
O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), na Câmara desde 2011 e que se articula para tentar reeleição ou ser candidato ao governo do Rio em 2026, acusa o governador do Rio, Cláudio Castro, de ter propositalmente planejado a operação policial no complexo do Alemão e da Penha para ser, como define, “desastrosa” e “uma matança”. Na entrevista para nosso editor Filipe Vilicic, defende que Castro teria feito isso após articulação com autoridades dos EUA e com base de apoio nos filhos de Bolsonaro, com objetivos eleitoreiros e para driblar e se blindar da Justiça.
O resultado foi uma tragédia com centenas de mortos e vítimas para todos os lados, tanto na favela quanto na polícia. Para quê? A sensação de segurança no Rio mudou em algo após mais esse conflito de uma guerra que parece interminável?
Agora o governador do Rio quer classificar PCC, Comando Vermelho e outras organizações criminosas como narcoterroristas. Para o deputado, seria artimanha para incentivar uma interferência dos EUA de Trump no Brasil, como já faz com navios de guerra e caças na Colômbia e na Venezuela.
Além do cenário de tragédia no Rio, o deputado se posiciona a favor da legalização da maconha e conta que sua mãe, Saudade Braga, que foi prefeita de Nova Friburgo e morreu no ano passado, usou cannabis em tratamento contra o Alzheimer. Casado com a também deputada federal Sâmia Bomfim, Braga ainda compartilha como reagiria se amigos, familiares ou se um dia, no futuro, seu filho, hoje uma criança, lhe dissesse que fuma uns baseados.
Deputado, como você soube e qual foi a sua primeira reação ao saber das notícias da tragédia do Rio, que tem como raiz na Guerra às Drogas?
Minha reação foi de preocupação profunda. Eu acho que a gente teve uma modificação de patamar daquilo que nós vamos enfrentar daqui para frente. A extrema direita sempre aglutinou as suas posições a partir de algum elemento imaginário ou simbólico da vida do povo. É a cloroquina, é a anistia. E sempre que têm esse hiato, onde eles ficam um tempo sem saber de que forma aglutinar essa base, eles estão preparando alguma coisa. Na minha interpretação o que aconteceu no Rio de Janeiro é o que vai aglutinar a extrema direita nos próximos passos que eles têm para dar, não só agora, mas também nas próximas eleições de 2026, aquilo que pode se chamar de uma bukelelização (em referência a Nayib Bukele, presidente de extrema direita de El Salvador e que se apoia na Guerra às Drogas para promover chacinas) da política, né? Falando do presidente de El Salvador, que trabalha com a lógica do encarceramento em massa, mas da repressão máxima também, como se fosse um instrumento de melhoria da qualidade da vida do povo. Na minha avaliação, esse vai ser o movimento prioritário trabalhado agora pela extrema direita. E quando isso acontece, se ampliam as perdas físicas, se amplia a quantidade de mortes e se amplia o processo de criminalização de todos aqueles e aquelas que defendem uma alternativa que não seja essa, a da chamada Guerra às Drogas, guerra aos pobres, que é implementada por Castro, por Bolsonaro e pela extrema direita que tá espalhada aí pelo mundo.
Falando nessa artimanha, agora o governador do Rio passou a chamar as organizações criminosas, que são muito ligadas a um lado econômico – a gente até viu aquela ação da Faria Lima que prova isso – como terroristas, como narcoterroristas, que é algo que o Trump tá querendo impor. E agora o Trump se mostrou à disposição dele, o que nos preocupa ainda mais pelo o que e como está acontecendo na Venezuela. Como é que você vê essa classificação do crime organizado como narcoterroristas?
