
Christian Dunker, com seus conteúdos provocativos nas redes sociais, nos ajuda a navegar por questões que nos afligem na vida de hoje em dia: vícios, burnout, paternidade, maternidade, neuroses, jogos políticos, ou mesmo de como entender melhor roteiros de filmes e séries pop. Maconha e outros psicotrópicos também são assuntos para o psicanalista, escritor e professor do Departamento de Psicologia da USP, como em seus vídeos no YouTube, que por vezes parecem saídos de sessões de terapia, algo como se tivéssemos levando algumas questões para a análise.
Os títulos de seus mais de 700 vídeos publicados indicam o tom da conversa: “A psicanálise e o discurso de Jair Bolsonaro”; “Vício em pornografia”; “Coringa” (sobre o filme do vilão do Batman); “Como encarar a velhice?”; “Uso de psicotrópicos na análise”. Parece não haver tabus e ele não foge de conflitos: tornou-se figura forte da oposição a Bolsonaro, bolsominions e, em particular, ao ideólogo destes, o falecido Olavo de Carvalho.
Apesar de colocar na roda uma conversa de alto nível que é rara em meio à cacofonia da internet, Dunker parece ter ganhado popularidade entre aqueles que buscam por esse tipo de luz intelectual em meio ao burburinho das redes. No YouTube, acumula mais de 30 milhões de views e 440 mil seguidores, que se somam aos 328 mil no Instagram e aos 43 mil no X (o antigo Twitter).
Na entrevista com Filipe Vilicic, jornalista da Breeza, Dunker falou de maconha, sexo, psicotrópicos na psicanálise, de atender pacientes emaconhados, de fumar um com colegas uruguaios depois de uma parrillada e de como lidar com a vida apequenada e empobrecida de hoje em dia. Confere aí essa conversa franca e sem tabus.
Lembro que vi um vídeo seu falando do uso de psicotrópicos na psicanálise. Num momento você fala da maconha e de como hoje seu uso está amplo. Num tom dos títulos dos seus vídeos, pergunto: como a psicanálise enxerga a maconha e a forma como está se espalhando hoje pela sociedade, já é a droga mais pop dos EUA?
A maconha tá migrando bastante, como no Brasil, dessa representação histórica de ser uma droga, criminalizada, sob processos jurídicos, e tá migrando pra condição de ser uma substância adjuvante, uma substância que produz certos estados mentais que a gente tá aprendendo a usar, a extrair benefícios, e a inclusive qualificar. Ou seja, tem benefícios analgésicos muito interessantes, como para pacientes com dor crônica, pacientes em situação terminal, isso é um recurso muito importante. A gente sabe que a dor crônica é devastadora para a vida psíquica, induz ansiedade, depressão, e a partir disso tem uma série de outros quadros. Mas também você encontra o uso pra reduzir ansiedade, pra reduzir a excessiva intensificação de pensamentos, e isso já requer um outro suporte psíquico pra você entender e trabalhar, para que aquele sintoma de base não seja suturado por uma substância química, como a gente vê tão frequentemente. Então… por exemplo, pacientes depressivos que começam a usar álcool, e o álcool melhora a depressão inicialmente, mas a longo prazo você vai ter dois quadros: uma depressão e uma dependência alcóolica. Algo análogo a gente tá construindo em relação à cannabis: o uso pontual, restrito, o uso acompanhado, tem se falado muito sobre isso, tem trazido muitos benefícios interessantes. E uma terceira via, mais recente, é a exploração dos efeitos do THC, dos efeitos de transformações de experiências do prazer. Isso inclui as alterações dos estados de presencialidade, da própria percepção, da relação com o próprio corpo; e tem efeitos potenciais muito interessantes quando a gente pensa em pacientes de linhagem traumática, de pacientes que passam por sequelas de violência, muitas vezes de violência continuada, de violência na infância, onde a gente tem uma forma mais ou menos típica uma redução, um empobrecimento do arco de satisfação e de relação de satisfação e prazer com o outro e consigo. Por exemplo, estados de hipocondria que muitas vezes se sobrevêm ao susto de um adoecimento, a uma condição de preocupação somática com o próprio corpo. A cannabis é um caminho muito promissor e a gente vê sendo usada espontaneamente por pacientes, às vezes fazendo experimentos com a própria trajetória. É um processo de criação e transformação social em que a gente está já no meio, já em curso.
