Saindo da estufa

Pastor Henrique Vieira: “Melhor legalizar e tirar da mão do tráfico, do poder paralelo”

Pastores são usualmente associados ao pensamento conservador, quando não reacionário e extremo, ainda mais no Brasil. Há dúzias e dúzias e dúzias de reportagens e articulistas que falam de como evangélicos são um dos principais pilares do bolsonarismo. Duvida? Só dar um google em “Bolsonaro e evangélicos”. Porém, o Pastor Henrique Vieira foge à regra.

Ele é voz dissonante nos dois principais meios em que atua: na religião e na política. Ex-vereador de Niterói (2013 a 2017), elegeu-se deputado federal pelo Rio em 2022 e está no cargo. Durante as eleições, garante ter se afastado da pregação na Igreja Batista do Caminho para desempenhar as funções políticas: “Quando decidi me candidatar, junto com a direção da Igreja, eu me licenciei, me afastei, não preguei, nem frequentei a minha própria igreja no período eleitoral.”

No Plenário, o deputado realizou discursos em defesa do casamento homoafetivo e da legalidade do aborto. À Breeza, defende a legalização da maconha, além de falar de como a esquerda se movimenta na Câmara e com o STF para derrubar a PEC das Drogas, que quer constitucionalizar a toda errada legislação atual sobre o tema.

Na conversa, conduzida pelos jornalistas Anita Krepp e Filipe Vilicic, fundadores da Breeza, ele ainda fala de por que escolheu ser também ator, como no filme “Marighella”, compartilha como receberia um dependente químico em sua igreja, dentre outros assuntos dos mais relevantes para as nossas rodas breezadas.

(E você pode também conferir os principais trechos dessa reportagem no nosso podcast Saindo da Estufa)

Ao nos vermos com um deputado federal, neste momento, não há como não perguntar sobre a PEC das Drogas. Como o senhor encara essa situação, deputado?

Pois é. É lamentável, porque é um debate não feito. Apenas punitivismo, sem base, sem pesquisa, sem dados, sem olhar para outras experiências, sem reconhecer o fracasso da atual política. Começa por esse ponto: não há debate, é só populismo penal. Isso reforça toda uma lógica que hoje criminaliza especialmente uma juventude pobre, negra, das periferias e das favelas do Brasil; explode o sistema carcerário, onde muitas vezes o crime se organiza e cresce; ativa todo um aparato policial de letalidade, encarceramento e morte; além de violar muitos direitos. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a lógica do confronto e do tiroteio, que é fruto dessa legislação, a consequência mais nítida e perversa dessa legislação… você tem escolas fechadas, creches fechadas, postos de saúde fechados, crianças traumatizadas, abandono escolar, serviços essenciais de saúde não funcionando.

Saiu uma pesquisa, do Centro de Segurança e Cidadania do Rio de Janeiro, que [mostra que] em 2017 o estado do Rio gastou 1 bilhão de reais para a aplicação da Lei de Drogas. Só para a aplicação, então PM, Polícia Civil, Tribunal de Justiça, Sistema Penitenciário, Degase, Defensoria Pública e Ministério Público. Todos os gastos relacionados à aplicação da lei de drogas deram mais de 1 bi de reais em um ano. O quanto se poderia fazer de escolas, de creches, de UPAs, de postos de saúde? É basicamente uma política cara, ineficiente, que viola direitos fundamentais, aprofunda a desigualdade, aumenta o sistema carcerário e que não debate com profundidade sequer o conceito de drogas. Sua distinção, singularidade, o universo que é, a dimensão, por exemplo, medicinal da cannabis. Então, é lamentável. Pega o que já está na Lei de Drogas, na minha opinião, de forma equivocada, e ainda transforma em cláusula constitucional.

Por que a PEC das Drogas virou esse terreno de conflito entre Judiciário e Legislativo?

Na verdade, o Judiciário, o STF, vinha fazendo um esforço, na minha opinião correto, de fazer uma distinção objetiva entre o usuário e o traficante. Por que essa falta de objetividade, considerando essa política, na prática faz com que a autoridade policial defina de acordo com a circunstância e o contexto. O resultado é que pessoas pobres, negras, da favela são ‘traficantes’, e pessoas brancas, de classe média e alta, são ‘usuárias’. Então, o Legislativo, tentando se antecipar à definição desse julgamento [no STF], procurou constitucionalizar o que está na Lei de Droga, para tornar ineficiente o que está em julgamento no STF. Esse é o conflito.

