
Larissa Uchida é certamente uma das figuras mais centrais da nossa cena hoje no Brasil. CEO da ExpoCannabis Brasil, empreende com uma série de negócios disruptivos com a maconha, de agência de viagens a um necessário hub de educação e profissionalização.
Nessa conversa com Anita Krepp e Filipe Vilicic, fundadores da Breeza, Lari fala de como a Expo deste ano está enorme, quer ser a maior do mundo; de desafios de fazer o medicinal conversar com o uso social; de aumentar a diversidade na feira e no nosso setor. E também de seus sonhos pessoais e porque entrou nessa nossa vida em torno da erva.
No Negócios da Estufa, o novo podcast da Breeza, trazemos marcas, empresas, iniciativas parceiras e apoiadoras aqui da Breeza para conversas reveladoras, sem papas na língua, sobre como tá o cenário para o nosso mercado da cannabis, dos psicodélicos, das substâncias que mexem com nossas mentes e corpos.
Este primeiro episódio conta com o apoio da ExpoCannabis Brasil, que vai de 15 a 17 de novembro, em São Paulo. Se ainda não garantiu o ingresso, vá com desconto, só usar o código Breeza na hora da compra.
A conversa com a Lari está esclarecedora e cheia de informações e conhecimento que são essenciais para quem é do setor:
Tem uma questão com os artistas, os músicos, que lançam o primeiro disco e é um estouro, um sucesso, todo mundo fala. Aí no segundo disco pode dar aquela ansiedade. Quero saber se tem essa pressão sobre vocês, imagino que tenha, mas quero te ouvir. Veio de sucesso, como repetir esse sucesso?
A pressão sempre vai existir e a gente está trabalhando para crescer. Muitas vezes, o que precisa fazer para que seja mais um ano de sucesso é trabalhar a inovação. Diferenciar o evento do que tem sido visto no mundo. Eu viajo o mundo inteiro, conheço diversas feiras no mundo inteiro e, na minha concepção, muitas feiras se estagnam no que vem mostrar ao público. A gente quer que isso não aconteça no nosso evento. Acreditamos que isso seja a base do sucesso. Ainda mais em um país em que não existe um marco regulatório como a gente espera. Conseguir mostrar ao público mais maneiras de conhecer a planta, não só como remédio, mas também todas as outras formas de uso. Acredito que, sim, cada vez mais o sucesso da feira será maior. A pressão do sucesso sempre vai existir, mas acho que por nós mesmos, nós mesmos queremos alcançar um título de maior feira no mundo. A gente vem trabalhando muito nesse sentido, mas muito no sentido de trazer a inovação e novidade ao público. Quem conheceu a primeira edição da Expo, quando entrar neste ano na feira vai sentir que não conheceu nada ainda da Expo. Por que a gente mudou muita coisa e tá trazendo muitas coisas novas pra feira. Este ano, a gente resolveu aumentar os espaços de educação. No ano passado nós tínhamos dois, o Fórum Internacional e a Arena do Conhecimento. Neste ano a gente adiciona mais dois: além do Fórum e da Arena, a gente criou um palco de palestras medicinal, somente para conferências dos profissionais da saúde; e adicionou uma sala de workshop onde a gente vai trabalhar workshops mais práticos, para trabalhar com os outros usos da planta. A ideia ali é promover cursos para ensinar as pessoas a fazer o concreto de cânhamo, o papel de cânhamo.
“Quem conheceu a primeira edição da Expo, quando entrar neste ano na feira vai sentir que não conheceu nada ainda da Expo”
Além disso, a gente vem também muito forte fora do principal, que é um evento de negócios, o Cannabis business Hub, para poder gerar mais negócios dentro do nosso setor. A ideia é conectar empresas do setor que tenham afinidade. E a partir daí se espera que novos negócios surjam para contribuir para o desenvolvimento de novos negócios de cannabis no Brasil. Existe pressão? Existe. Mas a gente está trabalhando de todas as maneiras para que um ano seja diferente do outro, para que o público vá buscar novidades todo ano e realmente queira participar da feira porque com certeza vai encontrar muito. E no momento que a gente vive com esse marco regulatório que não anda, a gente acredita muito que a educação pode transformar esse e nosso cenário no Brasil. Por isso que a gente vem trabalhando muito para fomentar educação e informação sobre a cannabis. E esse é o nosso objetivo principal com o tema deste ano, que é normalizando os múltiplos usos da planta.
Lari, eu estava lá no ano passado e era notável quanta gente tinha, como as pessoas estavam empolgadas na parte externa, todo o clima de exaltação. Mas queria saber como foi o pós. Essa excitação continuou depois? Como foi o retorno das marcas que participaram, de quem tava lá na Expo? Como foi esse feedback das pessoas?