É uma forma de viabilizar e legitimar intervenções externas por parte do governo dos Estados Unidos. As embarcações, como você disse, que estão na costa da Venezuela, os ataques que já vêm sendo feitos por parte do governo dos Estados Unidos a embarcações colombianas, por exemplo, e tentando também taxar o presidente colombiano Gustavo Petro de narcoterrorista. E agora eles abrem as portas do Brasil para que essa mesma intervenção possa ser feita por aqui. Não, não tem coincidência nessa história, né? Quando você vê o Eduardo Bolsonaro incentivando os ataques, o Flávio Bolsonaro falando da possibilidade e utilizando isso como se fosse uma ironia, uma brincadeira; não tem brincadeira com isso, a possibilidade deles bombardearem embarcações na Baía de Guanabara. E no mesmo período em que o Eduardo Bolsonaro fazia essa investida, agora vem à tona que o próprio Cláudio Castro já tinha se reunido com autoridades dos Estados Unidos solicitando o mesmo tipo de apoio logístico à intervenção contra o Comando Vermelho ou outras organizações criminosas no Brasil. Quando ele articula esse tipo de iniciativa, ele já faz de maneira sincronizada. Isso é um perigo. Ou seja, quando se fala em terras raras, segunda maior reserva do mundo que tá no Brasil, interesse já explícito dos Estados Unidos, e a possibilidade de uma intervenção militar no nosso país, que não pode se chamar de uma guerra, mas um ataque imperialista, nós não temos outra alternativa a não ser denunciar o que tá acontecendo e nos organizarmos para que isso não aconteça, ou seja, para que o preço, o custo político disso seja muito alto para eles. Evidentemente eu vejo com preocupação, mas acho que a gente não tem tempo para ficar se lamentando. Temos que nos organizar para rechaçar esse tipo de iniciativa.
Quais ações práticas podem ser tomadas para elevar esse custo político, talvez um custo econômico? Como é que a gente faz isso? Porque há muito esse discurso de “nós precisamos nos organizar, nós precisamos existir”, mas muitas vezes a gente se sente abafado por tanta coisa que tá acontecendo, tantas notícias que vêm, que vão desde o Trump demolindo a Casa Branca para fazer um salão de festas até a repressão aos imigrantes, como os brasileiros, nos Estados Unidos, e ainda a interferência na Venezuela. Agora chamando o Comando Vermelho de narcoterrorista, como é que a gente reage de fato a isso?
Primeiro, pela solidariedade internacional ao que está acontecendo aqui. Nós não somos uma ilha, está acontecendo em outros espaços do mundo. Organizações de luta, movimentos sociais que têm a mesma preocupação, se articulam em fóruns diferentes do ponto de vista internacional, mas para prestação de apoio mútuo. Segundo, é mostrar pro povo brasileiro, no território nacional, o que que tá rolando por aqui, porque muita gente não sabe dessa nossa conversa, não sabe do que tá ocorrendo. Então é fundamental que a gente consiga amplificar esse debate internamente.
Eu apresentei aqui na Câmara uma proposta para que as terras raras sejam o monopólio da União para impedir ataques estrangeiros ou de grandes corporações, de olho nas terras raras, tentando roubar essas terras raras. Ah, é fácil conseguir assinaturas para isso? Não, preciso de 171 assinaturas (de seus colegas deputados). É dificílimo, mas é uma forma de ampliar o debate também nacionalmente, mostrar o que tá em jogo, o que essa turma tá tentando fazer. Utilizar as nossas redes, os nossos canais de influência, sem ter medo de fazer essa discussão, porque a briga que a gente perde é aquela que a gente de antemão previamente nem entra em campo para fazer a disputa, nem entra em campo para jogar. Então, podcasts, canais independentes de comunicação que consigam enfrentar também, furar o bloqueio da grande mídia, como vocês procuram fazer e como outros movimentos sociais fazem, também são fundamentais para que essa discussão possa estar sendo realizada. Isso vai desde uma articulação internacional, ao furo do bloqueio também da mídia hegemônica nacionalmente, a organizações específicas nos territórios com movimentos sociais, que trazem e acolhem aqueles que querem ouvir uma mensagem diferente da que tá sendo amplamente colocada pelos veículos oficiais. Mas para quem queira estabelecer discussão política, seja no partido político, seja na organização de luta, seja no movimento social, seja no coletivo de bairro, procurar articular o conjunto dessas iniciativas é fundamental para que a gente possa resistir aquilo que está se impondo como um ataque gravíssimo à nossa soberania e um ataque não só ao Brasil, mas aos demais países da América Latina.
