Reportagens

Além dos números

O olhar da Breeza sobre os novos Anuários da Kaya com os cenários da cannabis legalizada e do mercado em torno do uso adulto no Brasil em 2025

Por Filipe Vilicic

Será que o boom do medicinal passou? Quais são as próximas tendências do mercado da cannabis? Perguntas assim surgem na leitura dos novos Anuário da Cannabis Medicinal, o quarto lançado pela Kaya Mind, que saiu junto com o Anuário do Mercado: Growshops, Headshops e Marcas, que é o mais próximo que se tem de uma radiografia do uso adulto e por lazer.

A maconha que tá na lei

Por ser regularizado, fiscalizado, passar por um processo de legalização e atuar em uma área dependente do Ok de órgãos federais, o panorama que a Kaya faz do medicinal é mais rico em números precisos e estatísticas comparativas, do que o seu par sobre o mercado.

O número que logo salta aos olhos é o de que o comércio da maconha legal do Brasil, ou seja, a para fins médicos, alcançou R$ 971 milhões em 2025. O número causa impacto pelo seu tamanho, porém, o ritmo de crescimento diminuiu e, hoje, trata-se de um cenário de maior maturidade, mas mais estabilidade e menor espaço para novatos.

De 2024 para 2025, o aumento foi de 8,4%. Significativo, mas pense que, desde 2018, o mercado multiplicou seu tamanho mais de 260 vezes. Logo, o estouro é um momento que parece ter ficado para trás.

“Conforme a base fica maior, o porcentual de aumento vai ser menor. De um para dois, dobra, assim como de mil para dois mil, mas o segundo é mais difícil de acontecer”, avalia Maria Eugenia Riscala, cofundadora e CEO da Kaya. Ao mesmo tempo, ela acrescenta que “existe estabilidade, mas é mais normal, não acho que vai ter um novo grande boom”.

Medicinal: onde há espaços para crescer

O Anuário chega à conclusão que as importações têm perdido terreno, mesmo que ainda representem o fornecimento para a maioria dos pacientes, enquanto há crescimento da presença das farmácias e novo ganho de espaço pelas associações. Movimentos que acompanham progressos em legislações e regulamentações, com o impulso das farmácias sendo consequência do ambiente estar cada vez mais permissivo a elas.

As associações continuam a operar em terreno cinza e parece que há qualquer hora podem sofrer interferências indevidas, inclusive com a prisão de seus representantes, como ocorreu recentemente com a Santa Gaia. Só que se beneficiam positivamente com o aumento de pacientes, do conhecimento de como se tem acesso à medicina e de, apesar dos casos continuarem a ocorrer, de uma progressiva diminuição da judicialização de suas operações.

A possibilidade agora quase incontornável da regulamentação para o cultivo em solo nacional no ano que vem, em um passo que já tardou demais (como tantas vezes escrevemos sobre aqui na Breeza), deve acender ânimos e motivar investimentos no setor. Para Riscala, contudo, isso ainda não deve se refletir em mudanças nos números no próximo anuário, do fim de 2026: “Mesmo começando a valer no ano que vem, virá o marco, sairá as licenças, têm de plantar no chão, difícil que vire remédio já em 2026″.

Com a regularização, podem já ser planejados novos produtos, abre um mercado enorme, mas que dependerá de especificidades como do limite que será permitido para o THC. Apesar de se saber que o movimento tende a fazer as importações perderem espaço, enquanto outras formas de vendas, de origem nacional, devem ganhar, ainda é cedo para compreender quais serão os setores que terão maior força.

Tudo pode acontecer, pois depende da regulamentação que está para sair em março. Se ela focar mais em pequenos produtores, esses serão os beneficiados; se forem em algumas poucas empresas licenciadas, ficará concentrado nelas. O que vai determinar, de fato, é o caminho que for aprovado pelas instâncias federais para o progresso do comércio de cannabis.

