Reportagens

Ataque à linha de frente do cultivo

Mostramos o ponto de vista das pessoas que fazem a Santa Gaia e tiveram suas vidas transformadas em um pesadelo após a invasão da associação pela polícia de Tarcísio

Por Filipe Vilicic

Quando Renan Dopfer olhou para trás ao se assustar com um barulho estranho, havia o cano de um fuzil apontado para seu rosto. Quem não teria medo? Para sua surpresa, não era um assalto. Ou ao menos não um convencional. Quem invadia seu escritório de trabalho era a polícia.

Renan não ouviu a polícia chegando pois o garoto de 23 anos estava prensando resinas de cannabis no laboratório, cheio de aparelhos para realizar a extração da planta. Todo mundo da cidade de Lins, em São Paulo, não teria qualquer dificuldade ou problema em saber o endereço de seu escritório; na verdade, passam por lá muitas crianças e idosos da região para retirar seus medicamentos contra males que vão de ansiedade e dores crônicas a crises de epilepsia. 

Não é nenhum segredo que Renan e seus 53 colegas trabalham na Santa Gaia, pois lá eles provêm medicamentos para mais de 9.000 pacientes espalhados por todo o país. Quer saber quem são? Vá a feiras do setor, como a ExpoCannabis, logo mais em novembro (dica: se quiser desconto, tem o cupom “breeza”, só colocar na hora da compra), visite o site, acesse o Instagram do perfil. (Isso quando ele não é desativado pela Meta, que desde que Zuckerberg se alinhou a Trump, vem liberando transfóbicos, homofóbicos, neofascistas, mas não escritores progressistas como Jeferson Tenório – do livro “O Avesso da Pele”, teve a conta derrubada –, políticos como Manuela d’Ávila, e dezenas e dezenas de contas canábicas que sofrem com a censura algorítmica, incluindo aí a Breeza).

Mas quando Renan olhou para trás e viu um fuzil apontado para seu rosto, certamente não era sobre o Instagram que ele pensava. Na invasão da polícia às sedes da Santa Gaia, além das casas do presidente da associação e de sua mãe, os primeiros atingidos foram os que estão na linha de frente: quem planta e faz os medicamentos canábicos que salvam vidas e têm aberto as discussões rumo à regulamentação e à legalização total.

“Ficamos um tempo parado olhando pra parede, com a mão levantada. Eu ouvi uma das policiais falando que ele (um colega, cultivador) não tava deixando a mão tão alta assim: ‘Deixa a mão na cabeça para a segurança de vocês, deixa a mão na cabeça e tal’. Aí depois de um tempo que a gente ficou lá parado, fizeram a gente fazer uma fila indiana e levaram lá pro fundo no cultivo, onde estava todo mundo já sentado, esperando”.

A polícia chegou ao laboratório de forma espetaculosa. Muito diferente de como foi nos outros endereços da Santa Gaia que sofreram busca e apreensão: a área do acolhimento, o apartamento do presidente da associação e a casa de sua mãe.

“Moço, aqui somos todos de bem”

Pedro da Silva, de 58 anos e que trabalha no cultivo, diz que “tentou explicar para o moço (um policial)”. “Atendemos 9 mil pacientes, são 200 do próprio bolso do Guilherme (o presidente da associação)”. O moço não quis saber de ouvir.

Em sua avaliação, “foi uma invasão brusca, criminosa pelo meu ponto de vista, não teve um pingo de respeito”. Tudo começou na entrada da polícia. “Eles tocaram o interfone e minha esposa foi abrir o portão, mas não esperaram abrir, a guarda avançou”.

Sua esposa, Andrea da Silva, de 48 anos, também funcionária da associação, foi atender a porta assim que ouviu o interfone tocar. “Cheguei na metade do corredor, já escutei o estrondo, eles entraram com arma em punho, pediram pra todo mundo ficar no fundo e encostar na parede”, nos conta ela.

Revistaram as pessoas e algemaram Guilherme Viel, o presidente da associação. Segundo os relatos ouvidos por Breeza, fizeram com que ele ficasse com as mãos presas atrás das costas e não deixaram que ligasse para seu advogado por um bom tempo, até que cederam. “Não sei dizer quanto, se poucas ou muitas horas, não sei quanto tempo ficamos lá”, nos diz Andrea.

Sob a repressão do olhar e do fuzil, o tempo vira outro, vira o tempo de quem tem medo.

