
Um ano após as denúncias de assédio contra Silvio de Almeida virem à tona, Anielle Franco conta como sobreviveu ao mergulho no fundo do poço e voltou à superfície como uma fênix. Dizendo não se arrepender de nada, exceto de não ter sido mais dura.
Mas Anielle não se limita a ser símbolo de resistência, ela também é voz ativa em debates que boa parte da política prefere varrer para baixo do tapete, como política de drogas e aborto, temas centrais desta conversa com nossa editora Anita Krepp, em que a ministra defende a legalização da cannabis como responsabilidade de saúde pública e conta, pela primeira vez, sobre como a planta a ajudou a lidar com a ansiedade depois do assassinato da irmã, a vereadora Marielle Franco, em caso que chocou e ainda choca o país.
Além da cannabis, Anielle, que se define como uma “católica macumbeira”, encontra amparo tanto no terço rezado diariamente quanto no banho de arruda na porta da igreja de São Jorge, e aproveita para falar sobre a sua aproximação com setores evangélicos. Ainda deu tempo de falar sobre a sua relação com Janja, a quem chama de amiga e descreve como “muito desconstruída, mente aberta”. Para a ministra, quando o assunto é saúde pública, ela e a primeira-dama estão do mesmo lado da história.
Ministra Anielle, hoje qual é o maior B.O. do Ministério da Igualdade Racial?
Olha, o maior B.O., eu acho que seria fazer com que as pessoas entendessem de uma vez por todas que a gente precisa extinguir o racismo da sociedade brasileira e do mundo. Sem pensar muito, eu diria isso. Porque é algo que mata as pessoas, que prejudica a saúde mental das pessoas, que impede de pessoas chegarem a espaços e permanecerem, que faz com que muitas mulheres incríveis passem por situações que não merecem.
O que tá faltando pra isso acontecer? Você tem uma tese a respeito ou é uma coisa que a gente vai vivendo e entendendo?
Amiga, olha, eu tenho algumas, mas é isso, opinião minha, pessoal. Pode ser que eu não esteja totalmente correta, mas eu acho que o ano de 2018 abriu a tampa de um bueiro. Não dizendo que a gente não tinha racismo antes, claro que tínhamos. Mas a legitimação de um ódio, do racismo, de uma ideologia que transpassa o respeito e a empatia pelo próximo piora de 2018 pra cá. Por que eu tô falando isso? A minha tese é a seguinte: quando eu perco a minha irmã com cinco tiros na cabeça e 21 tiros no corpo, as pessoas que pensam diferente de mim ideologicamente, e graças a Deus que pensam diferente de mim, me marcavam em postagens da Mari, zombando dela. Me chamavam de macaca, de fedida, de um monte de coisa, falando muito da coisa do gênero e da raça pra mim e pra minha irmã. Essa é um pouco da minha teoria. Espero que a gente consiga mudar isso um dia, mas por enquanto tem sido difícil. As pessoas não têm dimensão, Anita, não sabem o que é estar na sua pele. É muito difícil, você ter que reafirmar o óbvio, sabe?
Em 2021, você publicou um artigo de opinião no UOL, cujo título era “O Impacto da Guerra às Drogas na Vida das Mulheres Negras”. Como é pra você, hoje, essa compreensão da guerra às drogas, do mal que isso faz e da dificuldade que é chegar a uma igualdade racial tendo esse tipo de repressão?