Em meio a isso, teve uma notícia que me surpreendeu, que foi o deputado Otoni de Paula, que é da direita, que seria agora oposição ao governo, declarando, né? Denunciando a morte de fiéis da igreja dele, que, segundo ele, nunca pegaram num fuzil. Eu confesso que eu tenho até dificuldade de interpretar uma fala dessa, mas ao mesmo tempo me dá um pouco de esperança de que a gente consegue converter essa opinião, né? Humanizar a coisa e mostrar como é um problema de todo mundo. Como é que você interpreta também esses momentos em que o outro lado começa a ver os seus serem atingidos também?
O deputado Otoni, ele faz variações com muita fluidez e eu diria até com muita agilidade. Ontem ele já estava no plenário com um outro discurso. Mas o que eu acho do sintoma da fala dele? Primeiro, que foi impossível esconder, escamotear que se tratou de uma ação de extermínio. Impossível também para uma figura como o deputado Otoni esconder que quem trabalha em comunidades atingidas, como no complexo do Alemão e da Penha, se sentiu aterrorizado com a ação tocada pelo governo do estado. Impossível também esconder que não existiu uma iniciativa que viesse a garantir minimamente os direitos de quem tá naquele território. Então, ele se sente pressionado também pela base que forma a sua própria igreja, o espaço de influência da sua igreja. Eu vejo a manifestação dele indo por aí. Combinado com isso, ele se coloca como um agente político que está tomando a decisão de que lado que vai ficar. Ele tem posições conservadoras, reacionárias em relação aos temas que defende, mas ainda está definindo o que que vai fazer, por exemplo, em relação ao governo estadual. Mas participa do governo do (Eduardo) Paes. Paes que durante todo esse período, desde o primeiro dia da chacina, no complexo do Alemão e na Penha, tenta manter uma posição discreta, mas de legitimação do realizado pelo governo do estado, imaginando que se, primeiro por DNA, por acreditar, segundo porque, imaginando que se houver uma exposição muito grande dele em relação ao acontecido, ele pode perder apoio, eventualmente perder votos a depender do que ele venha a defender. O Otoni de Paula tá também testando, ele é um agente dessa estrutura que hoje compõe a administração municipal de Paes. O filho dele é secretário. Ele vai testando os cenários e verificando como é que as pessoas reagem àquilo que ele fez. Mas tem, sim, respondendo à sua pergunta, um componente para além de verdade daquilo que ele coloca, um componente de preocupação de como as pessoas receberam essa operação, que foi uma verdadeira chacina de uma guerra contra a favela, ou seja, de um ataque direto à favela, que é o símbolo dessa operação de Cláudio Castro.
Quando eu soube dessa tragédia, obviamente eu fiquei muito triste, até pela bandeira aqui, de contra a Guerra às Drogas, dentro de mim. Ao mesmo tempo, me assombra que as pesquisas de opinião mostram que a população em geral apoia a ação como foi feita pela polícia, e no Rio de Janeiro também. E teve uma pesquisa específica que diz que esse apoio ocorre inclusive dentro das favelas, a população apoiaria isso. Como é que o senhor interpreta esse apoio majoritário?
Primeiro, em relação a como a pesquisa é construída, e a primeira que saiu falando desse apoio majoritário nas favelas, eu gostaria muito de saber qual foi o filtro identificador de que a pessoa mora na favela. É autodeclaração para tal, ou é uma determinação do bairro em que a pessoa mora e o entrevistador, ou o agente da pesquisa definindo que se trata de uma favela? Porque tem muitas realidades que são complexas e diferentes dentro de um mesmo espaço geográfico. Gente com renda maior, gente com renda menor, gente que tem comércio. É, basta ver a quantidade, por exemplo, de fast foods que tem no espaço da Rocinha, ou seja, a quantidade de escolas, de equipamentos que tem ali naquela localidade. Então, assim, interpretar um determinado bairro ou uma localidade de uma maneira única não me parece o melhor instrumento como filtro de pesquisa, mas aqui tô especulando porque eu evidentemente gostaria de questionar, porque eu não sei o filtro que foi utilizado.
