Na Breeza

Já nasceu errada por nascer mulher

Assim Debora Rosa vê a ginecologia mais usual. Ela luta para transformar a saúde das brasileiras com a fitoterapia e, claro, com a maconha
22|08|24

Você marca uma consulta ginecológica pra investigar o que tem te incomodado nos últimos tempos e em alguns poucos minutos sai do consultório ainda confusa sobre de que exatamente se tratava, mas com uma receita na mão. Passa na farmácia e começa a tomar uma pílula anticonceptiva que no seu caso te faz experimentar um leve desânimo, mas que na sua amiga desperta uma enxaqueca das bravas, e, na sua prima, contribui para que a libido dela desapareça. Também existem aquelas mulheres que não experimentam efeitos colaterais tão intensos, e se você fizer uma pesquisa entre as suas amigas, verá que elas são a minoria. 

“Você vai no gineco e ele nem pensa em qual pílula vai te dar, ele pega a primeira amostra grátis e te dá. Endometriose? Pílula. Sangra pouco? Pílula. Sangra muito? Pílula, qualquer coisa, pílula, o mesmo tratamento pra tudo. Porra, porque eu estudei 12 anos se podia ter estudado só um dia a apresentação dos representantes?”, provoca Debora Rosa, médica ginecologista. Depois de se formar num dos melhores cursos de medicina do Brasil, o da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), e atuar tanto em clínica quanto na docência da mesma universidade, ela se decepcionou com o tratamento que é dado à saúde da mulher pela medicina tradicional e foi buscar novas ferramentas para exercer o ofício com que sonhava desde pequena. Para ela, os métodos tradicionais pareciam passar uma mensagem como “nasceu errada por nascer mulher”.

As bizarrices com que a alopatia tratam dos órgãos femininos, segundo Debora, não fazem nenhum sentido e servem mesmo para oprimir os nossos corpos e seguir tentando nos subjugar. Cortar propositalmente a menstruação, ou bloqueá-la com os anticoncepcionais, realizar cirurgias desnecessárias para a remoção de quistes; o sobrediagnóstico, por exemplo, no excesso de radiação nas mamografias, que deveriam ser um recurso último, só depois do autoexame e do exame médico; o flerte com a depressão e a perda da libido são alguns dos riscos do uso da pílula. “A pílula evita filho porque você simplesmente não transa”, brinca Debora, que mantém um perfil no Instagram falando sobre ginecologia natural e aprofundando em todos esses temas, além de outros. 

Cadê as plantas de poder?

Mascarar a menstruação natural com hormônios sintéticos é menosprezar uma aliada importante no autoconhecimento, já que a menstruação te informa sobre como está o seu útero. Se tiver alguma coisa, o útero conta através dela. “É um silenciamento baseado na amputação de um mecanismo fisiológico nosso, que é o ciclo menstrual”, define a médica, que foi buscar na fitoterapia o conhecimento aprofundado das plantas que carregam em si todos os remédios de que precisamos. 

Se existem plantas alucinógenas, capazes de mudar estados de consciência, então haverão plantas capazes de tirar cólica, de ajustar os hormônios femininos, qualquer novo caminho brilhava demais aos olhos de quem só tinha pílula e Buscopan na manga.

Junto com a fitoterapia, veio o interesse por estudar outras medicinas milenares, como a chinesa e a ayurveda, e também realizar pesquisas etnográficas buscando as erveiras nos rincões do Brasil. “Mulheres analfabetas, muito humildes e que sabem de plantas muito mais do que eu, que sou a qualificada do rolê. Por que desde os nove anos de idade ela já tava com a avó pegando planta medicinal, cresceu no meio das plantas, sabe fazer garrafada e juntar trinta ervas que não dão interação [medicamentosa].”

No meio da coisa toda ainda rolou um aprofundamento também na psicossomática, que a ajudou a encaixar uma coincidência que havia notado: as mulheres que ela tratava em clínica tinham perfis parecidos segundo a doença de que padeciam. E já que coincidências não existem, conseguiu com êxito guiar algumas pacientes com a ajuda dessa nova ferramenta.

Falando em ferramenta, Debora estranhou o fato de que na formação em fitoterapia, não ouviu falar da cannabis. “Por que na fitoterapia eu aprendi todas as plantas menos as de poder? A cannabis é só mais uma planta. As plantas da ayahuasca são só outras plantas. Por que não se ensina também?.”

Supositório de maconha

A Debora, então, foi estudar as aplicações medicinais da maconha na saúde feminina e ficou animada, e como não, com tantas possibilidades e boas respostas nos tratamentos que empreendia; na medida do possível, primeiro nela própria, pra depois receitar em clínica. Além do fato de gostar de ser sua própria cobaia, também considera fundamental que os prescritores de cannabis conheçam mais sobre o universo das plantas em geral. “Vejo muitos médicos de cannabis que não são fitoterapeutas e acho que deveriam ser, porque é mais uma planta, mas uma planta muito poderosa.”

O relativo baixo número de estudos clínicos de fase III com a planta, argumento utilizado frequentemente por quem tenta desprestigiar o longo caminho que a maconha percorreu ao longo dos milênios, não é nem de longe uma questão para ela. Como a gente sabe, estudos clínicos custam caríssimo, e só entra quem tem uma visão de exploração dos resultados lá na frente. Se fosse mais acessível essa coisa de realizar pesquisa clínica, a Debora já teria feito uma sobre os benefícios ginecológicos do alho. “Dente de alho [via oral ou vaginal] resolve quase tudo.”

Os subprodutos da maconha que entram no seu caldeirão de poções mágicas incluem o óleo tomado via oral, por supuesto, mas também em forma de bálsamo ou pomada – uma via de administração que é efetiva especialmente em casos de cólica ou qualquer outra dor –, e como supositório, que alivia os casos de herpes, dentre outras aflições. “Facinho de fazer. Pega cubinho de gelo, bota uma colher de sopa de óleo de côco e uma gotinha de cannabis e põe na vagina”, ensina ela.

Uma das próximas experimentações, dessas que a Debora gosta de fazer consigo mesma como cobaia antes de prescrever para as suas pacientes, é a vaporização do útero com cannabis. “Com água fervendo, põe a planta e recebe o vapor”, explica a gineco, que pretende iniciar em breve vaporizações semanais durante três meses e com flores diferentes para entender o efeito. “E você acha que vai ter estudo de vaporização? Eu acho que deve ser o grito da maravilhosidade.”

Anita Krepp