Saindo da estufa

Manuela D´Ávila: “Sou garota propaganda do canabidiol pra dor crônica”

Manuela D’Ávila não tem medo de polêmicas. E quando o assunto é cannabis, ela vai além do discurso político, falando pela primeira vez, nesta conversa com Anita Krepp, da Breeza, como encontrou na planta a cura para uma enxaqueca crônica que a acompanhava desde os 9 anos de idade. Mas a sua defesa da regulamentação não para no uso medicinal. 

Manuela critica o tabu que cerca a planta, destacando os prejuízos econômicos, científicos e sociais da proibição — enquanto nos EUA, onde ela morou até o ano passado, o tema é um consenso entre direita e esquerda.  

Enquanto muitos progressistas abandonam a pauta na corrida eleitoral, Manuela sustenta: a regulamentação é urgente. “O Congresso só aprova o que tem apelo popular ou está na ‘janela de oportunidade’ — e a cannabis não está nela”, analisa, alertando: se a esquerda não ocupar esse espaço, quem o fará? 

Na casa de Manuela, o tema das drogas não é tabu, e com a filha Laura, de 10 anos, a conversa flui naturalmente, sem histeria ou romantização. “Explico conforme ela pergunta”, diz, destacando que sua maior preocupação não é a maconha, mas o álcool – uma droga socialmente aceita que sua filha vê os adultos consumirem sem culpa. Num país onde a educação sexual vira “kit gay” e a cannabis vira caso de polícia, talvez o maior ato revolucionário seja simplesmente conversar sobre o tema com gente de todas as idades.

O PSOL formalizou o convite para a sua entrada no partido e a gente quer saber, afinal, você vai entrar? Se sim, quais serão as suas ambições políticas dentro do PSOL? Prefeitura, governo, Senado?

Anita, ainda não tomei a decisão. Eu sou uma mulher que acredita na necessidade de organização partidária. Saí de um partido, que é o único partido que eu militei na minha vida, eu me organizei no PCdoB, militei 25 anos lá. E eu não saí negando a necessidade dos partidos, ao contrário, acredito que nós vivemos um momento em que a disputa com a extrema direita é mais importante do que em qualquer outro momento da minha vida pública. Ou seja, se organizar é mais importante do que em qualquer momento da minha vida pública. Eu vou escolher um partido, porque eu acredito que essa é a melhor forma da gente disputar a sociedade. O PSOL me convidou, é um convite que eu recebo de forma muito honrada, porque eu sei que são companheiros que também valorizam as estruturas partidárias. Mas eu não tomei nenhuma decisão, porque eu vou escolher um partido para me organizar, não para concorrer, concorrer ou não sempre foi consequência, para mim, da representação partidária. Eu só concorri tantas vezes como concorri, porque eu acreditava nas ideias que eu defendia para a sociedade. Eu vou me organizar e aí, então, decidir se vou concorrer ou não, será uma consequência. Tem gente que está atrás de um partido para concorrer, eu escolherei um partido e posso ou não concorrer. Eu quero me organizar, ajudar a construir e impedir que a extrema direita volte a governar o Brasil.

Você considera que o PSOL é um partido de expressão suficiente para, de repente, se você tiver ambições para o Senado ou para o governo? Dois dos cargos que eles nunca tiveram.

Eu concorri oito vezes pelo PCdoB. O último deputado federal que o Partido Comunista tinha tido no sul do Brasil foi o Prestes. Então, eu nunca fiz a escolha para ser eleita. Eu sempre me mantive naquele partido porque eu acreditava nas ideias que aquele partido defendia para o Brasil. Tem gente que vai para partido para disputar protagonismo eleitoral, eu construí um protagonismo eleitoral em um partido que não tinha. Construí uma relevância pública na esquerda do meu estado, na esquerda brasileira, a partir de ideias. E eu procuro um lugar para defender essas ideias. Pode não ser o caminho mais fácil, mas é o único caminho que eu acredito que seja válido. É um instrumento coletivo de luta social.

Você está fora do PCdoB desde novembro do ano passado, não é isso?

Publicamente, sim. Mas o meu afastamento formal interno foi em 20 de março de 2023, ou seja, já faz dois anos.