Combinado com isso, o que ainda tenha de uma avaliação, mesmo se esse questionamento não tenha sido realizado, tem um tanto de desespero, né? Na minha avaliação. É evidente que os índices de violência no Rio de Janeiro, a quantidade de mortes, de furtos e outros elementos que estão inseridos nas pesquisas, são altos, né? O índice de homicídios, por exemplo, no início do ano do governo do próprio Cláudio Castro, está muito superior a períodos anteriores. E olha que a gente já tava com índices altíssimos. As pessoas estão preocupadas, as pessoas sabem que o fenômeno da violência limita a sua liberdade, aquilo que elas vivenciam. A pergunta que eu faço nessa história é a seguinte: o que Cláudio Castro fez melhora a sensação de segurança das pessoas e diminui índices de violência ou é exatamente o contrário? É o contrário. Aquilo não melhora em nada a sensação de segurança e não diminui índices de violência. O Rio de Janeiro, por exemplo, não tem um plano estadual de redução de homicídios, podendo ter políticas que venham a ser consistentes para diminuir de maneira efetiva os índices de violência. Então essa é a pergunta que eu acho que a gente tem que fazer, mas eu não vejo, em primeiro lugar, como um dado definitivo, até porque eu acho que a gente tem que questionar as métricas e a forma como a pesquisa foi realizada. E, segundo, a pergunta que não foi realizada por boa parte dessas pesquisas: Melhorou sua sensação de segurança? Isso de alguma forma vai diminuir a violência? Tenho certeza que a maior parte das pessoas vai dizer que não. E se você problematiza, mais gente ainda vai dizer que não, que não há diminuição nem da sensação de segurança, nem dos índices de violência. E aí a gente tem que se jogar na discussão, dialogar com as pessoas, poder ouvir os questionamentos, compreender a sensação de desesperança ou de desespero.
Porra, o Rio de Janeiro, por exemplo: a média nacional de desemprego do IBGE de jovens de 19 a 24 anos já é uma média alta, de 12,5%. Entre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, o Rio de Janeiro tem o maior índice, com 20,5%. Não tem como numa situação de degradação, de exclusão com tanta profundidade como a gente tem vivenciado no Rio, que as pessoas não tenham uma desilusão profunda com a atividade política. Agora, para onde vai canalizar essa desilusão, né? Essa para mim é a grande pergunta, é a grande tarefa que a gente tem a responder a nós no próximo período (eleitoral).
Essa operação parece um tanto “sair do nada”, entre aspas aqui, mas pelo que que já se saiu de notícia, Cláudio Castro teria avisado as polícias, os agentes em si, um dia antes. Também não dá para entender o motivo de ter sido exatamente agora, né? Inclusive, um ano antes da eleição do ano que vem. Por que agora neste momento, foi algo eleitoreiro? O que levou o governador Cláudio Castro a fazer isso neste momento
A crítica a essa operação não pode ser de falta de planejamento. Essa operação foi planejada exatamente para isso, para ser uma matança, por motivos que são internos ao estado do Rio e por motivos que são externos. No Rio de Janeiro, Cláudio Castro tinha um julgamento marcado no Tribunal Superior Eleitoral que começou a acontecer ontem, onde ele pode se tornar ilegível, e, além disso, responsabilizado por desvio de recursos volumosos. Inclusive a relatora pediu a cassação e a inelegibilidade dele. Isso para uma figura como Cláudio Castro é jogo de vida ou morte, porque ele sabe que se ficar sem um cargo público, a hipótese de responsabilização dele é muito maior. Então ele luta para ter o cargo, como de senador, e ele tava em quarto lugar nas pesquisas. Pesquisa que saiu dias antes da operação. Ele agora imagina que vai ganhar a dianteira, subir e ser um dos primeiros colocados nessa pesquisa, acha que vai ter apoio popular para isso. Ele constrange o Tribunal Superior Eleitoral porque agora o que vier como decisão eles vão dizer: “Tá vendo? Tô sofrendo uma retaliação do sistema por aquilo”. Então, ele faz a operação nesse momento de maneira premeditada.