“A cannabis é um caminho muito promissor e a gente vê sendo usada espontaneamente por pacientes, às vezes fazendo experimentos com a própria trajetória. É um processo de criação e transformação social”
Me veio outro vídeo seu na cabeça, em que você se pergunta se pode fazer análise bêbado. Fazer análise sob alteração, sobre efeito de maconha… pode? É bom para a psicanálise, principalmente pra quem usa com mais constância?
Olha, é comum que venha paciente que fumou, ingeriu o óleo. Mas a minha impressão, e claro que é totalmente intuitiva, é que os ganhos empatam com as perdas. É muito mais interessante quando você emprega a maconha, a cannabis pra produzir a sua viagem, pra produzir as suas reflexões, pra reverberar um sonho, pra encontrar uma outra injunção sexual, e na análise é legal você contar isso. Na análise, olha, você não vai viajar aqui, você vai viajar lá e aí você pensa a respeito, você associa, você descobre coisas sobre o que aconteceu lá. Esse é um modelo mais interessante do que quando você está acompanhando um paciente que precisa, que está em uma alteração de consciência, mas aí acontece esse efeito que muitas vezes os nexos que são feitos ali não se preservam muito depois. As associações preservam uma espécie de cápsula temporal onde você tá naquele modo. O Freud sugeria que a análise deveria acontecer em um regime de relativa abstinência, isso vale para todas as abstinências.
O que é “relativa” (abstinência)?
Nesse caso é que a própria análise não seja uma situação de produção de satisfação, por exemplo, você ter um intercurso com o paciente… “ah, vâmo lá, trepar” [ele muda o tom de voz, interpretando um personagem]… não dá, é contrário à coisa, mesmo que as pessoas estejam tentadas a isso. Às vezes a gente se empolga, diz que “eu iria adorar conversar com essa pessoa [o paciente], sobre o que está passando, como uma pessoa interessada na história da pessoa, no conflito”. Mas a gente tem ali uma condição metodológica de evitar certas situações para inclusive proteger a transferência. Se você embarca numa viagem junto com o seu paciente, o próprio processo de associação livre acaba sendo comprometido. Não é aquela neutralidade do cirurgião, aquele distanciamento inafetivo, pouco empático, mas é uma distância simbólica onde a gente consegue assim criar uma liberdade artificial de pensamento, de fala, de lembrança, de deixar vir.
E hoje voltou a se falar, como se falava lá no passado, de LSD, ayahuasca e outras substâncias psicotrópicas que afetam nosso consciente e inconsciente no uso em análise, em psicanálise, tem até esse plano de ir pro SUS. Como você vê essa aplicação?
Os resultados são muito promissores porque a gente tem aí tanto o campo das experiências alucinatórias, quanto das experiências enteógenas, que são muito legais, assim, o sentimento de que tem modos de existência outros, de que não estamos sozinhos, mesmo que não tenha uma crença ideológica, mágica ou religiosa, é a experiência de que nem tudo responde àquilo que você está habitualmente, vamos dizer, em contato, representado as versões que você tem de si. São experiências que tiram a gente pra fora do usual, do que somos. Por exemplo, para pacientes terminais é uma experiência que… ateus, por exemplo, é uma experiência muito importante [para eles]. Por que a capacidade de isso diminuir certas angústias, em torno do fim, de que vai ter um acabamento sem resto. Substâncias enteógenas como ayahuasca são muito interessantes pra isso pois elas abrem para outras dimensões, esse é um relato constante. Sim, outras dimensões são muito importantes para a vida, especialmente na vida às vezes compactada, muito orientada pra funcionalidade, muito empobrecida, vida de estrutura de listas, muito conformada, muito adaptada.
“Tem aí tanto o campo das experiências alucinatórias, quanto das experiências enteógenas, que são muito legais, assim, o sentimento de que tem modos de existência outros, de que não estamos sozinhos”
A vida de hoje em dia, da maioria das pessoas, né?
