
Quem caminhou três dias pela ExpoCannabis neste ano pode ter sentido falta de algo: um mapa mais em mãos para se localizar. Tão maior que a primeira, a do ano passado, a feira veio com superlativos em 2024. Foram cerca de 270 marcas espalhados em quatro áreas, num festival que atraiu 36 mil pessoas com ânimo para se deslocar até a beira de uma estrada em SP para se reunir com os seus.
Apesar do público com 15 mil a mais do que na edição anterior, num aumento de 70%, os corredores estavam arejados e fáceis de circular. Um território de exploração para os adeptos, os curiosos, os pacientes, os lúdicos, os psicodélicos, os a negócios, os de celebração. Mas nem tudo tão misturado assim.
“O maior desafio foi conseguir produzir um evento onde o setor medicinal também estivesse presente e sendo representado”, nos conta Larissa Uchida, idealizadora e CEO da ExpoCannabis Brasil. “Quis colocar todos os atores do setor presentes. É de negócios, mas além, a Expo traz muita cultura e educação”.
36 mil pessoas foram na Expo deste ano
Logo na entrada da feira, um pórtico apresentava a área medicinal. Mais branca e azul, com menos shows e ânimos, e mesas repletas de executivos de camisas Reserva e falando em cifras de milhões. Alguns, usualmente os despojados no visual, já na área há anos, com seus espaços bem cavados e fincados, como as associações. Outros entraram há pouco, vindos de indústrias como as das farmácias de manipulação e a de produção de químicos, nem ainda se aventuraram formalmente no mercado da cannabis (por lá preferem, quase que invariavelmente, “cannabis” a outras formas de chamar a erva, como maconha ou ganja), só que se dizendo dispostos a depositar milhões de dólares para chegar com tudo.
“Começaram a enxergar o mercado”, aponta Maria Eugenia Riscala, da Kaya, que acaba de divulgar seu sempre aguardado Anuário da Cannabis Medicinal, no qual a Breeza está como parceira de mídia. O mercado, com seus mais de 670 mil pacientes, movimentou 853 milhões de reais em 2024, com um crescimento de 22% em relação a 2023, e as projeções indicam na casa de 1 bilhão em 2025. “No nosso primeiro estudo, faz cinco anos, já prevíamos que seria um mercado bilionário”.
R$ 853 milhões foram movimentados pela cannabis medicinal em 2024 no país
E será que haverá fatias iguais desse space cake para todos e todas? “Agora começa um momento em que talvez interesses que não são coletivos estão se sobrepondo”, afirma Maria Eugenia. Ela não titubeia ao exemplificar: “Como aquela carta da Sindosfarma, num timing especial, esperou para ver como ia ser para tentar tirar da jogada os menores”. Na mensagem, o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos procura cercear o controle sobre os produtos à base de cannabis.
“Há uma série de coisinhas acontecendo”, deduz ela, que tem os números certos em mãos e na cabeça. Maria Eugenia compartilha que tem sido cada vez mais difícil contar com a colaboração da Anvisa na transparência de informações; que sistemas governamentais andam complexos em demasia; que não param de aparecer dificuldades para importadoras e associações do setor; e que a parte fundamental das pesquisas científicas está sendo feita na unha por cientistas de universidades, sem o apoio que é literalmente devido pela indústria que tá vindo com tudo.
“Também tem tido um movimento de denúncia”, diz Maria Eugenia, ela própria agora em tom de denúncia. “Concorrente denuncia o outro concorrente, o que prejudica quem tá na ponta, que só quer um negócio legal. Poxa, a gente tá buscando bem-estar, ficar mais leve, aí vai parar nesse lugar esquisito, nessa dinâmica do momento, de como as coisas estão acontecendo”.
Na Expo deste ano, porém, o medicinal estava bem menos em evidência do que o chamado de setor plural, onde se exploram os diversos usos da planta. Espaços de entrevistas, exposições (como de fotos que demos aqui na Breeza, do pessoal da Social Weed), esquetes de comediantes, Mila Jansen num baseado atrás do outro, Suplicy, Patrick Maia, Sâmia Bomfim, Matuê (entrevistado desta semana na Breeza e de nosso podcast Saindo da Estufa).