Durante esse tempo sem partido, depois de mais de duas décadas afiliada, como é que foi, no que deu para pensar nesse tempo? A que conclusões você chegou, pelo fato de estar de fora?

Primeiro que, mais do que nunca, acredito na necessidade de organização coletiva, porque consigo perceber a relevância, óbvio, pública que adquiri ao longo desses 25 anos de militância, mas a formulação, quando é feita de forma coletiva, é mais avançada. Então, ficar sozinha nunca foi a minha intenção. Eu saí sozinha porque é o que eu acredito que seja certo, não acho que seja certo ficar num lugar organizando outro, trazendo gente, vamos sair comigo? Inclusive porque a liderança pública que eu construí foi construída com o meu esforço, com a minha dedicação, com as minhas qualidades, mas também foi construída com o empenho do próprio PCdoB. Então, não é uma construção assim, ah, se construiu do ar, saiu do ar. Mais do que nunca eu estou convencida da necessidade de nós termos uma frente ampla que isole a extrema direita, mas eu sou uma mulher de esquerda, ou seja, qual é o meu lugar na frente ampla? Disputar as ideias que representam os trabalhadores e as trabalhadoras, e para mim não há contradição entre defender a amplitude tão ampla quanto for possível. Para mim esse não é um exercício de retórica, esse é um exercício de sobrevivência física, minha e da minha família, mas eu sou uma mulher de esquerda. Essa equação, e esse é o lugar que eu procuro para militar, um lugar que reconheça a ameaça que a extrema direita representa, não eleitoralmente, mas socialmente, ideologicamente, na disputa das ideias do povo, das mulheres e dos homens trabalhadores, que reconheça essa ameaça, que defenda, portanto, o que é necessário ser amplíssimo para impedir que essa ameaça se consagre, eleitoral e socialmente, mas que seja uma organização esquerda com esses atributos.

“O CBD levou 30 anos pra chegar na minha vida, que mundo a gente vive que até 2019 ninguém tinha falado sobre isso comigo?”

Lá em 2018, um pouquinho antes de você sair na chapa à presidência como vice do Haddad, você compartilhou no Facebook a notícia de que a criminalidade tinha diminuído nos estados americanos onde a cannabis havia sido legalizada. Hoje, qual é a sua postura em relação à regulamentação de todos os usos da planta?

Eu morei nos Estados Unidos entre junho de 2023 e 2024, fazendo uma etapa do meu doutorado, e é muito impactante o avanço social, os espaços de comercialização de diversos tipos de uso da cannabis. E é, inclusive, impressionante como isso sequer é um debate que a extrema direita traz quando volta ao poder com o Trump. Ou seja, a extrema direita debate tudo, mas não está debatendo a cannabis nos Estados Unidos, porque ela percebeu a dimensão do impacto econômico disso, e também as outras consequências positivas, mas, sobretudo, no caso deles, dimensão do impacto econômico para a economia norte-americana. Eu faço essa preliminar para a gente ver como é possível construir consensos sociais, baseado em experiências já vividas, que não sejam consensos que nós fiquemos na defensiva. Eu recebo injustamente o apelido de “maconhela” por defender a regulamentação da venda, eu digo justamente porque eu não fumo maconha, né? Poderia fumar, mas não fumo. E recebo injustamente por trazer o debate e ao invés de querer debater e ampliar socialmente o debate, a gente fica na defensiva, não, não vamos falar sobre isso. Enquanto isso é uma perda econômica para o Brasil, traz consequências horríveis do ponto de vista da chamada Guerra às Drogas, porque uma parte das pessoas, que faz uso recreativo, se envolve numa situação do ilícito. Então, é uma situação inteira de relação do narcotráfico, que no Brasil também se relaciona com a cannabis. Então, econômica, social e, em terceiro lugar, a gente tem impactos da ausência do debate científico sobre os usos diversos da cannabis, seja o uso recreativo ou o uso em situações de saúde. E eu posso dar esse relato em primeira pessoa, porque a despeito de eu ter a fama de maconhela injustamente, eu brincava nos Estados Unidos, quando eu morava lá, que eu era a única pessoa em toda a cidade que não fumava. Eu até fiquei irritada numa certa hora que eu queria que tivesse regramento dos lugares pra fumar tal qual tem do cigarro. Mesmo não fumando, eu fiz um tratamento muito exitoso pra enxaqueca, que é algo que me acompanha desde os meus nove anos de idade, e fiz com CBD, e teve um impacto fortíssimo em mim. O processo de importação era caríssimo, e eu importava pelo fato de eu ser eu, né?, mas sabendo que no Uruguai custava uma sexta parte do preço o mesmo produto. Então, assim, tem muitos impactos essa discussão travada no Brasil, tem o impacto econômico, tem o impacto na segurança pública, e tem o impacto da ausência de debate científico e médico sobre outros benefícios que a cannabis pode trazer em tratamentos como esse.