Combinado com isso, ele se vincula à política da extrema direita e, nesse sentido, ele é um objeto de algo que é maior na relação com os Estados Unidos, naquilo que eles querem chamar de narcoterrorismo para facilitar um processo de intervenção na América Latina. E ele reorganiza também a direita e a extrema direita no Brasil. A operação de Cláudio Castro, ela vai ampliar a letalidade, ela pode, nós temos que lutar para que isso não aconteça, mas ela pode ampliar a letalidade em Queimados, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, mas ela tem como objetivo ampliar esse mesmo tipo de ação nos mais variados estados brasileiros, reaglutinando essa base de extrema direita e fazendo o quê? Fazendo com que aquilo que eles chamaram de Consórcio da Paz, que é na verdade o Consórcio da Morte, seja uma força alternativa para que eles ganhem poder político. Por quê? A extrema direita perdeu o espaço na agenda de defesa da soberania, da bandeira do Brasil. Como é que eles vão justificar uma agenda de defesa da soberania com Eduardo Bolsonaro estimulando um ataque dos Estados Unidos ao Brasil? Eles perderam a agenda, que também era hipócrita, porque eles nunca foram isso, de combate à corrupção, com a votação que fizeram em relação à PEC da blindagem, né? Que ficou conhecida nacionalmente como PEC da bandidagem. Então eles viveram um hiato onde eles precisavam reaglutinar as suas forças. A anistia não dava mais porque ficou identificada também com a PEC da Blindagem. Eles reaglutinam essas forças agora nessa política de matança, nisso que no início da conversa a gente chamou, eu chamei de bukelelização da política brasileira. Então tem um elemento do estado do Rio de salvação e de blindagem do Cláudio Castro, mas chega a elementos internacionais. Não foi uma operação não planejada, foi uma operação planejada exatamente para ter esse resultado mais do que desastroso.
O senhor, deputado, aparece como provável candidato ao governo do Rio. Como governador, caso o senhor seja candidato, caso o senhor ganhe, o que o senhor faria para combater o crime organizado e mudar esse cenário? Porque a grande dúvida que fica também é: como combater o crime organizado?
Primeiro, eu ainda não sou pré-candidato, mas posso vir a ser, né? Nós estamos começando agora na próxima sexta-feira um conjunto de 100 reuniões públicas, 100 plenárias, onde a gente vai discutir um programa pro Rio, combinado com isso os elementos da conjuntura nacional e nós vamos decidir nos encontros. As pessoas vão dizer se eu devo ser pré-candidato a deputado federal, à reeleição, ou pré-candidato a governador. Aquilo que sai como acumulado desses 100 encontros, é o que eu vou procurar dar cumprimento. Mais importante é que nós vamos estar fazendo uma discussão programática de base, né? Bom, então eu posso te trazer elementos, mas o programa com aprofundamento, com respaldo e com legitimidade popular vem dessas reuniões que a gente vai estar fazendo e que não começa do zero, vem com acúmulo de muita gente que já discute o conjunto dos temas há bastante tempo. Não dá para a gente ter uma modificação da sensação de segurança ou dos índices de violência, replicando ou repetindo a lógica já utilizada pelo conjunto dos governos anteriores. Nós temos que modificar isso para aquilo que a gente pretende chamar de segurança dos direitos. Para o governador do estado ter legitimidade para estar nas comunidades, ele não pode chegar com o fuzil ou com caveirão como única política pública ou como se fosse a política pública solucionadora das mazelas ou das dificuldades que aquela comunidade vivencia. Então, para começar, a discussão do orçamento público vai ser feita nos territórios junto com as comunidades. Não adianta tirar a barricada de manhã e ela voltar à noite se você não tem legitimidade e não tem presença efetiva com políticas que sejam profundas e construídas em conjunto com a comunidade.