Pra quem nasce em favela e que vê a coisa de perto durante muitos anos, você vê que não é o favelado que traz drogas pra dentro da favela. É um assunto de saúde pública, é um assunto que sempre tem que ser levado muito a sério, que tem que ser combatido com políticas públicas. Semana passada, aquela operação que teve na Faria Lima, sem um tiro… O impacto primeiro chega à criação que você dá pra sua filha naquele lugar. Segundo, como é que é esse transporte? Quem é que traz, quem é que consome? E terceiro, eu acho que, de fato, as pessoas que chegam nesses espaços que a gente tá, têm que ter vontade política de fazer alguma coisa. Cracolândia em São Paulo, Cracolândia no Rio de Janeiro, não são lugares que você passa e você continua a mesma pessoa, cara. Quando eu passo pelo Jacarezinho, que era caminho da minha universidade, desde 2014, não tinha uma vez que eu não passasse e falasse: “cara, será que tem alguém que ajuda?” Aí, pra encerrar, pra não me alongar muito, infelizmente, também o retrato que se tem das prisões brasileiras, o retrato das pessoas negras que são mais atacadas, mais encarceradas. A legalização da maconha é também um assunto de política pública e é um assunto que as pessoas não gostam de falar, tipo um aborto, ninguém quer falar sobre. Todo mundo quer dar pitaco, mas não quer resolver.
A legalização da maconha é também um assunto de política pública e é um assunto que as pessoas não gostam de falar, tipo um aborto, ninguém quer falar sobre. Todo mundo quer dar pitaco, mas não quer resolver
De que maneira o Ministério da Igualdade Racial poderia incidir sobre a questão das drogas e da legalização?
Quando a gente consegue transversalizar… Há alguns meses, um jovem negro foi assassinado no Rio de Janeiro, na Avenida Brasil. Era duas e pouco da tarde, ele estava sem camisa e o fuzil dispara de um policial. Claro, um acidente, uma fatalidade, enfim, mas é uma bala perdida que sempre acha um corpo negro. E aí, eu fiz uma fala naquela época, liguei pro governador, incidi, falei sobre, falei do Juventude Negra Viva, falei das câmeras dos policiais, falei do quanto a favela não pode ser adentrada de qualquer maneira, porque tem morador… E as pessoas não entendem quando você fala isso, mas se você já tivesse morado numa favela, tivesse que ficar abaixada durante seis, sete, dez horas, com o tiroteio rolando e a tua casa perfurada, as pessoas talvez entendessem. O fato de eu vir do lugar que eu venho, e o fato de eu entender e me colocar no lugar das pessoas, faz com que mesmo não sendo minha jurisdição, vamos dizer assim, falar com o Dino e com o Lewandowski é meio que obrigação, então eu fiz. Defender que MC não é bandido quando de fato o MC não é bandido, também a gente faz, mesmo não sendo do nosso campo. É a empatia, o respeito, é se colocar no lugar do próximo, mas é ter uma visão política de que o país só vai melhorar quando essas pessoas forem humanizadas. Não dá pra ter uma mina assassinada com cinco tiros na cabeça e a galera zombar. Não dá pra um jovem morrer e o país não parar. Não dá pra uma menina ser estuprada com 10, 11 anos e as pessoas no dia seguinte acordarem sem sentir nada. É um pouco disso que o Ministério da Igualdade Racial faz. Não sei se seria assim se fosse outra pessoa, mas enquanto eu estiver aqui, essa cutucada eu darei.
A gente tá prestes a regular o cultivo em larga escala, e eu fico pensando na questão da reparação social, de como envolver pessoas de comunidades que foram afetadas pela guerra às drogas. Como seria a regulação ideal pra você?
