Reportagens

O que o Insta tem contra uma planta?

O nosso perfil ter caído por uns dias é mais uma prova de como pautas progressistas têm sido reprimidas nas redes. Saiba o que achamos disso, além de dicas de como resistir e existir

Por Filipe Vilicic

Quem acompanha o Instagram desde seu início, lá em 2010, nota o quanto ele é diferente hoje. Se no passado a rede era sobre compartilhar nossas fotos com amigos e familiares, registrar momentos da vida, agora ao se rolar o feed, a pergunta que fica: Cadê as imagens do aniversário da minha sobrinha?

Por que não vejo mais posts das pessoas que eu sigo? Onde foram parar aqueles retratos posados e filtrados de influencers, nem esses mais vejo? Como raios nunca me deparei com um conteúdo daquela mídia que resolvi seguir, como a Breeza? Por que agora ao entrar no Instagram, em vez de relaxar, me estresso?

Não é que teu irmão deixou de compartilhar as fotos da festinha, não. Aquela mídia descolada que você escolheu seguir, continua a todo vapor. Influencers não param de postar, apesar de que cada vez menos no Insta, migrando para outros ambientes, como o TikTok ou, por que não?, o OnlyFans.

Só que mesmo que amigos e familiares continuem a postar, por que em vez de vê-los, o que aparece para mim é a notícia que um site de fofocas publicou há um mês, ou propaganda pró ou contra guerras, pencas de memes políticos, publicações de marcas me vendendo de tudo, sendo que não tenho interesse em nada daquilo, e tsunamis de fake news?

O que aconteceu com o Instagram?

Se você nos acompanha no Instagram, deve ter percebido: o perfil da Breeza caiu na semana passada, ficando fora do ar entre quinta-feira (dia 28) e segunda (1º). Não houve explicação, apenas o aviso de que foi derrubado, seguido, uns dias depois, de um mea culpa da Meta por e-mail e a volta da página.

Somos mais um espaço instagrammer dedicado a pautas progressistas que é derrubado, algo que tem se tornado cada vez mais frequente desde que Mark Zuckerberg se alinhou a Donald Trump, no início deste ano.

Na cena canábica, a situação tem sido comum, uma atrás da outra. Escrevi sobre essas questões preocupantes para nós em uma reportagem recente aqui na Breeza, na qual nos perguntamos no título Qual é a da Meta?, e ouvimos tanto especialistas jurídicos, quantos donos e donas de perfis que foram vítimas da perseguição, como Flora & Cultura, NahBrisa e Smoke Buddies.

Sim, a Meta do Zuckerberg, que controla essa rede social, além de Facebook, WhatsApp e mais, persegue a nossa ganja. Pencas de perfis de associações, educadores, advogados, influenciadores, caíram nos últimos tempos. Porém, não se engane, o problema não é só com a maconha, a repressão algorítmica se virou contra as pautas progressistas.

Ao comentar sobre o banimento do perfil do escritor Jeferson Tenório, de obras marcantes e com altas doses de críticas sociais, como “O Avesso da Pele”, “Estela sem Deus” e “De Onde Eles Vêm”, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz (e ironia dos tempos de hoje) em seu próprio Instagram: “Outros perfis com posições progressistas também enfrentaram limitações ou bloqueios recentes, sugerindo um padrão de silenciamento digital de vozes de esquerda. Por exemplo, o influenciador Jones Manoel teve ataques em massa, e a ex-deputada Manuela d’Ávila (já entrevistada pela Breeza) sofreu redução de alcance em suas postagens. Trata-se de uma censura severa, uma violação à liberdade de expressão e ao direito à comunicação”. Concordamos.

Derrubar um perfil de mídia como a Breeza, ou o de políticos e escritores, sem qualquer explicação ou motivo que faça sentido, pode se enquadrar como violação severa. Censurar uma mídia é censurar suas reportagens e entrevistas, como o que nos falaram já mais de 75 pessoas ilustres e relevantes de nossa sociedade, aqui no site e no podcast Saindo da Estufa (nos siga no Spotify, assim dependemos menos do Insta). Nomes como de artistas, de Gilberto Gil a Luana Piovani, escritores, como Ailton Krenak, deputados e deputadas, médicos, cientistas.

E isso tem tudo a ver com no seu feed agora aparecerem uns conteúdos bizarros e sensacionalistas, além de pencas de anúncios, em vez das fotos de amigos e familiares. 

Acompanho o Instagram desde o início como um observador atento e próximo o suficiente para saber um pouco mais dos bastidores. Entrevistei funcionários do primeiro time do Insta, além do fundador brasileiro do app, o Michel “Mike” Krieger, em diversas ocasiões. E muita gente envolvida com a saga do app de fotos que virou uma rede de tantas outras coisas mais.