Uma pessoa como eu que sofreu desde os nove anos de uma dor quase incapacitante, e que foi curada. Eu fui curada, né? Porque eu fiquei anos sem crise, e hoje eu consigo já sem consumir o CBD, sem fazer uso contínuo, como eu fiz, fazer uso eventual em situação de início de crise, fazendo com que ela não aconteça. Pode parecer uma bobagem pra quem nunca teve uma dor incapacitante, mas pra quem convive cronicamente com a dor, como eu convivi, dizer eu fiquei três anos sem dor, é uma coisa que dá vontade de chorar de feliz, entende? 

Conta pra gente um pouco dessa sua saga com a dor de cabeça até encontrar com a erva?

Cara, eu acho bem revelador, por isso que eu falo do prejuízo científico, sabe? Porque os outros dois, talvez eles sejam mais óbvios, o econômico e o da violência. Mas o prejuízo dos assuntos serem assuntos comuns, da ciência regrar e das pessoas falarem livremente, sem a carga moral da proibição. Enxaqueca é uma coisa que a gente não deixa de ter, eu tenho desde os meus nove anos, e eu convivi com dores crônicas durante a minha vida inteira, claro que na minha vida adulta, com a complexidade da minha própria existência, inclusive a complexidade profissional, de me tornar deputada, de aí ter gatilhos da minha dor muito frequentes, tipo mudança climática, de morar em Porto Alegre e trabalhar em Brasília, dois climas que são diferentes, pegar avião, estresse, noites mal dormidas, tudo isso fez com que no período em que eu fosse deputada, eu tivesse crises permanentes de quatro dias contínuos, cinco dias contínuos. Em 2019, quando teve o episódio do hacker, que o hacker me procurou para passar as informações com relação à Operação Lava Jato, eu guardei esse segredo, só eu sabia do meu próprio envolvimento nisso, e eu tive uma crise de mais de 50 dias. Todos os dias eu fiquei com dor e muita dor. Eu fui para Brasília, e uma amiga minha me viu, não conseguia conversar direito, com o olho amarelo já de tanta dor, e ela falou, vai numa médica hoje. Essa médica falou várias coisas importantíssimas comigo, e no final ela falou, e eu acho que tu deveria tentar tomar cannabidiol todos os dias em volume X de gotas. Eu tinha uma viagem marcada para Nova York, e eu falei, já sei, eu vou experimentar tomar o cannabidiol quando eu estiver em Nova York. Cara, eu era tão ignorante que eu abri o frasco e pensei que era tipo floral. Então, caiu um monte e eu, tipo floral, peguei lambi um monte que caiu e não acordei nunca mais no dia seguinte, risos. E aí eu pensei, cara, tem um efeito colateral, me dá sono, e eu não dormia muito bem. E aí, então, eu voltei pro Brasil convencida de que aquilo podia me fazer bem, inclusive pelo efeito colateral, que era dormir, ter várias horas de sono, contínuas. Tanto que eu brinco com os médicos, falando ó, não sei o que me fez bem, o que me curou da enxaqueca, foi ter aprendido a dormir ou se foi o CBD. Não consigo saber, porque também, evidentemente, que o sono é reparador e diminui a crise, então era uma piada com fundo de verdade. E aí, então, eu decidi fazer importação com uma outra médica minha, que é a minha clínica geral, fazer o processo de importação e fiz uso contínuo. Só parei de tomar quando o Bolsonaro perdeu a eleição, que eu pensei, ah, vou tentar desmamar agora, que é o momento que a minha vida vai ficar cronicamente melhor.

