiquiatra, militante de peso pela defesa dos Direitos Humanos e deputado estadual) e mais uma penca de famosos, políticos, advogados e médicos. Assim, os detidos logo foram liberados, tirando o manifestando que foi pego com o flagrante de um fininho.

“Antes de ir embora, os policiais me levaram para uma sala que chamavam de algo como Museu da Droga. Lá eles tinham materiais apreendidos com famosos, tipo uma caixinha na qual a Rita Lee guardava os seus”, nos conta Carneiro. 

ATO PIONEIRO

A manifestação de 86 é precursora da célebre Marcha da Maconha, cuja última caminhada se deu em 16 de junho em SP. Na Breeza desta semana, confira também um ensaio fotográfico feito pela talentosíssima Cabra no meio da ação. E na edição anterior, trouxemos depoimentos de figuras-chaves para a criação e consagração da Marcha.

O historiador Henrique Carneiro, após ser detido em 86, não desistiu da bandeira. Pelo contrário, pode-se afirmar que mais do que dobrou suas apostas. “Continuamos a fazer ações, chegamos a ser quase detidos outras vezes”, recorda. Ele não foi eleito deputado, mas viveu na militância. Esteve envolvido com a (digamos que a “oficial”) Marcha da Maconha desde o primeiro evento, em 2007.

Com a palavra, o pioneiro Carneiro: “A Marcha tem não só crescido, como adquirido uma natureza muito participativa da periferia jovem. Ela se tornou não só um ato festivo e político, como de desobediência civil. As pessoas vão para fazer um ato formalmente proibido, que é fumar seu baseado, e que lá é realizado em condições coletivas, celebrativas, extremamente pacíficas e de forma a desafiar na prática a proibição como forma de mostrar que existem milhões de pessoas que consomem essa planta de maneira totalmente integrativa e saudável”.

O HIPPIE-HISTORIADOR

Carneiro vem de uma adolescência hippie. “Viajei pela América Latina quando era jovem, mochilão em que passei por Bolívia, Peru, Colômbia, conheci a Amazônia”. Ele conta ter tido contato com o “impulso de uma grande variedade de culturas e de modelos de vida”‘. Como com movimentos de contracultura e psicodelia que apresentavam substâncias “alternativas à sociedade do tabaco”.

Naquela época, tinha uma atitude experimentalista diante das drogas. “Queria ter o conhecimento empírico, aceitei tudo que as oportunidades me ofereciam experimentar”. Enquanto afirma não ter se dado com álcool e criticar o tabaco (fumou por anos), é a favor da regulação e liberação de todas as substâncias do tipo e se diz ter ficado aficionado em três delas – chá preto, café, chocolate e maconha.

“Essas são de uso cotidiano, servem para modular nosso humor, nossa disposição diante da vida”. Sobre a ganja, acrescenta: “Uma das vantagens da cannabis é o efeito útil. Não precisa se fumar mais para se chegar a isso. Ela cumpre com o esperado. Para mim, é boa para refletir, como intensificador sensorial na experiência cotidiana”.

Para alguns, pode soar estranho, mas café, chocolate e chá também são drogas. Na vida acadêmica, além da atuação política e em movimentos estudantis, Henrique seguiu o gosto pelo tema ao perceber como não havia uma historiografia do assunto no Brasil.

Em seu livro “Drogas: A História do Proibicionismo“, escreve: “Somos todos drogados mas se define pouco explicitamente a natureza comum de se tomar remédios psicoativos, bebidas alcóolicas, tabaco, café e substâncias ilícitas, separados por cargas simbólicas altamente significativas decorrentes de seus diferentes regimes de normatização”.

Na obra, mostra como a proibição é uma ideia que se proliferou no final do século XIX, sendo que é ainda mais recente a proposta de classificar drogas, em particular plantas, como lícitas e ilícitas. Em uma separação que em nada tem respaldo científico ou médico, tratando-se de tática de repressão a grupos que usam as ervas “proibidas”, estimulando, do outro lado, o uso liberado das substâncias que são de domínio da cultura da classe dominante.

“A proibição é um elemento multifacetado, mas que, em análise, mostra índice de intolerância em relação ao outro, ao diferente”, afirma Carneiro. “Ao se pegar a história milenar, o cristianismo impõe restrições a infiéis e hereges, assim como os islâmicos. Os cristãos divinizam o álcool, sendo o vinho o sangue de Cristo, mas drogas como cannabis soam estranhas à sociedade. No islamismo, a bebida é condenada, enquanto se usa a maconha”. A transformação de hábitos de massas em crime é pretexto para usar o aparelho coercitivo e repressivo estatal como forma de perseguir e punir quem não aceita os mandos impostos pela elite.

Hoje, 38 anos depois do ato reprimido na Praça Ramos de Azevedo e aos 64 anos de idade, o historiador finalmente vê ares de mudanças. “A narrativa já mudou, o paradigma mudou, com Canadá e Estados Unidos legalizando, sendo uma das maiores indústrias emergentes, um boom econômico nas bolsas. Quem não estiver no barco vai continuar sendo ou se tornará um país dependente, sem soberania e destinado a sempre importar insumos essenciais”.

Filipe Vilicic