Se os 500 CIEPs, que Brizola e Darcy Ribeiro fizeram lá atrás, até hoje tivessem sendo utilizados como instrumento de inclusão contra o processo de exclusão social, pudessem estar sendo incentivados como inclusive polos de redução da violência, a gente já teria uma realidade muito diferente no estado do Rio de Janeiro. Tá presente nos bairros do Rio de Janeiro, mas presente com um conjunto de políticas a serem deliberadas de maneira horizontal com a comunidade local. Agora, tem outras questões que precisam também ser trabalhadas. Eu já disse aqui, nós não temos um plano estadual de redução de homicídios. Com afinco dá para você diminuir a metade de cara o número de homicídios no estado do Rio de Janeiro por uma postura governamental que consiga avaliar onde estão os maiores índices de violência e trabalhando naquele território em políticas que possam coletivamente gerar instrumentos de diminuição. Tô falando de coisas que já foram feitas pelo mundo. Nós não vamos inventar a roda com toda a mazela e dificuldade que outras políticas tiveram. Por exemplo, nós temos críticas ao que foi realizado em Pernambuco do chamado Pacto pela Vida, porque não teve inserção social, discussão comunitária coletiva, mas houve uma diminuição de 50% nos índices de homicídios na região metropolitana num primeiro momento. Avaliar o que foi de positivo naquela experiência e fazer uma experiência própria pro estado do Rio de Janeiro é algo que nós temos que fazer.
Segundo, controle armado de territórios com a quantidade de armas que são disponibilizadas no Rio. Aproximadamente 20% daquilo que passa pelos portos do estado do Rio de Janeiro tem algum tipo de fiscalização. Se você fizer uma articulação entre guarda portuária e instrumentos já existentes por parte do próprio governo estadual, você consegue ampliar o processo de fiscalização em relação a essa circulação exponencial de armas de fogo no estado do Rio de Janeiro. Outro ponto, o número de elucidação de homicídios, investigação, ele é baixíssimo. Se amanhã a população do estado do Rio de Janeiro me escolher como governador, a perícia vai ter autonomia e liberdade para a realização dos seus relatórios, sem ficar dependente de uma orientação do governador, de como aquele homicídio deve ou não deve ser elucidado. Esses são elementos que na minha avaliação tem que estar presentes. Não dá para ser o estado da operação de ataque à favela. Tem que ser o Estado que articule políticas e ações que já existem nas comunidades, dividindo o orçamento e compartilhando o poder. Então, é mais difícil de explicar do que a política da bala, do que a política do choque, do que a política do enfrentamento é, mas é muito mais consistente para que a gente possa reverter essa realidade dramática que o estado do Rio de Janeiro vivencia.
A droga parece no centro de toda essa questão, narcoterrorista, “narco”, a droga, mas ao mesmo tempo a gente vê esse processo de legalização, como da maconha, de regularização, legalização, isso no mundo. Hoje no Brasil, se eu tenho uma receita médica e se eu tenho um habeas corpus, eu posso, na prática, plantar maconha na minha casa e consumir a maconha na minha casa, sem ser reprimido. E o que dá acesso a isso na prática também é dinheiro. E você vê casos como o do Tarcísio de Freitas, o governador de SP, que apoia a maconha, a cannabis no SUS, mas também apoia que se reprima o garoto que tá fumando baseado na esquina para relaxar na favela. Ou do deputado estadual Lucas Bove, que se fala contra a Guerra às Drogas, mas ele fuma a maconha, diz a ex-namorada dele, e fica com uma arma apontando para ela e querendo agredi-la. Como é que a gente lida com essas hipocrisias e com essas diferenças e essas desigualdades que a droga parece gerar?