“Só parei de tomar quando o Bolsonaro perdeu a eleição, que eu pensei ‘Ah, vou tentar desmamar agora, que é o momento que a minha vida vai ficar cronicamente melhor'”

Não voltou, mesmo depois de você deixar? 

Não, não, exatamente. Me levou pra um outro lugar, de conhecimento, de controle dessa dor. As pessoas falam, mas “por que que tu parou?” Porque eu sempre entendi como uma medicação, e eu sentia efeitos colaterais que eram menores do que a dor, tipo, isso do sono, de me tornar alguém mais preguiçosa, digamos assim, que pra mim era algo que eu não gostava de ter. Hoje tenho feito esse uso quando das situações que eu percebo que a crise vai acontecer. Eu conversei isso com o Suplicy, quando ele tornou público o uso que ele tava fazendo. Falei, gente, vocês precisam entender que eu tô tomando isso por causa da dimensão pública da violência que eu vivo, ou seja, essa coisa crônica da dor de cabeça, embora eu tenha desde criança, tem muito a ver com a violência externa, com ser ameaçada. E se eu colocar mais essa camada, se eu transformar algo que tá me curando em bandeira, apesar de eu reconhecer a importância, vai ser inócuo, porque eu tô tentando ficar boa, às vezes, cansa transformar tudo em luta, nem a minha maternidade eu consegui fazer, deixar de fazer a travessada pela extrema direita, mas hoje, já em outro lugar, em outro país, em outra condição, pra mim, esse é um debate que eu sempre fiz de maneira não, assim, aberta, não na imprensa, mas com pessoas que sofrem a mesma coisa que eu, e eu atravessei todas as etapas, eu tomei todas as medicações, tomei medicações que me incapacitavam, que foram super importantes, porque me tiravam da dor, mas que me incapacitavam mentalmente, por exemplo.

Então, você diria que a cannabis foi a solução pra sua dor de cabeça crônica?

Pra mim foi, né? Pra mim foi, e eu fico muito triste que não haja um debate, não é querer adjetivar a política, mas eu falo aqui no lugar de quem sofre com dor crônica, como é enxaqueca, uma dor incapacitante, uma dor que me fez pensar várias vezes, talvez as únicas vezes que eu tenha pensado, cara, é melhor morrer do que sentir isso, sabe? De tão forte que pode ser a enxaqueca, quando tem ela de forma contínua, e ela vai te deixando exausta e tu não aguenta. É muito cruel que eu tenha sido submetida a tantos tratamentos que eu comecei a fazer o ciclo, e eu fui falar, e eu olhei pra plateia e disse, me desculpem, eu não consigo falar, eu não sei como organizar as minhas ideias, porque ela me incapacitava mentalmente, alguém que desde os 15 anos fala… Esse é o lugar que a falta do debate científico e não moral submete as pessoas, porque eu tô falando de mim, alguém que mesmo eu nunca tinha cogitado, sabe? Que mundo a gente vive que até 2019 ninguém tinha falado sobre isso comigo?

Por que você decidiu falar sobre o seu uso agora? 

Eu acho que tem duas questões centrais, eu vivo um momento mais tranquilo na minha vida, estou escolhendo as brigas que eu quero comprar, consigo olhar e dizer, deu certo e não é justo que outras pessoas convivam com isso e não possam fazer. Segundo, quando eu comecei a tomar, era o governo Bolsonaro, então era um tempo que eu estava lutando pra não ser morta, em que eu era ameaçada, minha filha era ameaçada e o Estado era cúmplice das ameaças. Então, assim, naquele contexto, eu tinha uma luta primeira, que era me manter viva e manter a minha família viva e manter a minha saúde mental, equilibrando isso. E, vê bem, eu disputei 2018, em 19 teve o hacker, 2020 eu disputei de novo, então eu não tornar público faz parte de um conjunto de coisas que eu decidi não tornar públicas. Eu parei de estar ali, sei lá, em 2020, era um pacote de necessidade minha de cuidar da minha saúde mental e da minha existência física. E agora também é um momento que eu me sinto globalmente inteira, tanto que eu voltei a discutir política publicamente, que eu voltei a publicar nas redes. E, casualmente, infelizmente, a cannabis só chegou a mim quando eu estava retirando o meu time de campo. Loucura. Foi o timing. Não foi só sobre a cannabis, foi sobre tudo. Eu pouco falei sobre ter ido fazer o meu sanduíche de doutorado nos Estados Unidos, não estava bem, era outra vibe.