O Judiciário, o STF, vinha fazendo um esforço, na minha opinião correto, de fazer uma distinção objetiva entre o usuário e o traficante. Essa falta de objetividade na prática faz com que a autoridade policial defina”

Mas, nos bastidores, tem a ver com esse momento em que estamos vivendo no Brasil. Por que o Judiciário… e aqui, abre parênteses, sem romantizar ou idealizar o Judiciário, e fecha parênteses… (o Judiciário) também é um poder cheio de questões, hierarquias, aristocracia, elitismo, racismo, essa lógica que falei agora de encarceramento em massa e letalidade policial tem a ver inclusive com a cumplicidade do Poder Judiciário… então, não se trata de romantizar… mas o fato é que nos últimos anos, especialmente no governo Bolsonaro, o Judiciário, principalmente o STF, funcionou como mecanismo de proteção e defesa da democracia contra as arbitrariedades ameaças da extrema direita. É fato. É complexo, mas é fato. Diante disso, esses setores [da extrema direita] começaram a entender que o Judiciário está usurpando de suas funções e entrando naquilo que seria prerrogativa do Legislativo. No final das contas, tem esse embate, fruto desse contexto de avanço da extrema direita no Brasil, especialmente no governo Bolsonaro. Agora, é lamentável. Mais um aspecto que lamento. Um conflito entre poderes, que na verdade nem vejo como conflito, mas como setores do Congresso tentando inibir o STF. Mas, na prática, lá na ponta, insisto: a atual política de drogas está matando crianças e jovens, fazendo mães perderem seus filhos, famílias destruídas. Ou seja, num debate egóico e masculino, se está negociando a vida de nossa juventude. Muito triste que o debate se dê nesses termos.

O que a sociedade pode fazer dentro desse conflito?

Nós temos que ampliar o debate, não tem outra alternativa. Basicamente, o que vocês [a Breeza e nossa comunidade breezada] estão fazendo. Às vezes vejo setores progressistas, dentro do próprio Congresso, não querendo entrar em bola dividida pela pauta não ser popular, pelas pesquisas indicarem, muitas delas, que a população aprova a atual política de drogas. Mas, fugindo de bolas divididas a gente não vai disputar os rumos da sociedade de fato. Então, nós precisamos usar os canais de comunicação que nós temos para incidir na sociedade e colocar pelo menos o debate. Fugir do debate não nos ajuda. Temos de chamar a sociedade para refletir sobre esse tema de forma mais honesta, olhando para a realidade, não romantizando. Temos de lidar com as experiências concretas das pessoas. Então, existe o uso abusivo e destrutivo de álcool e outras drogas? Existe. Isso desestrutura a vida das pessoas, das famílias, provocando sofrimento? Quando acontece o uso abusivo, com certeza. Então, vamos trabalhar a atenção psicossocial, o acolhimento, a assistência, o acompanhamento, as redes de proteção, os laços sociais, o envolvimento da família. Por que também os setores ultraconservadores tentam dizer que não reconhecemos a existência do uso abusivo, da  dependência, do sofrimento. Temos de fugir desse lugar que realmente não nos ajuda a dialogar com o nosso povo. Mas, resumindo, temos de topar o debate, colocar luz, lançar sobre a mesa. Usar os nossos meios institucionais e de comunicação para poder levar isso para a sociedade com a grande reflexão que podemos fazer.

Como definir, na Constituição, o que é uma droga? Já que tem droga na drogaria, na farmácia, e a definição do que é aceito ou não muda de acordo com o contexto.

Pois é. Esse tema precisa de mais detalhamento, de debate e de especificação. A Lei de Drogas vai detalhando esse repertório do que é lícito e do que não é lícito. Mas essa definição também é extremamente complexa. Tenho dado o seguinte exemplo: cerveja! Fico imaginando o esforço que a pessoa tem de fazer para dizer que a cerveja não é uma droga. No sentido de alterar bioquimicamente o nosso organismo. Tem de valorizar a ciência, a pesquisa, o conhecimento humano acumulado ao longo do tempo para fazer uma definição que seja mais plausível e que não seja a partir de um preconceito. Então, cerveja, não é um tipo de droga, como algo que altera a nossa dimensão psíquica, bioquímica? Alguém pretende, diante dessa definição, proibir a cerveja no Brasil? Alguém acha que proibindo a cerveja vai diminuir a oferta, a demanda, a circulação? Então, fica um debate ou baseado na ignorância e preconceito, ou baseado na intencionalidade.