O que não pode faltar, eu diria que é esse senso comum de saúde pública. O debate que, pra mim, que cresci na favela da Maré, que convivi com todo tipo de gente, que ainda hoje convivo, é o debate da saúde pública. Acho que é muito parecido com a questão do aborto, porque ambos os casos, quando as pessoas só têm o preconceito e te colocam ali naquela caixinha do estereótipo, elas não querem saber porque você consome. Por exemplo, os tratamentos com CBD na atualidade, eu defendo isso, trazendo tanto casos de crianças quanto de idosos que fazem tratamento, mas ninguém quer ouvir sobre isso. A gente tá pautando saúde, entre vida e morte, entre dor e não dor, entre quem tem acesso a um tratamento com CBD, que não é barato, mas que é eficaz, em alguns casos, e quem não tem. Pra mim, o que não pode faltar é esse senso de justiça social, humanitária. É claro que tem que ter um planejamento pra isso, que tem que ter o Ministério da Saúde, o Ministério da Justiça, o Ministério do Desenvolvimento Social, o Ministério de tudo que a gente puder imaginar pra que uma regulação decente seja feita pensando em humanidade. É um pouco repetitivo, mas é algo que me move muito. Eu sinto muito a gente tá convivendo numa sociedade, num país que desmereça a pessoa pela cor da sua pele, que desmereça a pessoa pela sua ideologia, que maltrate, que destrate, que xingue, que ameace. É o que eu tenho passado aqui desde o começo. Porque você defende o óbvio, defende a humanização, defende vida digna pra todo mundo. Se a moradora de Ipanema é abordada pela polícia sem tomar um tiro na casa dela, por que o morador do Complexo da Maré não pode também estar ali, na paz do senhor dele, indo pro trabalho ou voltando, e também não tomar um tiro na casa dele? São coisas que a gente precisa defender e ter vontade de defender, né? Porque não é qualquer um.
Com foi a sua relação com a maconha ao longo da vida?
Anita, nunca fiz uso, mas também não julgo quem já fez. Talvez eu acho que pela coisa do esporte, fui atleta desde pequena. Minha mãe e meu pai eram muito rígidos, pra você ter uma ideia, eu não bebo, nem cerveja eu tomo, mas sempre tive muitos amigos, e não é aquele papo assim, ah, meus amigos, fizeram… Se eu tivesse feito, não teria problema nenhum em dizer, porque o passado é o passado, o que a gente fez antes de entrar como Ministra, ninguém tem nada a ver com isso. Mas não, nunca tive curiosidade, nunca nem gostei de cigarro, nem de nada. A minha criação toda foi muito voltada pra isso. Eu comecei a jogar com oito anos de idade, desde pequenininha, e até o refrigerante era controlado, tô falando assim, coisas parecidas. Mas, depois que perdi minha irmã, tive muitas crises de ansiedade, aí tomei cannabis com receita médica, com acompanhamento médico, fiz uso do CBD pra conseguir dormir, pra conseguir me acalmar. Fiz e super consegui dar conta daquilo ali. O CBD e o (cogumelo não psicodélico) juba de leão foi que me ajudaram. Depois, no começo do Ministério eu fiz uso também, porque a gente também tem uma rotina muito insana, você não tem hora pra sair, entrar e tal. Mas nunca fumei. Sei o cheiro, né? Pelo povo e tal, já frequentei, já dancei, já fui pra muito lugar, mas o gosto, mesmo, de tragar, acho que eu não sei nem tragar um cigarro, amiga, eu ia passar vergonha (risos).
“Depois que perdi minha irmã, tive muitas crises de ansiedade, aí tomei cannabis com receita médica, com acompanhamento médico, fiz uso do CBD pra conseguir dormir, pra conseguir me acalmar. Fiz e super consegui dar conta daquilo ali. O CBD e o (cogumelo não psicodélico) juba de leão foi que me ajudaram”
Mas você é a favor da legalização total da cannabis?
Eu sou a favor da legalização, essa legalização que eu reafirmo e sempre falo, aprendi isso com o Mari, também na época da Comissão de Direitos Humanos. Mas uma legalização responsável, que é direcionada pra uma saúde pública, legalização, como tem em vários outros países em que isso acontece, que a gente precisa, inclusive, amadurecer essas ideias. Assim também deveria ser a legalização da maconha e da cannabis, porque as pessoas precisam entender que quando o assunto é saúde pública, a gente não tem que brincar de ideologia, ou de defesa, ou disso, daquilo. Se a gente tá falando de saúde das pessoas, que é o que importa, a gente precisa, sim, legalizar com responsabilidade.
Ministra, a gente tá completando exatamente um ano desde que saíram a público as denúncias de assédio do Silvio de Almeida, que naquele então era ministro dos Direitos Humanos, contra você. Como é que esse tema se assentou dentro de você?
