Na Breeza

Do reggae ao business 

Como o baixista do Natiruts, Luís Mauricio, teve a vida influenciada pela 'névoa branca que sai de trás do bambuzal', tanto na música quanto nos negócios
23|05|24

“Liberdade pra dentro da cabeça”. “Veja só a névoa branca que sai de trás do bambuzal / Será que ela me faz bem ou será que me faz mal”. O quanto esses hits circularam pelas rodas brisadas? O baixista Luís Mauricio há muito perdeu a conta dos que lhe contaram que tiveram o primeiro contato com a erva enquanto ouviam Natiruts.

Após 28 anos de estrada, a banda que levou seu reggae de Brasília para muito além do mar, anunciou o fim. Após o término, Luis Mauricio conta que não abandonará a música, com novos projetos como o Buena Onda Ganja Club. Além disso, esse término deve demorar um tanto mais, pois a banda fará ao menos 45 shows pelo Brasil, além do mesmo número fora do país, em uma turnê de despedida programada para acabar em 2026.

Porém, ele conta à Breeza que, no futuro, pretende se dedicar muito mais a outro elemento que, junto com o Natiruts e o reggae, sempre o acompanhou: a maconha. Agora, como um homem de negócios.

O reggae e a erva

Assim como boa parte de seus fãs, o baixista conheceu a cannabis por meio da música. “Foi enquanto ouvia Bob [Marley] que soube sobre a maconha pela primeira vez”. Ele tinha uns 15 ou 16 anos, pelo o que recorda. “Logo percebi como a música era sobre muito além de fumar, é sobre abrir a mente, questionar certas coisas. A maconha tem esse papel de fazer pensar e questionar”.

A planta lhe foi apresentada por amigos. Havia cachoeiras perto de onde morava, em Brasília, e logo a turma adotou o hábito de praticar alguma atividade física e depois fumar um na beira da água. Até hoje ele, que é adepto de esportes como corrida, lutas e malhação, gosta do efeito que a erva dá em combinação com o esporte. “O relaxamento muscular, a sensação de prazer e plenitude, a larica pra depois bater um rangão, o sono tranquilo. Me identifiquei muito com esse estilo de vida”.

Quando fundou o Nativus ao lado de colegas, que se aproximaram por um grupo da universidade, ele e a banda logo uniram a maconha e a música. “As mensagens chegam aos jovens em momentos de descobertas de vivências novas. Eles ouvem nosso som enquanto socializam”, avalia hoje Luis Maurício, já com a experiência de quase três décadas de estrada. As músicas do Nativus foram mesmo se espalhando pelas rodas. “A maconha, assim como a música, é quase um ritual, passando o baseado de mão em mão, e nisso gera diálogos, discussões. Quem tá na roda, ouvindo Natiruts, em um momento de pensar, fica aberto a olhar o mundo de outra forma, como para as questões sociais e raciais”.

A banda, que alcançou a fama em dois anos depois de seu início, em 1998, com seu primeiro disco, o Natiruts (rebatizado assim, antes chamava Nativus), povoa o imaginário como ícone canábico e também pelas mensagens de justiça social. Desde o álbum de estreia, as músicas passavam mensagens de luta: “Ouvindo esse som que vem dos elementos da natureza / Verde, amarelo e vermelho, representando a unificação / Dos povos africanos, fazendo uma só nação”. 

A defesa da legalização da maconha também sempre esteve em pauta. “As mensagens eram mais subliminares, como dizer da névoa branca que sai de trás do bambuzal. Naquela época, por qualquer motivo banal você ia preso. Dizia qualquer coisa e já podiam falar que era apologia.”

No início da trajetória, o pessoal da banda sempre fumava um antes dos shows. Apesar de conseguirem do orgânico desde sempre, Luís Mauricio recorda que só foi ter contato com variedades maiores de flores quando a banda realizou turnês na Califórnia, entre os anos de 2009 e 2010. “Foram as melhores brisas que eu senti. As plantas eram boas, a atmosfera de legalização, viver em uma cultura de liberdade, sendo que até hoje no Brasil estão querendo retroceder.” Naquela época, em terras californianas só era permitido o medicinal, mas um amigo que tinha a autorização comprava e repassa para a banda, que então já fazia tempo chamava Natiruts (tiveram de trocar o nome por problemas de direitos autorais).