Olha, foi muito positivo, inclusive a gente tem dados para falar sobre isso. Não é uma coisa empírica nossa, mas são dados levantados pela Kaya Mind, onde a gente tem 90% de aprovação da feira, de respostas que falaram que a feira atendeu ou surpreendeu as expectativas desse público. A gente viu muitos comentários de pessoas que nunca imaginariam viver uma experiência dessa feira, desse porte, no Brasil. Muitas pessoas depois do evento nos agradecendo, encontrei umas pessoas mais velhas, de 60, 70 anos, que já são ativistas há muito tempo, chorando e agradecendo. Dizendo que nunca tinham vivido isso e achavam que iam morrer sem ver isso acontecer no Brasil. Pois viram acontecer em outros países, mas não aqui. É um sentimento muito bom porque a gente vê que o trabalho que a gente está fazendo vem surtindo um efeito muito positivo na sociedade, as pessoas estão se interessando pelo tema e tem um mar de tabus que a gente ainda precisa quebrar, né? Então a primeira edição foi só o começo, a cada ano a gente conseguindo trazer essas novidades e normalizando essa informação para o público. A gente vai conseguir mudar, sabe? Conseguir de fato pelo menos questionar as autoridades, a própria política, como ela é feita, por que criminalizar do jeito que é criminalizado? Sendo que a gente poderia ter muitos benefícios com um marco regulatório mais amplo, né?
Então a gente vem trabalhando mesmo nisso porque a ExpoCannabis não é uma feira que dura três dias, é uma plataforma de informação. A gente vem trabalhando forte nisso. precisa informar o público e todas as autoridades também, né? A gente tava outro dia discutindo a questão da exposição de vaporizadores na feira. Hoje a Anvisa classificada um dispositivo eletrônico que somente esquenta para poder vaporizador qualquer tipo de erva, não só cannabis, qualquer tipo de tratamento por vaporização de plantas, mas aí classifica esse aparelho eletrônico na mesma categoria de qualquer aparelho que contenha líquido dentro, com centenas de substâncias nocivas para a saúde. Importante trazer a discussão e apresentar de fato as diferenças que existem entre esses diferentes tipos de produtos para as autoridades, porque quem tá ali regulando, criando regras, criando as RDCs, enfim, leis, né?, são instituições que muitas vezes não entendem essas diferenças. A Expo vem como plataforma de informação para também se comunicar com essas instituições para mostrar as diferenças, pois têm muitas diferenças. Tem muitas pessoas que precisam fazer uso vaporizado. Como você proibe um utensílio desse, que é um acessório importantíssimo, muitas vezes para poder regular uma crise que está acontecendo, ali na hora com o paciente? Como a gente pode proibir esse tipo de venda de um aparelho que é essencial para o tratamento de diversos pacientes? A gente vem muito com intuito de informar, não só o público, mas todas as autoridades e institutos que queiram nos consultar sobre esse tema. A gente tá aqui aberto e quer contribuir com esse tema também.
E é interessante por que o público da ExpoCannabis é um público diferente, é uma das poucas feiras que conseguem furar a bolha. O que vocês entenderam desse público? Porque tinha gente ali que nunca tinha falado de cannabis, se interessado em cannabis, mas tem essa abertura. Queria que você me falasse dessas características do público da Expo.
A nossa estratégia desde a primeira edição, e continua sendo neste ano, é nos comunicarmos com o grande público, com todos os brasileiros que queiram entender mais do setor da cannabis. O nosso direcionamento de divulgação do evento não é para a bolha da cannabis, que são as pessoas que já estão acompanhando a gente e querem ir no evento. A gente quer atingir um público que nem sabe o que é cannabis, não faz a mínima ideia, ou só ouviu dizer que cannabis é legal para o tratamento de uma enfermidade “X”’. “Ouvi dizer que dá pra fazer tecido, é verdade?”. E se sentem seguros de participar de um evento, onde a gente tá organizado em um espaço de eventos mais tradicional, em São Paulo. E a ideia sempre foi essa, a gente nunca quis fazer em um lugar underground. A gente sempre quis se posicionar. Por quê? Acredito que essa é a maneira que a gente se comunica com todo mundo e traz mais pessoas para entender de fato o nosso setor. Se a gente fica só no underground, vai se comunicar com a galera que sabe o que é. E essa não é nossa ideia, atingir o grande público.