Eu acho que ele se assentou como uma fênix. Porque, primeiro, você se afunda. Foi como a primeira vez que eu passei por agressão no relacionamento, eu me afundei durante alguns meses, entrei em depressão. Eu sou muito grandona, grandona mesmo, de tamanho, saí de 46 pra 34. E depois comecei a viver de novo. E esse assunto, acho que ele não é diferente de nenhuma mulher, por mais incrível que você seja, você nunca tá preparada pra passar por um momento de assédio ou de violência. E é muito louco, Anita, porque eu cresci a minha vida inteira defendendo mulheres, e me defendendo de ataques, respondendo, falando. Minha irmã também. Mas, cara, eu dei uma frisada no momento. Eu dei uma frisada em várias vezes que aconteceram. E eu me afundei um pouco ali durante uns meses, mas pra depois renascer. E hoje, eu tenho orgulho de ter me posicionado como eu me posicionei. Eu tenho orgulho de defender essa causa, sim. Não é um tema que sempre surge dentro do Ministério da Igualdade Racial, mas vai ser o tema da minha vida, porque eu tenho duas filhas mulheres, eu tenho uma sobrinha, eu tenho muitas amigas, eu jogo vôlei até hoje com muitas parceiras minhas, amigas de infância, e eu não desejo isso pra ninguém.
Qualquer violência que seja contra os corpos das mulheres, nesse país, precisa ser denunciada, precisa ser julgada, precisa ser repudiada. A gente tá num momento do país que, infelizmente, os números só crescem de feminicídios, de assédio, de estupros. E é insano o quanto que esse país odeia mulheres. O quanto que existe uma parcela de homens que se juntam pra se defender, pra assediar, pra usar dos cargos, usar do poder que têm. Eu não me arrependo de nada que eu fiz, nada, nada. Talvez me arrependa um pouco de não ter sido mais dura, de não ter ido mais pra cima, mas é isso, a gente tá num cargo que exige responsabilidade não só com a gente, mas com o país, com a sociedade. Então, eu não poderia sair agindo como eu bem quero, bem pretendo agir, mas em algum momento eu vou poder falar mais sobre isso. Esse momento vai chegar, mas essa causa vai ser minha, pra sempre. Eu expliquei pras minhas filhas o que aconteceu, eu expliquei pro meu marido, pro meu companheiro o que aconteceu, eu falei com a minha família quando aconteceu, porque eu jamais esperava nem dele, nem nesse momento, aqui nesse lugar. Então, completa um ano que eu fui exposta, não porque eu queria, mas fui exposta de uma maneira até irresponsável por um jornalista, claro, um homem, mas digo pra você que é uma luta que eu vou encampar muito. As pessoas querendo ou não, vão ter que me aturar ainda por muito tempo falando que não é legal assediar uma mulher.
Como é que você fez pra lidar com isso emocionalmente? Você chegou a usar algum psicodélico?
Olha, não cheguei a usar nada, mas quem já passou por muita coisa na vida, e minha mãe sempre ensinou a gente a ter muita fé. E o vôlei que sempre me salvou, acho que bater na bola e se jogar na areia e depois mergulhar no mar, sempre me salvou. Fosse na quadra ou fosse na areia. E eu me apeguei muito àquela galera que eu confiava, me apeguei muito às minhas crenças, me apeguei muito à espiritualidade. Foi, sem dúvida nenhuma, o que me manteve, e minha família. Porque foram momentos muito difíceis, desde os julgamentos das pessoas falarem, “ah, tava dando mole e ele não quis”, ou “você queria o cargo dele”, esquecendo que eu tava no mesmo cargo que ele, só mudava de pasta… As maiores atrocidades, barbaridades que a gente ouve, como a gente sempre ouve nesse Brasil que odeia a mulher.
