
O primeiro contato que Marcel Favery teve com haxixe de primeira foi em meados dos anos 2004 ou 2005, ele não se recorda ao certo. Mas lembra de como um amigo voltou empolgado de uma viagem pra gringa, trazendo do Marrocos. “Muito melhor que o paraguaio”, lembra. Naquela época o acesso em São Paulo a esse tipo de qualidade era raro, bem restrito. “E o amigo que trazia corria muito risco”. Ele experimentou na roda e desde então alimentou uma vontade de saber mais do que tinha por trás da mágica do hash marroquino.
Duas décadas depois, ele visitou a origem. No começo de setembro, passou, ao lado do amigo e sócio Erick Carmona, cinco dias em um vilarejo nas montanhas de Rif, em Marrocos, o maior exportador de haxixe do mundo. “Álcool é proibido, mas tomam chá de menta o dia inteiro e fumam haxixe”.
A experiência rendeu uma exposição de fotos, assinada por Marcel e que será exibida na próxima ExpoCannabis Brasil, entre 15 e 17 de novembro, em São Paulo. Nesta reportagem, a Breeza traz em primeira mão algumas dessas imagens.
Apesar da planta ser cultivada por todos os cantos na região para virar haxixe, o comércio não é legalizado no país. Tudo ocorre de forma bem hipócrita, na real. O cultivo é permitido com a justificativa de ser um costume tradicional. Todavia, em tese não se pode vender e nem consumir.
Na prática, é óbvio que ocorre o oposto. “Existe comércio local e eles usam bastante, enrolam engraçado, pegando o cigarro e, na moda antiga, rasgam quase inteiro, misturam com tabaco e aproveitam o filtro pro baseado”, observou Marcel. O método é uma forma útil também de disfarçar o consumo nas ruas, pois apesar de tudo ser sabido, é possível rodar com a polícia a qualquer momento – e as autoridades locais são bem conhecidas por perseguir turistas, vale avisar.
Só que é tudo pela fachada. Na prática, faz tão parte da cultura que Erick lembra o quão fácil era encontrar pessoas fumando um: “No posto de gasolina tinha um cinzeiro na mesa e todo mundo fumando haxixe em volta. No restaurante, um cara saiu de dentro pra fumar. Como não usam álcool, não há tanta euforia quando socializam. A maneira que as pessoas socializavam, com haxixe, era bem diferente”.
O ENSAIO





Amigos de longa data, Marcel e Erick fundaram, em 2019, a Social Weed, uma produtora especializada no mercado canábico, em Portugal, onde moram. A dupla já partiu para a viagem pro Marrocos com a proposta de fazer o ensaio fotográfico. Marcel como fotógrafo, Erick na produção.
O trabalho enfrentou algumas barreiras culturais. Os locais se mostraram menos afeitos a fotos, por exemplo, do que são brasileiros. “Tivemos de conquistar a confiança deles, passamos dias com eles, almoçamos juntos, fizemos trilhas pelas plantações, tivemos momentos de lazer nas cachoeiras”‘, compartilha Marcel.
Essa proximidade rendeu fotos que mostram todo o processo da feitura do haxixe, em cenas que se destacam mesmo por serem frutos de um olhar estrangeiro, mas que estava mais íntimo da situação. Após uma curadoria inicial, foram selecionadas cerca de 400 fotos da viagem. Dessas, em torno de quinze estarão na próxima ExpoCannabis e a ideia é depois conseguir patrocínio para fazer a exposição viajar pelo Brasil, por Portugal e por Espanha.
Filipe Vilicic