“O nosso direcionamento de divulgação do evento não é para a bolha da cannabis, que são as pessoas que já estão acompanhando a gente e querem ir no evento. A gente quer atingir um público que nem sabe o que é cannabis“
No ano passado conheci muitas pessoas, mas muitas pessoas que foram conversar comigo e nunca tiveram contato com a cannabis. Então é essa a ideia, vamos continuar com esse objetivo e estamos fazendo esse mesmo trabalho neste ano. Nos comunicamos em grandes canais de comunicação no Brasil. E também em canais de comunicação ligados a negócios. Por quê? Por que a gente quer mostrar que existe potencial de desenvolver diversas indústrias quando a gente está falando de cannabis. Pode falar lógico da indústria farmacêutica, que é o que todo mundo fala hoje. mas a gente tem muito mais indústrias para serem desenvolvidas, a têxtil, a alimentícia, a de construção civil. A gente tá falando de biocombustível. A gente tá falando de bioplástico. E tudo isso numa planta que consome muito menos água, que regenera solo, que é carbono positivo.
No ano passado, eu conversei com um presidente de uma associação de cultivadores de soja, do interior de São Paulo. Era um senhorzinho, deveria ter uns 70 anos de idade. Ele ficou me esperando e depois do encerramento da feira, ele veio “‘Nossa, fiquei te esperando, eu queria falar com você. Eu vim aqui porque ouvi na rádio”. E é isso que a gente fala, que a gente vai pra outros canais. “Ouvi na rádio que ia ter uma feira de cannabis e descobri que é uma planta”. O cara não sabia disso. “E fiquei interessado em entender como nossa associação, de cultivo de soja, poderia de alguma maneira pensar o cultivo da cannabis. Vim aqui entender mais sobre a planta, para que é usada, para que serve, quais as partes que a gente consegue usar, o que descarta”. E eu amei. O cara cultiva a vida inteira e nunca tinha ouvido falar disso. “Porque pra mim maconha era só um negócio que fumava e ficava doidão. Na minha época não sabia desses outros usos”. Então é isso, a gente vem determinado a atingir esse público fora da bolha. Esse é nosso objetivo e acredito que será nosso objetivo todos os próximos anos. Atingir esse público que não conhece a cannabis. Por quê? Por que nosso objetivo é fazer com que a informação chegue a mais pessoas. A gente quer fortalecer ainda mais a divulgação fora da nossa bolha.
Desse contato com a planta, uma coisa que ficou bem midiática no ano passado foi aquele jardim na entrada, com a planta. Vi o mapa da planta dos stands da feira deste ano e essa área é gigante. Parece que vai ter todas as fases da planta, da maconha, dela crescendo. Que vai dar para sentir o cheiro. No ano passado você via muito, mas era isso. Me contaram que vai ter uma coisa mais de cheiro neste ano. Mas o contato ainda não pode, tem essas limitações. Queria entender como vocês exploram isso. Por que é tão valioso mostrar, sentir o cheiro, entender que vem da terra?
A feira é sobre a planta. Como vai fazer a feira sobre a planta e não ter a planta? Foi algo que foi muito desafiador pra gente porque eu fazia questão de lançar a feira com a planta. É uma coisa que o pessoal falava “Laris, você é muito louca”‘. Já quer fazer uma feira no Brasil, que não tem um marco regulatório que permita isso, né? Uma série de enfrentamentos jurídicos que nenhum outro evento tem. A gente já estava passando por isso. Mas a feira é sobre a planta, como não vai ter a planta? Então, resgatar as informações sobre a planta para o público conhecer, criar esse vínculo com a planta, é essencial porque senão a gente não está falando sobre cannabis. Se a gente não conseguir fazer com que o público vivencia essa experiência, mesmo sem contato, por um vidro. Muitas vezes as pessoas que estavam lá nunca tinham visto a planta ao vivo. A pessoa que usa mais para o uso social, por exemplo, tem o contato com o prensado no Brasil. Então, assim, não tem muito costume do cultivo, isso para grande parte da população. O Jardim de Flores, o nome de nosso jardim no evento, vem mais disruptivo também. No ano passado a gente tinha um jardim com nove metros quadrados e neste ano vai ter 120 metros quadrados. A gente quer melhorar a experiência do público com a planta. Queremos, sim, trazer as várias fases de vegetação. A gente quer apresentar como a planta fêmea é, com as flores ali. Uma planta macho, carregada de sementes, como é. E ter painéis informativos onde as pessoas vão conseguir também ter mais informações sobre.
