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CBG: conheça a mãe de todos os canabinóides

Novíssimos estudos mostram que o cannabigerol tem crescido em popularidade, na esteira dos famosos THC e CBD. Mas o que sabemos do CBG? Um pioneiro teste revelou mais sobre, indicando que ele pode ser bom até pra memória
22|08|24

Quantas siglas tem dentro da nossa erva? THC, CBD, THCA, CBDA, CBGA, CBN… algumas parecem até nome de canal de notícias ou de departamento público. Já se sabe que há mais de cem dessas moléculas, são os canabinóides. As rainhas de popularidade são THC e CBD, estas dispensam apresentações. Mas tem ganhado espaço na praça gominhas, óleos, pomadas e toda sorte de produtos de uma sigla que começou a tomar as prateleiras dos mercados regularizados (e onde não é, convenhamos que também no paralelo): CBG, cannabigerol, ou então, como também chamam, a mãe de todos os canabinóides.

O CBG foi isolado em laboratório em 1964. Só que até hoje pouco se sabe dele. “Historicamente, há um foco tremendo no THC e, mais recentemente, no CBD, pelos benefícios potenciais e os efeitos mais notáveis, especialmente do THC”, comenta o biólogo Kevin Boehnke, professor no departamento de medicina da Universidade do Michigan, em entrevista a esta Breeza. “A criminalização da cannabis também foi uma barreira para as pesquisas de todos os produtos derivados. Com as recentes mudanças de políticas (de regularização nos Estados Unidos, tirando a maconha das listas de substâncias tidas pelo governo como “perigosas”), tornou-se também bem mais possível estudar outros componentes, como o CBG”.

Boehnke, especialista em estudos sobre maconha, publicou em dezembro um trabalho no qual avaliou a adesão de usuários a canabinóides que não fossem o delta-9 THC, que é o mais conhecido, além do conhecimento dos mesmos sobre as outras siglas que integram a nossa planta. O levantamento ouviu mais de 54 mil norte-americanos em junho do ano passado, selecionados de forma que representassem o cenário nacional.

Tirando o delta-9, que não foi considerado no estudo e já foi experimentado pela grande maioria da população dos EUA, o cannabigerol só está atrás em popularidade do CBD (utilizado por 21% dos norte-americanos) e do delta-8 THC (12%). O CBG figura então em terceiro, com 5%, seguido do CBN, com 4%. Como se trata de um levantamento inédito, não há dados comparativos para saber de quanto foi o crescimento da presença desses canabinóides no mercado.

“Mas penso que nossos dados demonstram que os menos conhecidos, como o CBG, estão se tornando cada vez mais comercialmente disponíveis e sendo usados pelo público. Então, precisamos entender o que esses compostos fazem, quando podem ser úteis, quando podem ser prejudiciais, e com isso também garantir ao usuário que ele não está comprando produtos contaminados”, conclui o biólogo Boehnke sobre o pioneiro levantamento realizado em parceria com outros quatro colegas.

A pesquisa de Boehnke revelou ainda desconhecimento sobre canabinóides que não fossem CBD ou o delta-8 THC. Enquanto 72% das 54 mil pessoas ouvidas tinham ouvido falar de CBD, apenas 18% sabiam do que se tratava o CBG. 

A CIÊNCIA ATÉ AGORA

O que sabemos do cannabigerol, o CBG? A resposta direta: muito pouco, mas do que já se conhece, parece bem promissor e benéfico no combate a vários males.

“Até agora, os estudos realizados eram com animais, principalmente roedores. E assim se descobriu que pode ser uma substância antibiótica, antibacteriana, antiinflamatória, estimulante de apetite, que combate doenças como inflamações intestinais”, comenta a psicóloga Carrie Cuttler, da Universidade de Washington, em entrevista à Breeza

É dela um estudo pioneiríssimo, publicado faz duas semanas pela revista científica Scientific Reports. Trata-se do primeiro do tipo com testes com um grupo mais substancial de humanos. Cuttler realizou testes com 34 usuários de maconha. Para parte deles, foi dado CBG isolado, para a outra, placebo. Realizaram-se duas sessões de uso, seguidas de séries de testes clínicos.

Naqueles que usaram CBG, houve redução nos índices de stress e ansiedade, o que se alinha com pesquisas anteriores da mesma psicóloga e que apontavam que 51% dos usuários regulares o fazem para diminuir ansiedade, sendo que 78% destes dizem que o canabinóide é mais efetivo nisso do que os remédios convencionais. Ao mesmo tempo, as pessoas testadas por Cuttler não apresentaram efeitos colaterais típicos de quem usa maconha (a com THC), como boca e olhos secos, palpitações cardíacas e sonolência. Talvez o achado mais surpreendente tenha sido de que os testes psicológicos indicaram que o CBG ajuda, inclusive, na capacidade de memorização.

“Temos agora planos de realizar testes biológicos em laboratório, com pessoas, para medir exatamente os efeitos biológicos do uso de CBG”, conta a psicóloga, que lidera um departamento especializado em estudos sobre maconha. Mesmo com os resultados de seu trabalho pioneiro, Cuttler ressalta como ainda pouquíssimo se sabe sobre os efeitos do CBG e de outros canabinóides que não são pops como o THC e o CBD. 

Ao serem questionados, por exemplo, sobre quais seriam os efeitos do CBG na maconha regular que fumamos, em combinação com THC e CBD, tanto ela quanto o biólogo Kevin Boehnke, da Universidade do Michigan e também entrevistado por Breeza, concordam de que ainda nada se sabe disso. Diz ela: “Não temos ideia, não existem dados científicos sobre isso. Talvez o CBG possa servir para equilibrar a perda de memória, que é uma das consequências sabidas do uso de THC. Vai saber, ainda falta estudos disso”. 

MÃE DE QUEM?

“O CBG é o precursor químico do THC e do CBD e não está presente em quantidade considerável nas flores das variedades comerciais de cannabis”, comenta Boehnke. “Se tornou mais disponível como um produto isolado nos últimos anos, mas ainda é algo bem novo”.

É por ser o precursor químico de outros canabinóides, como o THC, que o cannabigerol ficou conhecido como a “mãe” dessas outras substâncias. Isso quer dizer que ele é o primeiro composto na biossíntese de outros canabinoides.

Por isso, há pouco CBG na planta que se consome normalmente. Afinal, nas ervas mais maduras, no ponto para serem usadas, por exemplo, para fins psicoativos, esse elemento já se transformou em algum outro, como no CBDA e no THCA. Sim, são muitas siglas, e do CBG o que se precisa saber aqui é que ele é antecessor a todas as outras.

Então, a principal fonte de CBG é na cannabis mais novas. No mercado estão se espalhando opções com a substância, isolada ou, o que é mais usual, mesclada com CBD. Por isso, como nos afirma Boehnke, “futuras pesquisas serão muito úteis”. Isso vale para tudo que é sobre a erva. Após tantas e tantas décadas sem muito rumo e sem muito saber devido ao proibicionismo e à repressão, esse é o momento de amadurecermos a relação com a maconha, deixando a ciência livre para realizar seu trabalho e nos revelar e destravar todos os potenciais da ganja.

Filipe Vilicic