Então, eu me apeguei muito ao que eu acreditava, porque tem uma parada que eu aprendi muito com a minha mãe, com o meu pai, com a Mari, e é que a gente não pode nunca esquecer de onde veio, não importa pra onde você vá, não importa o que aconteça com você. Mas eu sei que as pessoas que acreditam no meu trabalho, acreditam que eu nunca vou me corromper, que eu nunca vou roubar, que eu nunca vou mentir. Você decepcionar os outros deve ser muito ruim, agora, decepcionar a sua família, o que tu acredita… Eu não tinha a mínima necessidade de inventar algo sobre aquele cidadão, eu não o conhecia como nada antes, nada. Não tinha a menor disputa com aquele cidadão, nada, nada. Pra mim, ele era igual a qualquer outro que trabalhava aqui. Agora, a partir do momento que você cruza uma linha do desrespeito, não importa o seu cargo, não importa quem você seja, não importa quem você representa, você não pode diminuir a luta coletiva, primeiro de tudo, e você também não pode, em hipótese nenhuma, achar que você, por ser homem, é melhor ou maior que alguma mulher. Tá pra nascer o dia de novo que eu vou ser assediada e vou me calar.
“Qualquer violência que seja contra os corpos das mulheres, nesse país, precisa ser denunciada (…) A gente tá num momento do país que, infelizmente, os números só crescem de feminicídios, de assédio, de estupros (…) é insano o quanto que esse país odeia mulheres”
Me fala um pouquinho mais dessa sua espiritualidade, porque vi que você tem feito uma aproximação com o campo evangélico.
Olha, Anita, eu fui criada na Igreja Católica. Fiz batismo, fiz a comunhão, crisma, o que tu imaginar aí dos mandamentos, eu fiz (risos). Me casei na Igreja, casei com o primeiro marido, o pai da Maria, que eu chamo de encosto (risos), casei com o encosto na Igreja. Aí consegui a nulidade da Igreja Católica, porque tem isso. E aí casei de novo com o meu companheiro que eu amo de paixão, que foi uma ótima escolha. A minha família foi muito, muito, muito criada e forjada em cima da Igreja Católica, da cristianidade. Mas de sete, oito anos pra cá, eu me auto-intitulo “católica macumbeira”, porque aprendi a me cuidar em vários aspectos também, em vários espaços, porque me sinto bem, fui muito acolhida e tenho essa entrada e essa crença dos orixás, da terra, do vento, da água, do mar, e tem me feito bem. Por exemplo, no dia 23 de abril, que é dia de São Jorge, a Igreja de São Jorge, do Rio de Janeiro, fica incrível. Você pega uma ala de macumbeiro do lado de fora, que você vai lá tomar seu banho de arruda e tal, e aí você entra pra igreja e é incrível porque fica todo mundo junto. Isso é o Brasil. É lindo, é incrível. No dia da Boa Morte, nós estávamos com as mulheres do candomblé e dentro da igreja. Isso, pra mim, foi o melhor descobrimento.
E a espiritualidade pra mim, todo dia, às 3 horas da tarde, eu rezo meu terço. Se eu tiver em agenda, quando eu saio da agenda, eu rezo meu terço. Quando eu acordo, eu vou rezar. Confio muito na minha espiritualidade, na minha intuição, que eu acho que é algo que move a gente. Eu não saio de casa sem meu cordão de Nossa Senhora, eu não saio de casa sem meu escapulário, eu não saio de casa sem a minha guia na minha bolsa. Espiritualidade, pra mim, sabe que nem a academia, que nem o vôlei, eu reservo o meu momento, e eu não gosto que ninguém me atrapalhe. Tipo, seis da manhã, eu tô arrumando as meninas, e aí elas já sabem que vai ter a televisão com um terço, quando acabar elas podem mudar. Minha mãe também. Acordou de manhã, tá assistindo a missa da Nossa Senhora Aparecida. Quando acabar, pode mudar. Agora, a questão dos evangélicos que você traz, acho que, por ser cristã, a gente tem trocado muito, porque quando colocaram política e religião juntos, pra disseminarem ódio e fake news, aí, como cristã, eu me senti chamada pra estar nesse lugar também, pra debater. Porque o meu Deus, ele não defende pessoas negras serem assassinadas porque são de esquerda, não defende uma mina morrer com cinco tiros na cabeça e falar, “ah, bem feito”. Não, o meu Deus não é esse Deus. O meu Deus é um cara muito maneiro, que defende os direitos humanos, que defende a legalização com responsabilidade de saúde pública.