Como paciente, o que você achou desse processo de acessar o remédio de maconha? 

Para mim, a principal questão é isso não ser uma conversa em todos os consultórios. Deveria ser, e eu falo aqui de boca cheia porque, nossa, eu bati em muita porta e muitas portas se abriram porque eu era eu, no caso da enxaqueca. E mesmo assim o CBD levou 30 anos pra chegar na minha vida. É uma opção, ninguém é obrigado a tomar, mas deveria estar no cardápio, como acupuntura tinha que estar e não tá. Então, eu quero que seja posto no cardápio das opções das pessoas que têm dor. Isso é um tema. É muito caro pras pessoas que não têm acesso aos espaços que produzem mais comunitariamente, como são as associações. Eu sei que tem muito trabalho sério, de muita associação no Brasil que é fruto de luta, eu sei que isso barateia, mas pras pessoas que tão avulsas no mundo, é muito caro. É muito caro. E a ilegalidade é algo que dá muito medo nas pessoas comuns. Todos nós, que não sou, todo mundo tem medo da ilegalidade. Então, por exemplo, eu poderia dizer, no meu estado, as pessoas podem atravessar uma rua e comprar no Uruguai, mas elas têm medo. Eu, quando tomava meu canabidiol importado legalmente, tinha medo de cruzar fronteiras. Às vezes, eu já tinha passado o raio-x e pensava, cara, será que nesse país pode? Nem pensava, porque pra mim era meu remédio. Entende? Então, assim, é uma loucura viver com essa sensação limítrofe entre legal e ilegal. E num país em que o debate sobre o uso recreativo da cannabis é obstruído por aspectos morais, enquanto do álcool não, ou do cigarro não, o que surge é o debate moral sobre o uso, mesmo pra quem faz uso medicamentoso. É uma coisa confusa na cabeça das pessoas, pela falta do debate. É impressionante, como o aspecto moral e da criminalização tira do debate público esse uso, é muito impressionante.

A gente tem visto projetos de lei de cannabis no SUS que não inclui dor crônica, você voltando a ocupar algum cargo, apresentaria proposta sobre cannabis de repente incluindo dor crônica?

Eu sempre tive isso com muita tranquilidade no meu debate público, sabe? Inclusive, quando eu fui candidata a presidente, isso era um dos temas que a gente trazia para o debate público por convicção minha, mesmo antes de usar canabidiol para enxaqueca, para essa dor crônica que eu sentia. O Trump tem agenda para abortos, tem agenda para as pessoas trans, tem agenda contra as mulheres. Qual é a ofensiva que ele está fazendo contra o regramento do comércio da cannabis nos Estados Unidos? Nenhum, e não adianta nem dizer, ah, mas é estadual. Mentira, ladainha, porque o aborto é estadual, a interrupção da gestação é estadual lá, como quase tudo, e ele faz a ofensiva dele. Ele se mete onde ele quer discursivamente e não está fazendo nada sobre isso. Não seria uma novidade na minha vida pública defender essas posições. Eu só posso falar da minha experiência. Eu, apesar de ter convivido com pessoas que tiveram câncer e que fazem uso, convivo com pessoas que fazem uso pra outras doenças, etc, mas eu só posso falar da dor crônica, e sinceramente, eu até brincava que eu sou garota propaganda do uso do canabidiol pra dor crônica, porque comigo deu certo. E quem sente dor ou quem tem uma pessoa que ama que sente dor, sabe exatamente do que eu estou falando. Só quem tem dor sabe, é um lugar mais próximo da precariedade da condição humana. É enlouquecedor sentir dor, é desesperador. Eu só posso falar desse lugar. O uso dos derivados de cannabis pra dor mudou a minha vida e não é justo que não possa mudar a vida de mais pessoas.