As marcas do lúdico e do social se sobressaíram no visual, nas atrações e com filas de usuários para concorrer em gincanas com prêmios do gosto da comunidade. O público escolheu suas marcas preferidas e praticamente todas são desse campo. Na ordem as cinco primeiras, a partir da campeã da audiência, numa concorrência mais apertada a partir da segunda: aLeda (21%), Sadhu (7,8%), Papelito (6,65%), Kaya (6,36%), Bem Bolado (6,07%). Vê-se que a única que foge ao estilo é a Kaya, que dentre outras iniciativas compila os dados do setor, como o Anuário e os números da Expo.
Estava também especialmente movimentada a área cultural, com mostras como de artistas da ACUCArte, baixo de cânhamo do Luís Mauricio, gostinho do Festival Internacional de Cine Canábico, modelos fumando um na passarela, palestras e workshops. Na área externa, a fumaça rolava solta. Na parte interna, a segurança pediu para colocar avisos de que substâncias ilícitas são… ilícitas (e as descriminalizadas? e desobediência civil? e quem tem receita? e o pessoal que tá passando com a Marcha, pode acender um aqui na escada?); e era comum ver algumas rodinhas sendo abordadas por profissionais realmente simpáticos, que indicavam a porta da saída… para os shows, onde podia fumar um de boa, é claro, pois estávamos em comunidade.
Na parte de fora tinha um clima de festival, pelos 23 shows que rolaram, pelo nevoeiro constante, porque na 4e20 de sexta-feira, o primeiro dia, rolou um fumacê com becks enormes se espalhando pelas rodas mais diversas. Por algum motivo, o pessoal não se animou tanto nas 4e20 de sábado e domingo.
O principal interesse dos visitantes, contudo, não era ouvir música fumando um. Parecia estar entre as vontades da maioria, é claro, mas não no topo. Os dados da Expo levantados pela Kaya mostram que apenas 7% do público foi pelo shows. O principal interesse, de 57%, foi assistir às palestras, seguido de networking (19%). A maioria também esteve lá por curiosidades ligadas aos usos sociais da planta (77%), mas logo seguido do medicinal (74%) e depois do industrial (32%).
77% foi pelos usos sociais, 74% pelos medicinais e 32% pelos industriais
Para Larissa Uchida, da Expo, é essencial “o resgate da cultura, desde livros, filmes, música, educação, palestras, desfiles, museu, a experiência na cultura da cannabis”, o que entra também no maior interesse pelo “social”. Era claro também que negócios rolavam, mas com perfis bem distintos entre as empresas.
Algumas marcas estavam ali para vender para o público direto, como as dos chocolates e das cervejas terpenadas. Haviam as que se posicionavam em setores bem específicos, como sementes ou recursos humanos para empregos na área. As maiores, aquelas campeãs de audiência, não viam lucros imediatos, mas ganhos bem, bem maiores a médio prazo.
Está no momento de construção da imagem de um setor, um mercado e uma cena que se formam. As marcas que caírem na graça do público pegam um cenário que cresce absurdos percentuais ano a ano e é por isso também que as sedas, as tabacarias, os fertilizantes, as referências em cursos, os artistas, as feiras, os políticos, os nascentes dispensários, a latinha de armazenar na temperatura e umidades perfeitas, as pomadas e sprays para bem-estar, as mídias, aquelas que se destacam agora com o público e caem no gosto e no imaginário da comunidade breezada, vão para as listas de top of mind de amanhã. Quem estará lá?
Demarcar território é importantíssimo, como demonstraram as marcas do lado “plural”, tomando os pavilhões com força e provando a que vieram. Bem em semana na qual o STJ autorizou o plantio e a comercialização do cânhamo, logo lá fazendo fronteira com o espaço do medicinal, forte na ligação com o cultural-social-educacional.
Dois representantes de uma grande marca que não esteve com espaço neste ano, e nos visitavam no estande da Breeza na Expo, confessaram que a escolha de não estar lá foi por questões financeiras, pois preferiram investir em empreitadas internacionais. Só que quando chegaram como visitantes, admitiram que “doeu no coração”. Sim, do público também, que sente falta e, bem no momento que está formando sua ideia sobre as marcas da cena, pode perceber mais é as outras que lá fizeram espetáculo.
Dentre os temas de interesse dos visitantes, o principal foi Ciência / Saúde (77%), o que tem ligação pela procura pelas palestras. Em segundo lugar, Sociedade e Cultura (61,29%) e Redução de Danos (57,82%), sendo que Mercado e Negócios (46%) e Agronegócios e Indústria (35%) também aparecem em peso.