Estamos aqui falando de medicinal, então tudo passa pelos médicos. Ainda reside neles o caminho para o crescimento e, por isso, o progresso do assunto incorpora também a descoberta desses profissionais da possibilidades da cannabis. Não se trata somente de tornar mais especialistas habilitados em prescrever, pois apenas 1% daqueles que o podem fazer hoje, fazem.

“Na psiquiatria, na neurologia, já está bem estabelecido, difícil o número dobrar, triplicar. A maioria das empresas do setor já visitaram neuros e psiquiatras”, exemplifica Riscala. Porém, ela vê o oposto em especialidades como medicina do esporte e medicina da família, com bastante espaço para as prescrições crescerem entre os médicos mais generalistas.

A possibilidade de dentistas receitarem remédios com base na erva é outra avenida de possibilidades. Hoje apenas 0,2% desses profissionais prescrevem a cannabis e há, aí sim, como dobrar, triplicar, quadruplicar, quintuplicar.

Os avanços têm sido permitidos não só pelos progressos federais, como pelo maior movimento municipal e estadual em favor de políticas públicas a favor da democratização do acesso. Apenas cinco estados brasileiros ainda não possuem leis voltadas ao fornecimento público de cannabis medicinal, sendo que governos compraram mais de 370 milhões para garantir o fornecimento dos fármacos a pacientes.

O diálogo da economia e da saúde com a política se estende para os palanques. Como a Breeza vem desenhando aqui, deputados, ministros, muitos candidatos a cargos em 2026, estão empenhados na bandeira pró ou contra a maconha, tanto no âmbito federal, quanto nos estaduais e municipais. A diamba tem se tornado pauta incontornável.

O cinza do uso adulto

Adulto, por lazer, alguns insistem no recreativo. Seja como chamar, há outro mercado, bem menos formalizado e fiscalizado, mas mais antigo e disputado numa concorrência forte, que é o do uso da maconha por quem não vai atrás de uma receita antes de comprar e fumar o seu. Complicou? Tâmo falando do baseado usual, de maconheiros, não canabizeiros

O Anuário do Mercado: Growshops, Headshops e Marcas da Kaya traz o melhor desenho, a partir de dados e entrevistas com representantes das empresas que atuam na parte legalizada, da venda de sedas, itens de tabacaria, estufas e tanto mais. Mesmo assim, é um cenário de números limitados, se comparado ao do medicinal.

A Kaya estima também próximo de R$ 1 bilhão o comércio das growshops, headshops e marcas canábicas. Há muita expectativa de crescimento, com 85% dos líderes dessas empresas apontando nessa direção. Dados envolvendo a venda propriamente dita de maconha para uso adulto, ou seja, a ilegal, não são muito confiáveis. Tanto que a Kaya coloca uma estimativa de 2021 e que vai de 7 a 51 bilhão de reais, numa diferença e tanto de valores. 

Estão também na área cinza e não mapeada os produtos do comércio ilegal, como de contrabandos, prática comum nessa área. Assim como se compara bastante com a indústria do tabaco, que serve de referência para o tamanho dos CNPJs envolvidos.

Uma das partes preciosas do relatório é a lista com 413 empresas envolvidas com o mundo canábico. Também há páginas ricas em avaliações de tendências e uma pesquisa bem interessante com líderes de 20 das principais marcas do país. Eles observam muita competitividade no mercado, que depende bastante ainda de contatos do boca a boca e com fornecedores, e por outro lado amadurece na exploração de marketing, redes sociais e ações de divulgação. 

Senão no medicinal, o próprio boom da maconha poderia estar aí. Houve crescimento das vendas de itens relacionados durante a pandemia – quando, em casa, fumávamos mais e muitos descobriram a erva – e, no ano passado, com novo impulso com a descriminalização pelo STF. O que realmente transformaria tudo seria, porém, a legalização do uso. 

Convenhamos que um passo que infelizmente ainda não está tão perto para nós em nosso Brasil conservador, moralista e de tantas hipocrisias. Mas quem sabe a brisa política mude para novos rumos, as eleições de 2026 tão aí, né? Pensemos nisso ao votar?