“A atual política de drogas está matando crianças e jovens, fazendo mães perderem seus filhos, famílias destruídas

Se criminalizar a cerveja, não vai reduzir demanda, oferta, circulação, e vai ativar um aparato penal, punitivo, policial que pessoas que têm uso abusivo vão continuar no uso abusivo. E vai morrer um monte de gente com tiro na cabeça. Ou seja, vai ser pior. Então, nós precisamos de uma definição mais cientificamente plausível sobre drogas. A partir disso, o que seria crime nisso e aí pensar num modelo que seja mais inteligente. Mas o debate está muito longe desse lugar. O debate é de sensação e de imediatismo. A sensação: a droga é ruim. O imediatismo: então proibi. Mas tem tantos erros nisso. Estou gripado, acabei de tomar remédios que fui comprar numa drogaria. Tem de fugir de uma sensação e imediatismo que não leva a lugar nenhum. Aliás, leva, e esse é o pior. Leva a encarceramento, morte, a diminuição da qualidade de vida de nosso povo. Insisto, não se trata de romantizar  o uso abusivo, que faz mal para o ser humano e para seus laços sociais. Mas o que acontece todos os dias para milhões de brasileiros, nas favelas e periferias, é aterrorizante. Acordar com o crime organizado, confronto policial, tiroteio, bala… está valendo a pena? Quanto custa não fazer esse debate para além da sensação e imediatismo. 

Como religioso, como pastor, como o senhor vê a coisa toda da Guerra às Drogas no Brasil? Qual é o papel do pastor na comunidade?

O papel que eu defendo, e que talvez não seja tantas vezes o que acontece, é o de que pastorear é cuidar de gente. É amar, servir, caminhar juntos. Acredito que nossas comunidades religiosas devem cuidar da nossa juventude, das nossas crianças, dos nossos adolescentes. E a dimensão do cuidar aqui é justamente isso, tem a ver com abrir expectativas e perspectivas de vida para fazer um debate sério sobre a vida. Ver o genocídio da juventude negra no nosso país e o principal dispotivo para isso ser a Lei de Drogas… queria eu ver os pastores se levantando para dizer ‘Não, não é pra prender. Não é pra matar. Não é pra chegar atirando. Vamos entender o que é essa questão das drogas’. Vamos trabalhar por uma lógica de autonomia, de responsabilidade, de autocuidado, de conhecimento de si, de respeito ao próprio corpo, de respeito ao corpo do outro. É um debate tão mais profundo e tão mais eficiente.

Pastorear seria isso: amar, cuidar, servir, proteger da violência e ajudar na conscientização. Por que a mera repressão nunca deu, não dá e nunca dará certo. Diria até o contrário: você não fazer um debate aberto, franco e honesto sobre as substâncias que existem, vai impedir o jovem de fazer as devidas experimentações? Com a devida consciência, com as informações corretas, com um ambiente que não seja de medo, mas de liberdade para o diálogo, a chance de ter uma dimensão mais responsável de escolha é até muito maior. Então, se pastorear é amar, cuidar e servir, eu acho que isso é proteger da violência e fazer um bom debate para ajudar as pessoas a ter atitudes e escolhas responsáveis. E quando existir a dimensão destrutiva, que a gente sabe que existe pelo excesso, pelo vício, pela dependência, é pra estar junto. Não é para desistir, para condenar, para punir. É para socorrer e para estender a mão. Eu aprendi isso com Jesus: nunca desistir de ninguém.

Produtos da cultura brasileira, com o Tropa Elite, impactam nisso. Mas, por outro lado, também temos o rap, o grafite, a cultura canábica… em uma espécie de resposta. É também uma Guerra Cultural?

