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Filmes chapados

Anota na agenda: está chegando ao Brasil o Festival Internacional de Cine Canábico. Contamos a história por trás desse movimento latino-americano
14|11|24

Fazer um evento dedicado a filmes com a maconha no meio do roteiro é uma ideia que só podia vir de uma brisa boa. Assim surgiu o FICC, o Festival Internacional de Cine Canábico. O evento teve início no Uruguai em 2019 e se prepara para vir ao Brasil.

Conta uma das criadoras do FICC, a argentina Malena Bystrowicz, antecipando o discurso que planeja fazer para abrir uma mini mostra na ExpoCannabis Brasil do próximo fim de semana, e que serve de gostinho para a primeira edição brasileira, que ocorrerá em 2025: “Alejo (Araujo, cocriador) e eu estávamos de férias no extremo sul da Argentina, na cordilheira da fronteira com o Chile, cheio de geleiras, era dezembro de 2018, últimos dias do ano. Gostei muito de estar lá mas estava numa crise total e aí começamos o maravilhoso exercício de fantasiar”.

Ela conta que Alejo já era ativista da causa da cannabis fazia alguns anos e aí as ideias foram se juntando. Malena tinha muita experiência em cinema, com duas décadas como documentarista e como programadora do Festival Internacional de Cinema de Direitos Humanos de Buenos Aires, que é muito forte no país hermano. Uma coisa se juntou à outra.

Exatamente um ano depois surgiu o FICC, em dezembro de 2019, na ExpoCannabis de Montevidéu, no Uruguai. De lá se multiplicou por cidades da Argentina, do Chile e, agora, chega por aqui.

Defende Malena: “Muito além do nosso desejo pessoal de combinar cinema e cannabis, o FICC tem um significado social e político. Um espaço que faz falta, eram necessárias telas que colocassem em discussão a questão da cannabis e das drogas; era preciso falar do proibicionismo, dos direitos à saúde física e mental, do negócio dos laboratórios e dos cartéis; era preciso falar sem preconceitos sobre vícios e consumo problemático; falar sobre ciência e sobre todas as vidas que poderiam ter sido melhores sem o tabu e sem a clandestinidade; de todas as pessoas que estão presas por consumo ou cultivo; falar que a maconha é ilegal se for fumado por um negro ou por um pobre e é legal se for fumada por um branco; falar do machismo dentro da cultura da cannabis”.

NAS TELAS DO BRASIL

O historiador Gustavo Maia, que também é o nome por trás do Cannabis Monitor, conheceu o festival já em 2019, quando foi cobrir a ExpoCannabis uruguaia. Dois anos depois, em nova edição do evento no mesmo país, começou as tratativas para fazer  uma edição no Brasil. “Cada vez mais, tanto o debate público quanto o mercado legal se expandem por aqui e ainda estamos carentes de um evento no país que tenha a cultura e a produção cultural canábica como centralidade”, nos diz Gustavo. 

Vai começar em uma versão enxuta nos três dias de ExpoCannabis Brasil, que ocorrem agora no fim de semana. Assistimos aqui na Breeza aos curta-metragens que estão na seleção, que também contará com longas. Há histórias sobre a Marcha, sobre a cultura rastafári em Portugal, histórias divertidas de ficção, dentre outras que interessam tanto a convertidas quanto a quem começa a entrar na onda.

A este que vos escreve, destacou-se especialmente o ao mesmo tempo belíssimo, nostálgico e divertido “Conserva”, assinado por Diego Benevides. O curta de treze minutos narra, com filmagens de Super 8, a história de um carismático senhor que achou uma preciosa lata de ganja, o “veneno da lata”, que mudou sua vida para sempre.

Já a edição brasileira oficial e completa do FICC está prevista para o segundo semestre de 2025, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), Rio de Janeiro. Como é de costume com o evento, a entrada será gratuita. Além de cinema, incluirá também clipes musicais, mesas de debates, exposição de arte, literatura, workshops, shows e, é claro, festa. 

“Sem dúvida o cenário está mudando e indica cada vez mais aberturas e avanços nas diversas esferas, legislativa, jurídica, medicinal, da comunicação e da cultura, dentre outras. Há alguns anos atrás era impensável eventos canábicos como esses que temos vivenciado”, avalia Gustavo.

Então, anota aí na agenda que vai ter cinema emaconhado no Rio em 2025.

Filipe Vilicic