Estamos também avaliando essa possibilidade das pessoas conseguirem pelo menos sentir o aroma das flores. O que a gente tem de garantir é que as pessoas não consigam pegar a flor. Essa é a preocupação, por exemplo, dos órgãos fiscalizadores. Mas a gente quer a cada ano melhorar essa experiência. Esse jardim será muito mais amplo, com espaço para a galera tirar foto. Espaço para as pessoas aprenderem um pouco mais sobre o cultivo. Não tinha como produzir um evento de cannabis no Brasil se não conseguisse fazer isso de maneira segura e que conseguisse informar o público. A gente faz atendendo a todas as questões de fiscalizações que são exigidas. Então, realmente é um marco. Não foi fácil essa caminhada, e continua não sendo. Mas a todo ano a gente quer fazer um rachinho a mais no muro da proibição. Até que vai chegar uma hora que esse muro se quebrará.
E vai ser com o mesmo fornecedor, que é a Clube (Brasileiro de Fitoterapia Canábica)?
Sim, estamos trabalhando novamente neste ano com a Thabata.
Conta um pouquinho deles pra gente. Por que escolheram eles? Qual é a história com a Thabata.
Tem toda uma história. Eu e a Thabata somos amigas há muitos anos, e antes até dela iniciar a caminhada dela nessa área da saúde. Há muitos e muitos anos atrás a gente fazia alguns projetos em conjunto e aí, enfim, conheço a Thabata, ela é minha amiga, queria que tivesse alguém do nosso lado construindo e apresentando isso ao público e que fosse de minha confiança, que tenha a mesma visão que a gente tem para o evento, que não tenha medo de ter esse enfrentamento com as autoridades. Começou na Espanha esse projeto. A gente foi na Spannabis, saiu pra jantar, e eu falei “Thabata, preciso te falar uma coisa. Tô com um projeto aqui que só consigo imaginar você dentro”. Ela “Ah, vai ser a feira?”‘. E eu “Tenho de construir um jardim de flores lá dentro, o público tem de ver a planta”. Como vou fazer uma feira sem planta? “E aí, você topa?” E ela na hora “conta comigo, é isso aí, é isso que a gente tem de fazer”. Então, trabalhar, né?, com o que a gente gosta, ainda mais com pessoas que a gente gosta e acreditam nas mesma coisa que a gente, nos dá muito mais força. Então a Thabata é realmente uma pessoa muito querida na minha vida. E com certeza vai construir muita coisa com a Expo. Fico muito feliz e ela realmente faz um trabalho muito sério e isso também é muito importante. Porque a gente às vezes sabe de associações que não fazem um trabalho sério. Eu sei que ela faz um trabalho sério, tá junto nessa caminhada da gente querer avançar. O objetivo dela é esse dentro da associação. Então, acho perfeito, ela era a pessoa perfeita para esse projeto do jardim. E este ano a gente quer dar um passinho a mais, a gente tá preparando essa surpresa. Com alguns workshops que a Thabata vai tocar dentro do evento. É isso o que a gente pode falar por enquanto.
“A gente quer fazer um rachinho a mais no muro da proibição. Até que vai chegar uma hora que esse muro se quebrará“
Você falou muito de alinhamento de ideias, de autoridades, um pouco de Justiça. Eu lembro que no ano passado nos corredores da feira rolava no início muito aquela apreensão de “será que vai rolar uma repressão?”. Será que vai vir alguém aqui? E no fim foi super tranquilo tudo. Tem alguma apreensão neste ano? Tem esse receio ainda?
Acho que nunca vai dar uma sossegada. A gente que trabalha com esse tema no Brasil sempre vai ter essa preocupação e é por isso que a gente tem um corpo jurídico muito forte. Para a gente conseguir trabalhar em segurança, mitigando todos os riscos. Não quero dizer que não teremos riscos, sempre vão existir. Mas o importante é conseguir trabalhar preventivamente, da maneira que a lei diz, do que pode fazer, o que não pode fazer. Não estamos descumprindo nenhum tipo de lei no evento. Pelo contrário, então tudo tem o documento, o certificado, a certidão, o pagamento da taxa, o imposto. Tudo é redondo. Por quê? A gente já tá trabalhando numa área que vai ser ali fiscalizadíssima. O trabalho do Nico, que é meu marido e advogado, diretor jurídico do evento, é extremamente importante. Além dele a gente tem outros escritórios que fazem parte desse comitê de risco, cada um com a sua especialidade. Tem um escritório que só cuida de legalização do evento. Outro que é criminal. outro civil. A gente tem um corpo jurídico muito forte para poder mitigar os riscos. Não quer dizer que eles não estão aí, sempre estão. A nossa ansiedade é sempre, todo ano, ser assim.
Me fala uma coisa, do número de colaboradores, conta pra gente quantas pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente?