Trabalho que ao longo dos anos rendeu reportagens em diversos veículos de imprensa, assim como o livro O Clique de 1 Bilhão de Dólares – saiu pela editora Intrínseca, está na segunda edição e teve seus direitos negociados para uma obra audiovisual –, sobre a história de como um paulistano criou uma das redes que mais impactaram o nosso modo de viver pós anos 2010. Aliás, obra que precisa de atualização frente ao novo contexto em que estamos de nossas vidas nas redes sociais.

Lá no início, o paulistano Mike, cofundador do Instagram, frisava muito como a proposta era criar uma praça bem, bem diferente das outras da internet, do que era Facebook ou era Twitter, o agora X. Vislumbrava o app como um álbum de família e amigos, que depois se transformou em um retrato instantâneo e imagético de eventos ocorrendo pelo mundo. Hoje em dia, bem, nem boa parte das fotos, vídeos, por vezes até pessoas com as quais nos deparamos no Insta são reais, pois não passam de frutos de inteligência artificial.

O Instagram deixou de ser sobre ser um álbum de família ou mesmo uma lente apontada para o mundo real. Passou a ser sobre mídia, informações, conhecimento, sim, existe esse lado bem bacana onde a Breeza navega. Porém, também se atolou em notícias falsas, disputas ideológicas extremistas, manipulações de toda sorte, e bastante conteúdo de IA.

Nessa disputa de linguagens e narrativas, esperava-se que se prevalecesse bom-senso e progresso. É o contrário: assim como tem ocorrido com outras redes, o Instagram vem se tornando um ambiente retrógrado, do tipo que anda para trás mesmo. Escritores, artistas, veículos de imprensa, juristas, cientistas têm sido reprimidos, enquanto prevalecem os atores que propagam o caos e o ódio.

Nisso, o feed se enche de anúncios estranhos, cada vez mais (quem paga, dispara no alcance), conteúdos de robôs, sensacionalismo. No meu Story pessoal, vira e mexe pipocam ads com ofertas de drogas ilícitas. Isso tudo parece Ok para o Instagram de hoje, prolifera-se com a impulsão do algoritmo.

Whindersson Nunes, influencer veterano da praça virtual, com suas dezenas e dezenas de milhões de seguidores, e cada vez mais associada à causa da cannabis, outro dia foi a público reclamar (e novamente sobe o tom de ironia pela rede usada, ironia a qual todos nós estamos submetidos) em post de seu Instagram, em inglês, para tentar chegar a Zuck (só que aqui vamos traduzir pro português):

“Eu sou Whindersson Nunes. Comediante, multiartista e criador de conteúdo com 57 milhões de seguidores no Instagram.

Um número grande, né? Mas a piada é a seguinte: meu problema é pequeno. Meus posts não chegam nas pessoas que já escolheram me seguir.

É como fazer um show de stand-up num estádio… e o microfone estar desligado.

Mark, eu vivo nesta plataforma. Eu trabalho aqui. Eu trago milhões de horas de atenção pra cá. Mas quando tento compartilhar meus outros projetos — educação, tecnologia, moda sustentável, música — de repente minha conta não é mais minha. De repente, estou competindo com a empresa que ajudei a construir.

Parece que a regra é: ‘Se a gente não lucra, você também não lucra.’

Isso não é parceria, é castigo.

E veja bem — o Instagram diz que é democrático. Mas a gente rola o feed e vê discurso de ódio, homofobia, até pedofilia… e nada acontece. Enquanto isso, criadores tentando espalhar algo positivo, educativo ou sustentável? A gente é enterrado pelo algoritmo.

Então imagina, se isso acontece comigo — com 57 milhões de pessoas esperando pra me ouvir — o que acontece com um novo criador começando hoje?”

Porém, o que podemos fazer? Temos nos perguntado isso, diante desse cenário tão, digamos assim, injusto.

Vamos dar algumas dicas, sem nenhuma garantia de funcionar, pois assim é. Elas vêm da experiência com a Breeza, como jornalista, como comunicador, como quem escreveu um livro sobre a história do Instagram, além de outro em torno dos influencers, O Clube dos Youtubers. Soma-se a vontade de compartilhar e podermos nos unir e nos ajudar para construir a cena, o mercado, a cultura, a política canábica e psicodélica.

Só que a opinião não vem sozinha. Juntou-se à roda o advogado Clayton Medeiros, especialista em atender clientes, como a própria Breeza, que têm perfis derrubados nas redes, como no Instagram e no TikTok.

Não se trata de fórmula perfeita ou certeira, pois as redes são caixas-pretas, inclusive para quem trabalha para elas, dentro dessas corporações. Todavia, certamente são sugestões valiosas de quem têm enfrentado o problema com resiliência e na linha de frente.