Ele já havia então transformado um hábito de garoto, a música, em profissão (e bem rentável e de sucesso). “No começo a gente queria gravar um disco, talvez outro, fazer uns shows. Agora já são uns treze álbuns, se for contar todos, turnês internacionais maravilhosas, somos reconhecidos na América Latina, fomos duas vezes indicados ao Grammy.” Na Califórnia, começou a perceber que poderia também tornar outra paixão um negócio: a cannabis.

“Vi como era a regulamentação na Califórnia e entendi como o panorama estava mudando, mesmo que aos poucos, e que iria um dia chegar no Brasil”. Foi aí que o baixista do Natiruts começou a namorar ideias como de plantar, cultivar e de montar um negócio. “O que eu poderia fazer pra trabalhar com isso em meu país de forma totalmente legalizada?”.

A relação com a planta

Hoje aos 50 anos de idade, Luís Maurício parou de fumar, assim como praticamente não bebe mais, no máximo toma um vinho. “Quando comecei a usar o óleo com prescrição médica, fui naturalmente diminuindo a quantidade de baseados. Não tinha esse plano, gosto de apertar um”.

Após alguns dias usando o óleo, passou a sentir menor necessidade do fumo. Hoje, afirma ter parado, tirando em situações na qual está na roda com amigos e dá um pega ou outro. “Você vai evoluindo na sua relação com a maconha, entendendo o que te faz bem, o que te faz mal”. Hoje em dia ele diz ter consciência de que começou “precoce, com uns 15 ou 16, quando o melhor é adulto, acima de 20”.

Maduro, conta que se preocupa bem mais com qual tipo está consumindo, do jeito que bate, e que estuda o tema. Por isso, por exemplo, deixou de consumir THC, tirando nas rodas com amigos. No dia a dia, apenas óleo de CBD. Isso porque avalia que descobriu que o THC em alta dosagem não vinha mais lhe fazendo bem, como fazia na juventude. Estava lhe gerando ansiedade e outros sentimentos desagradáveis. Já o CBD só tem lhe batido bem.

A passagem para o óleo teve início pouco antes da pandemia, em 2019. Os benefícios que a erva lhe trazia, como a melhora no sono e o controle da ansiedade, somados às memórias de quando viu o mercado legalizado funcionando na Califórnia e à crescente regularização do medicinal no Brasil, reativaram sua vontade de investir no setor. O que ele fez.

Da formação original do Natiruts, ele e o vocalista Alexandre Carlo, o rosto mais conhecido do conjunto, são os que permaneceram após os 28 anos de estrada. Na última turnê, sonham em visitar todas as cidades brasileiras e também os países pelos quais passaram. Por isso, só acabará em 2026. O baixista não se vê sem tocar. “Continuo compondo, tenho músicas que passo pra outras artistas, e tenho um projeto futuro de um coletivo com um conceito bem direcionado para a cannabis, o Buena Onda Ganja Club [pelo óbvio, inspirado no cubano Buena Vista Social Club]”.

Ao mesmo tempo, afirma já apresentar cansaço da rotina de uma banda de peso internacional, como é o Natiruts, com viagens, shows, aeroportos, hotéis, muito tempo longe da família. “Sinto uma nova missão, com a idade passei a levar cada vez mais a sério minhas responsabilidades para com o público, a sociedade, o Brasil, e quero contribuir”.

O homem de negócios aflorou com maior força em 2020, quando passou a se envolver gradualmente com empresas nascentes do ramo da cannabis. “Eu queria entrar no setor de qualquer jeito depois de ver o quanto o óleo me ajudava como regulador de sono, apetite, ansiedade, emoções”. Nos EUA, ele faz parte da Plant Based Labs, uma white label que comercializa produtos do gênero, inclusive com exportações para o Brasil. Além disso, também tem investimentos na clínica Natural Science, de medicina integrativa.

“Me sinto pleno, artisticamente alcancei mais do que me propunha lá no início e essa missão realmente foi cumprida. Consegui me estruturar financeiramente de forma que não precisaria disso [investir no mercado da cannabis] para viver. Vi que precisava entrar nessa como um propósito”, afirma o baixista do Natiruts, que hoje também se apresenta como presidente da Associação Brasileira de Cannabis e do Cânhamo Industrial.

Filipe Vilicic