
Cercada por tantas figuras desprezíveis que ocupam o Congresso Nacional como se fosse uma extensão de suas casas e crenças, está Sâmia Bomfim e alguns outros gatos pingados que fazem da política uma ferramenta para promover o bem estar social.
Sua veia política saltou na época em que foi estudante da USP. Participou primeiro de movimentos estudantis para em 2016 ser eleita a mais jovem vereadora da cidade de São Paulo, aos 27 anos. Em 2018, trocou a atuação na esfera municipal para legislar no Congresso Nacional como deputada federal pelo PSOL, sendo ela a segunda mais votada do partido.
Ao passo em que uma boa parte dos eleitos para a Câmara e para o Senado legisla em causa própria, pela manutenção e ampliação de poder e influência, Sâmia defende temas conectados à realidade da maioria dos brasileiros. Como equidade de gênero, a proteção ao meio ambiente e, mais recentemente, também a revisão da atual e falida política de drogas. Essas são suas bandeiras.
Nesta conversa com Anita Krepp, jornalista da Breeza, Sâmia falou sobre como é ser uma das poucas parlamentares que abraçou a pauta da política de drogas, sobre a intersecção de pautas da esquerda, como drogas e aborto, e também sobre o medo que a esquerda tem de se posicionar em pautas polêmicas. E criticou também a composição do Congresso, que considera uma “distorção” da realidade brasileira, além de compartilhar como surgiu o seu interesse pela maconha… e como faz para dar conta de tudo isso sendo mãe (spoiler: ela não dá).
Você acha que é uma estratégia do Lira dar urgência ao PL que equipara aborto a homicídio pra tirar o foco sobre outras pautas? Por que é claro que essa pauta ia deixar todo mundo revoltado e sequestraria os demais debates…
O Lira tá muito preocupado com o sucessor dele pra presidência da Câmara. Ele faz campanha diretamente pro Elmar Nascimento, que é um dos seus principais aliados ali dentro, e ele vem articulando nos últimos meses com o PL pra que a bancada inteira, que infelizmente é a maior bancada da Câmara, possa fechar questão votando no Elmar Nascimento, e ele também quer disputar outros segmentos como a bancada evangélica, que tá além do próprio PL, porque há um candidato, Marcos Pereira, do Republicanos, que poderia ter o voto dos evangélicos. Tô dando esse panorama porque não é à toa que nos últimos meses a pauta da Câmara, principalmente, vem sendo de costumes, que é um termo que eu detesto, porque acho que são direitos individuais, são liberdades, questões de direitos humanos, de democracia, mas muitas vezes se convenciona a chamar de pauta de costumes para satisfazer a vontade política da extrema direita, e por sua vez a extrema direita quer pautar esses temas porque tem a ver com o DNA deles.
“Acho um grande erro a esquerda se abster de temas por ter medo da repercussão da sua posição“
Mas é porque eles querem que o cenário eleitoral brasileiro em outubro seja permeado também por pautas polêmicas para que eles digam “olha, tá vendo, o candidato X do PT, do PSOL, votou a favor do aborto, ou sicrano é maconheiro porque não foi contra a PEC das drogas”, então é um pouco por aí o cenário. Isso explica muita coisa, mas foi um tiro no pé imenso o PL 1904. Eles gostam muito de subestimar, não compreendem o que é o movimento feminista, não sacaram aquela onda da primavera feminista em 2015, não entendem o que é a força das ruas, e a pauta estourou. Da única parlamentar a falar disso na tribuna, passei a falar disso em todos os veículos de comunicação, não teve um que não falei. Não sei como consegui terminar o meu dia, e deu certo, vamos em frente, pra cima deles também.
E qual você acha que é a intersecção dessas pautas de costume? Daria pra esquerda formar um bloco mais coeso?
Eu acho que sim, eu acho que é o correto na verdade, porque tem tudo a ver com a mesma estratégia de criar pânico moral sobre temas que se forem mal explicados, e eles sabem fazer isso muito bem, geram pânico, geram medo, insegurança nas famílias e em momentos de crise, crise social, crise econômica, as pessoas se apegam mesmo ao que elas têm. Então eles vendem a ideia de “querem matar os bebês nas barrigas das mães, querem que nossos filhos todos morram ou sejam eternamente viciados em drogas”, e pra quem não tem condição de ter senso crítico, porque a vida é muito alienante, muito massacrante, isso pega e acho um grande erro a esquerda se abster de temas por ter medo da repercussão da sua posição, primeiro porque só aparece uma versão dos fatos, se a gente se abster de debater, o tema não vai morrer por inanição, vai ter gente que vai falar sobre ele com muita força e sem contraponto. Esse medo de não ter respaldo na sociedade, as respostas ao PL 1904 mostram o quanto isso é um grande engano. Se a gente tivesse na coxia, se ninguém tivesse gritado o que isso significa, eles teriam aprovado o mérito já nesta semana, então é a nossa força que tem feito o Lira dizer que vai votar só depois da eleição, que não é bem assim.