Olha só, no ano passado a gente teve aproximadamente 3 mil empregos gerados temporariamente. Isso contando contratações de expositores pro evento e contratações nossas para execução da feira. Neste ano acreditamos que vai ter algo como 8 mil pessoas envolvidas nesse trabalho, de temporários. A gente movimenta muito esse fluxo de trabalho temporário. E não só isso, a feira movimenta a economia como um todo. Tudo que tá ali ao redor. Desde alimentos, restaurantes, hotelaria. Tudo se movimenta muito com o evento. Estamos esperando neste ano 40 mil pessoas. Muita gente que não é de São Paulo. Que tá vindo de outros estados do país e de outros países.
E o público? Você tem uma ideia de ticket médio, de quanto a galera gastou na primeira edição?
Não fizemos o levantamento desse ticket médio. A ideia é conseguir fazer algo desse tipo junto com a Kaya Mind, a mesma que vai fazer a pesquisa neste ano pra gente. A gente quer entender não só de quanto que as pessoas estão ali na hora consumindo. Mas entender o quanto a feira no geral está movimentando. Muitas coisas, muitos negócios, acontecem não comprando na hora. Negócios que foram prospectados no evento e que vão gerar uma receita X. A ideia é a gente também entender o montante que a feira movimenta como um todo. Seja de negócios para expositores. Seja de gastos de consumo paras as pessoas que estão participando do evento e tudo mais. A gente vai se aprofundar um pouquinho mais na nossa pesquisa neste ano para entender mais a fundo o que representa em termos financeiros.
Olhando o mapa da feira, tem uma área medicinal forte lá. E perto tem uma avenida que é tipo a Rota da Seda, com várias marcas de seda, e aí começa a ir pro uso lúdico, adulto. Falando de quebrar muros, como a gente une essas ideias? O medicinal e a coisa do lúdico por muito tempo ficou um de um lado, o outro do outro.
Nossa, Filipe, você acertou em cheio e muitíssimo boa essa pergunta. Esse é nosso desafio porque a ExpoCannabis, diferentemente de algumas outras feiras que vão ou para festival de música, ou uso social, ou para área da saúde, aí é só feira médica, a gente não, a gente quer unir todo mundo. Então como conseguir ter representatividade de todos os setores que podem atuar na cannabis num mesmo espaço, sendo que muitas vezes eles não se conversam? Isso vai muito tde planejar um mapa muito bom onde a gente consegue representar essas diferenças e trazer também para a feira toda essa representatividade. É isso que você falou. O que a gente pensou: muitas vezes o medicinal não se dá com o uso social. Eles estão em pontos extremos do mapa. O medicinal logo na entrada do evento, o pórtico de entrada para o medicinal, com as empresas do medicinal ali mais isoladas, não isoladas, pois a feira não isola ninguém, mas mais separadas ali do restante dos expositores. E vai ter um segundo pórtico de entrada que dará acesso a todo o resto das indústrias ligadas ao setor. Então a gente chama de Setor Medicinal e Setor Plural, que é o restante do pavilhão 7. Quando a gente passa para o pavilhão 8 tem o Setor Cultural. Onde vai ter mais empresas representando o uso adulto, o consumo, o cultivo. A ideia é qual? Ter todos no mesmo evento, mas de alguma maneira criar seções onde o público vai conseguir ver essa diferença.
“Como conseguir ter representatividade de todos os setores que podem atuar na cannabis num mesmo espaço, sendo que muitas vezes eles não se conversam?”
É um desafio muito grande, ano passado não tinha um setor medicinal específico no evento. Tinha uma sala com as associações de cannabis e todo o resto misturado. Aí fizemos a pesquisa com a Kaya Mind e descobrimos que 33% do público estava interessado no medicinais. A gente pegou essa pesquisas e o que vai fazer? Se o público está interessado no medicinal. A gente não trouxe (no ano passado) muitas empresas do medicinal porque focamos nas associações. E como a gente vai conseguir fazer isso? E trazer também as empresas do medicinal,. Vamos criar um setor do medicinal, mais afastado do palco onde a galera sai ali pra fumar e tal. O grande desafio é montar esse quebra-cabeça que consiga atender os interesses de todos os expositores. E foi ótimo, a gente conseguiu. Já tá 98% de tudo vendido. Ainda temos empresas fechando de última hora. Mas até a feira a gente vai estar com todos os espaços preenchidos e com todo o setor medicinal preenchido também. Foi o grande desafio, será que as empresas do medicinal vão querer participar desse desafio? Então, como isso vai funcionar? A gente conseguiu, mas foi, digo para você que foi uma das coisas mais desafiadoras, em termos comerciais, conseguir mostrar para as empresas do medicinal que importa, sim, estar ali na feira. Pois temos um público muito amplo e estamos trazendo para a feira pessoas que não sabem o que é cannabis. Por isso é muito importante essas empresas estarem lá para se posicionarem para esse público que não conhece nada do mercado.