Pois é, a vida apequenada. O Freud tinha uma definição que funciona muito bem para esse contexto e que é mais ou menos assim: olha, a gente tem uma encruzilhada ética, a gente tem de fugir desse desprazer – começamos [a entrevista] falando sobre isso, da dor; e a gente tem de procurar prazer, tem de ampliar as nossas formas de satisfação. A vida contemporânea vem cada vez mais de um pacote de sobrevivência: se oriente para se empatar o jogo, já tá bom; se você não perder o emprego, tá legal; se pagar as contas já é o suficiente. Que dizer, muita fuga do desprazer e pouca procura do prazer que a gente chama de qualificado. O que acontece com essa vida mais empobrecida, né? O prazer vira aquela sexta-feira de arromba, o cara vai e derruba todas e acorda no dia seguinte naquela ressaca moral e etc., e volta pro trabalho e leva uma vida muito pressionada… pressão, pressão, pressão… e depressão! Acho que as experiências com cannabis, com cogumelos, com psilocibina, são muito interessantes porque elas aumentam o gap: “Olha, você pode querer mais! Pode querer uma vida mais prazerosa. Olha, existem outras modalidades de satisfação que você nem tinha pensado”. Outra dificuldade desse empobrecimento é que a pessoa vai se fechando. Aliás, antigamente essa questão dos abusos de drogas era [um problema de] tornar a pessoa monovalente: é só o uísque, só o vinho, só a pinga, ou só o crack. Esse estreitamento é mal vindo. A cannabis, inclusive, historicamente o quê se dizia? “‘É a porta de entrada para as outras drogas” [diz em tom irônico]. Talvez ela seja a porta de entrada para outros prazeres, e é por isso que as pessoas não gostavam disso. “Não abre essa porta, fica aí no quartinho, não avança pro resto da casa porque tem, assim, quartos perigosos”.
Vários pontos foram tocados e tem um importante também que é: Como saber quando se passou do limite? Por exemplo, com um paciente seu, como saber que ele passou do limite? De que precisa de outra orientação, de redução de danos, de tratamento…
É uma conversa, né? Cada um tem o seu jeito de introduzir essa experiência e que função ela tem. Por exemplo, uma pergunta clínica que a gente tem em mente é: isso está concorrendo pra você ampliar seus laços sociais, suas experiências de satisfação, isso é um a mais? Quer dizer, você tem sexo legal e aí usa cannabis e o sexo fica mais bacana? É um conceito muito desprezado, pouco tematizado de uso re-cre-a-ti-vo [ele fala de forma pausada, para destacar a palavra].
“As experiências com cannabis, com cogumelos, com psilocibina, são muito interessantes porque elas aumentam o gap: ‘Olha, você pode querer mais! Pode querer uma vida mais prazerosa. Olha, existem outras modalidades de satisfação que você nem tinha pensado'”
O problema é quando o sexo só é bom com, também…
Isso, então quando você diz assim “preciso fumar, ou não aguento aquela reunião”, “preciso fumar, se não minha ansiedade vai lá em cima”, preciso fumar senão não consigo ir naquele encontro direito sem fumar”. Ou não consigo ter um bom sexo, né? Quer dizer quando vai perdendo o estatuto do “a mais” e entrando no estatuto do “sem isso eu não consigo”. E às vezes isso é um processo psíquico, como muitos jovens de hoje às vezes tomam Cialis, tomam substâncias pra manter a ereção por medo de perdê-la, de não desempenhar muito bem. Não é que o sujeito precisa, mas é que ele entra nessa relação aí, mais condicionante. E daí como você vai verificando isso? É aquela roda em que todo mundo se encontra pra conversar, rodar um baseado, ou você vai fumar sozinho? Sempre sozinho, pô? Costuma ser um mau indício. Claro, tem aquela pessoa que tem um modo de vida mais solitário, tudo bem. Mas frequentemente fica sendo aquele parceiro que tá faltando. Então, que tal arrumar alguém, pra fumar junto desse alguém? E não ser um substituto, no fundo, de outra pessoa nessa relação. Às vezes a gente encontra isso no pessoal que faz grow, que planta, que vai entrando em uma jornada um pouco substitutiva com a planta que cresce, como uma filha, como uma esposa, e aí perde um pouco essa função que seria tão legal. Hoje, vamos lembrar, está permitida a plantação de seis espécimes por pessoa… muito legal! Vamos tornar isso um processo de jardinagem, de fertilização de ideias, de uma cultura. Não de repolhos, não de milho, mas de sativa ou de indica. Então como você extrai os melhores grãos, as melhores flores, [qual é] a época do cultivo? Isso tudo precisa vir pra uma outra narrativa, precisa se tornar parte de um ramo. Tem gente que faz jardinagem e tem gente que faz a cultura de beneficiar, de fazer cruzamentos, porque o discurso sobre a maconha ainda tem muito ranço do isso é crime, não pode, não vai, deixa ou não deixa. Isso é outro problema, de a pessoa entrar dentro do consumo nessa outra conversa, do pode ou não pode, de ser criminoso, de fazer mal pra saúde. Tem isso, faz parte, mas quando é o centro da coisa, não é legal.