Mesmo partidos de esquerda, justamente, fingem não ver a pauta da política de drogas, mesmo o presidente… e eu fico pensando, como é que pode o presidente não se importar com uma questão nevrálgica do Brasil, que tá ali totalmente conectada ao sistema carcerário, então a pauta das drogas devia ser cara ao presidente porque movimentações nessa questão podem desopilar os presídios super lotados, além de mexer nas estruturas da sociedade…
Talvez, por um lado tenha, tô aqui pensando contigo, até por uma questão geracional, eu não sei o quanto essas pessoas que estão há mais tempo na atividade política estão permeadas pelo debate antiproibicionista. Sei que o presidente é cercado de bons e maus conselheiros e não sei se nesse staff ao redor dele tem um debate crítico e franco sobre a temática das drogas. E se tem, talvez seja um movimento de achar que não tem força para lidar com uma contracorrente que vai utilizar esse tema para desgastá-lo, ou seja, o medo, mesmo, de encarar de frente temas com tanta força. Uma terceira hipótese é que ele talvez não concorde com o nosso ponto de vista, de que é uma questão estrutural e estruturante, mas enquanto o tema não é debatido de frente ele nunca vai ser demovido, pensar que a questão das drogas no Brasil tem a ver com problema de segurança pública, com sistema carcerário, com aprofundamento do racismo, com o próprio crescimento da extrema direita, que lucra muito com as comunidades terapêuticas, que é o que a gente imagina que eles vão querer fazer com os usuários criminalizados por essa PEC 45, além de botar na cadeia, mas muito provavelmente internação compulsória, então acho uma falta muito estratégica em qualquer conjuntura. Ainda mais nessa, em que a gente tá lidando com uma extrema direita forte, organizada e cheia de dinheiro, acho que tem ainda mais centralidade.
“A questão das drogas no Brasil tem a ver com po próprio crescimento da extrema direita, que lucra muito com as comunidades terapêuticas, que é o que a gente imagina que eles vão querer fazer com os usuários criminalizados por essa PEC 45, além de botar na cadeia”
O que a gente pode fazer enquanto movimentos organizados, mas enquanto também sujeitos sociais, para trazer a importância disso para o presidente e para os partidos de esquerda?
Acho que a gente tem um calendário de mobilizações e de pautas que têm que avançar. Tem a Marcha da Maconha, que foi agora, em plena discussão da PEC 45, ao mesmo tempo em que o Supremo [Tribunal Federal] discute a descriminalização do uso individual do porte de drogas. De maconha, né, que na verdade foi afunilado. É não esmorecer de fazer um debate público, muitas vezes usar como estratégia o Judiciário, saber das limitações do Congresso Nacional, da correlação de forças, que é muito desfavorável. Acho que a gente tem que seguir, porque sempre vai existir uma fagulha, uma faisca que às vezes explode um tema, uma pauta, uma luta, e eu sempre gosto de apostar nessas fagulhas porque eu acho que elas nos levam a caminhos que fogem um pouco da rota do imobilismo, das estatísticas, sabe?
Essa briga entre STF e Congresso, como você vê isso? O STF tá extrapolando a barreira do que lhe cabe? De fato, a sociedade tem contado com o Judiciário para avançar em temas importantes e que vão contra a maioria da Câmara ou do Senado.
Eu não vejo o Supremo extrapolando as suas funções, eu acho que principalmente nos quatro anos de governo Bolsonaro, que ele cruzou muito as quatro linhas da Constituição, que tinha o objetivo claro de fechar o regime político do Brasil, acho na verdade que alguns atores do STF se movimentaram com mais nitidez, como o próprio Alexandre de Moraes, porque também se viram atacados, e de fato foram, tanto pessoalmente, politicamente, e queira ou não eles são parte desse regime político que a extrema direita queria destruir, botar na cadeia, invadir, como fizeram no 8 de janeiro. Eu mesma tenho a estratégia, através do partido, de recorrer ao Supremo justamente porque o Congresso Nacional e os legisladores exacerbam as suas funções, e porque se negam a travar debates que são fundamentais. Pra mim, sinceramente, tudo é instrumento. Não sou apegada a uma suposta legalidade que serve só para a manutenção do poder. Todas as armas são válidas, entendeu? Todos os caminhos são válidos se for pra gente sair desse mar de atraso, de retrocesso, de ataques aos nossos direitos fundamentais. Então eu não embarco nessa leitura de que extrapolam as funções. Eu acho que também é uma via, assim como o Congresso é uma via, assim como a luta em outras esferas da sociedade também são válidas.