Sempre foi. Reconheço que preciso e devo estudar mais pelo ponto de vista da cronologia histórica. Mas por tudo que já li, a criminalização das drogas tem a ver com a criminalização de um povo, de uma classe, de uma cultura, sobretudo. Tem também uma dimensão cultural, racista e elitista nesse debate, em perseguir essas manifestações culturais, mais populares e de origem negra. Então, não acho que seja um debate apenas médico, no sentido medicinal para a ciência. Tem aí a dimensão cultural de organizar os corpos para o trabalho, para o produtivismo, para a performance capitalista. Espero estar me fazendo entender, pelo público e pelas pessoas, mas na dimensão atual da Lei de Drogas e em seu histórico na sociedade brasileira eu também vejo traços de racismo e de perseguição a determinadas manifestações culturais. 

O senhor é muito próximo do setor cultural. É ator, tá no [filme] Marighella, em clipe do Emicida. O que essa aproximação traz pro seu lado político? E pro religioso?

A arte, para mim, é política. A arte, para mim, é uma forma de presença e de engajamento no mundo. E a arte funciona, para mim, como… não perder a sensibilidade diante da dureza da vida e da política. Não embrutecer, não petrificar, não plastificar os meus afetos, entende? Às vezes, a luta política é tão intensa que a gente vai endurecendo. E às vezes tem de endurecer para se proteger. Só que a arte funciona como meio de sempre me lembrar das razões pelas quais eu estou onde estou. Ela me lembra das pessoas, da delicadeza da vida, do sorriso da minha filha, do lúdico, da brincadeira. Ela me lembra da dádiva que é saber chorar. Ela me lembra que ser vulnerável é ser autêntico. Ela me livra. A política, no automático dela, do jeito que se construiu, ela é muito dura, muito tóxica, masculina, com disputa de ego, é poder sobre a mesa. A arte me faz ser um político que rejeita essa dimensão hegemônica da política. Entendeu? Quero fazer política com afeto, com empatia, compaixão, solidariedade, sensibilidade, sensibilidade, vínculo com as pessoas, compromisso com o povo. A arte vai humanizando o meu coração no cotidiano. Funciona, para mim, dessa forma.

Por que os evangélicos parecem hoje distantes da esquerda e do pensamento mais pró social?

Olha, tem elementos históricos e contextuais. O cristianismo sempre foi diverso, ele nunca foi unìvoco, um bloco único. Essa é a primeira informação. Mas é triste reconhecer que a dimensão da violência, da mobilização do ódio, do descarte da vida do outro, do preconceito, da intolerância, do próprio racismo, do machismo… bem, isso não é uma novidade em termos de cristianismo hegemônico. Quem está falando isso é um cristão, eu sou discípulo de Jesus. Olha, mas não posso fechar os olhos: a colonização racista e escravocrata desse país se deu com traços evidentes de um cristianismo hegemônico. Sei que existe um espanto, mas isso não é novidade. Existiu o crisianismo das cruzadas, o crisianismo que colocou mulheres na fogueira da Inquisição, o cristianismo que legitimou a escravidão sobre o povo negro e a dizimação dos povos indígenas, o cristianismo que namora as estruturas de poder, de privilégio e de vantagens. Existe o cristianismo que é  patriarcal, que é racista, que persegue as religiões de matriz africana. Isso não é uma novidade e falo isso com tristeza. Agora, vou sempre reivindicar dois aspectos. Um, sempre existiram, como existem, cristianismos. Resistências, cristianiso popular, ecumênico, inter-religioso, comprometido com justiça social e com a dignidade humana. Também vou dar exemplos, talvez não hegemônicos, de Francisco de Assis a Frei Tito, as comunidades eclesiais de base, a teologia negra norte-americana, o cristianismo africano. Tem também pluralidade e resistências dentro do cristianismo. E o segundo aspecto, que talvez tenha mais a ver com a sua pergunta, é que obviamente vou dizer que esse cristianismo hegemônico, colonial, nada tem a ver com o evangelho de Jesus. Com o amor radical ao próximo, a partilha do pão, a proteção das pessoas diante da violência e dos preconceitos. Jesus não crucificou, foi crucificado. Jesus não torturou, foi torturado. Jesus não perseguiu, foi perseguido. Jesus não namorou estruturas de poder, foi executado pelas estruturas de poder. Jesus não acumulou riqueza, mas compartilhou o pão. Jesus não incentivou preconceito e intolerância, mas lidou bem com a diversidade cultural e religiosa do seu tempo.