O Congresso só aprova o que tem apelo popular ou está na ‘janela de oportunidade’ — e a cannabis não está nela

A gente tem percebido um fenômeno interessante dos políticos do campo progressista, que naturalmente seriam favoráveis à regulação da cannabis, mas isso só até chegar na eleição, porque quando se tornam candidatos, eles costumam abandonar a pauta e muitas vezes chegam, inclusive, a negar que outrora foram apoiadores dessa discussão. Por que você acha que isso acontece?

Eu acho que tem várias questões nisso, a primeira, é que é natural candidatos hierarquizarem pautas, né? A extrema direita, ela traz todas as pautas pra todas as eleições. Por quê? Porque eles vivem nesse mundo da desinformação, etc. Eu não tô defendendo mudar de posição, jamais. Eu jamais tive que fazer isso na minha vida. Eu perdi muitas eleições, nenhuma foi por ter mudado de posição, talvez tenha sido por não ter mudado. A gente vive um tempo em que derrotar a extrema direita também faz que candidatos majoritários tenham que fazer concessão na agenda. Essa concessão não significa uma concessão individual. Mas é diferente ser deputado de ser candidato majoritário. Porque o deputado representa as ideias de um segmento. E esse é o trabalho dele. O candidato majoritário, ele defende opiniões médias da coalizão que o defende. Eu também acho que a gente torna superficial o debate sobre abrir mão da pauta. Existem coalizões que são formadas que são mais conservadoras. E é uma demanda do nosso tempo. O candidato não ser porta-voz disso, para mim, pode ser uma consequência natural da coalizão que o sustenta. Agora, os partidos que sustentam essa candidatura, às vezes o do próprio candidato, precisam fazer a pressão e a disputa sobre essas ideias. Imagina que eu sou candidata a um cargo majoritário, a prefeitura, o governo ou a presidência da república. Tem dez partidos que me apoiam, aí eles falam, na nossa agenda aqui, da maioria, não cabe o tema da cannabis. Eu sou a porta-voz disso. Tudo bem, eu sou a porta-voz dessa coalizão. Agora, o meu partido, que é o de esquerda, tem que ser o que diz “a frente é ampla, ela é diversa, tem opiniões diferentes, mas nós, enquanto partido, seguiremos lutando para que haja uma nova política de cannabis”. Como a gente não tem debate sobre como funciona a coalizão, que a gente tem pouco debate sobre qual é o papel dos partidos de esquerda na coalizão ampla, o candidato defende a opinião média da coalizão e os outros partidos dizem, opa, tem que copiar o candidato aqui. E aí não fica ninguém defendendo a nossa agenda. Acho também que a gente precisa que existam essas discussões, porque senão elas ficam sempre engavetadas e sempre quem é encalacrada com elas é a nossa turma.

Você vê alguma possibilidade de o legislativo avançar com esse tema? Ou você acha que é mais provável que venha um avanço por decreto presidencial ou ministerial?

Acho muito difícil avançar, porque nós estamos numa fase que a extrema direita está na ofensiva ideológica, e a esquerda ou o campo progressista reage a isso refratariamente ficando recuado ao invés de apresentar as suas verdadeiras ideias para o mundo, entendeu? Por isso eu acho difícil que aconteça tanto num espaço quanto no outro. No Brasil, o Congresso só aprova leis majoritariamente ou que tem um grande apelo popular, aquilo que a gente chama na política pública de janela de oportunidade, popularmente a gente dizia uma conjunção dos astros, ou que tenha grande apelo popular, não é o caso da cannabis no Brasil, ao contrário, o debate moral é muito elevado. Quem quer que esse debate avance hoje no Brasil? Quem com força quer? Eu não vejo.

A Laura, sua filha, vai completar 10 anos de idade e a adolescência já está batendo na porta. Você já tem alguma ideia de como e quando abordar o tema drogas com ela?