Como é que você se sente lá no meio daquele Congresso, você faz algum tipo de limpeza energética quando sai de lá? (risos)
Tem dias e dias. Tem dias em que eu saio de lá e parece que passaram 35 caminhões em cima de mim, completamente sem energia, e eu falo “gente! que que eu tô fazendo com a minha vida? por que eu vou voltar lá? nada disso tem sentido”, mas tem dias em que eu saio de lá revigorada, mesmo nas derrotas. Pela intensidade como se deu a luta, pela forma como ela repercutiu, às vezes como uma intervenção pode ter feito diferença na articulação de algum movimento. Bom, tenho um filho de 3 anos, o Hugo, que é a minha fortaleza. E aí é isso, criança nos faz renascer, é uma coisa muito doida, você esquece tudo e vai brincar, vai montar Lego, vai pintar, brincar de massinha, vai cantar, isso é absolutamente terapêutico. Claro, também é exaustivo, não vou romantizar. Também é um trabalho desgastante, tem dia que eu peço desculpas para o meu filho porque eu não consigo estar a altura do que ele merece ou deseja naquele momento, mas isso me fortalece muito.
“Todos os caminhos são válidos se for pra gente sair desse mar de atraso, de retrocesso, de ataques aos nossos direitos fundamentais”
E tem um segundo aspecto que é saber que fora do Congresso Nacional existe movimento social, sociedade civil, que tá comigo, ou que eu tô com ela, ou que a gente se encontra numa série de pautas, que a gente não tá sozinho. Por que a eleição, a composição do Congresso é uma distorção da composição da sociedade, não acho que é um retrato fiel. Quem tem mais dinheiro, quem tem mais estrutura, tempo de TV, menos pudor ou família já na política, tem muito mais condição do que qualquer pessoa que venha de um movimento, então aquilo não é um retrato real, e é por isso também que é tão desigual, por isso tanto ruralista, tanta gente representante do fundamentalismo, porque precisa de muito dinheiro para estar ali dentro. Tem o fundo eleitoral, mas não só ele, contam com coisa que a gente nem imagina. Então isso também não me deixa esmorecer, saber que a realidade é muito maior que o Congresso Nacional.
O Congresso tá cheio de pessoas nefastas, então quando a gente vê uma pessoa sensata igual a você, a gente tende a virar fã. Como é o approach do povo? As pessoas te veem como um ídolo?
(risos) Tem muito disso e eu acho bonito, na verdade, o ego fica lá em cima porque é muito bom a pessoa te abraçar, dizer que gosta, confia, agradecer. Isso me acolhe, me fortalece, de verdade, porque você sai de uma semana horrível, você foi massacrada pessoalmente e na política também. Aí você vai pra rua e tem gente ali agradecendo, dizendo “meu voto valeu a pena”. Isso faz fazer sentido, faz valer a pena. Tem de tudo, ganho presente às vezes, mensagens na internet, tem gente que é mais discreto, me ajuda muito a seguir em frente.
Sâmia, você é um dos poucos parlamentares que abraçou a política de drogas e e eu fico muito impressionada que mais políticos ainda não tenham abraçado essa causa, porque no mundo inteiro a cannabis é uma pauta até pop, e no Brasil a gente tem você, Caio França, e mais uns dois ou três, no máximo. Como ainda não perceberam que essa causa também angaria votos?