Mas tem alguma raiz psicanalítica pra esse proibicionismo?
Nenhuma, Freud fumava trinta charutos por dia. Era contumaz, ficou com câncer e mesmo assim “ninguém tira meu charuto, não largo mão do meu charuto” [ele imita um personagem]. São situações que você, digamos assim, não vai proibir. E na verdade a atitude proibicionista… sei lá, tem excessões que a gente pode pensar… mas ela é muito ruim do ponto de vista psíquico pois diz “olha, seu problema é o objeto, e não a sua relação com ele”. Então, “olha, você tem de bloquear o acesso ao objeto, pois se o objeto aparecer ele te domina, então, quer dizer, você não pode fazer nada com isso, ele assume seu controle mental”. Essa teoria, que tava ligada à Guerra às Drogas e tal, foi desmentida, não é assim que funciona. Tem lá os estudos do Bruce Alexander, canadense, que inventou o rat pack, quer dizer… se você tem um ambiente super pobre, violento, agressivo, o rato vai preferir a heroína à comida, vai querer morrer, né?… indo pra heroína! Se você tem um ambiente com brincadeiras, outros ratos, outras ratas e etc., alguns vão de fato ficar dependentes e se expor ao uso abusivo, mas em número muito menor. Fora da tendência geral, e muito curioso que esses estudos são das décadas de 70 e 80, e eles foram bloqueados, as linhas de financiamento foram cortadas, não conseguiam expor mais os resultados. Isso a gente tá vendo, tá acontecendo muito com as indústrias farmacêuticas, que patrocinavam pesquisas durante anos, mas fazendo a prática do engavetamento: “Essa pesquisa deu resultado, é a favor… a gente publica! A outra? Engaveta! A gente pagou, pra quê vai pro público”. É um tipo de jogo irregular e isso foi feito com LSD, com as substâncias alucinógenas. Isso é um recalque histórico que precisamos, vamos dizer assim, ajustar contas com a Ciência. Isso não é ciência, isso é um macarthismo, tem toda a história nos Estados Unidos e tal, e foi por outras razões, razões alheias à pesquisa de fato, de “Vamos ver se ajuda, se melhora”.
E por que agora está tendo uma virada nas pesquisas e nos pesquisadores? Por que o resto não tá funcionando. Por que hoje os antidepressivos curam menos do que há 40 anos. A gente não tem as, vamos dizer assim, novas drogas, “A gente agora vai descobrir que cada novo paciente vai ter a sua…”. A gente continua com as mesmas [drogas farmacêuticas] que a gente já sabia, melhora um pouco, diminui os efeitos colaterais, mas o conceito [da farmacêutica tradicional] deu no que deu, e não vai resolver. Então, de onde vai vir a cavalaria? Vamos olhar pras ervas tradicionais, pro uso em contexto narrativo. Então não é… eu briguei bastante com a ideia de que você poderia substituir, como alguns apontam, né? “Tira o antidepressivo e põe a maconha”. Não vai funcionar. Por quê? É o modo de uso, o modo de vida, a cultura que você tem de mudar. Se você tem uma cultura de drogadição ou do uso químico de substâncias, ou seja, imaginando que o sofrimento mental, os sintomas são um déficit de mera química no seu cérebro, aí não vai adiantar, a racionalidade vai continuar a mesma. E isso inclusive com o pessoal que trabalha com o uso de óleo e etc., a gente questiona: tem de mudar o modo de uso também, não é só trocar uma substância artificial por uma natural e continuar tomando em pílulas, individualizadamente, sem acompanhamento, por prescrição feita pelo amigo ou por um não especialista.
“Tem de mudar o modo de uso também, não é só trocar uma substância artificial por uma natural e continuar tomando em pílulas, individualizadamente, sem acompanhamento, com prescrição feita pelo amigo ou por um não especialista“
Dunker, e como é sua relação com a cannabis, com CBD, com substâncias psicoativas? Você é um experimentador também, dentro e fora da psicanálise?
