
“Pra 2025 eu espero que soltem toda a galera que continua presa injustamente por tr4f1c0″. Por que será que o Instagram julga esse desejo de Ano Novo de um breezer de nossa comunidade como algo incorreto (criminoso, pra Meta?) e por isso ocultou seu comentário num post em nosso perfil? E tem ainda a outra face da moeda. Desde que Mark Zuckerberg fez um anúncio tão polêmico quanto enigmático no início deste mês, passaram a ser liberados posts que, por exemplo, associam trans e a comunidade LGBTQIA+ a doenças mentais. O que nos faz questionar: o que pode no Insta e no Face?
“Nada impediria que alguém dissesse o mesmo sobre quem usa cannabis, de que sofreria de um distúrbio mental”, alerta o advogado Clayton Medeiros, que está na linha de frente, uma referência na recuperação de perfis que falam sobre maconha nas redes sociais. Para ele, “essa nova política de liberdade de expressão é vestida com roupagem de extrema direita (…) e o problema da cannabis passa pelo racismo, pelo capitalismo, pelos preconceitos latentes dos brasileiros”.
O receio é de que a checagem comece a ser feita pelo viés da extrema direita e, assim, conteúdos sobre maconha sejam ainda mais perseguidos no Brasil e no mundo. Por que isso ocorreria?
No vídeo divulgado em seu perfil no Instagram, Zuckerberg, o manda-chuva da Meta, anunciou: “Tempo de voltar às nossas raízes em torno da liberdade de expressão (…) governos e a mídia tradicional empurram por mais e mais censura (…) as recentes eleições (da vitória de Trump à presidência dos EUA) foram como uma virada cultural, mais uma vez priorizando a liberdade de expressão”.
O que isso quer dizer na prática? A Meta vai despedir milhares de checadores (ou acabar com os contratos de terceirizadas que os contratavam) e aí a responsabilidade de checar e apontar cairia para a própria comunidade. Somado a isso, outras medidas vão basicamente afrouxar para discursos de ódios, os extremos e criminosos. Somando tudo, cairia nas mãos de uma comunidade de trumpistas, grupo com o qual Zuck agora se alinhou, o poder de julgar os posts. Aqui no Brasil, talvez a seus equivalentes da extrema direita. Será que essa galera é afeita à maconha e à cultura canábica?
“As mudanças anunciadas por Zuckerberg geram preocupação e receio. A ideia de transferir a responsabilidade da checagem de informações para os usuários, sob o pretexto de “empoderamento”, pode resultar em um ambiente dominado por desinformação e manipulação”, é o que aposta Dave Coutinho, do Smoke Buddies e da ExpoCannabis. “Além disso, o controle rígido sobre conteúdos e anúncios sensíveis, como os relacionados à cannabis, continua limitando nosso alcance. Isso compromete décadas de trabalho voltadas para desmistificar a planta”.
O advogado Clayton Medeiros conta que seu escritório nunca esteve tão movimentado, seria ao menos um caso por dia de alguém que tem o perfil censurado por falar sobre a ganja em alguma rede social. “Os casos que atendo do Instagram sempre são assombrosos. Não respeitam princípios básicos constitucionais, como de ampla defesa, do devido processo legal, do contraditório, da liberdade de expressão, da livre iniciativa, da pluralidade de ideias, dos código do consumidor”, diz ele.
Se o cenário continuar a caminhar para onde está indo, tudo indica que o escritório de Clayton tende a lotar cada vez mais.
ZUCK, O CENSOR
Se Zuckerberg queria passar um estilo Big Brother que tudo olha em seu vídeo-anúncio, conseguiu. Se você acha que ele parecia mais alguém assustado com uma arma na cabeça, pode ser também. Se lhe pareceu uma propaganda política saída dos anos 1930, é outra opção. A estranheza do vídeo, intencional ou não, com Zuck com jeito de assustado e assustador simultaneamente, pode levar a tantas interpretações, todas com potencial de serem furadas ou acertadas. O certo é: se com o que você mexe na vida depende de se comunicar pelas redes sociais, principalmente pelo Face e pelo Insta, é melhor você ir lá ver esse vídeo e começar a refletir.