Boa essa pergunta, porque de fato a turma acha que é um tema que faz perder voto. Talvez dependa de onde, da forma que essas pessoas buscam seus votos. Eu tenho um voto, sobretudo um voto de opinião, e voto de opinião é aquilo, vai e vem. Se a pessoa discorda de você, que é um direito dela, e não necessariamente ela tá contigo no dia seguinte. É um voto muito diferente daquele voto territorial, voto de liderança, a partir de uma relação mais material via prefeitura, que é boa parte dos votos que muita gente ganha, os políticos tradicionais. Então eu nunca perdi nada defendendo as minhas opiniões mais polêmicas, que sejam, ao contrário, acho que a política ganha porque você vai disputando ideologicamente, e de certa forma, eu também acabo ganhando porque cria mais conexão com o movimento. Mas acho que no limite é medo mesmo, medo de perder voto, medo de ser mal compreendido, medo disso ser usado contra. Eu não sei se é uma questão geracional ou se é de onde eu venho, porque eu também vim da universidade pública, ou seja, tem a ver com o perfil do eleitorado inicial ou da minha trajetória. Eu não tenho medo, também não teria como ser diferente. Por que me tornei primeiro vereadora e depois deputada? Eu era do movimento estudantil, depois do movimento feminista, esse foi o meu caminho. Eu não trairia o meu próprio caminho, eu não conseguiria, na verdade, ser diferente. Essa sou eu, não é uma invenção, essas são as minhas opiniões mesmo. Eu cresci, me tornei uma mulher adulta com esse pensamento sobre a vida, sobre o mundo, então pra mim não é um estranhamento. E as pessoas têm trajetórias muito diferentes. Talvez isso explique o receio, talvez por onde elas circulem o tema não seja bem quisto.
Como foi que nasceu o seu interesse pela maconha e pela política de drogas?
Eu já participava das marchas da maconha, mas eu acho que não tinha ainda uma profundidade no debate, tinha mais uma questão de liberdade individual, de não criminalizar o usuário, de cada um faz o que quer da sua vida, uma concepção até mais liberal da pauta, mas acho que fui me politizando no movimento, participando de debates, de palestras. Quando fui tentar entender o problema da segurança pública e a forma como a guerra às drogas, as facções e os verdadeiros barões do comércio ilegal de drogas se organizando no Brasil, achei um tema apaixonante! Achei que ele explica muito da estrutura brasileira nessas diferentes intersecções, e fui me envolvendo cada vez mais, vou buscando me informar mais sobre o tema e a gente sempre vai aprendendo mais, lendo para poder debater sobre a PEC 45, fui aprendendo um pouco mais. Tive contato mais recentemente com militantes da temática da saúde mental, foi aí que eu me deparei com as comunidades terapêuticas, pra mim é novo, tive mais contato nesse segundo mandato, isso também tem tudo a ver com o debate de criminalização das drogas, porque é um mercado lucrativo, né? Os donos das comunidades terapêuticas quererem também fazer internação compulsória de um usuário que eles veem como um criminoso. Um tema foi me puxando para o outro, sabe? Uma porta de entrada (risos) para entender a profundidade de como a política de drogas estrutura as desigualdades do Brasil, explica o problema da falta de segurança pública, do crime organizado e do poder real que tá também nos parlamentos, nos executivos e no Judiciário.
No seu programa você se diz a favor da legalização de todas as drogas. Você diferencia as drogas de alguma maneira no sentido da regulação delas?
Eu não tenho uma resposta pronta de como seria para cada tipo de substância. Mas quando eu falo de todas as drogas é porque claro, o debate da maconha já é um pouco mais consolidado, porque há exemplos mundiais, acho que ele é mais fácil de ser digerido, ainda que na sociedade brasileira tenha ainda uma onda conservadora significativa. Mas acho que droga tem que ser encarada como um problema de saude pública e algum tipo de regulamentação todas elas têm que ter. Porque quando tá na ilegalidade, o perigo de algumas substâncias que eu sei que não são boas para a saúde em nenhum nível de controle, mas a ilegalidade tende a agravar esse problema, então a regulamentação é sempre o adequado para que você tire duma hipocrisia de fingir que esse problema não existe. Por isso que eu falo de todas elas, porque hiperencarceramento é pior pra todo mundo, para a sociedade, para o usuário, para o mundo.
Qual você avalia que é o peso da pauta canábica hoje na política?
Acho que é central, sempre foi, só que de uma forma retórica, discursiva, e hoje ela é uma das principais pautas do Congresso Nacional. Mas é a pauta anticanábica. Agora, a pauta canábica no movimento antiproibicionista é uma minoria, isso que você falou é verdade, eu conto nos dedos de uma mão deputados federais ou senadores que falem disso, que não têm medo da palavra, do termo legalização. Nossa, quando eu falei, durante a discussão da CCJ sobre plantio caseiro, autocultivo, as pessoas ficaram “essa menina é totalmente louca”, mas, gente, é um tema que o mundo todo debate, implementado em diferentes locais. Por que isso assusta?
“A pauta canábica no movimento antiproibicionista é uma minoria, conto nos dedos de uma mão deputados federais ou senadores que falem disso, que não têm medo da palavra, do termo legalização”
E é isso, há regulações que já estão anos-luz à frente…
Têm modelos de regulamentação diferentes, dá pra você se inspirar, até do mais capitalista, liberal, comercial, até o mais humanizado.