“Esse cristianismo hegemônico, colonial, nada tem a ver com o evangelho de Jesus. Com o amor radical ao próximo, a partilha do pão, a proteção das pessoas diante da violência e dos preconceitos. Jesus não crucificou, foi crucificado. Jesus não torturou, foi torturado. Jesus não perseguiu, foi perseguido

Mas, quatro séculos depois de Jesus, o cristianismo se tornou a religião oficial do Estado que matou Jesus. Olha isso. Jesus de Nazaré passa a ser interpretado pela lente de quem o matou. Então some o Jesus da periferia. Some o Jesus dos pobres. Some o Jesus da partilha do pão. Some o Jesus da ética amorosa, relacional, das decisões que não estão prontas, são as que você toma ao longo da vida. E vem o Jesus das Cruzadas, o Jesus guerreiro, o Jesus bélico, porque é o Jesus estatal. Então essa é a tragédia milenar do cristianismo. Ler e interpretar Jesus pela lente que chamou Jesus de herege, bandido, prendeu, torturou e matou. Só que são milênios da interpretação de Jesus à partir da lente que o matou. Mas, bem, não é exatamente surpreendente ver parte dos cristão corroborando com uma lógica tão evangélica. Mas posso dizer que no atual contexto histórico, e por isso tem esse elemento também conjuntural, temos uma espécie de aglutinação desse negócio aí. A extrema direita pega esse conservadorismo latente e radicaliza, vai para o ódio, vai para a violência, vai para estrutura de poder, se apropriar do Estado, tutelar a vida,  o comportamento, a sexualidade, o corpo das pessoas. Mas já estava ali, entendeu?, vem ao longo de séculos. Esses elementos violentos em nome do evangelho e que nada tem a ver com o evangelho. 

Por que esse pensamento pró-social parece tão distante também do Senado e da Câmara?

É fruto desse contexto. É tipo um ciclo, entende? Esses setores fundamentalistas têm poder econômico, têm poder político e poder midiático. Então eles conseguem reverberar muito suas ideias e ter mais expressão na sociedade. E conseguem mais votos e, conseguindo mais votos, conseguem maior representatividade na Câmara e no Senado. É esse ciclo, econômico, midiático e político. Está tudo relacionado. Eu tenho poder econômico, tenho grandes igrejas, tenho canal de televisão, tenho programas na TV, tenho frequência no rádio… eu consigo falar para milhões de pessoas ao mesmo tempo, eu consigo mobilizar essas pessoas, eu consigo voto. Eu consigo representação na Câmara e no Senado, então eu consigo poder político e isso fica se retroalimentando.

Dentro desse contexto, deputado, qual seria a solução mais imediata para lidar com a PEC das Drogas?

Olha, basicamente, no Congresso, vou ser muito sincero com vocês, como a correlação é muito desfavorável, é quase um trabalho de bastidores para evitar a votação. Se votar, vai aprovar fácil. Então, eu espero que o governo [federal] possa de alguma forma atuar, junto ao presidente da Casa [Câmara], tem muitos projetos que são votados e depois dá aquela emperrada na tramitação, não tem obrigação de ir para o Plenário. Em termos de tática política, enquanto a gente faz o debate com a sociedade, que é imprescindível, a gente tem de trabalhar para não deixar votar. Ainda em termos de tática, o freio de arrumação ainda continua dependendo do Judiciário neste momento. No Legislativo, se deixarem as ideias fluírem ali, vai piorar cada vez mais, vai ter pena de morte.