O que se sabe com certeza é que se trata de uma virada brusca para a Meta, para as redes e principalmente para os usuários. Visitei um prédio de checagem da Meta em 2019 onde trabalhavam 800 checadores, em Barcelona. Lá faziam tanto checagem de conteúdo em espanhol quanto em português, com particular atenção ao Brasil, por isso havia vários brasileiros na tarefa.
Checadores atuam depois de uma peneira do algoritmo para classificar e julgar os conteúdos que circulam pelas redes da Meta. Passa todo tipo de atrocidade na frente dos olhos deles: ataques terroristas, cenas de guerra, crimes dos mais hediondos, ações de movimentos neonazistas.
“O que vejo aqui de expressões de violência está me fazendo perder a fé na humanidade. Na verdade, já perdi”, me disse um dos checadores durante a visita, na qual eu estava em minha função de repórter. (Cubro também a área da tecnologia e da comunicação digital, desde 2010; tenho livros do tema, como O Clique de 1 Bilhão de Dólares, que conta a história do Instagram, cofundado por um paulistano; e um mestrado no assunto pela USP).
Em meio à essa barbárie, joga-se a maconha no caldo. Resgatei aqui das anotações de 2019 o que me disse o engenheiro britânico Simon Cross, então gerente de produto do Facebook, na visita em Barcelona: “Até 2015 nosso sistema era guiado por palavras-chave. Podia-se postar a foto de uma folha de maconha e não saberíamos se seria maconha. Hoje conseguimos rastrear expressões e imagens tipicamente usadas”.
E aí jogaram num bolo de preconceitos todas as expressões da cultura canábica, incluindo as proferidas por quem trabalha no medicinal e pelos pacientes, e assim a comunicação e o debate sobre o assunto foi cerceado. Faz muitos anos que basta relar no assunto para o algoritmo acender um alerta, por vezes censurar, noutras até banir do Facebook e do Instagram.
Com o tempo, as ferramentas de perseguição da Meta se tornaram cada vez mais aprimoradas. Por isso que em nada adianta escrever maconha em códigos, como m4coOnh4, ou outras palavras assim, como fez nosso leitor censurado que foi mencionado no início deste texto, e que grafou tr4f1c0. A inteligência artificial pega, sim. Por vezes, o sinal de alerta do robô é até mais estridente quando ele se depara com as tentativas de driblar seu sistema.
As maiores provas estão nas histórias de perseguição. A Nah Brisa, pioneira influenciadora canábica, teve de pular de perfil em perfil para sobreviver no Insta: “Crio conteúdo no Insta desde 2013 e, quando caiu pela primeira vez, em 2023, eu tinha 120 mil seguidores. Foram 10 anos de trabalho perdidos em conteúdos, vídeos, fotos, textos”.
Na maioria dos casos, e foi assim com a Nah Brisa, o Instagram alega derrubar os perfis devido a ações ligadas a drogas e produtos não regulamentados. A questão é que apesar de comunicadores, jornalistas e influenciadores falarem em prol do debate público e democrático, nenhum vende ou incentiva o uso.
Nah Brisa recorreu à Justiça. Esses processos contra a Meta costumam ser ganhos, muitas vezes se recupera os perfis dos clientes e se conseguem indenizações (na maioria das vezes, na casa de algumas dezenas de milhares de reais). Só que tudo leva um tempo, alguns meses. Por isso, empresas, associações, influenciadores e outros atendidos por ele costumam ter de abrir perfis alternativos para seguir no jogo.
Assim fez Nah Brisa, algumas vezes, pois quando abre um novo, não demora para ser derrubado e ela ter de fazer outro. A influenciadora vê o Instagram como um dos ambientes mais hostis para pauta da maconha na internet. “No Youtube, rola uma censura diferente. Nunca tive o canal banido, mas vários vídeos derrubados e o canal desmonetizado, então não consigo ganhar dinheiro com ele”.
Ela avalia que hoje o ambiente onde trabalha mais facilmente o tema é o TikTok. Isso porque, lá não se pode falar “maconha”, nem nada muito explícito, mas estão liberadas insinuações, como f1, erva, planta e por aí vai. O ponto central é que as regras são claras e valem para todo mundo. “Desenvolvi algumas estratégias para o TikTok e hoje é a única rede que tenho monetizada”.