Aliás, a maconha podia ser uma pauta da direita facilmente. A bandeira do ser livre pra fazer o que eu quiser com o próprio corpo, uma arrecadação importante, mas a direita ainda não entendeu isso…
Acho que no fundo tem gente ali que lucra também com a proibição, gente poderosa que prefere ter o monopólio do comércio mesmo que na ilegalidade, que sabe que o criminalizado não vai ser ele, que tem as costas quentíssimas, é poderosíssimo. Enquanto forem os outros os criminalizados vai seguir ali com a sua lucratividade. Isso também conta, existe o lobby daqueles que não querem a legalização porque ganham com a proibição, na prática. Desde a entrada da droga no Brasil, da circulação, aquele senador Jorge Seif, que é um dos nossos principais nomes do bolsonarismo, por dois anos seguidos encontraram, um ano haxixe nos caminhões da empresa dele de transporte e, no ano seguinte, no depósito da empresa dele. O tio da Damares, também encontraram na fazenda. O ex-senador Zezé Perrella, o helicóptero que pousou na fazenda dele tava cheinho de cocaína, e esses são os nomes que a gente conhece porque eles erraram em algum momento o esquema deles. “Imagina a quantidade de gente que tem podres poderes e costas quentes e que está envolvida com o tráfico? Acho que isso também explica o não interesse em legalizar, porque tem uns aí que estão ganhando dinheiro.
“A composição do Congresso é uma distorção da composição da sociedade”
Como a questão das drogas é vista pelo PSOL?
É uma questão que tá no nosso programa partidário, não sei se desde sempre, mas desde já há um bom tempo, a defesa da legalização da maconha, acho que não de todas as drogas. E tem muitos militantes antiproibicionistas e alguns parlamentares que pautam isso nos seus mandatos. Não diria que é a questão central que organiza o partido, mas que há representantes importantes, citaria por exemplo o Marquito, que é de Santa Catarina, uma figura referência no tema que pauta isso muito bem, o deputado Henrique Vieira, que também ajuda muito na construção da luta antimanicominal e da luta antiproibicionista, ele encara bem esses debates.
Como é a sua relação com a maconha?
Eu não uso maconha, é a parte mais engraçada da historia toda (risos). Não uso, não sou usuária, conheci na universidade, fiz uso por um tempo, mas não faz parte do meu dia a dia. Engraçado, as únicas drogas que eu uso é açúcar, café e álcool, de vez em quando, numa relação de beber socialmente, e uma vez na vida tomar um porre quando a coisa tá muito brutal. Engraçado quando me chamam de maconheira, eu falo “gente, muito obrigada, talvez devesse ser, pra eu dar uma relaxada” (risos). Mas tenho amigos, colegas, sei de gente que usa (risos).
Como é que você dá conta de ser mãe, esposa, dona de casa e ainda trabalhar em prol da sociedade?
Eu te diria que eu não dou conta (risos). Sempre fica alguma coisa pelo caminho, sempre uma bandeja. Se eu tô muito bem numa área é porque outra tá falhando, aí eu mudo a rota e tento fortalecer mais a outra… por exemplo, decidi esse final de semana que ia ficar em casa cuidando do meu filho, levando ele na festinha, no parquinho, sendo mãe, porque eu gosto, mas aí estourou a pauta do 1904, tem manifestação no Brasil inteiro… não dá, sempre tem alguma coisa. Esses dias tive uma amigdalite, fiquei doente pra caramba. Como é que é? Quem vê close não vê corre (risos). A nossa vida é muito complexa, tem muitas frentes, e claro, tenho companheiros maravilhosos de militância que me dão todo suporte. Meu companheiro, meu marido, que tambèm é deputado, mas ele é meu grande companheiro de vida, uma hora eu faço reunião, na hora seguinte ele faz a reunião, aí a gente vai se organizando e de algum jeito se encaixa, mas não dou conta de tudo, definitivamente.
Qual será o seu caminho na política a médio prazo?
Deputada, mesmo. Enquanto as pessoas acharem que eu devo me reeleger, enquanto eu ainda tiver estômago, paciência e convicção, acho que devo seguir nessa tarefa. Sinceramente, não me vejo disputando o executivo a curto e médio prazo, porque primeiro não tenho essa vontade, por ora. Acho que ainda tenho coisas a cumprir sendo uma parlamentar, acho que tô começando, sendo sincera. E porque tô bem. Essa aspiração rápida, imediata, não tenho. Não descarto um dia pensar em outras tarefas, mas a médio prazo é por aqui mesmo que eu vou ficando.