Ela nunca mais abrirá a porta

Era começo do dia quando a polícia apareceu e a psicóloga Ana Beatriz Curiel, a Bia, que estava em outro endereço da Santa Gaia, onde ocorre o acolhimento aos pacientes, ainda passava o café para a equipe. Por isso, quando bateram na porta, ela pediu para outra funcionária atender. 

Entraram policiais civis e guardas municipais, todos com a mão na arma na cintura. Diferentemente de como foi na parte de cultivo e laboratório, todavia, estes foram educados com os funcionários.

“Chegaram com o papel na mão e falaram que tinham mandado de busca e apreensão”, lembra Bia. Uma das funcionárias sugeriu então chamar alguém da chefia, já que não havia ninguém da gerência no local. O policial impediu o contato, dizendo que todos e todas deveriam sentar. “Mas eles foram educados, não apontaram armas pra gente, em relação ao que foi no laboratório, bem diferente”, diz Bia. 

Revistaram pertences da associação e também os pessoais, das funcionárias – quase todas no acolhimento são mulheres, tirando um homem. Levaram materiais e depois interrogaram pessoas. A abordagem não foi truculenta, mas Bia nos conta que a funcionária que atendeu a campainha ficou traumatizada e disse que nunca mais abriria a porta para quem chegasse na associação.

No apartamento de Guilherme, onde só estavam a babá e seu filho, as autoridades também não foram agressivas. Assim como na casa da mãe dele, que revistaram por lá ter sido a primeira sede oficial da empresa.

Por que então tamanho (para dizer o mínimo) barulho na abordagem tida como truculenta na área do cultivo? Sofia Segatto, gerente da Santa Gaia e que não estava no local no dia da invasão, compartilha a teoria de muitos: “Ninguém ia conseguir um vídeo como se fosse estourando uma biqueira numa clínica que só tinha mulheres trabalhando. Eles entraram filmando, tem aquele vídeo como prova de que eles já tinham na cabeça que queriam entrar lá e fazer alguma coisa cinematográfica. Me fala: Qual policial que entra filmando uma busca e apreensão?”.

Não eram câmeras corporais da PM, não. A ação foi filmada no celular pelos policiais para depois ser publicada em um post no perfil de Instagram do delegado Artur Franco, ex-prefeito de Promissão, cidade próxima a Lins, e que contam fazer questão de ser chamado de Doutor, apesar de não ser médico e, até onde se sabe, não ter um doutorado no currículo. O policial-prefeito achou, portanto, que o vídeo da operação era bem instagramável. Para ser instagramável, realmente quem vê a gravação percebe o espetáculo que fizeram.

Um show pra quem?

Na área da colheita e dos laboratórios, Andrea da Silva pediu para que liberassem seu marido, Pedro, que há pouco tempo havia saído do hospital após passar por uma cirurgia cardíaca em decorrência do infarto. Os policiais não compadeceram, pelo contrário, há relatos de funcionários de que as autoridades teriam inclusive empurrado um idoso durante a invasão.

Entraram com violência, estourando portas, quebrando máquinas, pegando toda a colheita de cannabis. “Não respeitaram nenhuma pessoa lá dentro”, opina Pedro.

Ele, a esposa e mais uma funcionária foram colocados na parte de trás de um camburão e levados para a delegacia. “Nos trataram como criminosos”, avalia ele.

Algo que nem formalmente eles estão sendo investigados por ser, tanto que na delegacia foram interrogados e liberados. Nas perguntas dos policiais, o que queriam mais questionar, segundo o casal, é se drogas seriam desviadas e, digamos assim, vendidas por fora na associação.

Renan Dopfer, que esteve na mira do fuzil enquanto trabalhava, também foi encaminhado para a delegacia, mas para ser investigado. Durante a busca da polícia, mexeram em sua bolsa e lá encontraram cerca de 6 gramas de erva:

“Fiquei na delegacia mais umas quatro horas (além do que ficaram seus colegas). Fizeram um BO e o escrivão falou que o delegado tinha dito que não era para me liberar enquanto ninguém apresentasse a minha receita (que dava direito ao uso). Quando meu pai levou a receita, rasgaram o boletim de ocorrência que tinham feito contra mim e me liberaram”.