Olha, é claro que a legislação que trata do tema, ela tem um caráter nacional, mas o governo estadual, ele pode sim ter uma orientação específica a partir de um conjunto de protocolos. O uso abusivo de álcool e outras drogas tem que ser tratado, o uso abusivo como uma questão de saúde pública, com ampliação dos centros de atenção psicossociais. Essa é a posição política que nós vamos debater, vamos discutir, vamos amplificar na discussão das nossas plenárias. Ao invés de você incentivar a política da morte, a política do aprisionamento ou a política do manicômio com uma orientação de reversão, de posição de caráter fundamentalista, você tem que ter a garantia de que você tenha espaços onde a comunidade consiga participar ativamente e entender o que é a adicção que tá relacionado a um conjunto de elementos psicológicos, inclusive e variantes que não diz respeito exclusivamente àquilo que se padronizou de tornar ilegal, ou objeto de um crime para que a pessoa vá para uma determinada unidade prisional ou para uma cadeia, né? Então, para começar daí, né? Segundo, a minha posição é pública, nacional, ela já é bastante evidente, por uma política que seja de redução de danos e antiproibicionista e anti-encarceramento, que é amplificador. O encarceramento em massa nos moldes do que a gente vivencia e tem no Brasil é amplificador da espiral da violência e não o contrário disso, né? Ter uma política que consiga enfrentar essa realidade é o que a gente tem que colocar em prática. Ah, vamos fazer isso com jeito, ouvindo o que as pessoas têm a dizer, com certeza, né? Nós vamos fazer ali sentando, conversando, mas com posições firmes e com uma mudança, essa é a proposta, que seja radical daquilo que está sendo realizado pelo governo do estado do Rio de Janeiro, para não dizer pelo conjunto dos governos, né? Porque não é uma realidade exclusivamente do estado do Rio.
Em âmbito nacional, a legalização é um caminho. O senhor vê como um caminho a legalização, por exemplo, da cannabis? Porque até vou dar um exemplo do ministro Paulo Teixeira, que a gente entrevistou aqui, e ele falou que, em tese deveria ser um tema passivo, porque de acordo com ele, muito dos colegas deles, deputados, familiares, ou eles mesmos usam cannabis pelo fim medicinal, né? Como o senhor vê também o processo até a legalização, o senhor apoia ou não? (Neste momento, a ligação caiu. Na volta, o deputado justificou dizendo que a bateria de seu celular havia acabado)
Se você puder repetir a pergunta, então, a última.
Claro. A pergunta que eu fiz é sobre a legalização. Como o senhor encara o processo de legalização da maconha e também de outras drogas?
A favor da legalização e da regulamentação por uma política que, evidentemente, consiga reverter esse cenário da chamada Guerra às Drogas, que é, na verdade, a guerra aos pobres, né? Então, sim, a favor de um processo de regulamentação antiproibicionista.
O senhor é e já foi muito alvo direto de toda essa articulação que o senhor mesmo pintou da extrema direita, e um dos um dos casos é o processo de cassação que foi aberto e que o senhor fez até greve de fome na época para responder a isso, e que foi uma ação midiática, despertou a atenção para o que estava acontecendo. A gente aqui na Breeza também já sofreu coisas como perseguição jurídica, como derrubarem o nosso perfil no Instagram sem avisar, pela Meta que agora, né? Começou a fazer esse tipo de coisa, mas começou a liberar, por exemplo, discursos transfóbicos, homofóbicos. Em paralelo, a cultura canábica não pode. Como é que você reage quando essa articulação te agride? Porque muitos dos que ouvem a gente foram agredidos, associações como a Santa Gaia , que foi invadida, por exemplo. Como é que a gente reage a isso?