Falando aí em plural, diversidade. Tem algo no mercado no Brasil , na feira do ano passado era notável também. É que ainda é muito elitizado, principalmente os donos das empresas, lugares que se anda do mercado, se vê mais pessoas brancas. Existe essa crítica. Mas no mapa da feira vi a área de pequenos negócios, fiquei curioso para saber mais. Como incentivar diversidade, incluir grupos que por muito tempo ficaram excluídos dessa discussão?
O que nós pensamos nesse espaço cultural é exatamente isso, disponibilizar espaços menores, mais acessíveis para pequenos empreendedores e pessoas que estão lançando seus negócios, trabalhando com serviços. No ano passado, por conta do tamanho do espaço físico da exposição, a gente não conseguiu ter essa representatividade. (a Expo) Ficou mais restrita para as empresas maiores, grandes marcas. Neste ano, nós triplicamos o tamanho do espaço de exposição. A gente conseguiu pegar todo um pavilhão, que é o pavilhão 8, e destinar para os pequenos negócios. E aí com isso a gente consegue trazer a representatividade de empresas menores, que não conseguiram participar da primeira edição do evento.
Além disso, a gente tem também uma série de stands que a feira doa para movimentos que a gente acredita serem interessantes em toda essa discussão e visibilidade, de pessoas excluídas, de movimentos que trazem o acesso para o público mais amplo. Então a gente tem, por exemplo, doação de stands para movimentos qe trabalham com pessoas negras, periféricas e que precisam de acesso à cannabis. Como trazer esse movimento pra dentro do evento? Então a gente abre a feira de uma maneira gratuita, isso é doado para movimentos. Vai ter ali a Marcha das Favelas. Tem diversas associações que não podem pagar para ter stand. Que estão iniciando. Ou que passaram por algum momento de instabilidade e precisam mostrar ao mercado. Também apoio para startups que estão iniciando seus projetos e que muitas vezes não podem trabalhar de maneira regular, mas estão falando de um tema educativo, importante. A gente está trazendo também a academia para dentro da feira. Tem as universidades que têm os centros de pesquisa estudantil falando sobre o tema, também participando do evento. Então, de maneira que a gente pode contribuir para que todos esses atores consigam mostrar o trabalho que está sendo feito dentro da feira? Acredito que todos os eventos deveriam dar espaço para esses lugares. Não tenho visto isso acontecer nos outros eventos. Inclusive neste ano a feira abre o evento para outros eventos de cannabis no Brasil. Vai ter ali outros pequenos eventos divulgando seus eventos dentro da Expo, com ao menos cinco sendo representados dentro da nossa feira. Por quê? Porque a nossa feira, até pelo porte, só vai acontecer uma vez ao ano. Mas a gente entende o papel também desses eventos menores de estarem acontecendo com mais frequência, para trabalhar a informação sobre cannabis, e isso precisa continuar. É um evento grande e grande e precisa dar voz para todo mundo.
Bueníssimo, e já deixando a Expo de lado, ou temos mais alguma questão da Expo?
Não, tá ótimo. Quero é saber um pouco mais da Lari.
Claro, conta pra gente como você chegou na maconha, Lari.
Nossa, sempre empreendi, desde jovem. Sou empreendedora desde criança, pegava uns adesivos e vendia na escola. Voltava com uns bolinhos de dinheiro e minha mãe “O que é isso?”. E eu “Vendi os papéis de carta que ganhei da tia”. Ficava sempre negociando, vendendo as coisas, criando projetos. Então falo que sou uma empreendedora desde criança. E como eu cai na maconha? Eu passei, antes de cair na maconha, por diversas empresas multinacionais, sempre ligadas à área financeira ou de riscos, estratégia. Sempre trabalhando nesses setores. Trabalhei muito com auditoria, estratégias, mitigação de riscos, criação de departamentos de riscos, etc. Montadora, fábrica têxtil, fábrica de capacete e etc. Depois acabei montando consultoria de gestão empresarial e fiquei nessa consultoria por dez anos. Era uma consultoria focada em reestruturar empresas que estavam quebrando. Pegava as empresas quase falindo ou em recuperação judicial e montava um plano de reestruturação completo. Fiquei fazendo isso por dez anos, mas, assim, isso me consumiu. Não era satisfatório pois estava trabalhando com clima negativo, funcionários vendo que a empresa estava falindo e todo mundo desanimado. E aí eu tava de saco cheio e, poxa, não estava mais a fim de trabalhar com isso. Quero criar algo que eu goste, que eu me identifique. Na época, minha melhor amiga de infância, que é a Tamara, falou “Vamos iinvestir num negócio juntas?”. Vamos. Ela tinha um apartamento, vendeu, e a gente comprou um projeto que já tinha iniciado, de outra empresa. Que é uma plataforma, um Airbnb, e estou falando disso há 14 anos, que era tipo de experiências no litoral. Queria ir pra praia, você encontrava não só a pessoa que oferecesse sua casa, mas oferecesse curso de surfe, uma aula de kitesurfing. Que fazia eventos ali na praia. Sarau, poesia, algum tipo de experiência no litoral. Esse era o lance. Essa plataforma funcionou por dois anos e aí, na época, uma pessoa falou da cannabis. Por que não transformar isso numa plataforma mais vinculada à cannabis? A pessoa sabe que vai se hospedar no lugar sem problema de poder fumar um. E a gente proporciona experiências ligadas à cannabis.
