Colunas
Observatório da Planta

Chegou a vez do Cânhamo

Por Murilo Nicolau

Parece que o ano de 2024 ainda não acabou para a indústria da cannabis legal no Brasil. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de dar início ao julgamento do Recurso Especial (REsp) 2024250/PR, que busca definir a possibilidade de concessão de Autorização Sanitária para a importação e cultivo de variedades de Cannabis com baixo teor de THC, mas com alto potencial para produção de CBD e outros canabinóides para usos medicinais, farmacêuticos e industriais. 

Este julgamento, que foi iniciado na semana passada com sustentações orais dramáticas, traz à tona uma questão há muito discutida internacionalmente e que agora ganha terreno no Brasil: o cânhamo como recurso multifuncional, desde o medicinal ao industrial.

Na prática, uma decisão favorável resultaria em uma forma regulada para obtenção de autorização para cultivo e importação de variedades com baixo teor de THC, algo que, até o momento, enfrenta barreiras regulatórias significativas no Brasil. A regulamentação do cânhamo industrial no Brasil permitiria que o país se alinhasse a um novo modelo econômico, com potencial para desenvolver uma cadeia produtiva nacional voltada a diversos setores. 

Investidores, empreendedores e agricultores ganhariam segurança jurídica, promovendo o crescimento de um mercado baseado em práticas sustentáveis e inovadoras. Além disso, o Brasil poderia se beneficiar da transferência de tecnologias e do avanço em pesquisas relacionadas ao manejo do cânhamo, fortalecendo-se como um polo de biotecnologia e agricultura sustentável.

O julgamento no STJ também pode impulsionar a criação de uma diferenciação jurídica entre cânhamo e maconha, inspirada no modelo americano, afastando o cânhamo dos controles rígidos da Lei de Drogas e aproximando-o das regulamentações agrícolas e industriais. 

Se julgado favorável, a expectativa é que o cultivo em solo brasileiro possa reduzir os custos de tratamentos à base de cannabis medicinal, além de aumentar a disponibilidade de produtos. A decisão também poderá obrigar entes estatais a avançar com uma legislação para o cultivo legal do cânhamo no Brasil, criando um marco regulatório que traria benefícios econômicos, sustentáveis e sociais.

Já no primeiro dia de julgamento houve unanimidade entre os Ministros sobre a procedência e legitimidade do pedido. A previsão é que nessa semana haja a conclusão dessa pauta, com a decisão acerca de eventual prazo para a União regular aspectos necessários ao cumprimento da decisão do Superior Tribunal de Justiça.

Tem dúvidas jurídicas sobre a planta? Toda terça, responderei às perguntas enviadas pela comunidade breezada. Envie DM pelo Instagram da @breeza_revista. Ou pelo meu, o @omurilonicolau.