Não tenho uma resposta fechada para isso, mas eu tenho uma convicção. A reação nunca pode ser isolada ou solitária. A manutenção das nossas forças contra os ataques que venham da extrema direita ou dos reacionários tem que ser respostas coletivas. É claro que você pode ter ações pessoais que motivem e que levem a ações coletivas. A greve de fome, por exemplo, ninguém podia tomar essa decisão por mim, eu que tomei a decisão da greve de fome. Mas se não tivesse solidariedade a partir da greve de fome, ela teria ficado no vazio a partir do segundo dia. Mas a amplificação da solidariedade, a força que veio das pessoas, é o que garantiu que eu esteja aqui nesse momento falando contigo de dentro da Câmara dos Deputados no exercício do mandato como deputado federal. Então acho que se articular com movimentos, com organizações políticas que possam debater o tema e ter táticas específicas de resistência e de enfrentamento aos ataques, é fundamental.
Algo que o nosso público sempre quer saber também, e que é importante nesse cenário, é como as pessoas que são referência lidam com a questão da cannabis, seja no fim medicinal, seja o fim que você quiser, como o religioso, e outras drogas como a ayahuasca, álcool dentro de sua vida, da sua família, dentre os seus amigos. Pro senhor, como esse elemento aparece ou já apareceu na sua vida ou ao seu redor?
Eu tive porque minha mãe teve um Alzheimer avançado. Talvez se a utilização tivesse sido realizada de maneira mais precoce, a situação dela teria sido outra, mas ela já estava num grau de avanço, mas chegou a utilizar e a dificuldade para que você consiga ter o acesso para utilização, ela é muito grande, né? E os relatos da quantidade de famílias que utilizam, que tem essa necessidade, é muito grande. Mas eu utilizei, por exemplo, com a minha mãe, né? Meu pai foi o principal cuidador que convivia e vivia com ela todos os dias, mas tinham outras pessoas que nos ajudavam também no cuidado. E a cannabis, em determinado momento, foi utilizada por minha mãe.
E o senhor já experimentou a maconha?
Não, não experimentei. Você vê, a cerveja, eu gosto de tomar a minha cerveja, gosto de utilizar ali substâncias que teoricamente são legalizadas, né? Como no caso do álcool, mas que pode ter efeitos muito mais danosos à vida das pessoas, a depender da quantidade da substância tomada. Mas não, eu não, eu não fumei maconha, como também poucas vezes tentei fumar tabaco, não gostei, não foi algo que me que me gerou algum tipo de sensação que me levasse a fumar outras vezes.
Seu filho é muito novo hoje, mas como o senhor reagiria se um filho, um amigo, um conhecido simplesmente falasse para você: “Eu gosto de maconha, eu gosto de fumar e é um hábito meu”? O que o senhor falaria para essa pessoa, como nosso público aqui?
Em se tratando de uma pessoa que é maior de idade e que evidentemente tem a sua vida com a capacidade de tomar decisões… eu nem sei se tenho algo a falar, tem que falar alguma coisa? Eu nem sei, eu nem sei bem te responder essa pergunta, porque como eu não faço uma avaliação moral disso, né? Ou seja, tenho amigos, tem pessoas próximas que fumam maconha no cotidiano, pessoas das minhas relações de vida, e nunca pensei que teria que falar alguma coisa para elas por isso, entendeu?
Adorei sua resposta, deputado. Realmente, para que falar se não há um julgamento moral, né?
Acho que são coisas muito diferentes, né, Filipe? Assim, pelo menos com o que eu tenho de vivência, o uso abusivo de qualquer substância que tá fazendo, que tá prejudicando a pessoa na sua vida, nas suas relações, isso sim tem que ser cuidado, tem que ser acolhido. Essa é a diferença de uma avaliação e que se faz com o moralismo nessa história, porque aquele que faz a avaliação moralista, não tá preocupado com a pessoa, com como a pessoa está, se a pessoa tá feliz, se a pessoa tá bem nas suas relações pessoais, se ela tá conseguindo conviver de maneira respeitosa com as outras pessoas nas suas diferenças. Eu não faço uma avaliação moralista, faço uma avaliação da vida da pessoa. Você tá se sentindo mal? O que que tá acontecendo com a sua vida? O que você tá vivenciando? De que forma que a gente pode encontrar uma forma de você viver melhor, de você viver mais feliz? É isso, né?