“O freio de arrumação ainda continua dependendo do Judiciário neste momento. No Legislativo, se deixarem as ideias fluírem ali, vai piorar cada vez mais, vai ter pena de morte

O que tenho visto algumas pessoas falando é que constitucionalizar essa lógica que não define com objetividade a diferença entre usuário e traficante é inconstitucional, pois fere cláusulas pétreas e princípios constitucionais. Quem está afirmando isso está defendendo que o próprio STF pode derrubar essa votação, por entender que constitucionalizar essa discricionariedade policial é na verdade inconstitucional. Eu tô falando, gente, em termos de tática diante de correlação de forças. Queria estar debatendo descriminalização, legalização, regulação, mas não é o que tá aí. A gente tá numa defensiva, né? Na defensiva, impedir a votação, quer dizer, trabalhar para não chegar no plenário, e ainda avaliar se o Judiciário pode entender que não se pode constitucionalizar a Lei de Drogas nesses termos. E, portanto, consequentemente, barrar essa votação… não dá para barrar a votação… barrar a lei depois de aprovada. Em termos estratégicos, para além da tática da conjuntura, voltamos ao que falamos no início: abrir um grande debate com a sociedade brasileira, que é o que a Breeza faz, por exemplo. Mas tem que haver vontade e coragem política para isso.

Deputado, como o senhor vê o processo de regularização, ou mesmo legalização, de outras drogas? Como solucionar a situação da cracolândia em São Paulo, por exemplo?

Olha, eu preciso de mais estudo, pesquisa, acúmulo e escuta, e preciso encontrar as palavras certas para ser bem compreendido porque a extrema direita facilmente distorce o que queremos dizer. Eu defendo legalizar e regular não no sentido da idealização, não no sentido de uma certa ilusão, e também não no sentido de não perceber que há diferenças entre os efeitos que as substâncias provocam no corpo humano. Entende?

“Melhor regular, melhor legalizar; melhor tirar da mão do tráfico, do poder paralelo, do controle territorial armado; melhor ativar a rede de atenção psicossocial, melhor criar critérios de conscientização, educação, propaganda, desestímulo, tributação

É que estou tão convicto que criminalizar não resolve, pelo contrário, não reduz demanda, oferta, nem circulação, e produz um ambiente de prisão em massa e morte, que tendo a pensar o seguinte: melhor regular, melhor legalizar; melhor tirar da mão do tráfico, do poder paralelo, do controle territorial armado; melhor ativar a rede de atenção psicossocial, melhor criar critérios de conscientização, educação, propaganda, desestímulo, tributação; melhor entender as especificidades de cada substância, daquelas que devem ser completamente desestimuladas, daquelas que têm funções medicinais, como a cannabis. Olha como o debate é melhor quando você tira o estigma do crime e traz para o campo da legalização, da regulação, da distinção das especificidades de cada substância e ativa uma rede de saúde pública psicossocial. Eu rumaria para esse tipo de sociedade que debate drogas pelo viés da saúde e não pelo debate criminal. 

Sabemos que dentre os seus fiéis tem quem gosta de fumar um. Mas como o senhor reagiria se um fiel falasse para o senhor que está com problemas com dependência de drogas?

Quando falo amar, cuidar e servir, essa pergunta me faz detalhar melhor o que estou querendo dizer é: primeiro, não estigmatizar a pessoa, não entrar numa lógica de condenação e de culpa. E aí defendo entrar em uma lógica de acolhimento, respeito, diálogo, acompanhamento, ativar laços sociais e cuidar do carinho e fraternidade, e ajudaria a pessoa a buscar tratamento na rede pública de atenção psicossocial. Buscaria ajuda de profissionais da área, dentro de uma perspectiva humanizada e com base em evidências e como pastor estaria ao lado da pessoa no decorrer de todo o tratamento. Nunca para culpar ou condenar, mas, sabe, chorar junto, orar, estar do lado em momento de crise, chamar amigos para distrair e conversar. Minha pastoral nunca é baseada no medo ou na condenação. Mas na presença e no diálogo. Diante de uma dependência, obviamente ativaria uma rede de atenção psicossocial, o Capes, e encaminharia para que a pessoa pudesse ter o devido tratamento com o olhar clínico, científico, humanizado e preservando os laços com a Igreja e com os amigos. A lógica da privação, da internação compulsória, não é a lógica que eu acredito. Então, pastoralmente seria isso: encaminhar para o serviço público de saúde e estar junto, do lado, chorando, sofrendo, cantando, orando, como um pastor-irmão. 

O senhor já experimentou maconha ou outras substâncias psicoativas?

Não, nunca experimentei. Estive até na Holanda uma vez, mas nunca experimentei. E não é por debate moral, dogma ou preconceito. Foi só porque não me bateu a vontade. Tomo minha cervejinha, meu vinho.