1ª Dica

Procure não depender de apenas uma rede social, como o Instagram. Sim, não é fácil, e a própria Breeza precisa diversificar, sendo que assim como para muitas marcas do setor, um dos impedimentos sempre é o investimento necessário. Porém, se cantarmos juntos esse coro, pode ser que apareçam novos caminhos. Para a Breeza, uma boa nova é que durante a queda do perfil no Instagram, a média semanal de plays em nosso podcast Saindo da Estufa não mudou. Ou seja, nossa comunidade do Spotify é forte e não dependente do Instagram. Há outras frentes por aí, de LinkedIn e Substack, a redes com foco no nicho canábico. Assim como vale apostar em atrair atenção em buscadores, como o Google.

2ª Dica

Não tente disfarçar para o algoritmo, isso parece só piorar a situação. Não faz diferença escrever c4nn4bis ou m4conh@. É tentar enganar a máquina com código, simplesmente não funciona, e ela saca isso, que você está querendo usar uma artimanha e, logo, pode ter algo a esconder. Se quer realmente passar despercebido, tente trocar para palavras como “planta”. Mesmo assim, difícil não ser notado.

3ª Dica

Indica o advogado Clayton Medeiros: “É importante comunicar que o perfil está protegido e amparado pela constituição e pelos julgamentos realizados pelo STF, tanto a adpf 187 e adi 4274. Será utilizada essa postagem como prova processual, mas também é um comunicado que o perfil não fere as diretrizes da comunidade. Aqui, inclusive, vale mencionar as próprias diretrizes em sua publicação, que permite o conteúdo sobre cannabis”. O que não pode é vender ou comercializar, mas informar e educar sobre, pode. E se quiser seguir essa instrução, o melhor seria mesmo consultar um advogado para traduzir o juridiquês.

4ª Dica

Faça print de algumas provas. Calma, não precisa ser de tudo, mas do que advogados como Clayton indicam como cruciais para um processo judicial contra a Meta no Brasil:

página inicial do perfil, mostrando seguidores e publicações;
postagens, especialmente aquelas que mostrem engajamento ou atividade relevante;
notificações ou avisos de violação de regras de comunidade do Instagram;
comprovantes de anúncios e impulsionamentos pagos, se adotar essa prática, pois é demonstração de que a Meta estava alavancando valores com o seu perfil e, da noite para o dia, resolveu desabilitá-lo – outra dica: vez ou outra você pode colocar 10 ou 20 reais em um ad no Instagram apenas para mostrar como o app não tem problema em aceitar o seu dinheiro (e, logo, o perfil não fera as regras de comunidade).

Sim, não é agradável tirar print de tudo, mas é o caminho para se proteger mais. Comenta Clayton: “Sabemos que tirar print todos os dias do status da conta é cansativo, mas tente, então, fazer isso de forma semanal. Porque assim conseguimos comprovar que o perfil está totalmente apto para aquela rede social”.

5ª Dica

Sempre registre, deixe certinho, assinado, comprovantes de parcerias, contratos ou vendas relacionados ao perfil no Instagram e/ou em outras redes sociais e plataformas, pois em um processo judicial, elas podem ajudar não a só te dar razão, como justificar ainda mais as indenizações devidas.

6ª Dica

Configure o perfil para chegar apenas ao público com mais de 18 anos de idade, destacando também na bio que se trata de conteúdo direcionado a maiores de idade.

7ª Dica

Caso não se incomode em pagar para a Meta um mensal, Clayton indica assinar um selo verificado, pois se cria um canal mais facilitado para fazer perguntas e obter respostas do suporte do Instagram. 

8ª Dica

Não tenha receio de começar de novo, então mantenha um perfil secundário, que pode ser acionado em caso de o principal cair. 

9ª Dica

Há quem esteja fazendo mais de um perfil a depender do público e do tipo de linguagem que se usará no Instagram. Uma marca, por exemplo, pode ter um perfil mais de produtos, outro de lifestyle, outro sobre um tema específico, como esportes.

10ª Dica

Mantenha a calma. “Infelizmente, na maioria das vezes, quando um perfil é desativado por alguma Big Tech, a batalha acaba sendo judicial. Mas, em alguns casos, o perfil volta sem precisar ingressar com algum processo. Então, para isso, o primeiro passo é recorrer da decisão da rede social, seja porque o perfil foi suspenso ou desabilitado de forma permanente. Você precisa recorrer, pois só assim a decisão que censurou o seu perfil será reanalisada”, contextualiza Clayton.

Nenhuma das dicas é certeira e certamente há mais sugestões e caminhos. O importante é não se sentir rendido – e não nos sentirmos, como comunidade! – e, na medida do possível, não deixar o seu negócio dependente apenas de uma única rede social.