“Mas será que isso vai dar certo?”. Eu sempre fumei, né? Mas nunca tinha visto isso de uma maneira nos negócios e achei interessante, pesquisei mais sobre isso. Será que podemos fazer no Brasil? Como funciona? Comecei a pesquisar mais do setor e me apaixonei. Já usava de uso adulto, não tinha haver com saúde. Mas depois descobri que eu poderia tratar minha enxaqueca com isso e comecei a pesquisar mais sobre o assunto. E comecei a me tratar com óleo pras crises de enxaqueca e nunca mais tive crises de enxaqueca. Quer dizer, tenho, mas não com a mesma frequência que antes de eu começar a tomar o óleo. E ai a gente transformou essa empresa na antiga Micasa420 . Foi aí que entrei de fato no setor. Aí transformamos toda a plataforma em hospedagem e experiência ligada à cannabis. E essa empresa acabou se transformando em uma agência de turismo onde começamos a criar pacotes para as pessoas vivenciarem essa experiência não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Mas como assim no Brasil? Já tinham feiras e eventos rolando no Brasil. Uma série de coisas rolando aqui e a gente queria apresentar e dar a oportunidade para as pessoas conhecerem eventos fora. O primeiro pacote que a gente vendeu foi para a ExpoCannabis do Uruguai. Então o meu contato com a ExpoCannabis começou lá em 2016, quando a gente lançou o primeiro pacote de viagem para o público conhecer a feira no Uruguai. Foi assim que começou tudo, e aí acabei abrindo uma empresa de educação sobre cannabis, pois realmente acredito que a educação é importante. Aí abrimos a Open Green, que até hoje está no ar, com diversos cursos, com o objetivo de profissionalizar as pessoas que queiram ou já atuam no setor da cannabis. Por último, veio a organização do evento no Brasil.
Você fala muito pelo viés do empreendedorismo, todo um discurso que coloca que é muito importante para o país para o momento, para virar esse jogo. Aí fico pensando, você, Lari, pessoa, o que você espera com todo esse movimento canábico que começou a instigar? Quais são as bandeiras da Lari?
Vouu mais para o ativismo. Antes mesmo de empreender, fazia parte de alguns movimentos. Marcha da Maconha, ajudava associações a se posicionarem. Antes de empreender de fato eu estava mais envolvida com ativismo. Meu objetivo é ver a planta livre e acessível para todo mundo. Empreendedorismo vem a calhar, pois é lógico que é muito gostoso trabalhar com cannabis. É muito bom! E eu sempre tive esse perfil de empreender. É lógico que ia fazer esse link em algum momento, mas o que quero mesmo é uma mudança. Mudança na sociedade, nossa vida é muito curta e o quanto a gente puder contribuir para mudar algo, para deixar o mundo melhor para todo mundo, melhor. Penso muito na minha filha, nos nossos filhos, e eu vou lutar até o fim.