PERSEGUIÇÃO
Multiplicam-se os casos. Dave Coutinho, por exemplo, já perdeu a conta de quantas vezes o Smoke Buddies foi derrubado no Facebook, onde surgiu em 2011, e no Instagram. À frente também da ExpoCannabis, compartilha como o maior evento do setor no país não escapa dos robôs-censores das redes.
“O caso mais grave aconteceu na véspera da abertura do evento de 2024, quando a conta foi suspensa. Graças à rápida ação da equipe de gestão de redes e ao suporte jurídico, conseguimos reabilitar a conta em questão de minutos, evitando prejuízos mais graves”, lembra.
Viraram alvo toda sorte de perfis que tocam no tema. O advogado Clayton Medeiros compartilha que tem como clientes associações de cultivo, cujos perfis são derrubados no Instagram mesmo quando compartilham tão-somente informações educativas e conhecimento científico.
O primeiro caso que ele lembra de ter atendido foi o do perfil Flora & Cultura, que representa tanto uma tabacaria em Taboão (SP), quanto faz conteúdos informativos, de humor e afins, na pegada de influencer canábico. “Apesar de não estar fazendo qualquer ilícito, eu tinha medo, até de alguém achar que eu tava cometendo algum crime e assim eu acabar preso”, diz Lucas Massari, um dos responsáveis pela Flora & Cultura.
O perfil da Flora & Cultura passou por uma novela de vaivém similar a como foi com a NahBrisa. Numa das vezes, a Meta justificou dizendo que o perfil estava sendo derrubado por vender produtos com terpenos (legalizado e sem qualquer psicoativo). “É difícil crescer nesse ambiente e aí se perde tudo num passe de mágica. Difícil se manter motivado”, lamenta Lucas.
E AGORA?
Na prática não é possível ter certeza se as últimas falas de Zuckerberg mudarão algo no duro jogo para quem produz conteúdo sobre a diamba. Pode ser que ao eliminar checadores e afrouxar regras para extremismos políticos e congêneres, a rede acabe abrindo as porteiras para tudo e todos, e isso influa de forma mais permissiva nos temas canábicos e psicodélicos? Pouco provável, mas talvez. Ou pode ser que a postura alinhada a movimentos de extrema direita faça com que a Meta pese mais contra assuntos que são alvos de preconceitos e desculpa para repressão, como os da bandeira da maconha? Talvez. O que temos são apostas. Com a Meta as coisas são um tanto enigmáticas, digamos que codificadas.
De alinhado, há as diretrizes que a Meta coloca para sua comunidade em termos nem sempre transparentes. Com a maconha, o vaivém é constante nas normas, sendo que as últimas alterações significativas ocorreram no fim do ano passado. Por ora, o que está valendo é debater o assunto (como a legalidade da planta), piadas, arte, publicar entrevistas, fazer jornalismo; o que não pode é vender, presentear, incentivar e ensinar a usar. Além disso, deve-se seguir algumas medidas como classificar o perfil como apenas para maiores de 18 anos.
A Breeza procura seguir as normas, afinal o que fazemos é símbolo de liberdade de expressão: jornalismo. Mas será que é dessa liberdade que Zuckerberg estava falando em seu vídeo? A ver. Fato é que, mesmo assim, a Breeza sofre perseguição. Andamos na linha, mas encaramos um shadow ban desde nossa primeira semana, prova disso é que nosso perfil não aparece na aba Explorar e nem quando se procura por ele. Para achar a Breeza no Insta, atenção, é preciso digitar cada letra ao procurar pela @, o nosso @breeza_revista.
Caso sofra com a censura nas redes, procure um advogado, pois entrar na Justiça tem surtido algum efeito. Para se precaver, além de tudo que debatemos acima, outra é dica é não depender somente da Meta, como ao apostar em outras redes, como o TikTok e o YouTube. Nós mesmos aqui da Breeza temos de começar a seguir mais essas dicas. Afinal, todos nós que mexemos com o tema da maconha temos de ficar atentos e fortes contra repressões e censuras.
Filipe Vilicic