Temas de maior interesse: Ciência / Saúde (77%), Sociedade e Cultura (61,29%), Redução de Danos (57,82%), Mercado e Negócios (46%), Agronegócios e Indústria (35%)
Não eram tão comuns rodadas sentadas e formais de negócios, uma dinâmica que até aconteceu, mas uns dias antes da Expo, em um hotel luxuoso de São Paulo, para algumas empresas que investiram no ingresso extra para estar. Foi como uma rodada de date às cegas, com cabeças de grande marcas se falando e bolando juntos.
Durante a feira, a dinâmica foi mais de rodas, no estilo canábico. Não eram raros os negócios serem entre uns baseados. Só entram maiores de idade, o clima é de festividade, fim de semana, entre colegas e companheiros. Então, tudo muito certo.
Por algum motivo me lembrou daquelas figuras daquela série Mad Men que ficavam bebendo uísque, no charuto e fechando empreitadas. Mas, como tudo na maconha, na nossa comunidade é bem mais calmo, tranquilo, saudável, né? Com maior diversidade, em tudo, de pele a ideias, apesar de algumas áreas que procuram mais por certa gourmetização. Ah, tudo é melhor na cultura canábica, Mad Men deve ter me vindo por ser algo que via fumando um e, talvez, traga memórias de um tempo que está se indo e sendo substituído pela geração canábica e psicodélica. Viva Jah! Que venha já!
Dentre os visitantes, 55% se declararam masculino, 43% feminino, 1% não binário. Certamente mais diverso do que na era de Mad Men. Na escolaridade, há predominância de pessoas com superior completo (34%) e universitários (22%), além de presença significativa de pós-graduados (19,5%), o que reflete a procura pelos temas e as ações ligadas a educação e busca por conhecimento e informações sobre a planta.
Quando se fala em classes econômicas, metade dos visitantes dizem ganhar mensalmente na faixa entre R$ 1,4 mil e R$ 5,6 mil por mês, enquanto uns 16% vai até perto de 10 mil e 13% é de menos de um salário mínimo. Aqueles que faturam acima de 14 mil, 4,6%.
Há predominância de pessoas com superior completo (34%) e universitários (22%), além de presença significativa de pós-graduados (19,5%)
Segundo o último anuário, está em jogo um mercado que só no medicinal promete chegar a 9,4 bilhões de reais. E olha que o medicinal era o setor mais comedido da Expo, né?
O mega evento esperava atrair 40 mil visitantes e chegar mais perto de ficar entre os maiores do mundo, como Spannabis (Espanha) e a Mary Jane (Alemanha). Chegou próximo, muito próximo, com 36 mil. E isso em seu segundo ano.
“Talvez na América da Sul já esteja batendo como o maior”, comenta Larissa Uchida. “Vamos ficar conhecidos, fortalecer bastante, o Brasil é um mercado enorme e interessante também para outros países (neste ano, a Expo atraiu pessoas de dezesseis países) e em 2025 é bater a meta (de estar entre as maiores do planeta)”.
As vendas deste ano começaram nos dias da própria Expo e cerca de 500 passaportes (ingressos para todo o evento) foram comprados. Isso a um ano de distância da terceira edição. Para o ano que vem, aliás, há promessa de ter um mapa de tudo logo na entrada, com QR code para se guiar pelo celular. Afinal, a aposta é que não vai parar de crescer a brisa pelos corredores da Expo.
Parte do que se espera para as próximas edições é o constante amadurecimento da cena. Vislumbra Maria Eugenia, da Kaya: “Temos de sair um pouco desse lugar de achar que a cannabis é especial. Vindos depois (das indústrias) do álcool e do tabaco, temos de aprender para não deixar de existir”. Ela cita então exemplos de formas de controlar melhor o produto, como sua qualidade e a exatidão do que há nele. Agora, para isso, o primeiro passo passa por legalizar e poder fazer essa fiscalização, certo?
Espera-se que possamos evoluir juntos e juntas, e em muitos e muitas, não em uns poucos. Um dos receios constantes expressos pelos corredores da Expo é de que haja uma disputa muito predatória em um mercado nascente, crescente, mas arriscadissimo, assim como tem sido nos EUA, e nisso sobrem apenas uns poucos, gigantes e comandados pelos de sempre, justamente excluindo quem foi historicamente excluído (e perseguido) no nosso universo da ganja.
Filipe Vilicic