“As empresas são reflexos do que eu acredito. Acredito que, sim, é possível uma pessoa entender mais sobre a planta se ela viver uma experiência com a planta“
Acredito realmente que a planta precisa ser acessível a todo mundo e a gente precisa quebrar muitos tabus para poder avançar. Então tudo que eu faço hoje por meio dessas empresas é de fato buscar algo maior, que é facilitar o acesso da planta para qualquer pessoa e que não seja elitizado, que seja possível qualquer pessoa Todo mundo precisa pressionar. Não sou eu sozinha, é todo mundo. Informação é importante para que todo mundo junto consiga pressionar por mudanças no nosso país. As empresas são reflexos do que eu acredito. Acredito que, sim, é possível uma pessoa entender mais sobre a planta se ela viver uma experiência com a planta, por isso que a gente lança a Expo com a planta. Acredito, sim, que o acesso a informação e educação é importante para promover mudança, por isso a gente criou a Open Green. Acredito, sim, que a gente precisa mostrar que o mercado já existe, está aí. Precisa mostrar isso por meio de uma feira. A Larissa acredita nisso, de que a gente precisa de diversos pontos de contato com a planta, seja de conhecimento, seja de experiência empírica. Seja pra mostrar para fora de nossa bolha que o setor está aí. Pois é urgente a gente falar desse tema e lutar por mudanças no país, fico muito triste ainda que sempre que estou visitando outros países, outros eventos, vejo o quão atrasado o Brasil está e o tanto de potencial que temos a oferecer no nosso país, que tem terra pra caramba , tem mercado, tem força de trabalho. E a gente não está aproveitando por causa de uma lei proibicionista, totalmente sem sentido e que já mostrou que não é eficiente. Como a gente vai fazer pra mudar isso? Eu realmente acredito que a base é informação. E o que vocês estão fazendo também (a Breeza), que é trabalhar com a informação, é essencial pra gente falar mais sobre o tema em qualquer esfera.
Assim, espero muito que nos anos que eu viva aqui na Terra, consiga de alguma maneira ter algum tipo de impacto na sociedade. É isso que eu busco, sabe? Porque eu acho que todo mundo que está vivendo hoje precisa pensar dessa maneira. Falo até isso pois no início me preocupava muito com comentários tecidos em redes sociais, de quando lan;amos a feira. Sempre com alguma crítica. Muitas vezes não podemos nos apegar à crítica, mas ao que estamos fazendo. Não acho que o evento está acontecendo da maneira que esperava, pois, na minha visão utópica, seria aberto ao público, a quem quiser chegar lá. Não pagaria para entrar. Essa é minha ideia utópica. Mas não é possível, hoje, dessa maneira. Pois sabe o quão custoso é produzir um evento desse porte? Muitas criticas em rede social, e muitas vezes me pergunto “E você, o que tá fazendo? De que maneira está construindo isso?” Muito fácil criticar. Mas você está fazendo o quê para mudar? Todo mundo tem de ter esse pensamento de contribuir para uma mudança. “O que eu vou fazer? O que a gente pode fazer dentro de nossos limites?”. Faça críticas, amo críticas construtivas, mas criticar por criticar não leva a nada. Faça também algo para mudar isso. Se as pessoas se informarem mais vão empurrar e questionar mais para que a gente possa mudar. Esse é o recado. Sozinha não vou mudar nada, ninguém vai. A gente precisa ter esse objetivo de mudança. E cada um tem de fazer a sua parte.
Bueníssimo. Tem coisa aí ainda..
No início a gente chorava. A gente trabalhou 400 dias, a primeira edição, foram pouco mais de 400 dias, a gente trabalhou 420 dias para quando lança o evento… o pessoal “Mas isso daqui, porque não fizeram isso?” Gente, não dá. Se desse, tava feito. A gente vai fazer da maneira que dá. Mas o que mais me incomoda é quando eu via alguém criticando e ai, bom, a pessoa fica só no hate. A gente tá falando da humanidade, do nosso contato com natureza, de cura, de temas que não é pra envolver hate. Isso que é muito desconexo muitas vezes no setor da cannabis. E só encontrei isso nesse setor. Atuo em outros setores também, como no mercado erotico, e não é assim. Já atuei muito nesses setores mais industriais, de construção. Não é dessa maneira, apesar de ser totalmente empresarial. Mas a gente vê que no setor da cannabis tem. É muito desconexo. A gente está falando de uma planta que é da natureza, não de ninguém, mas a gente vê um monte de ego envolvido. “Eu sou o melhor cultivador, eu sou o melhor nisso e naquilo”. Todo mundo se acha o rei e a rainha da maconha. Entendeu? E, cara, não faz muito sentido.
A Expo vem com essa representatividade de executar projetos que estejam de acordo com o que a gente acredita. Que nosso setor vai pautar ali com muita propriedade. A compensação do carbono emitido pelo evento, não foi em compra de créditos de carbono, mas com o cultivo de cannabis no Brasil por meio de uma associação. O carbono que foi emitido foi compensado com esse projeto de plantar com a associação. E é um projeto que eu amei. A feira tem de representar o que a gente acredita. E a planta tem tudo a ver com sustentabilidade. A gente precisa trilhar esses caminhos que vão mostrar que a empresa vai representar o que a gente acredita. Muitas vezes não vejo as empresas tendo esse olhar. Apesar de ter essa veia do business, acredito que a gente pode sim transformar, com negócios, de maneira positiva.