Cara, eu não acho que os temas têm idade pra ser abordados. Eu acho que tem uma forma pra gente abordar todos os temas em cada idade, e essa forma se relaciona com como a criança se relaciona com a sociedade. A Laura é uma criança que foi criada num ambiente muito particular. Ela é minha filha, e do Duca, duas pessoas que não fumam. Então, ela não tem esse debate atravessado a partir da nossa experiência particular, mas ela é alguém atravessada sobre isso permanentemente. Lá nos Estados Unidos, a gente conversou muito com ela sobre isso, por exemplo, eu várias vezes falei com ela sobre a mamãe não gosta, porque sempre do lado de fora da cafeteria tem esse cheiro de maconha, filha. Eu fumei cigarro dos 13 aos 29, sabe? Quando eu parei de fumar, que eu entendi qual era o problema. Aí eu falei, pô, ainda mais aqui, que tem outras formas da galera consumir que não precisa fumar, né, cara? Pode comer bala, não precisa ter aquela parte ruim, né? E aí ela falava, mas por que que é proibido? A gente fala, tem várias drogas, o remédio que a mamãe toma, o ibuprofeno, o vinho que a mamãe toma é uma droga. O açúcar é uma droga, muita gente considera. No Brasil, a maconha é proibida, nos Estados Unidos ela é legalizada. Então, assim, à medida que ela pergunta numa casa que conversa sobre todos os assuntos, ela recebe respostas de acordo com a capacidade dela de interpretar. Óbvio que tu não vai explicar sexo pra um adolescente, pra uma criança de dois anos do mesmo jeito, porque ele pergunta o que é isso, é uma coisa óbvia. Da mesma forma, drogas. Então, assim, eu acho que esse tema é um tema que ela vai amadurecendo junto com o desenvolvimento dela. Essa preocupação não é uma preocupação que eu tenho com maconha, eu tenho com álcool, que eu consumo pouco, mas consumo, e que é super aceito. Ela vê eu e minha mãe, quando a gente está junto, a gente toma vinho, então ela vê e sabe que aquilo ali nos deixa felizes, que a gente gosta. Qual é o lugar dessa memória na cabeça dela? É o lugar de que aquilo é uma coisa importante pra nossa socialização? É ruim que a memória seja essa, que ela pense eu e minha mãe felizes com vinho, né? Esse é um debate que, pra mim, acompanha a criação da Laura e faz parte das preocupações que eu tenho

Eu tenho uma preocupação muito grande sobre álcool, porque eu tenho muita preocupação sobre direção e álcool, direção e uso abusivo de qualquer substância. Não é fácil conversar sobre as coisas, né? Esse é uma experiência difícil da maternidade, porque a gente não quer ser careta em nenhuma discussão como os nossos pais foram, nem sobre sexo, nem sobre drogas, nem sobre qualquer coisa, mas a gente também não sabe o quanto da nossa educação deu certo, porque os nossos pais eram um pouco caretas, eu tenho essa dúvida… Como é que tu faz a pessoa poder ter uma criação que seja mais aberta, mais conversada, mas também conhecendo, que não seja na base do terrorismo. Eu acho que a gente precisa pensar essa discussão sobre a maconha com os filhos numa chave maior da ausência total, porque como é que tu fala sobre sexo com o teu filho e com a ideia da rejeição? No caso do menino. O menino foi rejeitado. Ou como é que tu fala com a menina sobre liberdade e fala que liberdade é uma coisa muito mais complexa, ser dona do corpo é muito mais complexo do que dar pra quem tu quer. É não dar, eventualmente, é super complexo. Eu acho que a gente não debate nada sobre como criar filhos.

Porque ainda é um assunto tratado como privado. Por quê? Porque o trabalho reprodutivo, sendo privado, ele recai sobre os nossos ombros. E aí, a dimensão não pública faz com que a gente fique pensando assim, é, eu tenho que falar com a minha filha sobre álcool, sobre maconha, sobre sexo, porque a sociedade, as instituições que mediam as nossas relações não podem fazer isso, e podem cada vez menos com o ofensivo da extrema-direita. Quando a gente queria falar sobre educação sexual em escolas, no Plano Nacional de Educação, eles vieram dizer o quê? Que isso era kit gay e doutrinação das crianças. Adolescência, essa série, pode acontecer no Brasil porque a extrema-direita chamou de kit gay o letramento escolar sobre violência, sobre sexualidade, sobre identidade de gênero, sobre a vivência sexual. Quando a gente fala sobre isso, ah, querem ensinar os nossos filhos a transar. Não, a gente quer ensinar a não matar quem não quis transar com o teu filho, que é o que acontece na série. Então, assim, pra mim, esse debate sobre criar filhos é altamente complexo e altamente solitário e a gente precisa tornar ele público.