Na Breeza

Quer andar de carro velho, amor?

Patrick Maia solta mais fumaça que o seu Chevette 78, cenário de conversas filosóficas e chapadas que vão parar no Youtube
14|11|24

“Fumar maconha dentro do carro pra ficar falando merda é muito legal”, atesta Patrick Maia, host do Chevetalks, uma série de conversas que rolam dentro do seu Chevette 78, uma relíquia que funciona melhor parada que andando e por isso virou cenário de papos chapados e um tanto filosóficos que são publicados semanalmente no Youtube. 

“Dentro do carro é um lugar da hora pra conversar, muitas conversas importantes, interessantes e até decisivas rolam ali, porque é um lugar que você não consegue escapar, é um lugar pequeno, que você tá do lado da pessoa. E é diferente daquele negócio de estar numa mesa de podcast com um monte de gente em volta, com várias câmeras”, diz ele, que prefere se sentar ao lado e não à frente do entrevistado, “para evitar um clima de embate”.

Patrick gosta de pensar no meio e na mensagem, e isso é um hábito moldado ao longo dos quinze anos de carreira na sua faceta comediante. Sim, porque antes do Chevetalks existir (desde outubro de 2023), Patrick já era velho conhecido da cena brasileira de stand-up comedy, na qual ele segue firme e forte, com a agenda bombando. 

Mas dar um respiro para fora da bolha da comédia era necessário, afinal Patrick não quer ser conhecido só por ser um cara engraçado. “A ausência da necessidade de ter graça tá me proporcionando mostrar as minhas ideias, o que eu penso, as minhas filosofias, os meus raciocínios e a minha história.” 

No meio disso tudo, a maconha entra como um elemento naturalizado, que mesmo em cena na maioria dos episódios, não passa de uma coadjuvante da conversa. Ele passa a bola com a naturalidade de quem oferece um copo de cerveja. Vários convidados fumam junto, sem pudor, tal qual fosse um chope. Outros negam, pra evitar ser taxados de maconheiro e perder contratos. Coisa para a qual o Patrick tá cagando e andando. 

ATÉ A ÚLTIMA PONTA

“Eu quero estar livre pra poder fazer o que eu quiser. As marcas que se interessem em trabalhar comigo não têm que pedir pra eu parar de fazer nada do que eu faço”, se posiciona o artista, que também consegue avaliar com clareza os momentos de propor ou não aquele um dois ao convidado.

Na gravação da entrevista com o professor Clóvis de Barros Filho, por exemplo, Patrick queria estar altinho para conseguir acompanhar as brisas filosóficas que certamente pintariam ao longo do papo, mas sem intimidade com a figura, bolou um plano para entrar em cena no estado em que queria. 

“Antes da entrevista, eu fui pra minha casa, fiz um becão de hahixe com maconha e fumei sozinho. E aí eu desci pronto, ´nossa, tô legal pra trocar ideia´, tá ligado?”, lembra ele, que não queria correr o risco de deixar o professor incômodo, já que “tem gente que não curte a fumaça dentro do carro”.

O humorista define o seu uso como crônico, já mais do que incorporado à sua rotina diária, em busca da calma e da leveza que a erva lhe propicia. “Os únicos momentos que eu não fumo é quando eu vou treinar, se eu vou fazer esporte, prefiro não fumar”, revela ele, que ao estar chapado consegue captar as nuances desse mundo. “Se todo mundo tá no chão, eu sinto que eu tô cinco centímetros acima, flutuando. Só se você prestar muita atenção, você vai ver que eu tô flutuando. Porque parece que eu tô no chão, entendeu? Mas eu me sinto flutuando.”

No encontro com o professor Clóvis, por exemplo, eu pensei “cara, se eu tiver num estado recreativo gostoso, se eu tiver num estado aberto pra poder entrar mesmo na cabeça do maluco e ficar olhando pra cara dele e deixar as respostas dele entrarem na minha cabeça”.

NOVO QUERIDINHO DAS MARCAS

De amanhã até domingo o Patrick vai estacionar o Chevette dentro da ExpoCannabis Brasil, e reza a lenda, que vai chegar andando. “Mas mesmo que ele vá de guincho, ele vai chegar lindão”, garante o humorista que foi contratado para ser uma das atrações principais do estande da aLeda durante os três dias de evento. “A gente vai estar dentro de um puta evento foda de maconha, conversando com uma galera da área, e sair um pouco daquela conversa mais superficial que se tem sobre o beck pra gente poder conversar sobre isso com pessoas que já vivem nesse mercado há um tempão.”

Enquanto tá cheio de artista maconheiro que prefere não sair da estufa, Patrick vem colhendo os louros de ter dado a cara, legalizando geral. E além desse contrato com a aLeda, já tem outro com a galera da Leds Indoor, que vende toda a parafernalha de cultivo, e para a qual o comediante vai registrar o seu processo de autocultivo.

“A maconha precisa de bons garotos propaganda”, defende ele, que quer se mostrar cada vez mais como um maconheiro exemplo. “Porque geralmente o pessoal fala, pô, maconheiro é o trapalhão, é o cara que esquece tudo, é o cara que faz um monte de merda. Sendo que na verdade, eu fumo maconha o dia inteiro e não tô daquele jeito, entendeu? Eu tô fumando e tô trampando pra caralho.”

Anita Krepp