Muito ocasional, eu diria. Na juventude, sim, na faculdade e tal. Depois, quando tem… ou vou dizer assim, eu tenho há muitos anos uma pesquisa com o Uruguai, eu vou para o Uruguai e os uruguaios vêm estudar aqui com a gente na USP, e daí é muito interessante você ver o que aconteceu ali na relação com a cannabis. Você vai pra uma parrillada e no final todo mundo vai pra rua, e fuma e daí roda uma tora gigante, você não imaginaria nunca isso no Brasil, e eles são muito concessivos, muito interessante. Eu vinha com minha cultura old school, então “vâmo lá, enrola” [muda a voz, faz um tom meio malandro]… isso não é o papo do malandro, entendeu? Isso aqui é um ritual, que a gente faz devagar, vai lá e toma um vinho, come um negócio, e eles se cuidam pra ninguém ficar muito alterado e se pôr em risco. Você tem ali toda uma comunidade e é outro jeito de lidar com a coisa. Não sei, mas você deve conhecer essa história, né? Ela tem uma relação muito interessante com as mulheres, sabia?
Fale mais!
Era um país pequeno e tinha lá, como todo lugar, o pessoal que fazia o tráfico e tal. Daí eles foram prendendo os homens e sobrava a mulher. O sujeito era preso e ficava lá a mulher dele, com a casa e tal, e muitas vezes não tinha como seguir adiante nas despesas, então elas herdaram o negócio. Só que daí era bem-feito, tipo assim “olha, você vai fumar aqui, eu vou cuidar de você depois, tem um chazinho e não vai sair por aí como uma besta-fera, se ficar aqui todo dia enchendo o saco, eu não vou deixar…”
É a roda de fumo da mãe, né?
Exatamente, é a mãe tomando conta e elas entenderam isso pois viram os maridos se comportarem de um jeito e serem presos. Começa confusão, um briga com o outro e o resultado é que todo mundo se ferra. Elas começaram a levar o negócio para outra plataforma, o que é muito legal, pois introduziram o que tava faltando, que é a relação de cuidado. “Vem aqui, você fuma na casa da mamãe, tá bom? Fuma lá. Tá melhor? Agora pode sair”. Se não, dá cagada, vai deixar o moleque incauto sair por aí… aí todo mundo se ferra. Isso foi antes da legalização, muito importante você não sobrepesar o movimento jurídico. Tem de desciminalizar, tem de acabar com esse negócio de aprisionamento de jovens negros, isso é ridículo o que está acontecendo com a população carcerária do Brasil, terceira ou quarta do mundo. Racismo, né? Um tipo de racismo aplicado à descriminação excessiva de uso de maconha entre jovens da periferia. Isso tem de mudar, mas nós precisamos ter nossas mães uruguaias, tem de mudar o patamar da conversa, do que a gente tá falando. Vai fazer esse tipo de experimento? Então vamos tomar cuidado, vamos como a gente aprendeu: não enche a cara e pega um carro. Não é ser a favor ou contra, de “vou te pegar, aí vai na polícia, bafômetro e o caramba”. Tem tudo isso, mas não é o essencial, o essencial é que a gente mude.
Como a gente leva essa conversa que fala de redução de danos, que tá em outro patamar, para a população em geral. Você é um ás das redes sociais, do Youtube – que você até fala de um jeito diferente (a palavra YouTube)…
Às, não. Sou um valete [faz sinal de mais ou menos com a mão direita], talvez uma dama. Mas tem outros aí mais poderosos.
Mas tem muita desinformação nas redes, né? Muita cacofonia.
Sem dúvida.
Como passa essa informação aprofundada sobre o tema, pra poder quebrar essas barreiras, essas hipocrisias, essa criminalização, como a gente quebra tudo isso usando a comunicação?
É difícil porque você vai ter uma divisão da comunidade científica, psiquiátrica e que vai ser usada para posições políticas. Então, fica muito difícil você dizer assim “Olha só, o mundo inteiro pratica redução de danos. O mundo inteiro já estabeleceu que aqui, ó, se a gente quer uma alteração aqui, a gente precisa providenciar habitação, espaços de usos seguros, no nosso caso [Brasil] não `é tão importante, mas seringas. Seringas que…”
[O cachorro e o gato de Dunker começam a brigar e ele interrompe a fala – “Vocês dois, eu tô fazendo uma coisa importante aqui, vai pra lá!”]