E você falou do encosto que foi seu primeiro marido, e a gente costuma achar que com mulher forte, encosto não se cria, mas não é assim, né? Porque o encosto, às vezes, se mostra como tal só no andar da carruagem…
Exato. Como um príncipe, né? E o meu foi um pouco isso. Hoje, a gente consegue se dar bem, a gente se fala e tudo, mas eu passei muito sufoco, porque era um cara muito mulherengo, bebia demais, etc. E, às vezes, não cumpria o papel de pai. Hoje, não, hoje eu consigo dialogar. Fiquei muitos anos na minha vida sem conseguir falar sobre isso, que me dava ódio, me dava ansiedade e tal. E hoje eu consigo falar, até com um certo orgulho de ter passado por isso. Não era pra gente ter ficado junto mesmo, mesmo tendo conhecido ele quando ainda era criança. Passou, foi uma fase, me deu a minha filha, que é a minha melhor escolha, que eu amo, que é uma super criança. Nós, mulheres, infelizmente, em alguns momentos da vida, até a gente entender o nosso tamanho, e eu passei por isso, a gente aceita qualquer coisa. Aceita-se qualquer merda. Aí você fica em relacionamentos abusivos, tóxicos, relacionamentos que não te agregam em nada, por um tempo, até você entender e falar, “caraca, eu sou muito melhor do que isso, eu mereço coisa melhor”. A minha irmã falava isso pra mim. Mas a minha irmã tinha passado também por um relacionamento horroroso com o pai da Luyara, e depois que ela entendeu, “caramba, eu não mereço isso”. E eu tive que passar pelas mesmas coisas. Hoje, o nosso contato é sobre a Maria, apenas, não tem nenhum outro assunto, e é um contato respeitoso, mas eu descobri a traição dele, grávida de sete meses. E fui do céu ao inferno, de me acabar na vida, sendo professora, trabalhando em cinco escolas, desesperada, sem muito apoio além da minha mãe, da minha irmã, do meu pai, da Luyara. Da parte dele quase não tinha. Mas eu passei um período bem duro, de madrugadas com Maria gritando de cólica, de estar sozinha com ela, precisando ir pro médico e não ter ninguém pra me acudir. Quando a gente se separou, eu queria tirar quatro horinhas pra ir jogar vôlei na praia, ele ficava de pegar na escola e não chegava, essas coisas.
Anielle, você, que tem uma boa relação com a Janja, você sabe se ela tem apreço pela pauta da cannabis, da legalização, ou se isso não é exatamente uma prioridade?
Eu vou falar, a gente tem uma relação boa, graças a Deus, mas eu nunca falei com ela sobre isso.
Há uns dois anos vocês chegaram a ir juntas a um evento no Complexo do Alemão, em que tocou-se no tema da planta, certo?
A gente tava falando sobre a questão ambiental como um todo, e teve uma mãe que trouxe o tratamento sobre a filha dela. Foi sobre isso. Mas tinha um pouco de tudo. Tinha desde uma senhorinha que fazia o seu próprio gás, até isso, pra você ter uma ideia. A gente fala sobre muita coisa, mas eu nunca perguntei diretamente pra ela sobre isso. Mas eu acho a Janja muito desconstruída, muito mente aberta pra tudo. Eu não acredito que ela tenha muitas posições diferentes das que eu falei aqui. Principalmente se a questão for saúde pública, ela é uma pessoa que defende muito isso. Eu chamo ela de amiga, e temos tido uma construção muito maneira, coletiva mesmo, de lealdade uma com a outra. Potém, tem assuntos que a gente nunca parou pra conversar. Mas se eu tiver a oportunidade, vou perguntar, porque fiquei com essa curiosidade agora.