Na Breeza

“Prefiro substâncias naturais no meu corpo”

Bruno Soares, tenista e investidor do mercado canábico, conta como a erva o fez dispensar remédios pesados que tomava para encarar a rotina de atleta e a investir milhões no mercado brasileiro do medicinal
18|04|24

Uma entrevista do Bob Burnquist, ícone brasileiro do skate, fez com que o tenista Bruno Soares resolvesse começar a usar canabidiol (como sempre frisa o viés medicinal, ele não costuma usar a nossa “maconha” no vocabulário). Era 2017 e Bruno não se recorda se lia a matéria pelo celular ou outro aparelho, era um daqueles textos com os quais nos deparamos nas redes.

“Ele [Bob Burnquist] defendia o uso no esporte e destacava três coisas sobre o cannabidiol, de como ele é anti-inflamatório, ansiolítico e ajuda com problemas do sono. Eu e mais 99% da população temos algo disso. O atleta está exposto ainda mais.” Bruno não gostava de tomar remédios tradicionais, que tinha como “agressivos ao corpo”, e assim começou a estudar a alternativa da erva natural. Aconselhou-se com amigos médicos, marcou uma consulta com um especialista, pegou a receita e começou a comprar do medicinal, na legalidade. “Amigos, não só esportistas, mas de todos os tipos, passaram a gostar também, por minha recomendação.”

Especialista em duplas, Bruno chegou a estar em 2º no ranking mundial da categoria. Em sua carreira como tenista profissional, foram 35 títulos, incluindo três Grand Slam e um vice em Wimbledon. Se não é do tênis, tudo isso se traduz como, bem, ele é do topo do esporte.

Profissional desde 2001, em algum momento da carreira Bruno passou a adotar o hábito de tomar um ou dois tragos, de gin, cerveja ou da bebida local (em campeonato no Japão, preferiu o saquê), na noite anterior a partidas decisivas. Ajudava a relaxar. Quando descobriu a cannabis, que prefere na versão em pastilhas, a adicionou ao ritual. “O gin, agora mais equalizado [do que antes de iniciar o uso de CBD], tem um aspecto social, sempre gostei disso aí. O CBD é para acalmar.”

Desde 2017, após sua descoberta lendo a entrevista com Bob Burnquist, passou a usar da medicinal praticamente todos os dias. Como creme para passar no corpo e diminuir dores, e os tabletes, principalmente antes de dormir, para tranquilizar os nervos. “Um pouco de tudo, tenho de todos. Com acompanhamento médico, como uma nutróloga de confiança que me acompanha no dia a dia.”

NO ESPORTE…

Depois de começar a usar, Bruno Soares abriu a cabeça para a cannabis. Levantou a bandeira e passou a defender a liberação para atletas. Em sua perspectiva, se uma modalidade esportiva proíbe a erva, seria somente por um “doping de imagem”. Ou seja, não haveria razões científicas, apenas morais e políticas, para a proibição.

“Quando o [Mike] Tyson fala que fumava na noite anterior das lutas é como eu beber o meu gin. Dá uma acalmada, bom para uma final de torneio”. O uso contínuo melhora o desempenho nas quadras de tênis. “Passo a dormir melhor, fico menos ansioso, aumenta a disposição”.

Ele diz também ter substituído o uso de anti-inflamatórios convencionais pelo gel de CBD. “Bem melhor que aqueles tarjas-preta”. Lembra que o uso de medicamentos convencionais o deixava, antes da descoberta da cannabis, lesado no dia seguinte, sem tanta força para as partidas de tênis. Com o canabidiol, é o contrário. “Prefiro mais as substâncias naturais no meu corpo, do que as sintéticas.”

…E NOS NEGÓCIOS

Em 2022, no mesmo ano em que se aposentou, Bruno Soares passou de apenas usuário para investidor da indústria da cannabis ao ser noticiado como líder de um fundo que aportou 12 milhões de reais em uma empresa mineira de produtos canábicos. “Juntou pilares, paixões. E a Ease Labs também é de BH”, avalia ele, nascido em Belo Horizonte.

Apesar de defender uma diferença clara entre medicinal e recreativo, o que é uma posição um tanto polêmica no meio, ele diz que, se fosse legalizado, não veria problema em investir no setor do uso não-medicinal. “A diferença entre um e outro, o próprio nome já diz. [o recreativo] A turma usa para relaxar, para outros propósitos. O que acho é que temos de nos fazer outra pergunta: Se comparar com vários outros produtos legalizados, como o cigarro, haveria razão para proibir a cannabis?”.

Para ele, as desculpas usadas para a proibição não têm embasamento científico. “O problema é político e social. Conheço várias pessoas maravilhosas, fantásticas, que usam [maconha recreativa]. Se é liberado, é possível organizar o processo todo, com um ganho geral, girando empregos, mais dinheiro público, concorrência saudável, um mercado“.

Além do medicinal, Bruno Soares compartilha que já fumou do, digamos assim, recreativo. “O efeito é muito parecido com o do drops que eu uso”, diz ele, que conta preferir usar em momentos mais tranquilos, para dormir, e não em festas. E, sim, no fim o efeito é mesmo similar. Afinal, legalizada ou não, é tudo maconha, como defendem pensadores e cientistas como Sidarta Ribeiro.

Filipe Vilicic