O gato brigando com o cachorro aqui [risadas]. É… espaços seguros, pessoas de referência pra momentos de crise, você tem protocolos. Mas aí tem um outro grupo que diz assim, que nem com negacionismo climático: “Ah, mas você tem lá os 5% das pesquisas que falam que isso não funciona. Ah, mas tem aquela outra pesquisa que fala que aquilo lá… Ah, mas a evidência pra isso não é tão boa quanto a evidência praquilo…” Ciência é debate, ciência tem uma flutuação e não tem consensos massivos, assim “cala a boca do outro!”. E isso é muito ruim pois você acaba transformando essa questão numa questão de o que a opinião pública acha, de o que os não-usuários acham, do que o cara que nunca pisou e nunca viu acha, e aí é Dunning-Kruger: quanto menos você sabe, mais você acha que sabe. Aí começam a tirar essas pessoas da rua, mistura com higienismo, segregação, racismo. Aí a conversa fica irrespirável.
A gente teve lá na cracolândia, a gente não gosta aqui de propagar essa nomeação… mas a gente teve durante anos durante anos dois projetos totalmente diferentes, um que fazia redução [de danos] e o outro de abstinência, um de frente pro outro, na mesma rua, atravessa a rua, ia pro lado e pro outro. E no meio as pessoas consumindo e sendo violentadas por todo mundo, polícia e companhia, e descaso, e agressividade social, e as mangueiras. A gente perde por não escutar os atores e formar. Olha, gente, vamos escutar os usuários, o médico de cá e de lá, vamos escutar o urbanista, vamos escutar os interesses de empreiteiros e incorporadoras. Vocês querem construir prédios? Então dá habitação pra essas 2 mil pessoas aqui. “Ah, não, mas aí a gente vai o quê? Tá favorecendo o crime, o tráfico e o caramba”. Tolice, tolice. Tem de escutar o tráfico, tem de escutar a polícia. Quando digo isso [de escutar a polícia], as pessoas dizem “Mas não pode”. Mas eles estão lá, sofrendo também, estão reproduzindo violência, tem lá suas relações de todos os tipos com todos os atores. Isso é uma coisa que a cultura da cannabis traz consigo: é uma cultura da conversa, uma cultura da palavra, uma cultura da não-violência, intrinsecamente. Então, vamos discutir a planta, o uso e o consumo? Não, vamos discutir o que vem envolta com ela. Como você cria, como distribui, o que é um abuso, e daí você chega em redução de danos. Por que apresentado de uma maneira contextual inespecífica, num contexto de guerra, vira um “então vocês são lenientes com usuários de drogas”. Internação compulsória… você sabe que não funciona. Já é difícil com a internação voluntária, com a compulsória os resultados são piores ainda. Agora, o que está acontecendo com essa matéria é uma coisa muito pior, que são as comunidades terapêuticas, de natureza religiosa, empreitando dinheiro do estado pra colocar o sujeito e ganhar novas almas à base de chuveiro, lavagem cerebral, abstinência de sono, são técnicas que vêm da Idade Média. E o que acontece é que há pessoas no Brasil que falam assim “Deixa bater, mesmo”. Péssimo, péssimo.
“Vamos tornar isso um processo de jardinagem, de fertilização de ideias, de uma cultura. Não de repolhos, não de milho, mas de sativa ou de indica. Então como você extrai os melhores grãos, as melhores flores, [qual é] a época do cultivo?“
Dunker, muito obrigado pelo seu tempo, professor…
Obrigado você e longa vida à Breeza. Legalize, legalize! O Hemp fez um show aí, 30 anos.
Isso aí, legalize.
Tomara que esses imbecis da Câmara não revertam a engenhoca que a gente conseguiu produzir até aqui.
Tomara!
Por que agora a coisa ficou muito intrincada, o que aquilo quer falar?
Texto confuso [o da descriminalização pelo STF], né?
Confuso, confuso. E ali pra alguém manipular a confusão e reverter as coisas são dois palitos. Temos de ficar atentos pois a descriminalização é o começo de uma outra conversa.
Qual é a próxima conversa?
Depois da descriminalização, é a conversa sobre o cuidado, né?
Redução de danos…
A redução de danos entra aí.
Regularização, legalização…
Cuidado entre as pessoas, não deixar ali o uso isolado, terapêutico, compensado. A gente tem a capacidade de se autorregular. A discussão hoje é ou você regula na marra, no martelo, ou larga mão e cada um por si mesmo. Precisa de uma cultura, senão vai dar errado. A cultura do cuidado, né?