Curioso como toda religião tem suas drogas, né? O vinho é bem cristão, o sangue de Cristo.

É cultural, como perseguição a manifestações culturais. Vejo muito mais pelo traço cultural, não é teologia. Fica um debate às vezes meio raso, em que as pessoas nem percebem que estão fazendo isso. Vinho é uma droga, obviamente. Mas é culturalmente acolhido, não é criminalizado.

Para algumas vertentes de pensamento da esquerda, a separação entre Igreja e Estado deveria ser muito grande. Como o senhor, como pastor e deputado, vê essa mistura?

Religião e Estado têm de estar definitivamente separados. Nenhuma religião pode se apropriar do Estado. Nenhuma doutrina religiosa pode se sobrepor à Constituição. Nós temos de zelar por um ambiente público que seja plural, laico e que valorize e respeite a liberdade de crença e liberdade de não-crença. Então temos de fortalecer mecanismos institucionais que impeçam que uma determinada religião se sobreponha à sociedade via política, via instituições, via legislação, via Estado. Essa divisão é fundamental para garantir a democracia e para a própria liberdade religiosa. Mas também não defendo e não acho que seja possível anestesiar as religiões da sua relevância comunitária, de seu transbordamento público e político. Então, religião e política, é basicamente assim, necessariamente se relacionam, é o que acontece. Não é uma questão de vontade, ou do que defendo, é o que acontece. Uma pessoa religiosa vai pensar a vida e a sociedade, portanto a dimensão política, a partir de sua religião e não tem como ser diferente. O que nós precisamos é criar mecanismos institucionais para que o Estado seja plural, e não pense [o Estado] a sociedade a partir de uma doutrina específica. Por que isso é anti-laico, é antidemocrático, é violento, é violador de direitos, e isso é o projeto do fundamentalismo da extrema direita. Então, valorizo a contribuição pública que as religiões podem dar. A questão é se elas estão se traduzindo como um projeto de poder, ou como algo que interfere no jogo social, o que é inevitável. Eu vou valorizar a luta antirracista de Luther King, que se organizu dentro de Igrejas Batistas. Eu vou valorizar as comunidades eclesiais de base que estão na origem do MST e da Reforma Agrária no Brasil. Eu vou valorizar Dom Hélder Câmara, que a partir de sua fé denunciou a ditadura no Brasil. Eu vou valorizar os saberes indígenas que, obviamente, contribuem politicamente com um mundo mais justo, socio e ambientalmente equilibrado. Eu vou valorizar toda a dimensão comunitária e de soberania alimentar que as religiões de matriz africana. Olha como as religiões não precisam ser anestesiadas de sua relevância pública, elas podem contribuir com a vida em sociedade.

A lógica da privação, da internação compulsória, não é a lógica que eu acredito. Então, pastoralmente seria isso: encaminhar para o serviço público de saúde e estar junto, do lado, chorando, sofrendo, cantando, orando

Mas na dimensão institucional e estatal, nós não podemos permitir o que acontece historicamente no Brasil: o privilégio de uma versão religiosa sobre as outras, que é o cristianismo no seu viés fundamentalista. Vou dar um exemplo, minha Igreja tem engajamento político e social. Minha Igreja tem uma teologia que aponta para direitos humanos, diversidade, justiça socioambiental. Uma Igreja que a partir do evangelho quer ter relevância na sociedade. Mas quando decidi me candidatar, junto com a direção da Igreja, eu me licenciei, me afastei, não preguei, nem frequentei a minha própria Igreja no período eleitoral. A gente quis criar um mecanismo objetivo: uma coisa é uma Igreja politicamente engajada, outra coisa é uma Igreja partidarizada em que o pastor usa o púlpito para fazer campanha… isso eu não faço. E também sequer faço parte da Bancada Evangélica e nem quero fazer. Não estou no Parlamento para expandir a Igreja, estou no Parlamento para contribuir com um Brasil sem fome, sem miséria, sem violência. Então, acho o seguinte: o Estado ser apropriado pela religião é fatal; anestesiar a religião de seu papel social, é irreal. Então, é melhor criar mecanismos para que as religiões possam interferir na vida social, mas que não se apoderem do Estado, das políticas públicas e da Legislação, pois aí é grave.