No vídeo publicado no Instagram do delegado Artur Franco, ele apresenta a ação como “Operação Green Fall” – saindo pelo pequeno alívio do humor, há também uma crise linguística e estética em nosso país, né? Não se esquiva de assim descrever a Green Fall, sem se ater a palavras como “suspeito” ou “investigado por”, tirando de quando fala de “supostos óleos”, e e já indo direto para a palavras em tom de condenação:

“Operação realizada para desmantelar um laboratório clandestino utilizado para produção e venda de “supostos” óleos medicinais a (sic) base de cannabis, com plantação própria e ilegal de maconha”

No vídeo há algumas cenas, vamos dizer assim, curiosas. Como de policiais que parecem não saber usar as mãos para abrir portas, então precisam chutá-las com violência, assim como de outros apontando armas para pessoas com as mãos na cabeça. Ao final da gravação, o delegado destaca que foram apreendidos algo como 560 “pés de maconha”, “diversas flores embaladas do mesmo entorpecente”, “grande quantidade de supostos óleos medicinais acondicionados para venda”, “maquinário utilizado para produção”. 

Praticamente em todo o vídeo, o delegado faz algo que é bem típico de influenciadores digitais: destaca a @ do seu perfil no Instagram, possivelmente na ideia de que ao ver a gravação, instagrammers queiram acessar e seguir sua conta na rede social.

Como breezers informados já sabem, a repercussão do caso tomou proporções nacionais, principalmente pela viralização do vídeo, mas com a devida edição e os comentários dos parceiros do Abra a Gaveta. Políticos, em especial a deputada Erika Hilton, que articulou reunião para a resistência e reação, e o ministro Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, que pressionou a Meta quando começou uma derrubada generalizada de perfis canábicos, em um ataque virtual que, apesar de não compreendermos ao certo os motivos e as origens, sabemos que foi coordenado.

A união do setor e da cena canábica e psicodélica tem permitido uma resposta com força, resiliência e praticidade. Já teve resultados, como a liberação do habeas corpus (HC) para que a associação siga seu trabalho. Até o fechamento desta reportagem, porém, Guilherme, o presidente da Santa Gaia, continuava preso. Como o processo corre em segredo de Justiça, fica ainda mais difícil saber as razões alegadas.

Na Breeza, acreditamos que a questão das drogas, quando estas viram um problema para o indivíduo ou para a sociedade, é antes para a saúde pública, não para a segurança pública. Em um país de bom senso, com regulamentação e caminhando pela legalização, não deveria haver qualquer área cinzenta na lei que permitisse uma invasão, humilhação e destruição como a que foi feita na Santa Gaia pela polícia do estado de São Paulo tal como governado por Tarcísio de Freitas.

E agora?

Sofia Segatto, gerente da Santa Gaia, trabalha a maior parte do tempo de forma remota, no Rio de Janeiro, e por isso não estava na sede quando a polícia bateu. “Uma das funcionárias da logística me mandou mensagem falando: ‘Sofia, a polícia tá entrando aqui, pelo amor de Deus’. E depois eu fiquei sem resposta, absolutamente nada. Eu comecei a ligar pro Guilherme, ligar pros advogados”.

Assim como quem acompanhava as primeiras notícias da batida policial em 16 de outubro, Sofia ficou no escuro à espera de respostas. Ao lembrar da situação, emociona-se e chora: 

“Quando a gente tá num trabalho que além de um trabalho é uma causa social, é diferente. Você não está só pagando suas contas, você consegue também encontrar um propósito. Então, ele te atinge de formas mais profundas do que se eu tivesse só ‘simplesmente’ trabalhando”.

Ela compartilha seus sentimentos: “Parecia que a gente tinha perdido absolutamente tudo, que a gente não tinha mais ninguém para recorrer, foi um desespero”. Mas, sim, há a quem recorrer. Como mostraram advogados como Clayton Medeiros e Emílio Figueiredo, políticos como Erika Hilton, Caio França e Eduardo Suplicy, e associações, mídias como a Breeza, ativistas, tantos e tantas que fazem dessa resistência tão valiosa, em prol do progresso de nosso país. Saber disso leva alívio a todos os ouvidos pela Breeza para esta apuração, como eles mesmos me disseram nas entrevistas. 

Nesta reportagem, decidimos ouvir a linha de frente, quem estava lá na invasão. Nossos colegas jornalistas estão acompanhando de forma hercúlea e necessária o dia a dia do caso, em suas implicações jurídicas, sociais e políticas. A Breeza optou por escutar as pessoas que, pela bandeira que levantamos, sofreram repressão e tiveram armas apontadas para suas caras.

E a quem sentir falta da versão do delegado / ex-prefeito / criador de conteúdos instagramáveis, não precisa ir longe, o Sechat publicou por lá o que ele pensa. Preferimos aqui dar voz a quem não costuma ser ouvido e que, sim, deve se sentir escutado, representado e defendido. Afinal, em nossa perspectiva, são esses e os pacientes as maiores vítimas.